César Guerra-Peixe (1914-1993) – Principais obras sinfônicas [link atualizado 2017

Aqui um superpost “pague um e leve quatro”, para vocês aproveitarem o weekend inteiro e eu pegar mais umas duas ou três semanas de auto-licença.

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Guerra Peixe, que assinava o nome com um hífen que não havia em seus documentos oficiais, foi um violinista filho de portugueses nascido em Petrópolis que passou os primeiro anos de carreira tocando em orquestras de rádio e de bailes e fazendo arranjos para elas, no Rio de Janeiro.

Participou do Grupo Música Viva, surgido na década de 40 em torno de [Hans-Joachim] Koellreuter (pra quem ainda não ouviu falar do alemão, trata-se do introdutor do dodecafonismo no Brasil), ao lado de Cláudio Santoro, Edino Krieger e Eunice Catunda, mas – assim como Santoro e Krieger – deu tchau pro papo alienante do alemão e se deixa tomar pela leitura de Mário de Andrade.

Tanto é verdade, que Guerra-Peixe destruiu algumas obras dodecafônicas e catalogou as outras à parte, como um index.

O Guerra (alcunha para os amigos) recusou convites de Copland para morar nos EUA e de Hermann Scherchen para rumar para a Suíça, preferindo reger a orquestra da Rádio Jornal do Commércio de Pernambuco. Neste Estado iniciou suas informais pesquisas de campo a fim de se aprofundar na música folclórica, continuadas no litoral paulista na década de 50.

Sua estadia no Recife, de 1949 a 1952, reforçou sua inclinação nacionalista musical e o fez desferir ironias corrosivas a Koellreuter, antes e depois da tumultuosa querela com Camargo Guarnieri, pela Carta Aberta de 1950.

Em Pernambuco, Guerra-Peixe formou um círculo de aplicados alunos que iria render frutos anos mais tarde: Jarbas Maciel e Clóvis Pereira, expoentes da composição armorial (vide futuro post sobre a música armorial) e os únicos vivos do grupo, Sivuca (se o nome do sanfoneiro paraibano causar espanto, pois bem: ele sabia teoria musical muito bem) e Capiba, o maior compositor de frevos de Pernambuco.

Na década de 60, passa para sua fase universalista – ainda de orientação realista-comunista, mas menos marcada pelos ritmos nacionais, e com pontuais recaídas atonais – sempre ganhando a vida com arranjos para filmes e para músicos populares; é dele o famoso arranjo daquela marchinha futebolística “Noventa milhões em ação…”. Nas décadas seguintes, deu aulas de composição na Escola Villa-Lobos, no Rio, bem como para alunos particulares e na Universidade Federal de Minas Gerais (anos 80).

Como este resumo sobre Guerra-Peixe está mais para enciclopédia estudantil, procure por further information na Wikipédia.

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Aqui seguem as cinco principais obras sinfônicas do compositor, quatro das quais, de caráter programático e ligadas a símbolos da história e das artes brasileiras.

Museu da Inconfidência é a melhor, mais gravada e mais popular de todas elas – principalmente pelo segundo movimento, Cadeira de arruar – e a qual vocês devem ouvir primeiro, para ter uma boa impressão do Guerra. No próprio ano de estréia da suíte, 1972, ela foi gravada pela Sinfônica Brasileira, sob a batuta de Karabtchevsky, num vinil da Philips, junto com o Choros n° 6 do Villa e Mosaico, de Marlos Nobre.

O curto e solene movimento de abertura, que um compositor amigo meu e ex-aluno do Guerra me disse ser totalmente Paul Hindemith, reaparece no final do último movimento, um rondó que reveza um tema heróico, referente aos tempos de glória dos reinos africanos de onde saíram os escravos brasileiros, e um lamentoso jongo (ritmo precursor do samba) cantado pelo fagote, emulando um canção para distrair o trabalho e para amenizar a saudade que o escravo sentia de sua terra.

