Conjunto Roberto de Regina 25 anos [1976] (excertos da série Cantos e Danças da Renascença)

Cj Roberto de Regina 25 anos http://i34.tinypic.com/2jb5ikh.jpgEm 19.08.1961 a revista Cash Box, editada em Nova York, tratava como “um dos lançamentos mais importantes do ano” o Volume 1 de Cantos e Danças da Renascença, série de LPs produzidos pelo carioca Roberto de Regina com o conjunto vocal e instrumental que vinha desenvolvendo havia dez anos.

Infelizmente não tenho os discos originais, só uma espécie de compacto feito pela CBS em 1976 em um só LP – em lugar de reeditar inteira essa que devia ser considerada umas glórias da realização musical basileira.

Exagero? Bem, o grupo tinha sido absoluto pioneiro no repertório renascentista no Brasil. Verdade que em Belo Horizonte um grupo já usava o nome “madrigal renascentista”, mas não só seu repertório não era exclusivamente renascentista, como sequer se tratava de um madrigal e sim de um coral em moldes de épocas posteriores; seu trabalho estava longe de significar uma revivência minimamente autêntica de como essa música devia ter soado.

Mas a coisa da autenticidade é mais sutil: Roberto de Regina também poderia ser acusado (como foi) de não ser autêntico por, na falta de instrumentos de época, usar oboés e fagotes modernos (só por exemplo). No entanto suas interpretações absolutamente não soavam como algo modernizado – e sobretudo tinham como que um encanto, um mel: não eram de hoje, mas soavam como música viva, fluente como a feita ali no boteco da esquina, e não em um laboratório acadêmico. Enfim, talvez se possa dizer, muito de acordo com a época, que tinham BOSSA.

Talvez o que mais ajude nesse sentido seja as vozes usarem uma impostação muito discreta, sem nenhum cacoete operístico – e além disso se permitirem um discreta nasalidade, uma malemolência… como quem realmente não pretende negar que a música está sendo feita por brasileiros (ato comparável, talvez, ou de lermos Fernando Pessoa com qualquer um dos nossos sotaques, e não como ele ‘ouviu’ a poesia quando a escreveu).

De resto, alinho algumas observações que, acredito, podem ajudar na apreciação. A primeira é me desculpar que em alguns vários pontos pontos os agudos parecem sujos ou estourados – mas não foi falha na digitalização: creio que esse vinil foi abusado com agulhas rombudas em alguma época da sua vida.

Outra, que a série original vinha dividida em discos para a França, para a Espanha, para os franco-flamengos, os vasc… – ops, perdão! – o que de certa ‘conversa’ com a minha postagem anterior (Música da Renascença para alaúdes, vielas e bandurra). Só que aqui temos uma amostragem um tanto desequilibrada: um lado inteiro em francês, outro quase inteiro para a Espanha, e três faixas divididas por três outros países.

O francês usado é quase compreensível para quem tem noção razoável dessa língua se apenas se levar em conta que oi ou oy não vêm pronunciados ‘uá’ e sim ‘oê’. E assim fica compreensível o verso que termina as estrofes de Perdre le sens devant vous (‘perder o senso diante de ti…’), para mim uma das interpretações mais encantadoras do disco: ditte le mois, ditte le mois, je vous pris (‘dize-me, dize-me, eu te suplico’).

Notabilíssima a peça ‘Os gritos de Paris’ (Les cris de Paris) de Jannequin, que pretende descrever a agitação da feira ou mercado, com os vendedores apregoando uma delirante variedade de produtos… Aqui vale comparar com a leitura mais tradicionalmente coral de Klaus-Dieter Wolf à frente do Madrigal Ars Viva de Santos, que postei há não muito – e lá vocês encontram o texto de Les cris de Paris no encarte!

