Balaio de Preconceitos

Lembro bem que minha primeira experiência como ouvinte atento foi com esse disco ao vivo de Chuck Mangioni. Foi uma revolução, pois na época eu só ouvia o que passava nas rádios (imaginem!). Não sei como foi parar em minhas mãos. Mérito meu não foi, meu miolo era mole demais para isso na época. Lembro, contudo, que as faixas 2 à 6, eu ouvia quase todos os dias, e claro, o clássico “Round Midnight”. O disco ainda me agrada, não sei se pela qualidade dos músicos (participações especiais de Dizzy Gilespie e Chick Corea) ou pelas lembranças de minha época de fedelho. Mas quem sabe outro menino desavisado acesse esse disco e sofra do mesmo impacto prazeroso e transformador.

Daí pra frente, descobri que a música não foi feita só pra dançar, tomar cachaça ou pensar na namorada. Depois de muitos anos intensos, ainda continuo desfazendo alguns dos meus preconceitos no mundo musical. Um bem antigo e ainda atual é sobre a importância de Telemann para história da música. Quem aqui já não leu que esse compositor alemão escreveu mais de 3000 trabalhos? Quase o que todos os outros grandes compositores escreveram em todas as épocas juntos. Um verdadeiro compositor de “quantidade”. Não era aceitável que Telemann, na época, pudesse ser mais famoso e importante que o velho papai Bach. Mas a vingança não tardou, Telemann caiu feio nas épocas seguintes, enquanto Bach subia no pedestal. Essa justiça dos tempos, no entanto, é imperfeita, nega a possibilidade de entendermos a fama e importância de Telemann na época.Trago para vocês três discos para mostrar um pouco da diversidade e qualidade desse grande compositor. O primeiro disco traz uma micro-ópera chamada Pimpinone, que costumava ser apresentada nos intervalos das grandes óperas de Handel. A obra é musicalmente divertidíssima e empolgante com apenas duas personagens, o chefe da casa Pimpinone e sua empregada Vespeta. Algo muito próximo de La Serva Padrona de Pergolesi. Pimpinone é uma ópera italiana em língua alemã. No segundo disco já vamos ver Telemann fazendo música religiosa, com aquele tom sombrio e ao mesmo tempo esperançoso da música alemã. São cantatas intimistas com poucos instrumentos que, sem exagerar, estão em pé de igualdade com algumas cantatas de Bach. No terceiro disco, vamos para a Espanha, onde Telemann com maestria única e original faz uma pequena peça musical sobre o “cavaleiro da triste figura” – Don Quichotte auf der Hochzeit des Comacho. Uma obra-prima ainda desconhecida da maioria dos ouvintes.

Outro injustiçado que até virou motivo de piada – Muzio Clementi. Em 1780, o pobre Clementi participou de uma pequena “competição” com Mozart para ver quem melhor interpretava e improvisava. Nem preciso dizer quem causou mais forte impressão. Mozart escreveu ao pai “ ele toca até bem…mas não tem bom gosto…muito mecânico” e depois em 1783 escreveu “Clementi é um charlatão, assim como todos os italianos”. Clementi foi basicamente um compositor para piano, e muito das suas sonatas iniciais apresentam, apesar do virtuosismo cativante, um pouco desse característica “mecânica” apontada por Mozart. No entanto, creio que Mozart teria mudado de opinião se ouvisse as sonatas do último período de Clementi. São sonatas beethovianas, com aquelas transições inesperadas e inspiradas. Prestem atenção na harmonia inicial da sonata op.40 n.2. As sonatas op.50 são às vezes mais inspiradas que as sonatas de Mozart (quem diria?).

Falo agora não apenas de um compositor desconhecido ou injustiçado, mas de uma época toda – a nossa. A música pós-1945 não convenceu o público e ainda não continua convencendo, com raríssimas exceções. Britten, Shostakovich, Arvo Part entre outros que estão fora do mainstream moderno, não contam. Falo dos compositores que estão na ponta da locomotiva, aqueles que escreveram a história do modernismo, esses estão na corda bamba da imortalidade. Citados em livros, porém desconhecidos nos palcos. “Culpa deles?” Só se a exploração de novos mundos for considerada um defeito. George Crumb é um compositor americano, um grande experimentador de possibilidades sonoras, abriu um novo espectro sonoro e pessoal, mas sem perder o foco de sua inspiração, aliás, inspiração muito ligada a poesia de Garcia Lorca. Esse disco trata de estudos moderníssimos para piano, algo que deixaria Chopin ou Liszt assustados. Na minha primeira audição imaginei ouvir um pequeno ensemble de músicos, mas foi engano meu, temos apenas o pianista e seu piano. Makrokosmos (1972-1973) é composto de dois volumes com 12 fantasias cada um sobre os símbolos do zodíaco. É preciso ouvir para acreditar. Absolutamente imperdível.

