Kodály e Bach por Aldo Parisot, uma lenda viva do cello

Kodaly e Bach por Aldo Parisot http://i27.tinypic.com/9a2x38.jpgPublicado originalmente em 09.07.2010

Como os filhos de Bach em relação ao pai, Zoltán Kodály corre o risco de ser tomado por um compositor menor devido à sombra do outro húngaro maior do século 20, o gigante Béla Bartók – mas ainda que não tivesse as outras obras de valor que tem, já seria um pecado considerá-lo “menor” devido a esta Sonata para Cello Solo.

Meu conhecimento do repertório do cello é limitado, mas ainda assim arrisco a aposta de que essa é a maior obra do século 20 para o intrumento. No mínimo porque acho difícil conceber outra maior, ou em que a ousadia de experimentação nas técnicas tanto de composição quanto de execução – e isso em 1915! – tenham tido um resultado musical tão convincente. Arrisco mais: arrisco que essa é uma das poucas obras do repertório cellístico que podem de fato figurar lado a lado com as 6 suítes de Bach (a quinta das quais também comparece neste disco).

Vi-ouvi essa peça ao vivo apenas uma vez. Foi nos anos 70. Eu era um adolescente começando a descobrir com avidez o repertório do meu próprio século, e fiquei embasbacado não só com o poder musical da obra como também com o seu grau de exigência física. Nunca esqueci do cellista levantando ao final, vitorioso porém inteiramente enxarcado de suor… e só muitos anos mais tarde fiquei sabendo que aquele cellista, só três anos mais novo que o Parisot aqui, também tinha entrado para o campo das lendas: János Starker.

(… nome que é uma boa deixa para uma pequena digressão sobre a pronúncia do húngaro: ‘á’ tem o som do nosso ‘a’ e é sempre longo. Sem acento o ‘a’ tem o som do nosso ‘ó’, porém breve – de modo que o nome do gigante é pronunciado bÊÊló bÓrtook (com a tônica nas maiúsculas; o dobramento das vogais indica apenas que são longas). E o nome do cellista é iÁÁ-nosh.

Acontece que os húngaros juram que todas as suas palavras, sem exceção, têm a primeira sílaba como tônica. Mas aí falei ‘kôdali’ para um húngaro, e ele me corrigiu: ‘kodÁÁi’. E eu falei “mas a tônica não é sempre na primeira sílaba?”, e ele “É sim, não está ouvindo? ‘kodÁÁi'”. Continuei ouvindo a tônica no A que ele me dizia ser apenas longo, não tônico, mas achei prudente não discutir com um descendente dos hunos… E de resto aprendi que, pelo menos nesse caso, o L na frente do Y desaparece, como se fosse em francês).

Bom, sobre as suítes de Bach não há necessidade de que eu escreva uma linha que seja, não é mesmo? Então vamos falar do cellista.

Vocês pensam que o Antonio Meneses, nascido no Recife em 1957, foi o primeiro membro da elite mundial do violoncelo a sair do Nordeste brasileiro? Pois o Aldo Parisot nasceu em 1918 em Natal, onde deu seu primeiro concerto com 12 anos.

Parisot com Villa-Lobos 1953 http://i30.tinypic.com/zlyg6g.jpgParisot e James Kim 2006 http://i27.tinypic.com/2w3ties.jpgSegundo a en.wikipedia, em 1941-42 era primeiro cellista da Sinfônica Brasileira, no Rio, quando um diplomata estadunidense lhe ofereceu bolsa para estudar nos EUA com seu ídolo Emanuel Feuermann – o qual porém cometeu a indelicadeza de morrer antes do início das aulas.

Ainda assim o pessoal insistiu (era época da famosa política de sedução dos EUA para que o Brasil entrasse na guerra), e em 1946 Parisot desembarcou em Yale para cursos em Música de Câmara e Teoria Musical – havendo imposto a condição de que ninguém pretendesse dar-lhe aulas de cello. Ah, detalhe: o professor do curso teórico se chamava Paul Hindemith.

Parisot nunca voltou a viver no Brasil. Solou com as principais orquestras dos EUA, estreeou peças dedicadas a ele por um belo punhado de compositores, passou a ensinar nas escolas Peabody, Mannes, Julliard, e em Yale desde 1958. Deu master classes regularmente no Canadá, Israel, Coréia, Taiwan. Dean Parisot, um de seus três filhos com a pintora Ellen James, é respeitado como diretor de cinema e tevê – e ele mesmo, Aldo, também pinta e faz exposições cujos proventos são direcionados a um fundo de bolsas para estudantes de cello.

