Datas

Todo o início de ano há rituais a cumprir. Um deles: percorrer cronologias e biografias à procura de compositores com datas redondas que permitam homenageá-los. Celebram-se nascimentos. Relembram-se mortes. Uma breve pesquisa e logo se vai preenchendo uma relação, às vezes mínima, às vezes exagerada, de possíveis homenageáveis num ano que começa. Com eles se recheia o programa de concertos como se se recheasse empadas ou pastéis – alguns compositores serão o recheio principal, outros haverão de cumprir o papel da proverbial azeitona. Uns serão o gosto permanente da empada musical. Outros serão o sabor delicioso que logo se vai. Essa é a hora, então, de colocar em marcha o ritual. Sem muita procura, a música europeia logo nos entrega quatro candidatos: Henry Purcell e os seus 350 anos de nascimento, os 250 anos da morte de Händel, os 200 da morte de Haydn, os dois séculos que nos separam do nascimento de Mendelssohn.

Quarteto fantástico, esse! Seus integrantes estão prontos a atender as demandas dos programas das orquestras que hoje, à custa de repertórios cada vez mais petrificados na tradição, caminham na direção firme da obsolescência. Purcell, diz a BBC, marca o nascimento da música britânica – embora uns 300 anos antes tenha existido John Dunstaple e um pouco depois Thomas Tallis tenha feito a glória musical dos Tudors. A música de Händel recém foi ouvida, pois é ele o compositor do coro de aleluia que encerra a parte relativa ao nascimento de Cristo no seu oratório Messias e que por isso é cantado a plenos pulmões em dezembro por coros e comerciais de TV. Mendelssohn, já em pleno romantismo da primeira metade do século 19, foi compositor mediano mas com ocasionais lampejos de genialidade que o tornam bastante agradável, para ouvir sem esforço. Quanto a Haydn – bem, este é o caso clássico de compositor que possibilitou a existência musical de outros dois, neste caso Mozart e Beethoven, que a ele renderam homenagens mas que, ultrapassando-o, o jogaram num esquecimento que nem efemérides evitam.

Que importância têm esses compositores para nós, ao sul do Equador? Provavelmente nenhuma, embora vamos encontrá-los durante o ano todo num e noutro concerto ou recital. Talvez seja o caso de não procurar longe o que está perto: a nossa música brasileira, o que apresenta de compositores e suas datas redondas? Há, sim, o que assinalar. Há os 80 anos de Ernest Mahle, o compositor de Piracicaba que é uma espécie de Hindemith brasileiro, no seu neoclassicismo funcional e na sua música espraiada pelos mais diversos instrumentos. Há os 70 anos de Lindembergue Cardoso que, falecido em 1989, foi um dos fundadores do Grupo de Compositores da Bahia, essencial para a renovação da música brasileira de concerto dos anos 1960 e 1970. Há também os 70 anos de Ricardo Tacuchian, músico carioca que revitalizou a Academia Brasileira de Música e que compõe com mão segura. Deve haver ainda outros, mas esses a memória ainda não alcança.

Para lembrar há, antes de mais nada, os 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos. Lembro do dia em que morreu, embora àquela altura ainda não tivesse ouvido uma nota sequer da sua música. A trajetória de Villa-Lobos nestes 50 anos tem sido acidentada pois só os que têm muita coragem ainda desbravam a sua música, aqui e lá fora. Orquestras, então, nem se fala! Publicadas por editora francesa, as suas partituras ainda tem direitos autorais de preços elevados e nem sempre os orçamentos permitem aventuras fora do repertório de domínio público. Mais: como me dizia certa vez o musicólogo Régis Duprat, na música de Villa-Lobos todos tocam tudo ao mesmo tempo, o que requer paciência e competência, coisas que às vezes rareiam. Assim, Villa-Lobos tem sido menos ouvidos do que deveria e ainda é incerto o destino das suas Bachianas Brasileiras, dos seus Choros.

Se há um aniversário, no entanto, que a música brasileira deve comemorar sem ressalvas é o do amazonense Cláudio Santoro, que estaria comemorando os seus 90 anos, não tivesse falecido em 1989 em meio a crises musicais e institucionais. São duas datas redondas e aí está: Santoro é o compositor do ano. A sua trajetória ideológica é interessantíssima, foi central a sua posição na música em Brasília que viu o seu expurgo e acolheu o seu retorno. A música segue os mesmos caminhos do compositor. Iniciando como integrante ativo do Grupo Música Viva que nos anos 1930 trouxe o modernismo para a música brasileira, Santoro construiu uma obra que vai da miniatura à sinfonia, da música de câmara ao pioneirismo da música eletroacústica, do abstrato ao engajamento explícito. Tivesse a música de concerto uma posição menos periférica na cultura brasileira, este seria o momento de celebrar Santoro. Pois não há dúvida que o Brasil deve mais a ele do que a Purcell, Mendelssohn, Haydn ou Händel.

CELSO LOUREIRO CHAVES, músico.
Publicado em Zero Hora no dia de ontem.

