Clóvis Pereira (1932): Grande Missa Nordestina [Acervo PQPBach] [link atualizado 2017]

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Clóvis Pereira, [hoje um respeitável e ilustre octogenário] iniciou seus estudos de música (teoria e solfejo) com seu pai, clarinetista da Banda Musical Nova Euterpe na sua cidade natal, Caruaru, PE. Em 1950 transferiu-se para o Recife onde estudou piano com o Prof. Manoel Augusto dos Santos no Conservatório Pernambucano de Música, ao mesmo tempo estudando harmonia, composição e orquestração com o maestro Guerra-Peixe. Com o Padre Jayme Diniz também realizou estudos de contraponto e harmonia pura, o que proporcionou a oportunidade de lecionar harmonia no III Curso Nacional de Música Sacra, promovido pela Universidade Federal de Pernambuco. Em 1967, a convite do Prof. Ariano Suassura, compôs sob encomenda as primeiras obras representativas do Movimento Armonial. O seu poema sinfônico “Lamento Brasileiro” tem lido executado por importantes orquestras sinfônicas do País, como Orquestra Sinfônica da Rádio MEC, Sinfônica de Porto Alegre e Orquestra Sinfônica do Recife.
Pesquisador de música brasileira popular e folclórica, por várias vezes citado em programas radiofônicos da Rádio MEC, sua pesquisa musical sobre a Banda de Pífanos foi publicada na Revista Brasileira de Folclore. Na música popular atuou como Diretor do Rádio e Televisão pernambucanos durante aproximadamente duas décadas. Suas obras da fase Armorial estão gravadas em discos comerciais e distribuídas em todo o País.
Clóvis Pereira é membro da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea (SBMC) com sede no Distrito Federal, onde participou, do I Encontro Nacional de Compositores de Música Erudita, tendo ainda o seu nome registrado na oitava edição da Enciclopédia Britânica “Who’s who in Music”.

A OBRA
A composição de uma Missa Nordestina surgiu da necessidade de valorizar elementos próprios da nossa música regional. A pesquisa incessante, aliada a uma vivência real e objetiva com a cultura do Nordeste, permitiram que esta obra retratasse o mais fielmente possível aquelas “Constâncias Brasileiras” a que se referia o grande Mario de Andrade.

KYRIE
O Kyrie tem uma estrutura melódica baseada nas escalas nordestinas usadas pelos violeiros e sua rítmica apoiada na “Dança dos Caboclinhos”.

GLÓRIA
O Glória explora a influência musical da península ibérica, importada nos tempos coloniais e que ainda hoje permanece na zona da mata sem sofrer influências da música urbana litorânea. Aqui em certos trechos os violinos são tratados na orquestração a maneira de tocar dos nossos rabequeiros.

CREDO
O Credo, logo na sua exposição, retrata a ambientação própria de uma “Cantiga de Cego”. São explorações nesta parte da obra vários elementos musicais comuns ao “Baião de Viola” e às “Bandas de Pífanos”.

SANCTUS
O Sanctus toma emprestado ao Kyrie a sua essência melódica e a transfigura harmônica e ritmicamente para manter a ambientação própria do momento litúrgico.

AGNUS DEI
O aboio dos vaqueiros nordestinos serviu de motivação para estruturar o Agnus Dei, onde o compositor emprega uma harmonia típica do Nordeste, tentando afastar propositadamente os modelos harmônicos estranhos à nossa cultura.

Sob os enfoques especificados acima, podemos dizer que a Missa Nordestina, possuindo todos os seus temas originais, é uma afirmação dos nossos propósitos para encontrar os caminhos de uma verdadeira música brasileira.
(texto extraído do encarte)

Ouça, ouça! Deleite-se!

Clóvis Pereira (1932)
Grande Missa Nordestina

1. Kyrie
2. Gloria
3. Credo
4. Sanctus/Benedictus
5. Agnus Dei

Carmela Mattoso, soprano
Alírio Melo, tenor
Orquestra e Coro da Universidade Federal da Paraíba
Clóvis Pereira, regente
Recife, 1979

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Maestro Clóvis Pereira, nossas reverências!

Bisnaga

17 comments / Add your comment below

  1. Raymundo Faoro em os Donos do Poder afirmara que a cristianização do Brasil, operada pelo rigor ascético da Companhia de Jesus, ansiou conter e neutralizar sob a autoridade de uma educação essencialmente romana a heterogeneidade cultural – negra, indígena e ibérica – que pulsava desde muito cedo neste solo. Os jesuítas, imbuídos de um senso de preservação de uma unidade cultural chancelada pela própria teologia, aqui fizeram o inverso do que fizeram na Ásia: repeliram o quanto puderam, na maior parte das vezes, a absorção de elementos simbólicos que remetessem à caótica e sincrética amálgama cultural popular. O Concílio de Trento, que desenhara um projeto eficaz para a defesa da fé católica em uma Europa devastada pelas guerras religiosas, não teve, contudo, o mesmo tato para a catequese de um mundo novo e original. Premidos nos dilemas da fé e da Reforma, os homens da Igreja não anteviram que sob a autoridade de seus educadores a imagem e identidade de uma nação seria marcada.

