.: interlúdio :. Baden Powell (1937-2000) e Vinicius de Moraes (1913-1980): os Afro-Sambas em 5 versões integrais – revalidado em homenagem ao centenário do poeta

A primeira versão desta postagem se deu em

#34 hair applied very in your product http://www.geneticfairness.org/ water using price dog.

10/11/2010, durante os 40 dias que o monge Ranulfus viveu em Salvador, e incluía apenas a 2ª e 3ª das realizações dos Afro-Sambas apresentadas agora. Em 13/05/2011 veio a segunda versão, enriquecida com mais três realizações, inclusive a primeira de todas, cantada pelo próprio Vinicius de Moraes em 1966.

E o conjunto todo volta a cena hoje, 19/10/2013, centenário de nascimento de Vinicius de Moraes – o que, os senhores hão de convir, não é pouca razão, não é mesmo?

Por razões afetivas, o monge optou por reproduzir logo adiante o texto produzido em Salvador em 2010, antecedido apenas de umas rápidas observações sobre as três versões acrescentadas posteriormente,

… antes de mais nada, a primeira gravação, de 1966, com o próprio Vinicius de Moraes no vocal solo, e preciosos arranjos instrumentais de Guerra Peixe. Na nossa modesta opinião, Vinicius se sai surpreendentemente bem: ao contrário de Baden na versão de 1990, jamais desafina – mas para “compensar”, infelizmente o back vocal desafina sistematicamente, do começo ao fim. Pena, pois é uma versão encantadora! É bom notar que contém só 8 faixas; foi na versão de 1990 que Baden incluiu mais dois Afro-Sambas – creio que já integrantes da produção original, apenas não gravados na ocasião – mais uma impressionante introdução instrumental.

A quarta versão, lançada pela Deutsche Grammophon (!) em 2003, é a da baiana Virgínia Rodrigues, descoberta por Caetano Veloso nos anos 90. Dona de um belíssimo vozeirão negro de tessitura grave, às vezes acho que Virgínia compartilha um pouco com Mônica Salmaso aquela famosa questão da interpretação meio plana, igual demais (observação que tantas pedradas já me rendeu). Um pouco. Pois no fundo ela sabe muito mais do que é que está falando… Além disso, achei os belíssimos os arranjos instrumentais e de vozes, onde há. Detalhe: este CD atinge 12 faixas pela inclusão do samba Lapinha, que eu nunca havia visto antes relacionado aos Afro-Sambas – mas, enfim, já o seu título não é Afro-Sambas e sim “Mares Profundos”.

Já a quinta, de 2008, parte para uma formação supostamente mais “clássica”: o coro a vozes. O pessoal do Coral UNIFESP (da Universidade Federal de São Paulo) convidou nada menos que sete arranjadores, alguns que chegaram a resultados belíssimos, outros bons porém mais dentro do já convencional em termos de coralização da MPB. O trabalho é perfeito em termos de afinação, precisão… mas, engraçado, não sinto que essa música ganhe mais “classicidade” por isso. Para ser honesto, sinto que os Afro-Sambas são mais grande música que nunca justo nas duas gravações iniciais, com a participação de Baden, apesar de todos os desafinos. Ainda assim, este CD do Coral UNIFESP é um trabalho que ouço com frequência e prazer, e não deixo de recomendar que vocês baixem e ouçam!

E AGORA O TEXTO ORIGINAL DA POSTAGEM:
De repente o monge Ranulfus se encontra na muy barroca & ainda mais africana cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Querendo fazer uma postagem que de um modo ou de outro tivesse relação com esse fato, lembrou imediatamente dos Afro Sambas – só que… paradoxo: essas peças que fazem inevitavelmente pensar em Bahia foram compostas por um fluminense (BADEN POWELL de Aquino, 1937-2000) e um carioca (Marcus VINICIUS DE Mello MORAES, 1913-1980).