O segundo movimento resgata a atmosfera zombeteira dos escravos que caçoavam do senhor deles, sem este saber, enquanto levavam-no na cadeira de arruar (de andar pela rua) para ver as festividades profanas. O terceiro movimento, misterioso e triste, evoca o luto pelos que morreram nas manifestações de 1792, o qual se sente ao se quedar ante o panteão do museu ouropretano.

A retirada da Laguna (1971), a obra mais extensa do Guerra, foi baseada no livro de Visconde de Taunay (escritor, militar, historiador, político e também compositor, tendo apreço por Leopoldo Miguez e Carlos Gomes, e a quem meus colegas do tempo de escola chamavam de Visconde do Tonel), que por sua vez relata um dos episódios mais desastrados [e desastrosos] das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai.

Este registro tem valor por trazer o próprio compositor como regente. Pertence a uma série lançada pela Funarte, primeiro em vinil depois em CD, na qual os autores regiam suas obras. Apesar de bem orquestrada e de bom apelo cinematográfico, a suíte é meio naïf, como a Sinfonia Brasília. É uma obra que valeria uma nova gravação, com uma grande orquestra e um bom maestro, para fazê-la render melhor.

Tributo a Portinari (1991) foi a última grande criação de Guerra-Peixe, escrita enquanto ele usufruía de uma bolsa da Fundação Vitae. A orquestração belipisciana continua pragmática e indefectível, disposta à la Beethoven mas tratada à la Copland, vinte anos depois da Retirada, do Museu e do Concertino. Podem observar que, independente da linha estética seguida, seus alunos – como Ernani Aguiar e Guilherme Bauer – a adotaram, devido sobretudo à economia (facilita a contratação de músicos).

Cordas sem divisi, madeiras aos pares, nunca com clarone ou contrafagote, sem recorrer ao piano e à harpa, raramente solicitando a celesta, usando dois ou três trompetes, quatro trompas e dois ou três trombones, dispensando por vezes à tuba, utilizando no máximo três percussionistas e reservando ostinati únicos aos tímpanos. E nunca repetindo uma seção anterior da peça sem modificá-la minimamente: A voltará como A’ (A linha), não como A.

Quatro quadros do mais célebre pintor que tivemos no Brasil serviram de base para a obra: Família de Emigrantes (na verdade, Retirantes), Espantalho, Enterro na rede e Bumba-meu-boi. Acontece que não existe somente uma tela que equivalha à cada título – pode fazer o teste no site da Fundação Portinari. E sobre cada movimento desse “Quadros de uma exposição” brasileiro (se bem que pela ausência de um tema ao estilo do Promenade, tal título cabe melhor ao “Museu”, pela sua “Entrada”) teria não sei quantas linhas a dizer; vamos adiante, que é melhor.

Quando da inauguração de Brasília, abriu-se um concurso para premiar uma sinfonia que tivesse a cidade como tema. Camargo Guarnieri tava escrevendo a dele, mas foi chamado para integrar o júri e arquivou a idéia até estrear sua Sinfonia n° 4 (1963). JK tinha encomendado a Tom e Vinícius tal sinfonia programática, mas por contratempos diversos a Sinfonia da Alvorada (1960) só foi ouvida em 1966 (e pela segunda vez vinte anos depois), uma verdadeira porcaria que vai ficar aqui mofando na minha discoteca.

Por não sei que cargas d’água, não se concedeu o primeiro lugar no referido concurso e o segundo foi dividido entre Guerra-Peixe, com a Sinfonia n° 2 (1960), Cláudio Santoro e José Guerra Vicente. É a obra mais ampla da fase nacionalista do Guerra, já adentrando na universalista; não vejo muita coisa de especial nela, exceto pelas palavras de JK no último movimento, no mais parafraseador estilo “Um retrato de Lincoln”, de Copland.

Por fim, o Concertino para violino e orquestra de câmara (1972), atendeu a um pedido de Cussy de Almeida, violinista e então maestro da Orquestra Armorial. No entanto, Cussy nunca executou a obra porque Guerra-Peixe confiou a première a Stanislaw Smilgin. O Concertino nem é a cara da Orquestra Armorial; se ele fosse escrito na fase nacionalista do Guerra, aí sim – mas o Movimento Armorial nasceu em 1970.