Roberto executa Mit ganczen Willen, do organista cego alemão Conrad Paumann (1410-1473), num dos cravos que ele mesmo construía. A seguir o Pater Noster de Obrecht também me parece um ponto alto de interpretação. Mas logo vêm os espanhóis, que comparecem com duas peças que devem ter sido selecionadas só como amostras da sua polifonia mas, honestamente, me parecem muito chatas (Dezilde al caballero e Falai meus ollos – esta em galaico-português), uma de extraordinário lirismo (Ay luna que reluces, do Cancioneiro de Upsala – coleção de música espanhola que tem esse nome pois a única cópia conhecida foi encontrada na Universidade de Upsala, na Suécia), e três de puro espírito farrista: ao fim de cada repetição do estribilho Dale si le das uma cantora começa a dizer uma palavra que, pela rima, seria obscena, e outra a interrompe ‘consertando a coisa’. Em Besad me y abrazad me uma mulher incita o marido a agir em termos como ‘pára de fingir que está dormindo!’. E Hoy comamos y bebamos, que termina o disco, joga no lixo qualquer hipocrisia e assume ‘Vamos comer e beber, cantar e folgar, que amanhã é dia de jejum. E não vamos perder bocado, pois [para comer mais] iremos vomitando’.

Dá pra fazer uma tal música com pedantismo acadêmico? Pode-se questionar o rigor musicológico de Roberto de Regina aqui e ali, mas fez música viva – e no meu sentir isso é precisamente o melhor que se pode dizer de um musicista.

25 anos do Conjunto Roberto de Regina
LP CBS de 1976. Digitado por Ranulfus, ago. 2010

FRANÇA
A1 Bon jour, bon moys (Dufay)
A2 Je ne vis oncques la pareille (Dufay)
A3 Petite camusette (Josquin des Prez)
A4 Ou mettra l’on ung baiser favorable? (Janequin)
A5 Les cris de Paris (Janequin)
A6 Ce sont gallans (Janequin)
A7 Que vaut Catin? (Costeley)
A8 En ung chasteau (Roland de Lassus)
A9 Perdre le sens devant vous (Claude le Jeune)

ALEMANHA
B1 Mit ganczen Willen (Paumann)

FLANDRES
B2 Pater Noster (Obrecht)

ITÁLIA
B3 Due villotte dei Fiori(Azzaiollo)

ESPANHA
B4 Besad me e abraçad me (n.n., Cancioneiro de Upsala)
B5 Dezilde al caballero (N.Gombert, Cancioneiro de Upsala)
B6 Falai meus ollos (n.n., Cancioneiro de Upsala)
B7 Dale si le das (n.n., Cancioneiro del Palacio)
B8 Ay luna que reluzes (n.n., Cancioneiro de Upsala)
B9 Hoy comamos y bebamos (Juan Encina)

. . . . . BAIXE AQUI – download here

Ranulfus (publicado originalmente em 08/08/2010)

19 comments / Add your comment below

  1. Roberto de Regina talvez não esteja mais vivo, mas até uns 4, 5 anos atrás, ele podia ser encontrado num sítio em Guaratiba, no Rio (longe pra cacete do centro), tocando num cravo que ele mesmo fez, com roupas do século XVIII, dentro de uma sala toda decorada em estilo barroco pela própria mão do músico. No teto, as imagens representavam seu pai e sua mãe, a caráter. Quem ia escutá-lo ganhava também uma refeição primorosa. Que figura interessante! Uma anedota: durante a maior parte da “vida ativa”, ele foi anestesista…

  2. A TV Educativa exibe um programa de música erudita chamado “A Grande Música” (agora na madrugada das quartas para as quintas). O descrito por Diego Viana pode ser visto em um ou dois programas gravados na Capela Magdalena, de Roberto de Regina, maravilhosos.
    Em mais de um programa, assisti a grupos de música medieval cantando na bela capela.
    Longa vida a Roberto de Regina, seu cravo, seu estilo, sua capela!

