.: interlúdio? :. Chico Mello (1957): Do lado da voz (2000)

Chico Mello - Do Lado da Voz (capa)Começo por advertir: este é um trabalho feito de sutilezas. Se você colocar como fundo pra ir fazer outra coisa ao longe, é possível que não veja nele interesse nenhum.

Chico Mello e o Monge Ranulfus nasceram no mesmo ano e na mesma cidade. Mais: quando adolescentes, estudaram na mesma classe de Solfejo e Ditado Musical de dona Beatriz Schütz, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Na ocasião, os dois mostravam interesse em incluir a MPB dentro do horizonte da formação academicista e eurocêntrica ministrada naquela escola, bem como nos experimentos do então nascente minimalismo.

Mas as semelhanças param por aí: logo Ranulfus percebeu que apenas seus nervos sensores tinham paixão e avidez por música, não os motores: por maior apreciador que fosse, jamais se tornaria um realizador efetivo de música, com aquela naturalidade de quem mija, que é a do verdadeiro artista em qualquer área (imagem com que Monteiro Lobato falou a Érico Veríssimo do ato de escrever). Chico tem essa naturalidade.

A vida levou Ranulfus por outros rumos, nunca mais viu Chico pessoalmente, apenas aqui e ali topou com composições suas – o suficiente para notar que suas construções em linguagens contemporâneas não são meramente cerebrais, e sim sempre vivificadas por esse sopro natural, que desde certa altura do século XX parecia haver se refugiado exclusivamente na música chamada “popular”.

Chico estudou composição com Penalva e Koellreuter, mudou-se pra Berlim, fez carreira artística e docente lá e cá. Em 2010 gravou os 3 CDs Vinte Anos entre Janelas, com uma espécie de sinopse dos seus caminhos de 1987 a 2007. O segundo deles, para dar ideia, se chama Mal-entendidos multiculturais, e contém as seguintes duas peças: Todo canto – para soprano, piano, canto indiano e tabla/pakhawa – e Hui Liu ou la vraie musique para músicos chineses e euroamericanos (!) (Mais sobre esses CDs aqui).

Já neste Ao lado da voz, Chico traz seu experimentalismo sonoro para conversar especificamente com uma das suas próprias fontes: a canção dita popular brasileira. Fá-lo com uma voz totalmente cool, como quem quer deixar claro (suponho) que a linha vocal e as palavras não têm primazia, não são “acompanhadas”, e sim parte igualitária no jogo de construções, desconstruções e reconstruções.

Faz pensar em alguma experiência anterior na nossa música? Acho que mais pelo não que pelo sim: no geral soa mais enxuto, mais parcimonioso que o também sutil mas quase-romântico Wisnik. Passa longe das intenções pop de Arrigo Barnabé. Talvez um pouco mais perto do Itamar Assumpção inicial, desde que expurgado do deboche. Minha impressão, enfim, é que ninguém passou tão perto do mesmo espírito quanto Caetano Veloso em Jóia (mas não em Araçá Azul). Minha impressão!

Uma faixa de amostra? Eu diria que a 3, com fragmentos sampleados de Nélson Gonçalves: acho que em nenhuma outra a vanguarda e a tradição se engalfinham tão profundamente. Já das originais do Chico, acho duro o páreo entre a 5 e a 9 – e já falei demais!

FAIXAS
01 Achado (Chico Mello, Carlos Careqa)
02 Cara da barriga (Chico Mello)
03 Pensando em ti (Herivelto Martins, David Nasser)
04 Mentir (Noel Rosa)
05 Chorando em 2001 (Chico Mello, Carlos Careqa)
06 Já cansei de pedir (Noel Rosa)
07 Carolina (Chico Buarque)
08 Eu te amo (Chico Buarque, Tom Jobim)
09 Valsa dourada (Chico Mello)
10 Rosa (Pixinguinha)
11 Paramá (Chico Mello, Walney Costa)

Chico Mello – vocals, guitars, piano, percussion
Ségio M Albach – clarinets
Uli Bartel – violin
Helinho Brandão – bass
Guilherme Castro – electric bass
Ahmed Chouraqui – percussion
Armando Chu – percussion
José Dias de Moraes Neto – clarinets
Wolfgang Galler – synthesizer, bass, percussion
Michael Hauser – bass
Lothar Henzel – bandoneón
Levent – darabuka
Burkhard Schlothauer – violins, bass
Mix: Chico Mello, Burkhard Schlothauer, Thilo Grahman, Ahmed Chouraqui, Gerhard Grell

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Ranulfus

2 comments / Add your comment below

  1. Tendo o monge Ranulfus recomendado para dar uma atenção especial à música, não fazer nada além de escutá-la (coisa que geralmente sempre faço com música erudita, mas não popular), resolvi ouvir deitado e longe do PC, mas não deu, eram tantas coisas incríveis que tocavam meus ouvidos e atiçavam minha mente que levantei subitamente e resolvi escrever tentando entender e explicar aquilo que ouvia ao mesmo tempo em que evitava fazer outras atividades além de pensar sobre a música.

    É fácil perceber que em todas as músicas ele faz alguma brincadeira: um início com tensão, um final que corta a volta ao tema, um acordeón que, contrariando a tradição, beira a atonalidade; etc. É quase uma crítica à música popular ao mesmo tempo em que a faz belamente.

    Em “Pensando Em Ti” Chico Mello faz uma deliciosa brincadeira com a atonalidade e a tensão, como se a tonalidade da música fosse aos poucos desmoronando em atonalidade. E ainda brinca com aleatoriedade, às vezes até lembrando John Cage. É lindo. Isso tanto na instrumentação quanto no vocal; algo realmente interessante, principalmente se olharmos para o aspecto técnico da musica popular de hoje em dia, que não absorveu nada ou quase nada da segunda metade do século XIX pra frente. As formas melódicas, harmônicas e ritmas são as mesmas. Na harmonia, sempre um elemento solista (voz ou instrumento) se sobressai sobre um baixo contínuo no fundo que varia pouco. Na melodia ela segue o mesmo caminho: tema, tensão, resolução da tensão (clímax), volta ao tema. E no ritmo, bem, o baixo contínuo cuida dessa parte criando um compasso fixo e que muda muito pouco, enquanto o elemento solista contrapõe e se mescla ao ritmo do baixo contínuo vez ou outra, coisa que mesmo nas músicas características dos séculos XVIII e XIX já havia sido “superado”. Aqui neste álbum ele foge disso. Por exemplo, em “Eu Te Amo” o ritmo varia, volta, varia, varia, repete, e o ouvinte fica confuso. E não pense que isso são coisas sem coerência. Pra mim não há melhor forma de dizer “eu te amo” no sentido trágico do sentimento do que expressar as incertezas, as idas e vindas, e certa tensão que não se resolve na música, mas que se dilui na doce voz de Chico Mello.

    A última música, “Paramá”, ao melhor estilo de Wagner (em Tristão e Isolda, por exemplo), usa uma tensão sem fim, que dá uma pequena aliviada a cada vez que o refrão se repete, mas a tensão continua e se torna cada vez mais acentuada. No final, é quase como se estivéssemos segurando a respiração por um longo tempo. Nunca pensei que algo assim pudesse ser usado numa música popular de forma tão excêntrica.

    É um álbum fantástico esse.

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