Élisabeth Jacquet de la Guerre (1665-1729): Le Sommeil d’Ulisse / Desrochers

BIG

Este é um belo CD de uma compositora desconhecida. Élisabeth Jacquet — que ganhou o “de la Guerre” pelo casamento — é uma rara compositora, cantora e cravista parisiense. E muito boa! Até o século XIX, a presença feminina na música erudita era quase nula. É óbvio que tal fato não se deve a uma incapacidade feminina e sim às condições sociais. Hoje, ainda temos poucas compositoras, mas o mundo já está maravilhosamente tomado de esplêndidas instrumentistas. Elas chegarão logo à composição, certamente. Mas vejamos o que ocorreu antes do século XX: sem pesquisar, usando apenas a memória, diria que, mesmo com a atmosfera repressiva, apareceram duas curiosidades e dois verdadeiros talentos que se desenvolveram sabe-se lá como.

As duas curiosidades, que só podemos suportar com muito boa vontade, seriam Clara Wieck Schumann no século XIX e Hildegard von Bingen, pasmem, no século XII. Muito mais talentosa foram Barbara Strozzi, do século XVII, e esta sua quase contemporânea Jacquet de la Guerre. Mas vejam quantos séculos e quão poucas mulheres!

O CD abaixo, da Alpha, vale a audição. A Betinha era foda. Confiram!

Élisabeth Jacquet de la Guerre (1665-1729): Le Sommeil d’Ulisse /Desrochers

— Suite in A minor (from Pieces de Clavecin, 1687): Prelude pour clavecin en la mineur
— Le Sommeil d’Ulisse, cantata for voice & continuo
— Suite in A minor (from Pieces de Clavecin, 1687): Chaconne pour clavecin en la mineur
— Sonata for violin & continuo No. 1 in D minor
— Samson, for soprano, flute, violin & continuo

Christine Payeux, Alice Pierot, Francois Nicolet, Marc Wolf, Freddy Eichelberger
Les Voix Humaines

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Élisabeth Jacquet de la Guerre, uma pioneira

PQP

17 comments / Add your comment below

  1. Uau!!! Eu nunca imaginaria que existiam mulheres compositoras até no século (vou pôr em algarismos indo-arábicos mesmo) 12! Acho que a grande maioria das mulheres nunca estiveram realmente interessadas em compor. Se for levar em conta os fatores sociais, então…

  2. Mulheres compositoras. Esse assunto renderia uma boa pesquisa. Não conheço nenhum estudo, artigo, livro, etc. que trate a respeito disso. Alguém conhece algum?

    Nesse mundo politicamente correto seria pouco prudente, por exemplo, chegar à conclusão de que as mulheres foram melhores agraciadas com outros dons. Por enquanto, há apenas hipóteses, e não creio que o fator social seja válido, pois, mesmo nos dias de hoje, elas não se interessam pela composição tanto quanto os homens. Talvez haja alguma explicação neurocientífica muito mais plausível do que a explicação sociológica.

    1. São muitas as compositoras de renome e qualidade que vêm se destacando a partir do século XX, o que demonstra a força do argumento sociológico, e corroboram a absoluta inexistência de qualquer pseudoexplicação “neurocientífica”. Não se trata de ser politicamente correto. Os nomes a serem pesquisados são muitos, e há muitos disponíveis neste mesmo site.

      É sintomático constatar que a irmã mais velha de Mozart, Maria Anna, teve sua carreira musical interrompida por seu pai, Leopold, assim que atingiu “idade de casar”. E que, antes disso, o próprio Wolfgang procurava “imitá-la em tudo”, inclusive na seara da composição. E que nenhuma obra de Maria Anna foi preservada pela família, muito menos publicada – a própria mãe de Mozart também compunha, e bem, a julgar pela opinião de seu filho, registrada em diversas cartas. Mas estimular essas atividades? Isso simplesmente não seria aceito, e as mulheres submetiam-se às exigências sociais, praticamente sem exceção.

      Melhor sorte teve Fanny Hensel, irmã mais velha de Felix Mendelssohn, e cujos imensos dotes como compositora ninguém, em sã consciência, poderia negar – tendo o próprio irmão se valido de suas “correções” por inúmeras vezes.

      Do mesmo modo, sempre foram raras (embora um pouco menos) as mulheres que se destacavam como instrumentistas – sobrava-lhes o canto lírico. São muito recentes as mudanças ocorridas nesse mercado de trabalho, principalmente a partir do início do século XX.

