Almeida Prado

Por John Neschling

Acordei ontem tão chocado com a notícia do falecimento de José Antonio Almeida Prado que não tive coragem de sentar e escrever nada a respeito. Achei que tudo o que pudesse dizer não espelharia a enorme perda que teve a nossa música.

É difícil reconhecer os gênios, principalmente quando fazem parte do nosso cotidiano. Eles convivem conosco como pessoas comuns, e nós as tratamos assim, como pessoas comuns. Dizemos alô e ciao como se estivéssemos tratando com simples mortais como nós. São alguns lampejos de consciência, quando somos confrontados com a sua obra, que nos indicam a importância de sua criação e a singularidade de sua existência.

Tantas vezes a grandeza da obra não condiz com a pessoa do criador. Quase sempre prefiro manter distância das pessoas que admiro muito. Tenho medo de confundir a sua imperfeição humana com a perfeição de sua obra.

Conheci José Antonio nos anos 70, quando, ainda pouco experiente com a música de nossos dias, tive a oportunidade de dirigir um concerto na Semana de Musica Contemporânea de Graz, na Austria. Do concerto fazia parte a “Exoflora” de Almeida Prado, da qual ele mesmo foi solista ao piano.

Passamos aquela semana andando pelas ruas, ensaiando e assistindo a concertos, conversando sobre música contemporânea, rindo às gargalhadas de nós mesmos e da importância que tantos compositores davam a si mesmos.

José Antonio era de uma modéstia comovente, espiritualizada até.

Tinha já naqueles dias a noção de transcendência da música e de seu caráter inefável. Compunha e ouvia a sua própria música assim como a dos outros como se estivesse orando. Aprendi muito com ele, ao me concentrar no som dos pássaros, do vento, da chuva e ao reencontrar na sua música esse seu amor pela natureza e pela criação divina.

Nunca mais nos separamos. De tempos em tempos nos falávamos e quando assumi a OSESP, foi um dos compositores brasileiros que mais procurei executar. Em Campos de Jordão ouvi a Sonata para Violoncelo que José Antonio compôs para Antonio Menezes e saí do Auditório certo de que tinha ouvido uma obra da grandeza de uma sonata de Brahms.

Andava doente há tempos. Sofria muito com sua diabetes, mas nunca o ouvi proferindo uma palavra de queixa. Pelo contrário, conversar com ele era sempre uma celebração da vida e dos planos futuros. Nossas conversas eram tão simples e despojadas que eu, vez ou outra, nem me dava conta de que estava falando com um gênio de nossa cultura, um ser abençoado, capaz de criar obras que dão ao nosso cotidiano um outro sentido.

Sei que a obra do gênio perdurará. E os gênios, por isso mesmo, são imortais. A minha imensa tristeza é pela perda do Zé Antonio. Essa é difícil de enfrentar.

PQP

10 comments / Add your comment below

  1. Reconheço que conheço pouco a obra do Almeida Prado. Ouvia falar dele quando morava em São Paulo, no começo dos anos 90, mas depois que saí de lá, perdi o contato. Porém, sempre li excelentes comentários sobre suas obras. No final da tarde de ontem, estudando para um concurso que vou fazer agora no final do ano, eu ouvia a Rádio Cultura, de São Paulo, via antena parabólica, e eles fizeram uma homenagem a ele, muito comovente, e tocaram duas de suas obras, uma para piano e outra para orquestra. Nem preciso dizer que gostei muito do que ouvi.

  2. reconheço que não o conhecia.

    resolvi baixar suas Cartas Celestiais e fiquei surpreso com o que ouvi.

    depois vi algumas outras coisas e devo reconhecer que fiquei surpreso por ser alguém tão bom e tão pouco falado. Sem dúvida nenhuma é um dos compositores modernos mais interessantes…

  3. Obrigadaço, PQP. O Neschling foi fundo aqui, acho que com isso a coisa foi registrada em nível condigno!

    Aproveito para comunicar que uma amiga me enviou a sua Sinfonia dos Orixás, de 1985, e que se a minha conexão fizer o upload direitinho, de hoje para a amanhã deve estar postada.

  4. Almeida Prado, um compositor que até então não conheco, mas já ouvi muito sobre ele, realmente a descrição está impecável! Vanderson, talvez não tenha recebido o e-mail, não?

  5. Eu vi este compositor umas três vezes em concertos que possuía alguma peça sua. Uma vez, ao final da peça (Orquestra Sinfônica de Santo André) o compositor subiu ao palco para receber os aplausos, subiu firme as escadas e foi muito aplaudido. No intervalo passou muito próximo de mim, quase fui cumprimentá-lo, mas algumas outras pessoas já o fazia assim deixei ele em paz e pensei: “não faltará outra oportunidade”. Passou pouco tempo (mas deve ter sido um ou dois anos) eu o vi novamente, dessa vez com a Orquestra Sinfônica Municipal na sala do cine Olido (o Municipal estava em reformas para a comemoração dos 100 anos). Ele estava sentado e eu passei ao lado, pensei: “após a execução da peça vou cumprimentá-lo dessa vez”, bem ao final da peça, muito aplaudida, o compositor se levantou com muita dificuldade e demorou até chegar próximo ao palco, não subiu (aparentemente não aguentava) e voltou a sentar-se, fiquei surpreso em ver como tinha ficado fraco. Aprendi que uma oportunidade não pode ser desperdiçada, logo após o grande compositor faleceu, creio que ele merecia ouvir mais um parabéns!

  6. Realmente um homem espiritual.Um homem especial no meio das comuns; mesmo assim…..humilde…….singelamente humilde.Por isso mesmo…….grande.Grande perda……Em todos sentidos…….musicalmente não se perderá…… Obrigado pelo post

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