Alma Latina 01/13 – Música para a catequese indígena

Série de 13 programas semanais idealizados e apresentados por Paulo Castagna às terças-feiras das 11:00 às 12:00 da manhã, de 6 de março a 29 de maio de 2012, pela Rádio Cultura FM de São Paulo (103,3 MHz), como parte do projeto Idéias Musicais. Programas disponíveis para audição online e download, na página http://paulocastagna.com/alma-latina/

Programa 01/13 – Música para a catequese indígena
(apresentado em 6 de março de 2012)

Olá! Sou Paulo Castagna e, nesta série, ouviremos música produzida nas Américas durante a fase de domínio europeu, do descobrimento até inícios do século XIX.

Sobre esse tema, normalmente temos muitas perguntas: Existiram compositores americanos na época de Palestrina, Vivaldi ou Mozart? Como foi a relação entre a música indígena ou africana e a música européia? É mesmo verdade que músicos indígenas cantaram, tocaram e até compuseram música sacra ao estilo europeu? E é verdade que usaram instrumentos construídos por eles próprios, em pleno século XVIII?

Nos 13 programas desta série tentaremos responder algumas dessas perguntas e formular outras, que talvez nos estimulem a conhecer um pouco mais do nosso interessante passado musical.

No programa de hoje: Música para a catequese indígena.

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Ouvimos Dú nhãre, um canto dos Índios Xavante, que são uma das duas mil nações indígenas que existiam somente no Brasil antes do descobrimento.

Quando espanhóis e portugueses iniciaram a exploração das Américas, precisaram converter os povos indígenas ao projeto europeu e logo perceberam que a preservação de sua cultura não os ajudaria muito nessa tarefa, iniciando, assim, a transmissão e o ensino da cultura européia aos nativos da América. Boa parte desse trabalho foi realizada pelos missionários religiosos, principalmente aqueles da Companhia de Jesus. Também chamados de jesuítas, esses missionários criaram aldeias e missões, para a catequese e conversão dos indígenas ao cristianismo.

Durante o processo de catequese, foi comum os próprios jesuítas escreverem música em estilo europeu para a transmissão dos valores religiosos básicos, e assim substituir a música indígena tradicional pela música sacra cristã. Um detalhe importante: a maior parte das canções destinadas à catequese era composta à maneira européia, porém na língua dos próprios indígenas. Vamos ouvir três exemplos de autoria anônima, compostos para a catequese dos índios Guarani da América do Sul, entre o final do século XVII e o início do século XVIII, com o Ensemble Louis Berger, sob a direção de Ricardo Massun. Os exemplos, cantados em guarani, são Tupãsy Maria, Tatá guassú e Hára Vale Háva.

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Ouvimos Tupãsy Maria, Tatá guassú e Hára Vale Háva, três cantos de autoria anônima em Guarani, com o Ensemble Louis Berger, sob a direção de Ricardo Massun.

A música para catequese tinha como primeira finalidade a atração dos índios para a cultura européia, especialmente o cristianismo. Nesse repertório evitava-se a dificuldade técnica e privilegiava-se o canto coletivo, especialmente de crianças, que aprendiam mais facilmente que os adultos os novos valores religiosos.

Exemplo interessante é o das canções compostas no século XVIII para os índios araucanos do atual Chile, pelo jesuíta Bernhard Von Havestadt. Ouviremos três dessas canções em língua araucana, com o Sintagma Musicum da Universidade de Santiago do Chile e o Coro infantil da Comunidade Huilliche de Chiloé. Os exemplos são: Yesús Cad, Dios Ñi VotmQuiñe Dios.

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Ouvimos Yesús Cad, Dios Ñi VotmQuiñe Dios, três composições do século XVIII em língua araucana, pelo jesuíta Bernhard Von Havestadt, com o Sintagma Musicum da Universidade de Santiago do Chile e o Coro infantil da Comunidade Huilliche de Chiloé.

Embora predomine a melodia acompanhada no repertório catequético, também são conhecidos alguns exemplos polifônicos. O mais antigo deles, de autoria anônima, foi impresso em Cuzco, no Peru, em 1631, como exemplo musical de um livro intitulado Ritual Formulário, de Juan Pérez Bocanegra. Trata-se de Hanaq Patchap cussicuinin, em língua quétchua, que ouviremos com os Madrigalistas da Universidade de Playa Ancha do Chile, sob a direção de Alberto Teichelmann.

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Ouvimos Hanaq Patchap cussicuinin, composição em língua quétchua, de autoria anônima do século XVII, com os Madrigalistas da Universidade de Playa Ancha do Chile, sob a direção de Alberto Teichelmann.

Das missões jesuíticas da atual Bolívia, ouviremos agora uma composição de autoria anônima intitulada Zoipaqui, escrita em meados do século XVIII na língua dos índios Chiquitos. A refinada elaboração do acompanhamento desta melodia, cuja forma é a das árias das cantatas européias, pode ter sido mais um dos atrativos destinados a cativar a atenção dos indígenas para a cultura cristã. A interpretação de Zoipaqui estará a cargo do Ensemble Elyma, sob a direção de Gabriel Garrido. Interessante observar que o autor manteve, no texto chiquitano, o nome latino “Santa Maria”.

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Ouvimos Zoipaqui, ária em chiquitano de autoria anônima, com o Ensemble Elyma, sob a direção de Gabriel Garrido.