A presente gravação estava nos meus arquivos em mp3 que baixei da net. O LP de onde saiu o Concertino contém três peças breves para piano – as peças para violão e Espaços sonoros, o dono do disco juntou ao criar um CD caseiro. Decidi não excluir essas partituras não sinfônicas pela raridade delas.

Excelente semana.

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I. Museu da Inconfidência (Impressões de uma visitação em 1966)
1. Entrada (Andante)
2. Cadeira de arruar (Allegro moderato)
3. Panteão dos inconfidentes (Larghetto)
4. Restos de um reinado negro (Vivace)
Orquestra do 18° Festival de Música de Londrina, regida por Norton Morozowicz

 

II. A retirada da Laguna
1. Partida para os campos
2. Pantanais
3. Alegria em Nioaque
4. Laguna
5. Uma noite calma
6. Incêndio – depois, o temporal
7. Esperança no Campo das Cruzes
8. A morte do Guia Lopes
9. Regresso pacífico
10. Canção à fraternidade universal
Orquestra Sinfônica da Rádio MEC, regida por Guerra-Peixe

 

IIIa. Tributo a Portinari
1 – Família de Emigrantes
2 – Espantalho
3 – Enterro na Rede
4 – Bumba-Meu-Boi
IIIb. Sinfonia n° 2 – Brasília
5 – Allegro ma non troppo: O candango em sua terra – A caminho do Planalto – Recordações que o acompanham – Chegada alegre
5 – Presto: Trabalho
7 – Andante: Elegia para o ausente
8 – Allegretto con moto: Manhã de Domingo – Allegretto: Tarde infantil – Andante: Desce a noite – Presto: Volta ao trabalho – Moderato: Inauguração da cidade – Allegro ma non troppo: Apoteose
Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Coral da OSPA, regidos por Ernani Aguiar, Narrador: João Antonio Lopes Garcia
Texto: Juscelino Kubitschek, trecho do discurso da inauguração de Brasília

Concertino para violino e orquestra de câmara
1. I. Allegro comodo
2. II. Andantino
3. III. Allegro un poco vivo
Orquestra não identificada, Regência: Guerra-Peixe, Violino: Stanislaw Smilgin

Peça p’ra dois minutos
4. Peça p’ra dois minutos
Suíte n° 2 – Nordestina
5. I. Violeiros
6. II. Caboclinhos
7. III. Pedinte
8. IV. Polca
9. V. Frevo
Miniaturas n° 4
10. Miniaturas n° 4 – Allegretto – Adágio – Presto
Sônia Maria Vieira, piano

Lúdicas
11. Lúdicas n° 5
12. Lúdicas n° 10
13. Prelúdio n° 1
14. Prelúdio n° 2
15. Prelúdio n° 5
16. Peixinhos da Guiné
Sebastião Tapajós, violão

Espaços sonoros
17. Estático
18. Dinâmico
Trompa: Francisco de Assis Silva, Piano: Sarah Higino

Está tudo junto num arquivo só: BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

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CVL
Repostado por Bisnaga

20 comments / Add your comment below

  1. Estou fazendo pesquisa e organização da bibliografia e discografia (ou fonografia) de Guerra-Peixe.
    A obra Espaços sonoros: Estático, Dinâmico, de 1985, consta no CATÁLOGO SUMÁRIO DAS OBRAS DE GUERRA-PEIXE de Flávio Silva – Funarte – 1994
    Não existe catálogo fonográfico e eu não havia encontrado qualquer referência a essa gravação.
    Por favor pode informar origem e a data?

    1. Como eu disse no fim do post, Fausto: ela não faz parte do vinil onde estavam o Concertino e as peças para piano com Sônia Maria Vieira. O dono da gravação (é uma das poucas gravações que não tenho o CD) fez um CD juntando o vinil com Espaços Sonoros e as peças com Sebastião Tapajós. Vamos torcer para algum fã do Guerra passar por aqui e saber – vou tentar conseguir as informações à parte.

  2. Ah!

    Os de São Paulo certamente irão se lembrar do movimento “Cadeira de arruar” por ele ter sido usado por vários anos como uma das vinhetas da Cultura FM.