    Faltou à Igreja Tridentina a acuidade da inteligência de São Gregório Magno, o grande papa da Alta Idade Média, que, ao dirigir-se a Santo Agostinho da Cantuária, proponente e patrono da cristianização da Inglaterra, afirmou: “converta-os, mas aproveite (de sua cultura) o que puder”. Enquanto isto, Gregório e representantes do clero carolíngio talhavam em Roma um estilo musical litúrgico capaz de absorver e conciliar as tradições musicais religiosas da península italiana e da Gália. Nascia o canto gregoriano.

    Embora não tenha logrado sucesso completo no intento, a educação romana, amesquinhada pela beatice e provincianismo lusitano pós-União Ibérica, deixara uma uma cicatriz sem sutura, em aberto, na formação da identidade cultural brasileira: a cisão irreconciliável entre a elite política dominante e a comunidade de governados. A incomunicabilidade entre o tecido social primário da sociedade colonial brasileira e a disciplina culta quebrantou, inversamente o que o senso comum poderia sugerir, a solidez e o desenvolvimento da última. Não à toa que a dita “arte erudita” (odeio essa expressão, mas ela é a cara do estado em que a cultura brasileira se projetou) aqui produzida consistira em dar roupagens locais a formatos pré-moldados da vida cultural europeia.

    O que veio a se forjar como cultura brasileira culta reduziu-se a um coxear submisso à “arte de importação”, convalescente de uma anemia congênita, incapaz de irrigar-se da pulsante arte popular. Foi assim na literatura, foi assim na pintura, foi assim, sobretudo, na música. A ruptura, ainda precoce, não foi sucedida por uma geração que pudesse aprofundar a originalidade do modernismo brasileiro. Voltamos, de algum modo, a um estado de esmaecimento, catalisado pelo processo de “industrialização” da produção cultural nacional.

    Diante disso tudo, a missa do maestro Clovis Pereira é um alento, uma profilaxia tardia, acima de tudo, uma reconciliação. Faoro é cético quanto a possibilidade de refazimento da conexão entre o domínio cultural popular e a disciplina da arte culta. A raiz da sociedade brasileira fundou-se sobre uma acentuada tradição política elitista e oficialista. Não discordo dele. Algo se perdeu e não será recuperado. Restou-nos um mea culpa, um exotismo acrítico e plastificado, em que a elite ilustrada fatalmente celebra, entorpecida por doses razoáveis de um certo exotismo acrítico, a mercantilização do domínio cultural periférico, seja em um baile funk, seja em um desfile de escola de samba. Mas obras como as do Clovis Pereira parecem uma fugaz imagem do país que poderíamos ser, mas não somos.

    E depois de trazer-nos o melhor da “música universal” (que de universal não tem nada, é a melhor tradição da música europeia), abriram as portas para a nossa música, tão desconhecida de nós mesmos.

    Definitivamente- e não me canso de repetir – o trabalho que este blog faz à cultura brasileira é realmente inestimável. Imaginem quantos brasileiros, retidos na estreiteza do mercado cultural brasileiro, já devidamente loteado e administrado por um comissariado de burocratas cinzentos, não se deslumbraram com esse universo encaixotado em provedores de hospedagem, de confiabilidade questionável, um toque de tensão que dá cor ao gigantismo da aventura aqui empreendida.

    Mas quando se trata de insuflar a vida de beleza, nem os infortúnios da missão parece razão para desânimo. Pelo menos assim penso e por vocês assim também rogo.

    Então só me resta, depois disso tudo, dizer o óbvio: parabéns, parabéns, parabéns…

    1. Eu queria que as discussões aqui chegassem nesse grau de aprofundamento. Seria por demais enriquecedor para todos nós.
      Fernando, continue sempre nos dando seus maravilhosos comentários!

      Um abração

  2. Olá, Bisnaga,
    parabéns por este maravilhoso espaço e pelas riquíssimas contribuições.
    Tentei fazer o download, mas não fui possível. O material não está mais disponível?
    Grata.

  3. Excelente postagem! Fui procurar na categoria “Música Armorial” e me deparei com um link de 2008 do RapidShare. Quase chorei.

    Daí fui procurar no Google e eis que volto pro blog. 🙂

    E em tempo. Muuuuitíssimo obrigado por esse blog. É a primeira vez que comento, mas já faz uns anos que me deleito por aqui.

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