Além das canções em línguas nativas para a catequese cristã, foram compostas peças mais elaboradas, para um envolvimento indígena cada vez maior com o ritual cristão, o que também incluía o uso do latim e da polifonia vocal. Em alguns casos houve mistura do latim com idiomas indígenas, como ocorre em um Ofício para a Bênção do Santíssimo Sacramento escrito em fins do século XVII ou inícios do século XVIII para os índios Abenaki da Nova França, que corresponde ao atual Quebec. Deste Ofício, cantado em latim e Abenaki, ouviremos quatro composições com o Studio de Musique Anciènne de Montreal, sob a direção de Christopher Jackson: O Jesu mi dulcis, Ave Maria, Hæc dies, e Inviolata.

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Ouvimos O Jesu mi dulcis, Ave Maria, Hæc dies, e Inviolata, em latim e Abenaki, de autoria anônima, com o Studio de Musique Anciènne de Montreal, sob a direção de Christopher Jackson.

Além da música para a catequese em idiomas indígenas, os jesuítas treinaram os nativos americanos para o canto de música litúrgica em missas e ofícios divinos, destinada, portanto, à celebração das cerimônias cristãs. A documentação conhecida demonstra que isso já era feito no século XVI, porém os exemplos mais antigos preservados são do final do século XVII. É o caso deste Salmo 112 para Vésperas Laudate pueri Dominum, de autoria anônima, escrito em latim e provavelmente cantado e tocado pelos índios Guarani das missões do atual Paraguai. Ouviremos esta composição com o Ensemble Elyma, sob a direção de Gabriel Garrido.

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Ouvimos, de autoria anônima, o Salmo 112 Laudate pueri Dominum, cantado nas missões jesuíticas provavelmente do atual Paraguai no final do século XVII, aqui interpretado pelo Ensemble Elyma, sob a direção de Gabriel Garrido.

Diante dos exemplos ouvidos, fica claro que a música usada pelos missionários visava a transmissão da cultura musical européia e não a criação de um estilo americano próprio. Em uma Encíclica de 1749, o então papa Bento XIV declarou: “o uso do canto harmônico e dos instrumentos musicais, seja nas Missas, Vésperas e outras funções eclesiásticas, foi tão longe que chegou até a região do Paraguai”. E mais adiante afirma que “não existe qualquer diferença em relação ao canto e ao som, nas Missas e Vésperas celebradas em nossas regiões e naquelas”.

Sobreviveram poucas dentre as nações indígenas que receberam a catequese. Uma delas é a nação Guarani, cuja música atual possui nítidas marcas da música européia, que estes assimilaram desde a fase de catequese. Interessante, na música Guarani, é que tais marcas são predominantemente originárias da música antiga européia e não da música mais recente. Como exemplo, ouviremos Nhanerámoti karai poty, cantado por índios Guarani do litoral do Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro e acompanhado por violão e rabeca guarani.

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Ouvimos Nhanerámoti karai poty, cantado por índios Guarani do litoral do Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro, exemplo que demonstra a inclusão de elementos da música antiga européia na música tradicional Guarani

Esse fenômeno também ocorre em outras culturas indígenas americanas, como é o caso dos Guarayo da atual Bolívia, região que também recebeu catequese cristã. Como exemplo, ouviremos Yeyú, canto dos índios Guarayo, que estes acompanham com violinos feitos de taquaras.

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Ouvimos Yeyú, canto dos Índios Guarayo da Bolívia, com acompanhamento de violinos de taquaras.

O exploração das Américas transformou profundamente o mundo e ajudou a Europa a se tornar o centro econômico e cultural da humanidade durante vários séculos. Mas esse processo não favoreceu muito as nações indígenas americanas, cuja população diminuiu para cerca de 20% somente ao final do primeiro século de domínio europeu. Atualmente, os povos indígenas constituem apenas 5% da população das Américas. No caso brasileiro, estima-se, nesses 500 anos, uma redução da população indígena de cerca de 4 milhões, para menos de 300 mil pessoas.

Por outro lado, conhecer melhor essa história pode nos ajudar a mudar nossa relação com o passado e a construir um futuro diferente. É o que faremos nos próximos programas, ouvindo um pouco mais de música das Américas sob domínio europeu.

No programa seguinte: A sofisticação musical das missões jesuíticas.

Eu sou Paulo Castagna e volto na próxima semana com mais um Alma Latina, programa da série Idéias Musicais. Este programa teve a produção de Ralf Schwarz e trabalhos técnicos de Almir Amador. Boa semana e até lá.

 CD Alma Latina 01/13 – Música para a catequese indígena
1. Dú nhãre
2. Tupãsy Maria, Tatá guassú e Hára Vale Háva
3. Yesús Cad, Dios Ñi Votm e Quiñe Dios
4. Hanaq Patchap cussicuinin
5. Zoipaqui
6. O Jesu mi dulcis, Ave Maria, Hæc dies, e Inviolata
7. Laudate pueri Dominum
8. Nhanerámoti karai poty
9. Yeyú

CD Alma Latina 1/13: BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
FLAC 178,0 MB – 45.0 min

CD Alma Latina 1/13: BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
MP3 320 kbps – 104,2 MB – 45,0 min
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MP4 – 379,6 MB – 59,0 min

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Boa audição!

 

 

 

 

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Avicenna

 

 

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