E daí? Tem a ver, sim, com o universo imaginário e estético afrobrasileiro que tem em Salvador sua capital – e sobretudo é música da grande, não tenho dúvida que da mais importante já composta no Brasil. Não segue os procedimentos construtivos do ‘clássico’ de origem europeia? Não parei para analisar e, sinceramente, pouco se me dá: seja como for, não vejo nem ouço razões para não entendê-los como um ciclo de lieder, tanto quanto os de, digamos, Schubert ou Brahms.

Os lieder em questão foram lançados em disco em 1966, com o tremendo violonista que era Baden, e na voz o poeta Vinicius, que definitivamente não era cantor. Não sei se é verdade ou folclore, mas em seus livros de história da bossa nova o jornalista Ruy Castro sacramenta a história de que em 1962 os dois se haveriam trancado em um apartamento por um três meses com várias caixas de cachaça, e saído de lá com 25 obras primas, mas cada um para uma diferente clínica de desintoxicação…

Embora várias das peças tenham se tornado standards em vozes como a de Elis Regina, o conceito do ciclo ficou esquecido por muito tempo. Três décadas depois (1995) o violonista Paulo Belinatti se juntou à recém-surgida cantora Mônica Salmaso, e fizeram a gravação de que muitos podem dizer: “essa é clássica”: virtuosismo instrumental constante, voz cristalina pairando límpida sobre isso o tempo todo… mas… sim, é uma gravação notável, porém… honestamente, não sinto que tenha alma. A voz límpida de Salmaso me parece atravessar tudo com a indiferença de uma beldade gélida e morta. Tudo igual, igual, igual.

Por outro lado o próprio Baden – que viveu a maior parte da vida na Europa, inquestionado como um mestre maior do seu instrumento – já havia feito uma segunda gravação integral em 1990, com o Quarteto em Cy e mais alguns instrumentistas. Esquisitíssima por outras razões: Baden também não era cantor. Tem momentos em que sustenta uma nota longa a quase meio tom de distância de onde deveria estar… e, no entanto, é artista até o fundo dos ossos e com essa mesma nota desafinada me faz correr lágrimas contínuas – não porque esteja doendo no ouvido, mas de beleza pura mesmo. Estado de graça. Vá-se entender!!

Em resumo: a gravação Belinatti-Salmaso é tecnicamente a melhor, mas sinto a do próprio Baden como musicalmente muito superior – seja lá o que queira dizer esse “musicalmente”. Mas talvez nem todos concordem – e por isso mesmo vão aí as duas versões. Bom proveito!

Baden Powell e Vinicius de Moraes: OS AFRO-SAMBAS – em 5 versões integrais
As listagens de faixas e fichas técnicas se encontram em suas respectivas pastas.

1. Versão original com Vinicius e Baden (1966)
com arranjos corais e instrumentais e regência de Guerra Peixe
2. Versão de Baden Powell (1990)
com Quarteto em Cy, Paulo Guimarães, Ernesto Gonçalves e outros (1990)
3. Versão de Paulo Belinatti e Mônica Salmaso (1995)
4. Versão de Virgínia Rodrigues (2003) (“Mares Profundos”)
5. Versão do Coral UNIFESP (2008)

.  .  .  .  .  .  .  Baixe aqui / download here

Ranulfus

24 comments / Add your comment below

  1. Grande post, Ranulfus. Mas explica uma coisa pra mim, que sou leiguíssimo em música popular: você se refere a um “conceito de ciclo”, mas as gravações apresentam as canções em ordem diferente. Como isso funciona?

    Sobre “cantores”: a música popular tem tal caráter de comunhão e culto pessoal que prescinde de excelência técnica. Sempre digo que a maior parte dos músicos famosos tiraria notas bastante baixas no Videokê da Gradiente. 🙂

  2. Eu não gostava do violão brasileiro,
    sei la, me soava mt sincopado, mt dissonante …
    Até começar a tocar porque é obrigatório tocar um compositor brazuka por semestre la no conservatório de tatui
    Hj não sei como consegui viver sem A Música Brasileira
    Canhoto, Dilermando, Marco Pereira, Belinatti, dentre outros!
    excelente postagem esta!
    estou na expectativo pro termino do download!
    abraços!

