Antonio Carlos Gomes (1836-1896): Óperas – (3) Il Guarany (1959-Belardi) [link atualizado 2017]

175 anos do nascimento de Antonio Carlos Gomes

Duplamente IM-PER-DÍ-VEL
Nesse dia histórico (marquem aí na agenda: 19 de janeiro de 2012), nós, do P.Q.P.Bach conseguimos disponibilizar para vocês a fantástica, megalômana, inoxidável, esfuziante e histórica primeira gravação mundial de Il Guarany, de nosso grande operista Antônio Carlos Gomes, realizada em 1959, sob a batuta de Armando Belardi. Foi esse o primeiro registro integral de uma ópera de Gomes. Todas, exceto Joanna de Flandres, viriam depois. O Guarani, a mais popular das obras gomianas, seria também a mais registrada. Há coisa de sete gravações (três mais conhecidas: 1959-Armando Belardi, 1996-Julio Medaglia e 1994-John Neshling, com Plácido Domingo, que revalidaremos na semana que virá).
Nhô Tonico, já vivendo em Milão, conseguiu ingressar no concorridíssimo e prestigioso Conservatório da cidade. Por ser aluno de grande talento, não demorou para que passasse a ter aulas particulares com o diretor, o também compositor Lauro Rossi. Naquela cidade, o centro da ópera no mundo, a qual poucas cidades faziam frente, compôs duas operetas, uma em 1866 e outra em 1868, ambas com razoável sucesso.
Tornou-se amigo do libretista Antonio Scalvini, a quem chamou para adaptar a obra de José de Alencar. Era um sonho já antigo de Carlos Gomes, que aspirava transformar em ópera o romance entre o índio Peri e a bela moça europeia Ceci, desde que O Guarani foi publicado em forma de folhetim na imprensa carioca de fevereiro a abril de 1857. Ele já comentara com seu mestre no Rio, Francisco Manoel da Silva (nada mais, nada menos que o autor de nosso Hino Nacional, o maior compositor vivo no Brasil de então, após a morte do padre Nunes Garcia e a ida de Neukomm para Paris) que essa história produziria a grande ópera nacional. Com bolsa do governo na Itália, Il Guarany foi uma forma também de demonstrar retorno ao investimento que fizeram nele, expondo o Brasil lá fora.
Il Guarany começou com tudo: estreou no Alla Scalla, principal teatro de Milão, com um sucesso estrondoso. Não era para menos, pois a ópera unia vários fatores interessantes: um compositor de uma terra exótica, o Brasil, um enredo também exótico sobre indígenas, árias muito bem construídas e bons intérpretes. A curiosidade dos italianos pelo exotismo da peça aliada à facilidade de Gomes de compor belas melodias levou Carlos Gomes ao estrelato. Tonico atingia uma fama tal que nenhum artista das Américas tinha conhecido ainda. Essa onda de exotismo já vinha atingindo a Europa, em uma febre que tinha origem na França e chegava na Itália, com as produções operísticas como as indianas Lakmé (Delibes) e Os Pescadores de Pérolas (Bizet) ou A Africana (Meyerbeer), ou até mesmo a egípcia Aida (Verdi), que estava sendo composta quando Il Guarany estreou.