    Aliás, alguém se lembra das outras vinhetas? “Júpiter” dos “Planetas” de Holst, o finale da Sinfonia no. 4 de Schumann, o início da Suíte para piano de Debussy…

  3. Comentário de Milton Ribeiro no blog do professor Idelber Avelar:

    Meu caro Idelber, vamos a mais um link que talvez seja de teu interesse.

    Conheces aquele blog maluco de música erudita chamado PQP Bach? Pois bem, eles agregaram ao time — já são um quinteto — um jornalista pernambucano que apenas posta música das Américas. Seu nick é CVL, Cícero (ou Ciço) Villa-Lobos, e ele tem postado coisas de músina nova e antiga das Américas que certamente te interessarão, Idelber. Veja, por exemplo, a postagem de hoje (Guerra-Peixe), a de Jorge Antunes (¡No se mata la Justicia!) e o Tangazo de Astor Piazzolla, tudo com explicações tão exatas quanto raras.

    Quando li a postagem de hoje logo pensei: porra, o Idelber adoraria dar uma olhada nisso.

    Confira se estou certo.

    Grande abraço e GRANDE FIM DE SEMANA FUTEBOLÍSTICO PARA NÓS, pois o seguinte será impossível: um de nós, ou os dois, irá se foder.

  4. Nossa, absurdamente linda

    Desculpem a minha ignorância, mas ainda não conhecia o grande CESAR GUERRA-PEIXE !!

    Impressionante suas composições !!

    Viva P.Q.P BACH !!

    Zig

  5. ALOU!! MAIS GUERRA PEIXE (GOSTARIA DE SABER COMO POSTAR AQUI, ASSIM Q QUEM QUISER ME DIZER ME INFORME – TO REPLETO DE CD PRA COMPARTILHAR!! (pluctplactzuuuum@gmail.com) :

    original do site:

    http://ilcantosospeso.blogspot.com/search/label/Cesar%20Guerra-Peixe

    Fábio Shiro Monteiro – Recital Brasileiro (Brazilian solo guitar) [2000]

    Marlos Nobre (1939- )
    1. Cantilena op. 79 Nr. 2

    Almeida Prado (1943- )
    Sonata Nr. 1 (1981)
    2. Vigoroso
    3. Interludio. Chorinho
    4. Cantiga
    5. Toccata-Rondo

    Cesar Guerra-Peixe (1914-1993)
    Sonata (1969)
    6. Allegro
    7. Larghetto
    8. Vivacissimo

    Ronaldo Miranda (1948- )
    9. Appassionata (1984)

    Marlos Nobre (1939- )
    Reminiscencias op. 78 (1991)
    10. Choro
    11. Seresta
    12. Frevo

    Almeida Prado (1943- )
    13. Poesiludio Nr. 1 (1983)

    baixe este CD POR aqui:

    http://rapidshare.com/files/171575960/Fabio_Shiro_Monteiro_-_Recital_Brasileiro.rar

    (mp3-320kbps)

  6. Desculpe amigo, se entendí mal. Você não disse, no princípio desse artigo, que a Sinfonia da Alvorada, do Tom é …”uma verdadeira porcaria que vai ficar aqui mofando na minha discoteca.” Porque se disse, vou te contar… acho que entendí mal.

  7. Por favor revalidem os “links” destes quatro discos, estão quebrados. Obrigado eternamente, PQPBach é a melhor página do mundo de música.

    1. Graças ao seu afago em nossos egos, resolvemos repostar, mas demoramos, mesmo, porque não somos fáceis assim…
      Taí, com link novo. Baixe e seja imensamente feliz!
      Um abraço

  8. Olá CVL não estão os arquivos
    Lúdicas
    11. Lúdicas n° 5
    12. Lúdicas n° 10
    13. Prelúdio n° 1
    14. Prelúdio n° 2
    15. Prelúdio n° 5
    16. Peixinhos da Guiné
    Sebastião Tapajós, violão

    Espaços sonoros
    17. Estático
    18. Dinâmico
    Trompa: Francisco de Assis Silva, Piano: Sarah Higino

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