  3. Obrigado pelo comentário em cima do lance, José Eduardo… Quanto ao conceito de ciclo… bom EU NÃO SEI de onde saiu que essa mudança de ordem. Tendo a crer mais na ordem do próprio Baden que na de Belinatti-Salmaso – inclusive porque termina de certa forma “pra baixo”; e não duvido que o Belinatti tenha optado por terminar com uma peça de mais efeito para apresentações…

    Seja como for, mesmo se não um ciclo numa ordem fechada, nos dois casos se vê que foram pensados em conjunto. Acho…

  4. Venho protestar em favor de Mônica Salmaso. Não quero cair na armadilha de dizer que quem não gosta do que eu gosto é porque não entende nada de música, mas acho que você talvez esteja um pouco intoxicado de intérpretes superexpressivos. Já virou lugar-comum dizer que a Mônica é tecnicamente perfeita, mas não tem alma. Discordo.
    Ela canta com muita discrição, sem vícios de cantor popular, sem vícios de cantor lírico e com toda a elegância que deus lhe deu.
    Confundir essa elegância com falta de musicalidade é um pecado. Reze cinco ave marias e três pai nossos.
    O que você pode, sim, e com todo o direito, é dizer que essa forma de cantar não apela a você.

  5. já baixei muuuita coisa aqui e nunca tinha comentado.
    devo confessar que este post me surpreendeu. Não se trata de uma obrá clássica, nem nos moldes “eruditos”. E daí?

    A musicalidade é impressionante. é extremamente prazeroso ouvir. Toco violão de longa data e acho impressionante a sensibilidade musical do baden. é além do normal, e apesar de claramente não seguir os moldes clássicos, tudo se encaixa perfeitamente. e isso não é para qualquer um, só pra quem pode.

    Dica:
    obra do grande bach(vale a pena ver):
    http://www.youtube.com/watch?v=FblT70DCgqs

  6. Grande som. Acompanho tudo de erudito por aqui, e fico maravilhado quando vejo post de jazz ou popular brazuca. Minha formação de ouvinte é a Música brasileira, mas últimamente tenho só ouvido erudito ou instrumental. Então é bacana ver num site onde quase tudo pra mim é diferente, discos que me são familiares. Os afro sambas são incríveis. Vi o Baden numa apresentação em Brasília, acho que um anos antes de morrer (1999 talvez?). O show era num restaurante-bar mineiro, pra ter uma idéia, o Baden tinha se convertido, era crente, e não cantava os afro por questões religiosas, nem cantava as letras com sacanagens do Vinícius de Morais, ou seja, 90% da sua obra não podia cantar. Mas foi incrível ver este cara tocando violão!
    Tenho uma versão dos afro com Baden e Vinícius, acho que esta é a primeira versão a original. Muito legal tbm.
    E já que uns jogam pedra e outros (maioria) elogiam os interlúdios brazucas e jazzisticos, sou muito a favor de um espaço pra música instrumental, jazz, brasileira, de qualquer parte… neste PQP.abraços!

  7. Olá pessoal,
    Gostaria de fazer algumas colocações com relação a esse post.
    Os afrosambas do Baden são realmente um “clássico”,além desse disco do Paulo Bellinati há um outro chamado Afrosambajazz ( Phillipe Baden-Powel e Mário Adnet), com uma roupagem bem jazzistica.
    Quanto a Monica Salmaso, ela certamente não é uma diva ou uma dessas estrelas pré-fabricadas de última hora como muitas que há por ai.Mais se observarmos como ela canta junto com a OSESP,grupo Pau Brasil,Orquestra Popular de Câmara,etc.É bom parar e pensar porquê ela é uma das melhores cantoras surgidas na nossa música brasileira.
    E como disse acima o Rafael “Ela canta com muita discrição, sem vícios de cantor popular, sem vícios de cantor lírico e com toda a elegância que deus lhe deu.”.
    Abraços.
    Link interessante da Monica cantando :
    http://www.youtube.com/watch?v=Bkw1aL0_OO0&feature=related
    http://www.youtube.com/watch?v=3zqQeAyZMIw
    http://www.youtube.com/watch?v=Yl3Xih9eAks&feature=related
    http://www.youtube.com/watch?v=-r0aP7IHqVg&feature=related
    sds.

