Toumani Diabaté (1965) e a harpa clássica do Império do Máli: New Ancient Strings

Toumani Diabaté e sua kora: www.tropis.org/imagext/toumanidiabate1b.jpg

Publicado originalmente em 01.05.2010

Esqueça qualquer ideia preconcebida sobre música africana: pra começar, você não ouvirá uma única nota de percussão neste CD.

Até o século XV, boa parte da África tinha vida totalmente comparável à da Europa: uma Idade Média com suas dinastias aristocráticas, suas intrigas palacianas, seus torneios de cavaleiros… E entre as dezenas de povos envolvidos destacavam-se os mandê, a que se ligam palavras como mandinquê, mandinga, malinquê, malê –

… e Máli, que por séculos significou um dos impérios mais vastos e poderosos do planeta. Tanto que controlava a multicultural cidade de Tombúctu (ou Timbúktu), que apesar de não ser a capital abrigava entre 15 e 25 mil alunos e mestres universitários – do quê testemunham os 200 mil, talvez 700 mil manuscritos ainda existentes.

A riqueza desse mundo vinha da exportação de ouro e outros produtos para o Mediterrâneo (e portanto também para a Europa) através do Saara. Quando os portugueses chegaram a esse mundo para comerciar direto por mar, essa estrutura que sustentava uma civilização levou o primeiro e já o mais decisivo dos golpes que levariam uma das irmãs à glória do Barroco e além, a outra ao papel de gata borralheira.

Atualmente qualquer enciclopédia define “Máli” como “um dos países mais pobres do planeta” – o que ainda hoje só é verdade pelos critérios ocidentais de desenvolvimento: à beira do Níger a comida abunda, assim como fatos culturais que ainda deixam entrever e entreouvir a sofisticação das cortes do passado.

Um desses é um tipo de harpa chamada kora. Nem todo mundo a toca no nível do seu atual mestre maior, Toumani Diabaté, mas este não cria sua música do nada: trabalha com técnicas de execução, composição e desenvolvimento por improvisação que remontam a essa Idade Média.

Mas não é uma figura de museu: Toumani vive hoje, e dialoga com o mundo de hoje: no CD Mandé Variations, de 2008, na faixa Elyne Road Toumani cita e aproveita um motivo da banda UB40, que ouviu nessa rua em sua primeira estada em Londres. E faz o mesmo com um tema de trilha de filme, de Enio Morricone, em Cantelowes.

Mandé Variations (recentemente disponibilizado pelo colega PQP aqui) é provavelmente seu seu trabalho mais sofisticado até agora, onde Toumani contraria a tradição e toca desacompanhado. Por essa razão o som é às vezes menos fácil de ouvir – mais ascético, eu diria – que neste NEW ANCIENT STRINGS, de 1999, que nem por isso é biscoito menos fino!

Para um artigo de 2008 do The Guardian sobre Toumani, acesse AQUI . E quem quiser conhecer um pouco da vitalidade e diversidade musical popular do Máli (pois é esta que dá base e alimento às realizações clássicas, sempre), sugiro que procure no youtube registros do Festival sur le Niger, anual, na cidade de Ségou. E agora acho que não cabe nenhuma palavra mais, antes de vocês terem ouvido. Um bom Primeiro de Maio para todos!

NEW ANCIENT STRINGS (1999)
Toumani Diabaté, Ballake Sissoko, koras

1. Bi Lambam
2. Salaman
3. Kita Kaira
4. Bafoulabe
5. Cheikhna Demba
6. Kora Bali
7. Kadiatou
8. Yamfa

. . . . . . . BAIXE AQUI – download here

Ranulfus

24 comments / Add your comment below

  1. Excelente Ranulfus! Ainda não baixei, mas já está na minha lista.
    A propósito, gostei do artifício de usar os pontinhos para ocupar espaços de linhas. Eu tinha pensado nisso quando precisei certa vez, mas acabei lembrando que poderia usar um caractere invisível. Esse caractere pode ser obtido segurando a tecla ALT (do lado esquerdo) e digitando os números 255.
    Um abraço!

  2. Caro Ranulfus:

    Bem que você escreveu para esquecer qualquer ideia a respeito de música africana! Eu ouvia e me perguntava: “mas isto é música africana?!” Primeiro eu achei parecida com música árabe, mas depois acabei achando parecida com música japonesa.
    Uma bela postagem, de um tipo de música nunca dantes visto aqui.
    Já estou baixando o segundo CD.

    Até breve.