      Enfim, é de extrema ingenuidade (ou até mesmo má-fé) afirmar que uma mulher poderia fazer carreira de compositora (ou praticamente qualquer outra) naqueles tempos. Mesmo as escritoras, que eram também raras (mas nem tanto, pois a educação musical costumava ser mais cara), costumavam ocultar-se sob pseudônimos masculinos – de outra forma, a publicação de suas obras fazia-se muito mais difícil, e muitas vezes impossível.

      1. SoyGardel,

        Acho que você está muito correto. Não ignoro completamente a explicação sociológica. Rousseau, por exemplo, parecia estimular, por meio de um tratado que ficou muito conhecido após o iluminismo, que a educação feminina necessitava ser exclusivamente para “o lar”, digamos assim. Não havia, portanto, uma meio social que fomentasse os estudos das artes em geral para as mulheres, o que certamente dificultaria o trabalho delas. Não há como negar que elas necessitavam exercer uma função social que não lhes concedia tempo (tinham que educar filhos, cozinhar, etc.). Por outro lado, parece que sempre existiu uma falta de interesse generalizada, tal como Jane Austen sabia muito bem retratar em seus livros.

        Enfim, será que não há mais causas que determinaram e determinam as poucas mulheres interessadas em compor. Vejo nas minhas relações pessoais. Há pouquíssimas mulheres interessadas no assunto e nenhuma delas está sendo oprimida por fatores sociais como as mulheres dos séculos passados. Se pensarmos nos demais estilos de música, o mesmo poderia ser dito. Quantas roqueiras compositoras você é capaz de listas? E no blues? No jazz há um pouco mais por conta do canto, mas ainda assim são raras. E são estilos do século XX. Se formos mais ousados ainda e estendermos o raciocínio para a música popular, MPB, sertanejo, samba e tantos outros estilos também encontraremos poucas compositoras, mas muitas intérpretes. Não há como negar que há um descompasso muito grande entre mulheres instrumentistas e compositoras, mesmo atualmente.

        Esse problema parece não ser tão sintomático em relação à literatura, pintura, interpretação, etc. Será que só o fator sociológico explica isso? Sei não. Por que isso não ocorre em relação às intérpretes? De fato, o século vinte nos mostrou que no campo da interpretação as mulheres nunca deveram nada em relação aos homens. É fácil encontrar uma Mullova, Du Pré, Mutter e tantas outras que rivalizam com facilidade com os melhores interpretes masculinos, mas será que o mesmo pode ser dito em relação aos compositores? Talvez o tempo irá calar a minha boca, assim eu espero. Eu adoraria ver mais mulheres compondo.

        Só para terminar. Tenho um amigo que é um profundo estudioso de matemática e lógica. Segundo ele, há estudos que relacionam determinados campos da matemática com o cérebro humano. Vários deles relacionam a aritmética e geometria com os dois lados do cérebro. Segundo ele me disse, as mulheres teriam mais facilidade na aritmética por causa do melhor desempenho de um dos lados, ao passo que os homens teriam mais facilidade na geometria por causa do outro. Essa “deficiência”, também segundo os estudos, poderia ser equilibrada mediante alguns exercícios. Enfim, vá saber o que se passa na cabeça de uma mulher! rsrs

        1. Suas considerações em relação à elevada quantidade de mulheres intérpretes, e reduzida quantidade de mulheres compositoras, não são totalmente descabidas, mas ainda assim creio que a explicação sociológica dá conta, talvez enriquecida de algumas pitadas de Freud. Afinal, mulheres são criadas desde cedo para serem vaidosas, admiradas como deusas, passam horas no cabeleireiro e manicure, enquanto homens que o fazem são vistos como (viados) metrossexuais. Ou seja, são muito mais exibidas que nós, barbudos, que, de modo geral, somos criados de forma a ocultar nossas sensibilidades artísticas e cultivar o muque. Um homem subir em um palco e tocar piano, ou cantar? Tem que ser macho pra isso, hein? Mas chega de filosofar, que minha mulher tá me mandando lavar a louça, e sou obediente.

  3. Eu frequento o site a um tempo e nunca comentei, mas hoje eu decidi agredecer o ótimo trabalho de vocês, é realmente muito legal.
    E gostaria de perguntar uma coisa: onde vocês compram Cds desse estilo? Pela internet ou há alguma loja especializada?