“Nas mãos de Scalvini e D’Ormeville (libretista francês que auxiliou Scalvini), Il Guarany sofreu diversas modificações em relação a Alencar. Desapareceram algumas personagens: Diogo de Mariz, o irmão de Cecília, e Isabel, a filha bastarda de Dom Antônio. Loredano – na verdade o religioso renegado frei Angelo di Luca – foi transformado no aventureiro espanhol González, decerto para não ferir a susceptibilidade dos italianos, que não gostariam de ver um compatriota como vilão. Surgiu o cacique dos aimorés, que se apaixona por Ceci; e chegou-se a pensar numa filha desse cacique, que se enamoraria de Peri – mas a idéia não foi adiante. Para a estréia, em 19 de março de 1870, no Teatro alla Scala, Carlos Gomes ainda não tinha escrito a abertura. Havia um Prelúdio de construção bem mais simples.
O cenógrafo era Carlo Ferrario e o figurinista, Luigi Zamperoni. As ilustrações da época demonstram que ambos executaram um belíssimo trabalho. Francesco Villani e Maria Sass interpretavam o índio Pery e a portuguesinha Ceci; Enrico Storti fazia o aventureiro González. O Cacique marcou a estréia italiana do futuro criador de Iago e Falstaff: o barítono francês Victor Maurel, na época com apenas 22 anos. Eugenio Terziani era o regente da estréia. (…) Pela ópera, o compositor seria também condecorado, na Itália, em 20 de março, como Cavaleiro da Coroa; e no Brasil, em 30 de novembro, com a Ordem da Coroa.
O novo e o pessoal estão presentes em Il Guarany, e de forma que não é apenas aparente. Se não há motivo, como quer Leo Laner, para que se supervalorize a obra mais conhecida de nosso compositor, é também injusta a afirmação de Wilson Martins, no terceiro volume da História da Inteligência Brasileira, de que ela “é o triunfo enganador de fórmulas musicais esgotadas”. Contestando essa opinião, Marcus Góes pergunta:
“Seriam uma fórmula esgotada na ópera italiana a utilização de melodias modinheiras, os ritmos em síncope, os acordes e escalas de sétima diminuída à moda da música popular brasileira da época, a fuga a modelos de números fechados, as combinações tímbricas das marchas do terceiro ato, os acompanhamentos plangentes em quiálteras alternadas e tudo o que vimos na análise musical acima feita?”
A análise musical a que Góes se refere é o levantamento que ele faz, nas pp. 110-127 de seu estudo, ao qual remeto o leitor, dos “inúmeros exemplos de música de notória origem e inspiração brasileiras, espalhados por toda a partitura, ora de modo facilmente perceptível, ora embutidos nos comentários da orquestra em fugazes citações”. Góes elenca, por exemplo, o “acentuado sabor modinheiro” do trecho “Poi s’averrà un lieto dì risciogliere il voto sugli altar”, cantado por Don Antônio, Alvaro e Ceci; ou do famoso “Sento una forza indomita”, de Peri. Ressalta a origem brasileira de um maneirismo típico de Gomes, as quiálteras no acompanhamento, que dão ao ritmo um aspecto quebradiço, citando o “La natura e Dio t’ispirino un lamento che, gemendo, risponda al mio tormento!” E observa que, “na introdução da balada de Ceci, no ato II, o allegro brillante em 6/8 é de fazer inveja a um violeiro de seresta, preparando o seu ‘pinho’.” Chamando também a atenção para o fato de que os achados de Gomes inspirariam compositores italianos da época, Góes traça paralelos entre trechos do Gauarany e passagens na obra de Ponchielli. E dá especial importância ao fato de que:
“Em O Guarani, CG ‘abre’ o discurso musical em benefício da ação dramática, ou seja, não a bloqueia em números fechados tipo recitativo-ária-cabaletta. O compositor, ávido de demonstrar sua capacidade – uma real capacidade, diga-se – é absolutamente genial na fragmentação do discurso musical, através de melodias curtas e incisivas, de rápidas citações orquestrais, no uso constante de modulações inesperadas, na busca de ritmos em síncope – no que era mestre, inclusive por serem típicos esses ritmos da música popular que se fazia no Brasil –, na exploração constante da variedade tonal. Não era isso que Boito e os intelectuais da época queriam?” (Lauro Machado Coelho)

Depois de tudo isso, que mais posso dizer?
Apenas, que aprecie esta gravação que tem, claro, todas as limitações de um registro de mais de 60 anos atrás, mas feita com capricho. Que conhece outras gravações, perceberá que, talvez para caber no disco, algumas partes de recitativos foram cortadas, mas nada que nos deixe perder o contexto e o clima.
Os solistas são muito bons, mas sou forçado a achar que a soprano Niza de Castro Tank rouba a cena, pois a partitura pede uma soprano lírico-coloratura como ela. Sua voz é tão leve, parece uma flauta… Não vi ainda outra intérprete de Ceci com agudos tão fáceis como os dela…
Ah, faltou dizer: Carlos Gomes já era compositor maduro, mas melhoraria muito mais nas obras seguintes. Com Il Guarany atingiu o auge: era jovem, bem-sucedido, amado, tudo estava dando certo. Depois teria vários problemas, atingiria grandes sucessos, mas nunca mais o mesmo.