    1. Fico muito feliz com sua surpresa e interesse, Adriano!

      Uma observação do ponto de vista musical: talvez a maior proximidade que eu sinta é com a música da Índia. Como se fosse um Ravi Shankar com ritmo mais quebrado, mais swingado, algo assim…

      E outra do ponto de vista histórico: depois dessa não dá bem pra passar a suspeitar de praticamente TUDO que nos contaram sobre a África? . . .

      1. Você tem razão, agora que citou a Índia, lembrou-me da cítara. E há tempo que não ouço cítara.
        A música deste instrumento parece ser de uma África além da que conhecemos, e a percussão, um elemento quase constante na música africana que conhecemos, não há naquela.
        Talvez seja este desconhecimento que faça-me lembrar, ao ouví-la, da música japonesa ou de cítara.

        1. Instrumentos de cordas paralelas dedilhadas (e às vezes percutidas) aparecem nos mais diversos cantos do mundo, e são uma coisa muuuito antiga, meu caro. A palavra que você usou é um testemunho arqueológico disso: cítara. Os indianos dizem “sitár”. “Cítara” e “guitarra” são duas formas que a MESMA palavra acabou assumindo no espaço mediterrâneo, e ainda “santir”, “santoor”, “saltério”. Acabaram se referindo a instrumentos diferentes, mas a PALAVRA deve ter pelo menos 4500 anos para poder ser comum a indianos e gregos.

          Mas na própria Índia há instrumentos parecidos com nomes muito diferentes (sarod, vina etc). A idéia de instrumentos assim deve ter pipocado de modo independente em muitos lugares do mundo, convergido aqui e ali, divergido de novo aqui e ali… A humanidade é uma rede de saquinho de laranja!

          Mas tem outra coisa em comum nessas músicas que chegam do Japão, China, Índia, Máli, mundo árabe… e de certos momentos da Europa: sociedades feudais. É preciso certo acúmulo de poder e riqueza para sustentar pessoas dedicadas à música em tempo integral, condição para sofisticar a música além de um certo ponto. O mundo mandê não era tribal: era uma sociedade de castas, e o poder senhorial era, literalmente, avassalador. É muito incômodo lembrar, mas “clássico” vem de “classe”… no sentido sociológico.

          Consta que Mao Tse Tung morria de vergonha de não conseguir abrir mão de escrever poesia no estilo clássico chinês, enquanto declarava estar abolindo as classes. Eu que vivo entre jovens de periferia também acho a sociedade de classes um preço alto, cruelíssimo, pela arte refinada que a gente vem apreciar aqui no blog… e no entanto essa arte é uma conquista humana maravilhosa demais pra que se possa abrir mão dela. Já vi ex-membro de gang juvenil “das quebrada” pôr por acaso no meu som o 4.º de Beethoven (com a Guiomar!) e ficar fascinado, não querer parar de ouvir – e aí… ai meu Deus!, como é que a gente mata esta charada?

  3. Fantástico.

    Música instrumental africana, com instrumento harmônico desacompanhado, calcada em uma tradição que remonta à idade média, etc… É muito surpreendente.

    Mas estranho essa afinação e essas escalas e harmonias modais/diatônicas. Tudo muito no gosto ocidental. Imagino que Toumani Diabaté e/ou seus antecessores nessa tradição ouviram bastante música ocidental. Eu esperava algo pentatônico, ou alguma escala mais próxima das empregadas pela música árabe. Não quero de forma alguma tirar o mérito desse músico maravilhoso (que vai direto pra minha lista de favoritos, que é seleta), mas não posso deixar de notar a harmonia ocidental.

    Ou seja, há aí um mistério digno de tese de doutorado, nem que seja para se identificar a ponte Europa-Mali que inspirou essa música que, nos demais aspectos, parece originalíssima. Acabo de ver uma entrevista do rapaz no Youtube, no qual ele cita até Jimmy Hendrix como influência (como se precisasse…).

    1. Não sei se você leu a resposta que escrevi de madrugada, EresGardel, mas me permita substituir: eu já estava dormindo, rsrs

      Preciso dizer que o seu comentário lembra certas teorias sobre a origem do jazz, que ainda circulam embora tenham surgido no chute, sem pesquisa: o jazz seria uma combinação de rítimica africana com melódica e harmonia de origem européia. Nos anos 60 o musicólogo Günther Schuller demonstrou que todas as marcas distintivas do jazz vinham da África mesmo; é um baita volume, Early Jazz, com demonstrações em partitura e tudo. Ou seja: não há dúvida que africanos e afrodescendentes se apossaram de matéria musical de origem européia: pra eles (como pra qualquer pessoa de bom senso) é tudo bem comum da humanidade, nunca viram nenhuma barreira em pegar e fazer junto. Mas isso é diferente de “receber influência”: a todo o material que pegaram, aplicaram modos de trabalhar que já traziam consigo, inclusive escalas e formas de harmonizar.