  4. Acho que, apesar de outros possíveis fatores, as determinações socio-históricas ainda pesam bastante. Se nos voltarmos a outras categorias artísticas, também encontraremos participações episódicas das mulheres. No teatro, papeis femininos interpretados por homens. Nas artes plásticas, Camille Claudel, Artemisia Gentileschi(para mim, uma interessante analogia à Barbara Strozzi) são raros exemplos de inclusão histórica.

  5. Mais um ponto (de vários e inúmeros) para o PQP Bach e equipe. Deixo como dica o nome da também compositora Anna Bon di Venezia “A Virtuosa de Veneza”. Há quem diga que foi aluna do próprio Vivaldi… Enfim, fica aí uma sugestão aos companheiros de audição. rs

  6. Antes de mais, Parabéns pelo excelente blog, posts e comentários que muito ajudam a difundir a música “clássica” e a desmistificá-la como música para velhos ou/e para uma elite intelectual. Música de boa qualidade é para todos!
    Já conhecia esta compositora e o CD, mas é sempre de louvar posts que despertem o apetite pela descoberta, no caso, do tema “mulheres e a música”.
    Pelos comentários deixados, reparei que existe um grande desconhecimento e até confusão sobre a presença e história das mulheres na chamada música “erudita” ou “exacta” [por ser escrita – termo preferido pelo L.Bernstein (ver: “Música para Jovens”, em livro e em vídeo].
    1º – Uma simples pesquisa na net e pelas bibliotecas vai revelar vários sites, livros/estudos sobre mulheres compositoras e intérpretes. Embora não seja um tema muito difundido, ele vai somando cada vez mais interessados/as, o que, consequentemente, vai trazendo novas luzes sobre o assunto.
    2º – Não existe qualquer razão de ordem neurológica ou neurofisiológica que explique a relação universal entre o sexo feminino e a música ou sequer a ausência de mulheres compositoras na história da música ocidental entre o final da Id.Média e o séc.XIX! Como foi mencionado pelo Doni, mesmos os estudos que abordam a relação entre características de género, neurobiologia e campos de ação científica e social (como a música), não deixam de ser limitados pelo fortíssimo peso das mentalidades, dos valores morais e sociais que condicionam as diferentes sociedades e períodos históricos. Não nos devemos esquecer que também o peso do inconsciente colectivo é fortíssimo (não é por acaso que se diz que o mais difícil de mudar numa sociedade são as mentalidades).
    3º – Tem que se fazer uma distinção entre: mulheres compositoras, as intérpretes ou musicistas. Também se deve distinguir qual o período da história a que nos queremos referir. De forma geral e abrangente, por questões relacionadas com a herança cultural judaico-cristã, a mulher sempre foi associada ao mal e sempre foi diminuída nas suas capacidades e potencialidades. Muitas mulheres compositoras que se detacaram nas suas épocas não ficaram para a história por uma simples razão: quem escreveu a história foram homens!
    4º – Desde a Hildegard von Bingen (a mais conhecida do seu tempo e que apenas constitui um exemplo entre outras) até às compositoras do séc.XX, as mulheres (tanto as que, por diversas razões, viveram em clausura e dedicadas às ordens religiosas) como as pertencentes a classses sociais mais elevadas (primeiro na aristocracia e depois, com mais frequência, na burguesia) tiveram uma educação musical desde muito cedo. Todas sabiam música, todas estavam aptas a satisfazerem os pré-requisitos de uma “mulher dotada” e “de bem”. Mas se as suas qualidades musicais eram bem aceites para realizar serões e saraus agradáveis, já fazer profissão disso era muito mais complicado. Isto explica logo, e apenas em parte, porque é que existiram mais mulheres intérpretes que compositoras. O exemplo aqui dado por SoyGardel da irmã de Mozart é um bom exemplo. Também Anna Maria Magdalena Bach é outro óptimo exemplo, e por aí fora…
    A partir da segunda metade do séc.XIX, mas principalmente a partir dos movimentos feministas e de emancipação da década de 50/60 do séc.XX, as mulheres começaram a ter mais liberdade para seguirem profissões que eram tradicionalmente quase exclusivas dos homens. Hoje em dia esse percurso ainda não terminou e a herança judaico-cristã ainda pesa no inconscinete colectivo!
    5º – A questão não passa tanto por afirmar a inexistência de mulheres compositoras, mas mais por efectuar investigações que tragam à luz (e aos ouvidos) do dia, partituras e biografias que comprovem a sua existência (já agora, investigações seguidas de gravações de CDs que ajudem a divulgar as suas obras).
    Repito: este blog do PQP Bach contribui muitíssimo para essa divulgação!
    Parabéns!

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