.: interlúdio :. Elizete Cardoso: Canção do amor demais (1958)

IM-PER-DÍ-VEL  !!!

Creio que nem precise apresentar longamente este disco, né? Os pequepianos certamente conhecem a importância histórica de Canção do amor demais. Então, provando mais uma vez que o PQP é cultura, abrimos uma janela para um disco histórico e necessário. O disco fundador da Bossa Nova é, infelizmente, coisa rara na discoteca de qualquer brasileiro. Este antológico LP traz pela pimeira vez Chega de Saudade, Serenata do AdeusLuciana, As Praias Desertas, Modinha e Outra Vez. O acompanhamento é feito em grande parte por um jovem baiano que tocava o violão de maneira original, inédita: o jovem João Gilberto. Sim, antes do primeiro LP de João Gilberto, Chega de Saudade, Tom, Vinícius e João Gilberto ensinavam Elizete Cardoso na

Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando prá Elizete as canções de canção do amor demais
Lembra que tempo feliz, ai que saudade, Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria este Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela e além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

Trecho da letra de Carta ao Tom, de Vinícius de Moraes

Abaixo o texto de Vinícius de Moraes da primeira edição do LP em abril de 1958:

Dois anos são passados desde que Antonio Carlos Jobim (Tom, se preferirem) e eu nos associamos para fazer os sambas de minha peça “Orfeu da Conceição”, de que restou um grande sucesso popular, “Se Todos Fossem Iguais a Você” e, sobretudo, uma grande amizade. É notório que parceiros se desentendem: e a história da música popular brasileira está cheia dessas brigas de comadres, provocadas geralmente por vaidades e ciumadas, por um não querer o seu nome em baixo do nome do outro, quando não por motivos mais deselegantes e mesquinhos. Mas no nosso caso, não só essa amizade como um profundo afinamento de sensibilidades para a música, que constitui, sem dúvida, nossa distração máxima, tem determinado que fazer sambas e canções seja para nós um ato extraordinariamente livre e gratuito, no sentido da fatalidade.

Este LP, que se deve ao ânimo de Irineu Garcia, é a maior prova que podemos dar da sinceridade dessa amizade e dessa parceria. A partir dos sambas de “Orfeu da Conceição”, raras têm sido as vezes em que, de um encontro meu com o maestro, não resulte alguma composição nova, por isso que eu creio ser essa a verdadeira linguagem da nossa relação. Ponha-se Antonio Carlos Jobim ao piano – e é difícil encontrá-lo longe de um – e em breve, de dois ou três acordes, nascerá entre nós um olhar de entendimento; e de seus comentários cifrados (“–Isto são as pedras, poeta!”; “–Os pequenos caracois listados debaixo das folhas secas…”; “– As grandes migrações corais…”; “–O outro lado do riacho…”; “–Chegamos à galaxia…”) eu terei sabido extrair exatamente o que ele me quer ouvir dizer em minha letra. E nunca houve entre nós quaisquer reservas no sentido de um tirar o outro de um impasse durante o trabalho. É possível mesmo que tudo isso se deva ao fato de que ele crê na poesia da música e eu creio na música da poesia. Porque a verdade é que eu gosto das letras que, eventualmente, Tom também escreve, como “As Praias Desertas”; e a prova de que ele considera as músicas que eu, vez por outra, também faço, está no carinho com que orquestrou a minha “Serenata do Adeus” e o meu “Medo de Amar” – todos neste LP.

Nem com este LP queremos provar nada, senão mostrar uma etapa do nosso caminho de amigos e parceiros no divertidíssimo labor de fazer sambas e canções, que são brasileiros mas sem nacionalismos exaltados, e dar alimento aos que gostam de cantar, que é coisa que ajuda a viver.

A graça e originalidade dos arranjos de Antonio Carlos Jobim não constituem mais novidade, para que eu volte a falar delas aqui. Mas gostaria de chamar a atenção para a crescente simplicidade e organicidade de suas melodias e harmonias, cada vez mais libertas da tendência um quanto mórbida e abstrata que tiveram um dia. O que mostra a inteligência de sua sensibilidade, atenta aos dilemas do seu tempo, e a construtividade do seu espírito, voltado para os valores permanentes na relação humana.

Não foi somente por amizade que Elizete Cardoso foi escolhida para cantar este LP. É claro que, por ela interpretado, ele nos acrescenta ainda mais, pois fica sendo a obra conjunta de três grandes amigos; gente que se quer bem para valer; gente que pode, em qualquer circunstância, contar um com o outro; gente, sobretudo, se danando para estrelismos e vaidades e glórias. Mas a diversidade dos sambas e canções exigia também uma voz particularmente afinada; de timbre popular brasileiro mas podendo respirar acima do puramente popular; com um registro amplo e natural nos graves e agudos e, principalmente, uma voz experiente, com a pungência dos que amaram e sofreram, crestada pela pátina da vida. E assim foi que a Divina impôs-se como a lua para uma noite de serenata.

Vinícius de Moraes

Rio, abril de 1958.

Elizete Cardoso: Canção do amor demais (1958)

Lado A

01 chega de saudade [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]
02 serenata do adeus [vinicius de moraes]
03 as praias desertas [antonio carlos jobim]
04 estrada branca [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]
05 luciana [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]
06 janelas abertas [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]

Lado B

07 eu nao existo sem voce [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]
08 outra vez [antonio carlos jobim]
09 medo de amar [vinicius de moraes]
10 caminho de pedra [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]
11 vida bela [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]
12 modinha [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]
13 cancao do amor demais [antonio carlos jobim, vinicius de moraes]

Voz: elizete cardoso
Arranjos, regência e piano: antonio carlos jobim
Violão: joão gilberto
Violino e arregimentador: irany pinto
Flauta: nicolino copia [copinha]
Trombones: gaúcho e maciel
Trompa: herbet
Contrabaixo: vidal
Bateria: juquinha
Sete violinos, duas violas e dois cellos não identificados

Coro em “chega de saudade”: joão gilberto, antonio carlos jobim e walter santos
Gravado no estúdio [três canais] da odeon, no rio de janeiro, em janeiro de 1958
Transcrição análogo/digital: golden slumbers studio [SP]
Masterização: sun trip, por albertho iessus [SP]
Produtor fonográfico: estúdio eldorado ltda
Gerência artística: murilo pontes
Produto licenciado por “selo festa de irineu garcia ltda”
Produção gráfica e digitalização de LP/CD: luiz katmandu

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Elizete Cardoso

PQP

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  1. Sensacional, PQP. Um clássico de nossa música, com certeza. Isso me lembra outro grande disco da Elizeth, bem mais recente, em que ela é acompanhada pelo excelente Raphael Rabello. Qualquer dia destes eu o posto aqui. Uma aula de interpretação.

  2. Quando penso que vocês prestam um belíssimo serviço pela nossa cultura, me surpreendem com pérolas como esta e me fazem não ter palavras para mais elogios. Resta, pois, o simples e sincero agradecimento, ora direcionado ao pai do blog: Obrigado! Obrigado, PQP!

  3. Elisete conseguia unir com primor a elegância e a dramaticidade naquela voz sublime!
    Não à toa, na recém lançada Coleção Grandes Vozes, da Folha, ela figura ao lado de outras vozes internacionais de alto quilate. A mulher era demais!

  4. ISSO! ESSE também é um clássico no sentido em que eu tenho falado aqui várias vezes – e um raro exemplo VOCAL. Todas as minhas postagens nesse sentido tinham sido instrumentais, e eu não lembrava de nenhum caso vocal. Taí.

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