  8. Grande informação, J! Essa eu não sabia, obrigado. (E… hmmm, peraí, o nome do Guerra Peixe era César mesmo? Engraçado que não lembro outro nome agora, mas também não lembro que fosse César… Ou será outro Guerra Peixe?)

  9. Excelentes gravações, mas fico com Belinatti / Salmaso. Na minha opnião, todo o esmero técnico trabalha a favor da musicalidade. Aliás é chover no molhado falar da qualidade da Mônica e do Paulo. Para mim, ele é o violonista “popular” que melhor trata a sonoridade do instrumento, e seus arranjos são sofisticadíssimos, assim como a interpretação da Mônica. E outra coisa, ela sempre está muito bem acompanhada, em todos os CD’s.

  10. Uma das melhores postagens já feitas aqui no PQPBach. Reconheço minha ignorância no assunto, mas para isso temos à disposição a erudição do monge Ranulfus, cujas postagens infelizmente são poucas, porém de excelente qualidade. Isso me lembra que tenho em algum um lugar um disco do Belinatti tocando Garoto. Se eu achar, vou postar, pois também é um álbum magnífico.

  11. Ah, não exageremos, né, colega… Claro, acredito na minha postagem, mas… falar de “melhores” no PQPBach é quase impossível. Tem coisa boa DEMAAAAAIS por aqui :D:D:D

  12. Não é por eu ter nascido aqui no Rio, mas a musicalidade do carioca é impressionante.
    Sugiro a postagem de outros clássicos da Bossa Nova, para o deleite dos ouvintes e usuários do blog.

    E obrigado pela postagem, pois só tinha a versão clássica do Baden e Vinícius.

  13. Excelente.

    Falando em Guerra Peixe:

    Ranulfus, o “backing vocal” da versão de 1966 “desafina sistematicamente” porque era um coro amador. A intenção de Guerra Peixe era justamente criar o clima de um terreiro de candomblé, é pra soar autêntico mesmo. Se isso é bom ou ruim eu não me arrisco a dizer, mas é intencional.

  14. Obrigado pela informação, EresGardel! Entendo a proposta, mas tenho minhas dúvidas que o Guerra Peixe tenha conseguido atingir artificialmente o grau de naturalidade pretendido… o que é de fato um dos píncaros da realização artística: “errar” intencionalmente de modo convincente.

    Por outro lado, quanto mais ouço a versão da Virgínia Rodrigues, mais ela me convence; ontem uma amiga iniciada no candomblé se declarou impressionada ao ouvir essa versão pela primeira vez; já conhecia muitas das dezenas, se não centenas de gravações desta ou daquela peça do conjunto, mas disse que em nenhuma havia sentido de verdade o caráter de canto sacro, de oração que sentiu nestas. Também os arranjos instrumentais me convencem cada dia mais. Estou sem o encarte, mas parecem bastante carregar a marca do Jacques Morelembaum, que participa do projeto; observo que às vezes os arranjos dele me irritam, acho desnecessariamente violinosos… mas aqui, sendo dele ou não, estão me parecendo fantásticos.

    Finalmente, Beto: acabam de me passar um link do YouTube que contém um LP inteiro do jazzista Lalo Schifrin explorando a Bossa Nova nos anos 60, desconfio que, se ainda não conhece, você vai gostar: http://www.youtube.com/watch?v=PoIoewwgaow

Deixe uma resposta