      A idéia de que toda harmonia surgiu na Europa é apenas um de tantos mitos que os europeus inventaram sobre si mesmos, sem se dar o trabalho de ir olhar “o resto”.

      Conheço um sujeito de biografia altamente improvável: nascido no Rio Grande, criado em São Paulo, viajou de carona ou a pé por mais de 100 países e fez carreira literária na Alemanha com o pseudônimo (juro!) Zé do Rock. Tentando atravessar da África ocidental para a oriental, lá bem no meio estava de carona num caminhão que encalhou junto a uma aldeia. O motorista chamou a molecada da aldeia pra ajudar em troco de um passeio na carroceria. Em minutos o caminhão estava andando, e meu amigo numa carroceria cheia de crianças e adolescentes que começaram a cantar. A vozes. Brincando, sem regência nenhuma, no chamado-e-resposta. O Zé conhece muita música, foi criado em igreja alemã… e me disse: o coral da igreja levaria dois anos de ensaio pra conseguir realizar as harmonias que eu vi eles improvisarem ali.

      Também quando a refinadíssima estatuária nigeriana de 1200-1400 foi descoberta pelos europeus, começaram a procurar todos os modos de demonstrar influência européia. Não encontrando, houve quem apelasse até para os atlantes pra “explicar”. E aí a gente se pergunta por que tanta resistência em admitir o mais simples: que os demais povos são tão humanos quanto os europeus, e que em seus diferentes caminhos podem acabar inventando ou descobrindo coisas parecidas!…

  4. Caro Ranulfus, com todo o respeito, creio que você realmente não entendeu o que eu escrevi.

    Em momento algum eu disse que considero inferiores as tradições musicais não-européias, ou que que toda harmonia nasceu na Europa.

    Sou inclusive profundo admirador de música árabe, indiana e do sudeste asiático, mas são tradições completamente diferentes. Conheço um pouco da música americana herdeira da tradição pré-colombiana, outras correntes de música africana, tendo chegado a pesquisar algo de música instrumental chinesa também.

    Inclusive, considero algumas dessas tradições muito mais ricas, em diversos aspectos puramente harmônicos, que a música européia calcada na tradição pitagórica.

    O que eu disse, observe com atenção, é que não é impossível que tenha havido algum contato entre europeus e africanos, porque, apesar de conhecer música de diversas tradições (inclusive as africanas, das quais tenho contato especialmente com a tradição iorubá, calcada na percussão), nunca vi uma música não-europeia tão próxima, harmonicamente, da europeia modal.

    Se for uma grande coincidência, e eles tenham criado escalas idênticas aos modos tradicionais simultaneamente aos europeus, bravo. Não duvido. Mas o fato é que, com base nas informações até então disponibilizadas, não dispomos de elementos que nos permitam afirmar, com segurança, como se formou essa música.

    A própria proximidade geográfica entre os dois continentes torna provável o influxo. Mais uma vez ressalto: não estou dizendo que tenha ocorrido, mas não descarto a possibilidade.

    E a influência recíproca não é demérito para nenhum dos lados: Gyorgy Ligeti compôs estudos para piano com base em geniais ritmos pigmeus, e o resultado é provavelmente melhor do que toda a produção para piano “puramente europeia” do mesmo período.

    Em tempo: concordo com o que escreveu em relação ao Jazz, e, por coincidência, tenho e já li o livro do Zé do Rock, muito divertido aliás. Conheço e admiro as esculturas iorubá, e não vejo absolutamente nada de europeu nelas.

    Insisto mais uma vez: não considero, DE FORMA ALGUMA, as escalas e modos europeus como superiores às harmonias árabes, indianas, do sudeste asiático, etc. Apenas as vejo muito similares à afinação da Kora, e ao trabalho aqui postado, para não dizer quase idênticas.

    Fui mais claro agora?

    Um abraço

    1. Claríssimo, Gardel! E só não lamento meu relativo mal-entendido porque ele acabou dando ocasião a textos (o meu e o seu) que podem ajudar mais gente a descobrir o tema “importância cultural da África”, o que considero indispensável para o resgate da dignidade da humanidade inteira!