Baixe Aqui – Chuck Mangione- Tarantella
Baixe Aqui – Telemann-Pimpinone
Baixe Aqui – Telemann-Cantatas
Baixe Aqui – Telemann-Don Quichotte
Baixe Aqui – Clementi-Piano Sonatas (2cds)
Baixe Aqui – Crumb-Makrokosmos I+II

cdf

19 comments / Add your comment below

  1. “Clementi é um charlatão, assim como todos os italianos”
    Não entendi o que ele quis dizer com isso:”…assim como todos os italianos”. A ficha não caiu.
    Mas tmbm, normal de um maluco e não duvido nada, esquizofrênico. Se ele soubesse o que muitos “bachianistas” acham dele rsrsrsr, talvez ele fosse menos petulante e se ele soubesse o degosto profundo, a repugnação que tenho quando meu profº traz algo dele pra estudar a ponto de ter um pricípio depressivo de tamanho desgosto, aff!!! Mas no meu caso, quem sou eu…. Talvez Salieri tenha sido posto de lado por causa desses tipos de comentários de Mozart, afinal, era o cara, o cara dos dedos e da língua afiada.

  2. CDF, parabéns, nem sei por onde começar. Isso é que é divulgação de boa música, você poderia vender até um fusca batido com esse texto. Se é pra enfrentar os preconceitos, vou de Parsifal (na verdade, o que me convenceu foi o trecho que fala do alucinógeno).

  3. Na verdade, o nome da ópera de Telemann é “Don Quichotte auf der Hochzeit des Comacho”, e não Camacho, pois, apesar de ser baseado na obra de Cervantes, o libreto sofreu várias alterações, e decidiu-se por mudar o nome (Se quiserem, confiram a capa do CD no site da Amazon).

    A Escola de Música da UFRJ está realizando a primeira montagem desta ópera (Don Quixote nas Bodas de Comacho) no Brasil. A próxima apresentação será no dia 2 de junho, em Niterói. Depois, vai para Petrópolis.

  4. Se tiver Dvorak num próximo post como esse…eu não baixo mais!

    Já to avisando…

    esse será alvo de todos meus preconceitos para sempre.

  5. Putz, esse Parsifal é ao vivo, em Bayreuth, com o Knappertsbusch … essa gravação é histórica…
    Baixando com certeza. Como se diz aqui no litoral de Santa Catarina, “Matasse a pau, CDF”…

  6. …precisava compensar essa ausência irresponsável. Obrigado.

    H.Marques,

    Fiz a correção. Gostaria de ver essa montagem, dá pra sair um convite? E uma passagem aérea?

    Grato.

    De Balaio de P

  7. Como sempre, só resta agradecer e agradecer. Em tempos em que se questiona tantas formas de preconceito, nada melhor que amantes da música possam questionar os seus. Por exemplo, não consigo no terreno da música clássica ouvir nada do que se convenciona chamar de contemporâneo. Quem sabe agora com Crumb. Nessas horas abandono por segundos meu agnosticismo e agradeço as Musas por este blog existir! Grande abraço.

  8. Meu caro CDF,
    Travei brevíssimo contato com a obra de George Crumb e por isso tentei baixar a parte do Makrokosmos, mas infelizmente o link acabou. Haveria como repostá-lo?
    Gratíssimo

  9. CDF, novamente elogio você pelo bom gosto e conhecimento. Infelizmente não toco mais meu amado piano, o que muito me entristece, e esse site é um alento para mim, obrigada. Você poderia arrumar, não consigo baixar as sonatas de Clementi… A propósito, sou ITALIANA (romana ) e pianista, tenho muito orgulho de minhas duas pátrias,Brasil e Itália e consequentemente de seus bons compositores.
    Obrigada

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