Ah, chega de falar! Ouça! Ouça! Ouça! Ouça!

Antonio Carlos Gomes (Campinas, 1836-Belém, 1896)
Il Guarany (1870) (1870)
Libreto: Antônio Scalvini
Baseado no romance homônimo de José de Alencar

Ato I – 01 Sinfonia
Ato I – 02 Scorre il Cacciator
Ato I – 03 Diálogo e entrada de Perí
Ato I – 04 Gentile di Cuore
Ato I – 05 Sento una Forza Indómita
Ato I – 06 Ave Maria
Ato II – 07 Vanto Io Pur – Ária de Perí
Ato II – 08 L’oro è une ente si Giocondo
Ato II – 09 Senza tetto senza cuna
Ato II – 10 C’era una volta un príncipe
Ato II – 11 Tutto é silenzio – Concertato
Ato III – 12 Aspra, Crudel
Ato III – 13 Bailado
Ato III – 14 Canto di Guerra
Ato III – 15 Canto di Guerra
Ato III – 16 Or Bene, Insano
Ato III – 17 Il Passo Estremo
Ato III – 18 Perché di Mestre Lagrime
Ato III – 19 Dio degli Aymoré
Ato IV – 20 In quest’ora suprema – Con te Giurai di vivere – Ferma, Olá!
Ato IV – 21 No, Traditori – Cena do Batismo

Pery – Manrico Patassini, tenor
Cecilia – Niza de Castro Tank, soprano
Gonzalez – Lourival Braga, barítono
Don Antonio de Mariz – José Perrota, baixo
Don Alvaro – Paschoal Raymundo, tenor
Cacique – Juan Carlos Ortiz, baixo
Ruy Bento – Roque Lotti, tenor
Alonso – Waldomiro Furlan, baixo

Orquestra e Coro do Teatro Municipal de São Paulo
Armando Belardi, regente
São Paulo, 1959 – primeira gravação mundial

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – (153Mb – 2CD, cartaz, info e resumo da ópera)

Ouça! Deleite-se!

Bisnaga

24 comments / Add your comment below

  1. Alguém tem aquela versão com Domingo / Neschling? Copiei uma vez de um site de óperas, porém, como o HD queimou (com quase 1Tb de música de concerto) perdi-a e não mais a encontrei. Se alguém tiver, aquela versão é referência na execuçao dessa bela ópera européia com tema brasileiro.

    Grato!

  2. Ah, mas do Carlos Gomes todo mundo tá cansado de saber, né? rsrsrsrs

    Brincadeira. Brilhante postagem, Bisnaga. Sabia que se digitar “Carlos Gomes” na Rádio UOL não dá resultado nenhum? Sacanagem…

  3. Marcelo Brahms.
    Não tenha pressa…. Escute a versão do Armando Belardi. Semana que vem, na quinta, vamos revalidar o link do Guarani com Neshling/Domingo.
    Abraços

  4. Amigos

    A censura e o autoritarismo em nome do lucro tenta nos amordaçar mais uma vez, eles não querem a “a polinização da beleza”, como bem se refere nosso amigo PQP. Hoje a “justiça americana” fechou o megaupload, acusando-o de pirataria, com isso o blog do nosso amigo Carlinus foi silenciado, pois a quase totalidade de seus trabalho e esforço estava no megaupload.
    Fiquemos atentos, mas não devemos esmorecer ou abater, a rede de posso assim dizer “amigos virtuais”, pela qual estamos unidos pela boa música e a disseminação desta não poderá ser totalmente silenciada.

    Um forte abraço à todos!

  5. Muito obrigado por postar Carlos Gomes!
    Continue com esse excelente trabalho divulgando a música de qualidade que esta tão extinta na atualidade.
    Abraço.

  6. Ótimo o entusiástico e belo comentário. Postem a Carmela de Araújo Viana e a Sinfonia de Leopoldo Miguez. Esta última nunca ouvi. E as óperas de Mignone? Alguém tem gravações? Parabéns pela contínua divulgação da MBC (ou será MCB? = música de concerto brasileira)

  7. Faço minhas as palavras do Rafael. Tenho alguns dos posts do Carlinus agora indisponibilizados devido ao Megaupload. Quero upá-los todos para ajudar os mantenedores e visitantes daqui, mas não tenho conta em nenhum desses sites. Vou ver o que posso arranjar.