Tudo isso podemos ler sobre esse cidadão brasileiro em inglês. A wikipedia em português lhe dedica 3 (três) linhas. (Fotos acima: Parisot com Villa-Lobos em 1953; Parisot com o jovem cellista premiado James Kim na Coréia, 2006?)

A presente gravação foi feita não antes de 1956, pois utiliza o ‘Stradivarius De Munck’ que Aldo adquiriu nesse ano, mas provavelmente antes de 58, pois o artigo da capa menciona seu posto de professor em Peabody, mas não em Yale (assumido em 58). Seu Bach é portanto anterior à restauração estilística iniciada nos anos 60. É possivelmente a realização mais introvertida e escura que conheço da Suíte em do menor – respeitável mas não propriamente sedutora. Aliás, parece que em geral, também no Kodály, Parisot parece mais interessado em viajar fundo na música que em mostrá-la com brilho sedutor, mas esse Kodály… não, não vou dizer nada, deixo com vocês!

Zoltán Kodály (1882-1967)
Sonata para cello solo, op.8
(1915)
A1 Allegro maestoso
A2 Adagio
A3 Allegro molto vivace

J.S. Bach (1685-1750)
Suíte em do menor para cello solo
(n.º 5)
B1 Prelude
B2 Allemande
B3 Courante
B4 Sarabande
B5 Gavotte I
B6 Gigue

Violoncello: Aldo Parisot (* Natal, RN, Brasil, 1918)
Instrumento: Stradivarius ‘De Munck’, de 1730
Gravação original Everest (EUA), prov. entre 1956 e 1958
LP brasileiro Fermata: 1971
Digitalizado por Ranulfus, jul.2010

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Ranulfus

16 comments / Add your comment below

  1. Excelente, Ranulfus. Por coincidência, esta semana me bateu a curiosidade sobre o ano em que faleceu Parisot – e qual não foi minha surpresa de descobrir que quem morreu foi meu equívoco. E esses seus comentários longos e personalizados me deram saudades de até bem pouco tempo atrás, quando eu podia fazer minhas digressões sem pressão no trabalho. Nota dez e meu back up que se exploda: vou comprar um HD externo.

  2. Aldo Parisot? IMPERDÍVEL!

    Só faltou acrescentar sua importantíssima atuação no Yale Quartet, um dos melhores quartetos (mesmo!) de todos os tempos.

    Agora, fiquei com muita inveja da história do Janos Starker executando o Kodály ao vivo… não tem preço, hein Ranulfus?

    Quanto às aulas de húngaro, eu pulo, pois já há muitos anos cheguei à conclusão de que esse idioma é um labirinto sem saída…

  3. Caraca. você viu uma apresentação do Janos Starker ao vivo? Morri de inveja.. e parabéns pela postagem, Ranulfus. Sua erudição beira as raias do absurdo… fonética da língua hungara?

  4. É Ranulfus, me convenceu também! Vou baixar, pois apesar de não gostar muito das obras para o instrumento solo, aprecio muito o som do cello e acho Kodály um compositor interessante. Não há o que falar de Bach. Ele é hors concours!

  5. Cara (FDP)… às vezes eu mesmo não acredito. Deve ter sido em 1973 ou 74, vão quase 40 anos, com certeza o Starker ainda não era TÃO reconhecido como é hoje. Assisti no mero auditorio da Reitoria da UFPR, com uma entrada que qualquer estudantezinho da EMBAP podia pagar…

    Quanto ao húngaro, e outras coisas assim, não é erudição nada: sou é o famoso especialista em generalidades! Fico curioso com uma coisa, e vou atrás. Fico sabendo um pouquinho de tudo, mas quase nada a fundo.

    E as informações dos posts?… Toda manha está em saber costurar com bossa. Pensa que eu carrego tudo isso na cabeça, mano? rsrs

    Antes existiam enciclopédias, hoje existe wikipedia e google em geral. Se em vez de simplesmente copiar os dados, você dá o tom de que tá contando o que leu pra um amigo no buteco, e acha jeito de articular com algum dado da suas vivências pessoais… pronto! Já fica com ar de ensaio do Carpeaux, do Mário de Andrade, do (pra mais uma homenagem aos húngaros) Paulo Rónai… hehehe. Abração 😀

  6. “Rodeado de seus quadros e a família, o violoncelista brasileiro Aldo Simões Parisot morreu no sábado, 29, enquanto ouvia Bidu Sayão cantando A Casinha Pequenina e as Bachianas Brasileiras no. 5, de Villa-Lobos”

    E assim fica um pouco mais silencioso o final de 2018.

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