PQP

12 comments / Add your comment below

  1. Muito legal que um jornal importante como a Zero Hora dedique algum espaço à música erudita, mas afirmar que “não há dúvida que o Brasil deve mais a ele [Cláudio Santoro] do que a Purcell, Mendelssohn, Haydn ou Händel”, sinceramente, é puro ufanismo furado (e com um viés bem academicista). E olha que eu conheço alguma coisa do Santoro e de sua “trajetória ideológica interessantíssima (sic)”. Tem seu valor, sua obra deveria ser mais divulgada, concordo, mas melhor manter os pés no chão…

    Ah, sim, diz o autor: “que importância têm esses compositores para nós, ao sul do Equador? Provavelmente nenhuma, embora vamos encontrá-los durante o ano todo num e noutro concerto ou recital. Talvez seja o caso de não procurar longe o que está pertoa nossa música brasileira”… entendi, professor, mas ledo engano… os que estão perto sempre se alimentaram do que veio de (não tão) longe.

    E outra: Mendelssohn, “compositor mediano mas com ocasionais lampejos de genialidade, que o tornam bastante agradável para ouvir sem esforço”? Sei não, tenho vários “lampejos de genialidade” dele aqui, na música de câmara e sinfônica, e não foram tão ocasionais assim…

    Mas tudo bem, viva Purcell, Mendelssohn, Haydn e Handel, e Santoro também, mas guardadas as devidas proporções.

  2. Certeiro, Sr. SoyGardel, totalmente.
    A música de Purcell não se destina apenas à Inglaterra do século XVII, mas também a mim, portoalegrense, brasileiro, latinoamericano, cosmopolita em qualquer latitude. Ela é belíssima e, portanto, muito importante também para nós, sul-equatorianos. É nosso patrimônio; Homero não pertence aos gregos, mas a quem o lê, em qualquer paragem.
    Admira um acadêmico se valer de nacionalismo para desdenhar o valor patrimonial e cultural da música histórica. “Nenhuma importância…” – então, ouçamos mesmo Ray Connif.
    Gosto de algumas coisas de Santoro, especialmente a música de câmara com piano, mas não há como compará-lo com Purcell, Händel, Haydn ou Mendelssohn. Ademais, se este for tido como “mediano”, que poderemos dizer de acadêmicos que fazem música sem inspiração e com inteligência duvidosa, como a maior parte dos brasileiros referidos pelo artigo de CLC, aliás, sempre envolvidos em “grupos” e “movimentos” mais ou menos do mesmo tamanho de suas platéias.
    “Mas tudo bem”, eles também são importantes, à luz e à sombra de Purcell, nosso conterrâneo.

  3. Caríssimos SoyGardel e FM.

    Tenho colocado repetidos artigos do Celso Loureiro Chaves aqui no PQP. Talvez o motivo destas publicações seja muitíssimo original: eu gosto do modo como ele escreve sobre música. Sim, gosto dos textos. Sim, frequentemente gosto mais dos textos do que de seus conteúdos. Aliás, gosto de ler sobre música.

    Muitas vezes discordo dele e a comparação que ele faz entre Santoro e o quarteto é apenas de bobo ufanismo.

    O primeiro movimento da “Reforma” detonaria qualquer possível mediania de Mendelssohn e nem vou falar de Purcell, Handel e Haydn.

    Este trecho é muito infeliz:

    “Quarteto fantástico, esse! Seus integrantes estão prontos a atender as demandas dos programas das orquestras que hoje, à custa de repertórios cada vez mais petrificados na tradição, caminham na direção firme da obsolescência.”

    Acho que ele tem razão ao criticar os repertórios das orquestras e ponto final. O conceito de obsolescência simplesmente não é aplicável e, se fosse, tornaria obsoletos vários artigos anteriores de Celso.

    E este, então:

    “Que importância têm esses compositores para nós, ao sul do Equador? Provavelmente nenhuma…”

    Bom, isso torna desimportante grande parte de nossa cultura musical… Temos mais de 1000 posts no PQP. Acho que vou deletar 900 agora! Menos, Celso, menos.

  4. Seu PQP, a nossa carência de crítica musical é tão grande que dá até medo alfinetar o pouco que temos… vai que nos cassem também esse autor… todavia, aqui acho que estamos em uma pequena confraria (…de proporções hipo-globais… mas no nosso cantinho digital) onde o risco letal é pequeno, então: ferro no boneco!
    O nacionalismo é o primeiro e último refúgio do medíocre. Seus defensores deveriam andar de Gurgel e usar computadores Cobra.
    CLC certamente não é um medíocre, muito pelo contrário, sobram-lhe talento, cultura e inteligência, e gosta de escrever, mas ao desdenhar Purcell em praça pública, como se esse fosse apenas pancresto para orquestras sem programa… está pedindo prá levar cascudo. Vai que a Emma leia aquilo, e nunca que a veremos em PoA!!!!

  5. Pelos músicos que têm nos visitado, é mais provável vê-la no espaço cliosofante de nosso amigo do que em nossos “tradicionais palcos”. Ultimamente, tenho sido mais feliz no modelo imóvel da Renault da Zé do Patrô do que do outro lado da praça do Governo do Estado.

    (Sim, foi uma comunicação cifrada. FM não me conhece, mas eu o conheço, ho, ho, ho)

  6. …acho que quisestes dizer “modelo hyper-móvel”…

    Vamos, então, pedir o número Dela para MR e convidá-la; com nosso tradicional racha de bilheteria e a sensibilidade dos PoAenses, ela deve sair de lá com uns 500 pilas frouxo, nada mal!

    Sua presença na casa é uma honra e uma alegria.
    Dia 29 seu pai nos visitará novamente, apareça.

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