  8. Carlinus, PQP, Rafael e demais:

    Temos sempre algo para levantar um pouco o astral depois da “caça aos piratas” virtuais da Megaupload.

    Eu encontrei um site de Torrent na net (www.http://thepiratebay.org/)sediado na Suécia, que enfrenta, de cabeça erguida, as ameaças legais dos “defensores de direitos autorais” (leia-se: gravadoras). Entrem no site e procurem a guia “ameaças legais” e se divirtam com os emails das gravadoras (sempre “representando algum artista”)e as respostas maravilhosas dos administradores do site.

    Detalhe: As regras da internet nos EUA e Inglaterra são territoriais. Portanto, não podem atingir os sites com domicilio jurídico em outros países, principalmente aqueles mais liberais e que são quase sempre estão na vanguarda do mundo civilizado (os escandinavos).

    É isso que vai acontecer: os sites de compartilhamento de arquivos como Megauload acabarão se fixando em países com legislações mais brandas para direitos autorais e mais permissivas para a internet.

  9. Vinicius:

    A questão é que EUA, Inglaterra Austrália e Nova Zelândia defendem os direitos autorais e as gravadoras. Há claramente COOPERAÇÃO e possivelmente até tratados entre esses países. Hong Kong foi da Inglaterra e eles devem ter uma presença forte por lá! Duvido que o FBI tenha alcance na Suécia e na Alemanha. Esse site que citei acima está bem calçado e tem um nome desafiador: “The Pirate Bay”.

    Eles tem 8 anos de existência e são MILITANTES, desafiadores. Esses caras não brincam em serviço: http://www.guardian.co.uk/world/2011/sep/18/pirate-party-germany-berlin-election

    Veja a reportagem acima e entre no site deles. Acho que eles são um bom motivo para o povo aqui do PQP (especialmente o Carlinus) não desanimar!

  10. Fabio, é até engraçado você só conhecer o Pirate Bay AGORA, rs. Uso o TPB desde 2005, quando aprendi a usar torrents.

    Depois do processo contra eles na Suécia (que eles perderam, by the way), a quantidade disponível de torrents caiu muito, pois vários países impedem que as pessoas lancem torrents em sua rede.

    Não precisamos desanimar pois “rei morto, rei posto”: há vários outros sites semelhantes ao Megaupload, e muitos deles vão surgir ainda. Não há chance de perdermos a batalha no longo prazo. No curto é apenas um pé no saco upar tudo de novo.

    Aliás, algo que eu queria fazer era hospedar um site na Suécia com as obras do Villa-Lobos que são proibidas neste e em outros sites no Brasil. Se ao menos eu tivesse fundos suficientes para bancar tudo… Mas esse é um projeto futuro.

    Abraços!

  11. Amigos

    um blog muito bom o qual eu visitava foi removido, provavelmente pelo autor, já que como o do Carlinus tinha quase tudo no megaupload, é o An Die Musik.

    Abraços

  12. Agora fecharam o FileSonic. Só quem upou pode baixar. Péssima notícia pra quem acessa o boxset.ru, por exemplo, que é um EXCELENTE blog.

    O MediaFire, usado por alguns membros do PQP, está na mira. Pode ser o próximo.

    Abraços.

    OBS: fiquei muitro triste com o fechamento do blog do Carlinus. Se a situação começar a complicar ainda mais, precisamos estudar seriamente soluções para escapar dessa perseguição. Felizmente, parece o Rapidshare não está sendo visado.

  13. Vinicius:

    Sou um iniciante em baixar arquivos pela net. Desconheço completamente como baixar usando torrents. Talvez por isso que o Pirate Bay para mim pareça novidade!

    Se começarem uma caça às bruxas contra esses sites, provavelmente vão surgir outros em locais onde os direitos autorais não são lá muito respeitados (imagine se a China começa entrar na história…rs….lá nem direitos humanos são lá muito respeitados mesmo).

    Rafael:

    O blog “An die Music” era da Ida Lopes. Ela deve ter pensado exatamente como o Carlinus. É uma pena porque ela tinha preciosidades: os concertos de Mozart com o Brendel; todos os quartetos de cordas de Beethoven pelo Amadeus Quartet, entre outros.

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