Muito obrigado pelo belíssimo comentário

mpCaro (a) mantenedor (a) do PQP Bach

Abaixo vai meu agradecimento por manter esse blog. Agradecimento em forma da história da música em minha vida.

Estimulado a ler, me lembro de ir, ainda garotinho, década de 70, ir com minha mãe à livraria comprar um livrinho de “estória”, eu lia tudo que aparecia: mesmo que não entendesse o que significava, ainda assim eu lia; com uns 6 ou 7 anos eu me lembro de ler os cadernos do meu tio que estava no “ginásio”, em particular lembro-me de ter lido um trabalho sobre “fósseis”, a ilustração era feita à mão livre usando canetas BIC nas cores azul, vermelho e verde.

A música tinha reprodução difícil e só havia LP’s com custo alto e eu não tinha acesso livre a eles. Ganhei um toca-discos verde, portátil, da Sonata, com alguns disquinhos coloridos de “estória” infantil, mas eu queria escutar aqueles discos pretos que não me deixavam colocar as mãos; aqueles eram discos de MPB de época, Fado e congêneres, hoje sei que de “clássicos” nada havia. E assim a música ficou meio que latente, suprimida mesmo, em mim.

Não sei onde escutei, imagino que na televisão, uma música “mágica”, que me encantou de um jeito que seus acordes não me saiam da cabeça. Lembro de cantarolar o um pequeno trecho dessa música linda, em uma língua da qual nada entendia, e dela não sabia nem o nome. Essa música era tão intensa, rica em sons que expandiam em minha mente, eu me sentia tão bem quando lembrava dela, e eu tinha sede de escutá-la novamente: recordo-me de ter cantarolado para algumas pessoas o único trechinho que eu sabia, na esperança de alguém me dizer o nome, mas não tive êxito. A única palavra mais clara que “saia” no cantarolar era “Aleluia”, e pelo ritmo, ninguém soube me dizer. Nessa época eu tinha entre 7 e 8 anos pois recordo-me de ter feito a Primeira Comunhão sem dela nada saber. Cheguei a perguntar à professora de Catecismo, mas ela disse não saber do eu falava. Se a palavra central era “Aleluia” imaginei que alguém na Igreja me diria que de se tratava, mas os esforços foram em vão. Na época já havia fitas K7, mas eu não tinha nem toca fitas em casa.

Quando eu tinha 12 anos de idade, era 1985, assisti na TV um filme chamado “O enigma da Pirâmide” e, em uma certa cena do filme, uma música “toucou” e eu fiquei abalado. O que era aquilo? Que música era aquela que jamais houvera escutado, mas que me causava tanta emoção?! Ninguém soube me dizer nada sobre aquele som.

Tudo que eu sabia daquelas duas músicas era que provavelmente aquilo era “música clássica” e nada mais, até que em 1995 a revista Caras lançou uma coletânea de música clássica em CD’s, e eu mesmo sem ter um “toca CD’s” comprava as revistas só pra poder conseguir os CD’s onde poderia estar o que eu tanto procurava. Quando um bom tempo depois comprei um aparelho para escutar os CD’s, finalmente descobri qual era aquela primeira música que me encantou, era o Coro de Aleluia, do Messias, de Handel. Chorei como uma criança ao escutar aquela música que houvera habitado em minha lembrança por tantos anos. Escutei aquilo por dezenas de vezes. Descobri que havia sutis diferenças na mesma peça se tocada por diferentes orquestras; é que “Aleluia” veio gravada nos CD’s 2 e 8 da coletânea Caras: sob a direção de Von Cammus pela Orquestra da Rádio de Berlim e pela orquestra de Praga, por Randell Gork-Choken.

Reconheci algumas outras coisas das quais não sabia o nome como a “Privavera” de Vivaldi, “Danúbio Azul” de Strauss, “chegada dos convidados” e “Cavalgada das Valquírias” de Wagner e a “Dança Germânica op33” de Schubert, entre outras coisas. Só tempos depois fui me dando conta que eu “re”conhecia aqueles sons por eu, em busca das canções da infância, ter passado a prestar atenção em trilhas sonoras de filmes e tudo mais que aparecia na TV, única fonte de informação na época. Em 1999 uma loja de CD’s, do interior de MG onde morava, fez uma “banca de ofertas” daquilo que estava “encalhado” e eu comprei da Deutsche Grammophon um CD do Ravel com seu fabuloso “Bolero”.

Mas, só em 2001 quando tive acesso à internet, eu consegui descobrir a segunda música da infância; aquela do filme “o enigma da pirâmide”, e aquela música mágica era parte de uma obra maior que me inebriou e que tornou-se um “amor”. A música do filme era um trecho de “O fortuna” de Carmina Burana, do Orff. Procurei a história da obra e descobri que a origem dessa obra de Orff eram os manuscritos medievais: e, quando conheci as músicas antigas e medievais eu me apaixonei de modo febril e crônico e, desde então, não parei mais de baixar músicas. E, quando em 2004 consegui entrar pra universidade, o conhecimento de história, sociologia e tudo mais adquirido de modo intuitivo na internet foi tomando forma através de um estudo mais sistematizado me abriu definitivamente os sentidos para uma face do mundo que eu só imaginava existir.

Escrevi esse relato como uma forma de dizer que a pessoa que mantém esse blog presta um grande serviço à humanidade e aos “espíritos” que nela habitam na forma de pessoas que, apesar de não terem tido esse conhecimento posto em seu processo educacional, ainda assim, têm a chance de conhecer obras fabulosas como as aqui postadas.

Att
Renato Scortegagne

15 comments / Add your comment below

  1. Caramba, Renato, ou você cantava a música fora do tom ou o pessoal dessa igreja era morto mesmo. Como é que alguém que trabalha numa igreja católica pode não conhecer o coro de Aleluia?!

