Dmitri Shostakovich (1906-1975 ) – Sinfonia No. 11 em G manor, Op. 103 – "O Ano de 1905" (LINK ATUALIZADO)

Postado inicialmente em 11 de dezembro de 2011.

A Sinfonia no. 11 de Shostakovich é uma das minhas composições favoritas entre todas aquelas que foram escritas poe Dmitri Shostakovich. Ela é uma obra que revela o quanto o conflito e a epicidade podem ser retratados numa obra de arte. É um desenho programático de um evento histórico. É uma descrição palpável de um episódio acontecido no ano de 1905 na Rússia. Contam os historiadores que dezenas de trabalhadores foram aniquilados pelas forças do ksar. Os vitimados eram homens comuns que buscavam ter os seus direitos atendidos no mês de janeiro daquele ano. Mas foram alvejados impiedosamente pela força pretoriana do soberano da Rússia. Tal fato se constituiu num evento marcante. O povo jamais esqueceria aquilo, principalmente Shostakovich que amava tanto o seu país. A Sinfonia no. 11 é repleta de insuações; de coloridos orquestrais; de tensão; de motivos de combate; marchas marciais; do som de corpos que tombam ao chão, num episódio terrível. É um trabalho denso, como denso era o mundo de Shostakovich. Esta gravação com Ashkenazy possui motivos para reverência. Não deixe de ouvir.

Dmitri Shostakovich (1906-1975 ) – Sinfonia No. 11 em G manor, Op. 103 – “O Ano de 1905”

01 The Palace Square
02 The Ninth of January
03 In Memoriam
04 The Tocsin

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St Petersburg Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy, regente

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Carlinus

10 comments / Add your comment below

  1. Gosto muito dessa sinfonia. Li em algum lugar que Shostakovich tinha em mente com essa obra um protesto velado contra a violenta repressão à Revolução Húngara de 1956 e a subsequente invasão soviética da Hungria, um episódio que seria enviesadamente evocado pelo massacre de uma multidão popular que desejava pacificamente entregar uma petição a Nicolau II. O homem fez muito dentro da atsmofera de terror e ameaça em que viveu, não entendo que o acusem de covardia.

  2. Fica a questão: para onde ele iria? Stravinsky foi mais corajoso, dizem, e migrou; mas a Sagração, do ponto de vista psicológico, é uma produção do tormento, da persecutoriedade – Stravinsky viveu um horror terrível, um ataque constante e um medo imaginário de retaliação, para se inspirar a compor aquele balé. Shosta era um homem mais afetivo, talvez, que tinha seu público de admiradores e amigos, como o Mravinsky. Além disso, nasceu no regime e nem sempre o músico é grande intelectual. Fora dizer que o regime era um avanço para a época, uma forma de proteção contra a enxurrada capitalista, algo que pôde bem convencer como a melhor alternativa para aquele país, apesar das aparas. Enfim, migrar para quê, se a coisa não era tão horrenda e havia pessoas queridas que precisavam daquele artista, alguém que fizesse algumas reprimendas e ponderações ao regime?

  3. Pelo que andei lendo a respeito, a coisa era mais que suficientemente horrenda para levar muita gente à desgraça, à destruição ou ao suicídio. Quando a Revolução aconteceu Stravinsky morava na França, as circunstâncias biográficas são inteiramente distintas. Shostakovich não respondia só por sua própria segurança como pela de sua fampília (da qual muitos membros foram assassinados pelo regime). Quanto sair do país, basta lembras o caso de Prokofiev, q Reprimenda ou ponderação ao regime na época de Stálin? Bábel, Mandelstam, Górki, Meyerhold e tantos outros

  4. Rs, saiu errado. Como dizia, Prokofiev voltou ao país para nunca mais ter autorização pra sair. O clima de pavor que cercava todos os artistas russos era uma coisa esmagadora, Shostakovich era uma pessoa espezinhada pelo medo constante. Os artistas citados acima foram assassinados (Mayakóvski foi assassinado ou se suicidou?), creio que por motivos que na realidade nem sequer tangenciavam a reprimenda ou a crítica aberta, totalmente impossíveis.

  5. Foi uma longa trajetória, desde Lenin até Stalin… Momentos diversos, um regime que realmente não deu certo! Eu até evito entrar muito nessas sombras históricas das ditaduras, mas estou de acordo com você, de La Torre, com certeza o medo foi se tornando maior, à medida que os governantes percebiam que precisavam usar de força para manter aquele absurdo. Shosta foi uma testemunha notável, sua música é carregada de um sentimento “engolido”, tem uma turbulência paranoica que eu não gosto muito. Se ele houvesse nascido em outro país, com certeza a sua música seria totalmente diferente e possivelmente melhor.

  6. Se ele tivesse nascido em outro país (em um no qual o poder político não interferisse tanto em questões artísticas)desconfio que teria sido compelido a adotar a linguagem das vanguardas, e sua música hoje seria restrita, talvez, como boa parte da música produzida no século XX, à apreciação de um mais ou menos restrito círculo de iniciados.

  7. Aí eu dou inteira razão… Esses iniciados, aliás, são uns terminados, na minha opinião, porque é o fim da música. Que alguns formados em música, como Cage, façam seus protestos, suas graças e experiências com sons, tudo bem, mas eu questionarei a eles e a tudo mais que aconteceu nos últimos tempos. Acho que tem gente ouvindo a música das bactérias e não está se dando conta disso. Não vou generalizar completamente, porque esse mundo existe, está dentro de qualquer ralo e de qualquer intestino, mas já estamos no século XXI, chega disso, pode ser interessante junto de outras obras, para mostrar as diversas facetas do humano, não mais que isso. Talvez eu tenha deixado de ser músico por inibição diante desse quadro, adolescente que eu era…
    Pensei também sobre Shostakovich e acho que ele terá sido muito ferido, deve haver aspectos de sua biografia que desconhecemos. Ele tendia a emburrar e a intelectualizar, em lugar de reagir. Inseguro, hesitante, assustado com os olhos da paranoia, não tinha uma postura ativa e enérgica, como aconteceria com um ríspido alemão. Temos de dar um desconto ao fato de ele não ter se arriscado a ir em busca de outros públicos, ainda mais que sua música expressava tão bem o inconsciente coletivo daqueles que o aplaudiram de modo legendário na estréia da quinta sinfonia.

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