  3. Fui olhar o link da Capela Magdalena e achei muita graça… Quando o conheci nos tempos da criação da Camerata Antiqua de Curitiba, ele se apresentava de modo muito mais sóbrio. Com a velhice o Roberto deve estar se divertindo muito, permitindo-se ser folclórico mesmo, como disse o PQP – ou quem sabe: soltar o personagem que gostaria de ser.

    No site encontrei também referência à gravação integral do Cancioneiro de Upsala com a Camerata, a primeira feita no mundo – e nem sei se depois veio outra: eu tinha esse CD duplo, um dia invadiram minha casa e levaram meia dúzia de coisas – esse CD no meio. Minha maior raiva é que provavelmente nem souberam apreciar, pode ter ido parar no lixo. Se alguém achar essa gravação para adquirir, atesto que vale a pena!

  4. Descobri o PQP Bach ontem (13/08)e hoje já detetei uma baita coincidência ao achar essa resenha sobre “Os 25 anos do Conjunto Roberto de Regina”. Tenho dois desses LPs mas é praticamente impossível ouvi-los, de tanto que foram tocados durante anos (é verdade que também não fui muito cuidadoso). Tentei fazer o download mas parece que o link não está funcionando. Há algum outro jeito de conseguir as músicas digitalizadas ?

    1. Fui membro do Conjunto Roberto de Regina.
      Tenho digitalizados em CD ,amadoristicamente, sete LP’s do Conjunto.Terei prazer em envia-los por email.
      Abraço.

      1. Eis aí uma sugestão de valor inestimável. Ficamos torcendo para que esta contribuição se efetive, e pedindo a Deus que dê as merecidas bênçãos a quem se dispõe a divulgar obras tão boas.

  5. Roberto de Regina continua até hoje em 2011, com seus 83 anos tocando divinamente. Aos críticos, só lamento. Roberto tem uma vivacidade incrível e como poucos acredita em si mesmo.

  6. Roberto de Regina hoje com 85 anos goza de extraordinária vitalidade e sabedoria. Em seu sitio em guaratiba vem recebendo a 20 anos, visitantes para ouvirem seu maravilhoso instrumento e apreciarem seu Museu com replicas de carros, bondes, dirigíveis… e catedrais do mundo inteiro (todos montados por ele) recebe também para uma palestra alunos da rede municipal num projeto intitulado “Reaprender a ouvir” (6 anos de realização). Quem quiser conhecer seu trabalho é só agendar uma visita. ( 2410 71 83).

  7. Olá! É possível fazer o upload para o Rapidshare? O Megaupload foi fechado, portanto, estamos sem o link para este disco. Estou curiosíssima!

  8. OLá! Uma vez tentei vos escrever de minha admiração por vocês! Parece que revivo passagens de minha vida corpóreo naqueles tempos!. Obrigada!

  9. Prezado Ranulfus,

    Muito boa a repostagem deste disco!
    Roberto de Regina está vivo, ainda tocando cravo e completará, ano que vem, 90 anos. Sem dúvida alguma, foi um dos precursores da Música Antiga em nosso país, antecedido pelo ótimo Conjunto de Música Antiga da Rádio MEC, este sob a direção do violista da Orquestra Sinfônica Brasileira Borislav Tschorbow, fundado em 1949. Este grupo tem dois LPs, dos quais tenho o segundo.
    Uma curiosidade: Roberto de Regina é médico anestesista e exerceu tal atividade, durante muitos anos, aqui no Rio de Janeiro.

    Muito obrigado e um abraço,

    Nilton Maia

    1. Muito obrigado pelo seu comentário, Nilton! De fato, a resistência do Roberto é uma coisa invejável. Eu o acompanhei bastante de perto nos anos 70, quando ele viajava de ônibus do Rio a Curitiba a cada duas semanas, para desenvolver a Camerata Antiqua dessa cidade. Praticamente um amor e fervor missionário pela música!

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