  2. Pensei que ia ouvir algo sobre o Concerto #1 para piano e orquestra de Tchaikovsky! Acho que foi o primeiro LP clássico em minha pequena vitrola Philips portátil, onde também giravam uns discos com maçãs no selo.

    É isso aí, Renato, com a música a gente descobre o mundo e a si próprio, tudo o que a filosofia busca e preconiza desde sempre, mas de modo bem mais suave e significativo.

    Quanto ao PQP, um dia haverá uma escultura pública a ele dedicada.

  3. Esse relato tem mesmo que estar em “Tão chato ser gostoso”. Acho que a grande maioria que frequenta o blog tem uma experiência parecida, eu incluída nisso e na mesma faixa etária. É realmente uma delícia para quem naqueles tempos tinha tanta dificuldade de encontrar informações e conhecer essa boa música poder agora cair de boca nessas gulodices gentilmente oferecidas aqui.

  4. Renato, não sei se você já ouviu o Messiah com New York Philharmonic Orchestra; Leonard Bernstein reg; Adele Addison, soprano;
    Russell Oberlin, contratenor; David Lloyd, tenor; William Warfield, baritono & Westminster Choir, com John Finley Williamson, diretor.
    Bernstein se deu alguma liberdade e, como bom judeu, trocou o Aleluia de lugar. Em vez de colocar na Ressureição colocou no Nascimento.
    Afinal é o nascimento do Messias que deslumbra um Judeu…
    Acrescento que tenho 64 anos e já me percebo “filtrando” emoções e encantamentos.
    E isto já “atravessou o filtro”!.

    Baseado na Bíblia Anglicana do Rei James(1611), o Messiah de Haendel cativou os católicos, os critãos ortodoxos, os protestantes em geral e, com Bernstein, pôde se aproximar dos judeus (aos não ortodóxos pelomenos)
    Há uma lenda inglesa que conta que o rei George II se colocou de pé repentinamente ao ouvir, pela priemira vez, os primeiros acordes do Alelúia, obrigando todos a se levantarem
    Se não ouviu, ouça inteiro! Se ouviu ouça outras vezes
    http://www.youtube.com/watch?v=RQ1LMJuQ2IQ Parte 1
    http://www.youtube.com/watch?v=OFGzAH7UhVM Parte 2

  5. Renato, É para isso mesmo o esforço libertário, e quase anarquista, dos Blogs. Graças a eles ao Torrent e ao YouTube a música – e muitas outras informações vitais – chegaram onde nunca se imaginou que chegassem.
    Não sei se você já ouviu o Messiah com New York Philharmonic Orchestra; Leonard Bernstein reg; Adele Addison, soprano;
    Russell Oberlin, contratenor; David Lloyd, tenor; William Warfield, barítono & Westminster Choir, com John Finley Williamson, diretor.
    Bernstein se deu alguma liberdade e, como bom judeu, trocou o Aleluia de lugar. Em vez de colocar na Ressurreição colocou no Nascimento.
    Afinal é o nascimento do Messias que deslumbra um Judeu…
    Acrescento que tenho 64 anos e já me percebo “filtrando” emoções e encantamentos.
    E isto já “atravessou o filtro”!.

    Baseado na Bíblia Anglicana do Rei James(1611), o Messiah de Haendel cativou os católicos, os cristãos ortodoxos, os protestantes em geral e, com Bernstein, pôde se aproximar dos judeus (aos não ortodoxos pelomenos)
    Há uma lenda inglesa que conta que o rei George II se colocou de pé repentinamente ao ouvir, pela primeira vez, os primeiros acordes do Aleluia, obrigando todos a se levantarem
    Se não ouviu, ouça inteiro! Se ouviu, ouça outras vezes
    http://www.youtube.com/watch?v=RQ1LMJuQ2IQ Parte 1
    http://www.youtube.com/watch?v=OFGzAH7UhVM Parte 2

  6. Peço muitas desculpas pela repetição do comentário. Não tive intenção.
    Quando me dei conta fique torcendo para o Admin cortar o excesso.

  7. Renato, desde Montevideo, Uruguay, gracias por ese relato !!! Y gracias por la gratitud y gracias a PQP y todo su trabajo incansable!
    Aunque en la infancia y la adolescencia tuve un mayor encuentro con la música “clásica”, este maravilloso sitio me ha dado la posibilidad de acceder a trabajos de los que sólo sabía el nombre o poca cosa más – como la obra completa de Varèse, por ejemplo -.
    Y cuántos que no conocía!
    Gracias, sin más vueltas, Muchas Gracias!!!

  8. Renato,
    sua história é um pouco a história dos frequentadores desse blog. Meus primeiros contatos com a música erudita foi através de áreas de Verdi cantadas por meu pai, minha irmã e meu tio em casa, quando tinha algum jantar festivo. Todos muito pobres, meu pai ferreiro, meu tio agricultor, mas herdeiros da cultura italiana. Depois ouvi muita música nas rádios de Buenos Aires e Montevideu, não ‘so tangos, mas clássicos também. Tudo isto misturado com a Música caipira do interior paulista, isto no tempo que a música caipira tinha Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Torres e Florêncio etc. O primeiro disco clássico que comprei foi um Chopin, executado por polini. Fiquei tão faceiro com a proeza que acabei esquecendo o disco numa banca de verduras do Mercado Municipal e Porto Alegre, daquelas da rua. Quando me dei conta, uns 20 minutos depois voltei e o LP ainda estava lá sobre tomates e berijelas. Depois disso nunca mais parei. E hoje com a internet e principalmente o PQP BACH e o Branle de Champagne tenho feito a festa, e claro, indicado para muita gente Longa vida e estes blogs fundamentais!!!

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