      Eu também achei surpreendentemente conhecida a modalidade do que eu ouvi ali. Quando a coisa soa tonal, aí não é mistério: europeus estiveram constantemente presentes na costa desde antes de 1500, e com toda força também no interior depois da conferência de Berlim (1884). Mas muitas vezes parece que ele sola em lídio, se eu não estou enganado. E durante todo esse contato dos últimos séculos a Europa já não usava mais o modo lídio!

      Agora, em tempos mais antigos realmente não vejo razão para supor que tais escalas tivessem que surgir por influência européia. Quando Pitágoras “assinou o teorema” as pirâmides estavam de pé há 2 mil anos (o tempo de Cristo até nós…), o império egípcio estava unificado há 2500, e o conjunto de reinos pré-dinásticos tinha entre 3 e 5 mil. E aí: (1) Não há mais dúvida de que esses reinos pré-dinásticos e pelo menos grande parte do Egito clássico eram negros. (2) Por que a civilização egípcia teria influenciado para fora do continente africano (Martin Bernal encontra origem egípcia até para a deusa Athena!), e não continente adentro?

      Só para apimentar mais um pouco: os poucos relatos sobre as iniciações nos mistérios gregos que escaparam aos juramentos de segredo são praticamente descrições de ritos de candomblé…

      E o que quero sugerir com isso é menos a influência desta parte ou daquela, e sim que em muitos períodos pode ter sido tudo um vasto continuum cultural 😀

  5. Sem dúvida, Ranulfus, que valha como homenagem ao Diabaté, e ao magnífico continente africano, que certamente trouxe muitas contribuições ao que conhecemos por “cultura ocidental”, seja via Egito antigo, seja por intermédio da África islâmica medieval, seja por outros pontos de contato.

  6. O fato de alguém não conhecer determinados fatos não quer dizer que a afirmação desses fatos seja falsa. Tem gente que pensa que a medida do que sabe é a medida máxima do que o resto da humanidade sabe… Isso é tudo o que terei a dizer sobre o assunto neste momento, não voltarei aqui para isso.

  7. Obrigado por registrar isso, Ramon. Uma das coisas que me motivam na colaboração no blog é tentar demonstrar o quanto nosso conceito de ‘clássico’ pode ser justificadamente expandido para além das suas fronteiras tradicionais (no fundo etnocêntricas), e isso com criações autênticas, não com adaptações tipo “transcrições de canções populares para orquestra” etc.

    Depois do impacto inicial, esta postagem raramente é comentada, e no entanto foi o meu maior sucesso em número de downloads até recentemente. Os quartetos de Schubert (que, sim, aprecio, mas não são bem a minha seara) ultrapassaram pela primeira vez os 1000 downloads, e rapidamente – mas continuam seguidos de perto pelo Toumani e pelos alaúdes e vielas renascentistas de Guy e Elizabeth Robert.

    Grande abraço!

  8. Fantástico! Excelente post, interessantíssimo; igualmente interessante a reflexão conjunta nos comentários. Esse blog, cada vez mais, se firma pra mim como uma joia, um exemplo perfeito do melhor que a internet pode nos proporcionar hoje em dia.

    Felicidades e perseverança com esse blog! Ele é necessário demais!

  9. Por coincidência, estive ouvindo este álbum recentemente, e deparei-me hoje com esta triste notícia, acerca da destruição deliberada de monumentos arquitetônicos históricos em Mali:

    http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5869316-EI17615,00-Grupo+islamita+ameaca+destruir+todos+os+mausoleus+de+Tombuctu.html

    Talvez não haja nada mais nefasto que o fanatismo religioso. Cometem-se as maiores barbaridades em nome da “fé cega”, e bota cega nisso.

  10. Cara, essa música é muito linda! Fico a pensar, encantado, sobre a quantidade infinita de beleza que existe no mundo. Eu tinha ouvido, colhido daqui, o Mandé Variations (que me lembrou muito Keith Jarrett), e fiquei fascinado pelo Diabaté, mas não achei muita coisa dele pela net.

    Obrigado pelo presente.

    1. Amanhã (domingo 05/07/2015) vem mais um CD, Charlles – dele com o violonista malinês Ali Farka Touré. Aí é tudo o que temos dele – por enquanto!

      Interessantíssima a sua relação com a música de Keith Jarret! Vai me dar o que pensar com os ouvidos!

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