Stefan Niculescu (1927-2008) / Myriam Marbé (1931-1997) / Anatol Vieru (1926-1998): The Romanian Saxophone

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Este álbum foi um marco para mim. Já andava um pouco cansado do tom escuro, áspero, da música contemporânea, o que me levava a colocar todo tipo de compositor de vanguarda no mesmo balaio, e igualmente decepcionado com a sensação de que compositores que buscavam abandonar ou suavizar o experimentalismo com uma linguagem mais comunicativa acabavam fazendo concessões desnecessárias e diluindo a força da música, como se comunicabilidade só fosse possível com um passo para trás. Neste momento me deparei com este álbum de música romena, da qual já havia ouvido falar algo bem por cima, mas que conhecia mal (basicamente Enescu e Doina Rotaru, uma compositora que, aliás, pretendo postar aqui mais tarde). De repente me deparo com o apaixonante lirismo da Sinfonia nº3 de Ştefan Niculescu, um lirismo extremo — não aquele lirismo extremamente contido num Mi-Parti do Lutoslawski, por exemplo, mas um lirismo escancarado e desavergonhado — e nada convencional, que parecia reposicionar várias técnicas contemporâneas que associava a escuridão numa expressão totalmente outra. Era, como no caso Matisse, como se o preto deixasse de significar coisas sombrias para ser só mais uma cor. Buscando mais informações sobre Niculescu, descobri a variedade expressiva de suas obras e mesmo comentários como o de Ligeti, que dizia ser Niculescu um dos grandes mestres de nosso tempo. Pena que comentários assim não possam garantir divulgação!

Embora um pouco menos (dada a epifania causada pela sinfonia de Niculescu), os outros dois compositores presentes neste álbum, Myriam Marbé e Anatol Vieru, também me chamaram a atenção e me instigaram a correr atrás de mais música romena, pesquisa que acabou sendo de mais e mais descobertas.

Finalmente, note-se que as três obras foram dedicadas ao grande saxofonista romeno Daniel Kientzy, raro nome a tocar (bem) a família toda de saxofones e que aqui sola em todas as peças. Além dessas três, muitos outros compositores (sobretudo romenos) a ele dedicaram obras, com um resultado empolgante para o repertório de sax (que aos poucos espero postar aqui).

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Daniel Kientzy – The Romanian Saxophone: Obras de Niculescu, Marbé e Vieru

Ştefan Niculescu (1927-2008)
01 Concertante Symphony nº3 “Cantos”, para saxofone e orquestra

Daniel Kientzy, saxofone
Romanian Radio Symphony Orchestra
Iosif Conta, regente

Myriam Marbé (1931-1997)
02 Concerto for Daniel Kientzy and Saxophones

Daniel Kientzy, saxofone
Ploiesti Philharmonic Orchestra
Horia Andreescu, regente

Anatol Vieru (1926-1998)
03 Narration II, para saxofone e orquestra

Daniel Kientzy, saxofone
Timisoara Philharmonic Orchestra
Remus Georgescu

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Stefan Niculescu: brilhante representante de um repertório quase desconhecido
Stefan Niculescu: brilhante representante de um repertório quase desconhecido

itadakimasu

20 comments / Add your comment below

  1. Pra quem ainda não atinou: itadakimasu –> novo integrante de nossa equipe.

    Enfoque dele: música clássica “underground” contemporânea (ou melhor, “não mainstream”), do Brasil e de outros países, especialmente Romênia.

  2. Agradeço as boas-vindas e espero que gostem do que pretendo oferecer. Cada dia sou mais doido por Niculescu, que na minha humilde opinião, é o que de melhor os últimos cinquenta anos nos ofereceram musicalmente, pela riqueza expressiva, que vai do áspero, ao irônico ao lírico com uma competência muito rara. Ao mesmo tempo a música tem uma arquitetura fascinante e um som todo peculiar e envolvente pelas combinações timbrísticas. Logo espero pastar o Ison II, que é desbunde nesse sentido

    PS: itadakimasu é um expressão japonesa usada antes de uma refeição, para expressar gratidão, mas que, imagino, podemos adaptar muito grosseiramente ao nosso bom apetite, hehe.

  3. Caro:

    Eis o que achei na Internet a respeito de tua alcunha, bastante interessante:

    “(…)itadakimasu, pronunciado antes de cada refeição é uma prece de agradecimento e reconhecimento às vidas que foram sacrificadas para dar continuidade à nossa vida. É um obrigado à vida dos grãos de arroz que não produziram outras vidas, um obrigado às abelhas que polinizaram os grãos, ao trabalho do lavrador que cultivou o arroz, às mãos que trouxeram o arroz até a nossa mesa.
    A palavra é do dicionário Shinto, a mais antiga crença japonesa.”

    Fonte: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080828133128AAiNqGT

  4. CVL, obrigado pela parte que me cabe 🙂 E, itadakimasu, bem-vindo. Sua participação no blog, só por esse primeiro álbum, promete muitíssimo. Uau.

  5. Bravo!The music of my country is alas so little known…These three composers-together with Olah and Stroe =represent the “golden generation” linking the Enescu heritage with contemporary music.All five are not longer alive but their music continues to be played and admired here in Romania.As for Kientzi he played a central role in the romanian music after 1980.I have heard live some three month ago concerts with new works dedicated to him-among them the second concerto by Doina Rotaru,the greatest composer in Romania today.I have hundreds of hours of recordings of romanian music and a dozen of concerts with Kientzy..Someone interested?

  6. Surely I’m interested in your recordings! Though I have a good collection right now, there are tons of pieces I still want. For example, Niculescu’s Octuplum, Sincronies 3 and 4, Duplum, Invocatio and, of course, his Pomenire, Vieru’s Games for piano and orchestra and string quartets, Bentoiu’s Symphonies 3, 4 and 7, and string quartet’s 3, 4 and 6. Also, I’d love to get more from newer composers, such as Ioachimescu, Surianu, Danceanu and Stanculescu-Vosganian.

  7. Wow,it seems you know all this stuff..I don’t have right now the Pomenire-but I have the recording..Also I don’t have right now Vieru but soon I can post a whole blog dedicated to him.We were friends and I have unpublished recordings.But I have also a lot of contemporary composers-Rotaru, Vosganian,D ediu, Balint,Lerescu..

  8. There is a terrific romenian bassist called Catalin Rotaru that plays in Brazil once or twice every year. To him, it appears nothing is impossible to play in the double bass.

  9. Olá itadakimasu,
    Não conhecia a obra de “Ştefan Niculescu “,é de uma grande força musical que falta hoje em muitos compositores ditos engajados com a vanguarda.Sempre gostei de compositores completos que sabem escrever para todos os instrumentos (principalmente os de palheta simples)sem machucar nossos ouvidos com aquelas invencionices harmonias que não levam a lugar nenhum.
    Ao lado do saxofonista “Daniel Kientzy” gostaria de colocar outros do mesmo quilate.
    Anthony Braxton = Compositor e instrumentista.
    JOHN SURMAN = Compositor e instrumentista.
    Louis Sclavis = Compositor e instrumentista.

    Abraços e seja bem vindo..
    sds.

  10. Velho, vou te chamar de Ita porque é pau ficar catando as letras nos extremos do teclado toda vez. Acabei de ouvir o CD, preparando-me para dormir: o Niculescu é hipnótico – vou só me ater a ele porque realmente o cara vale o comentário do Ligeti.

    Fiquei me perguntando o quanto a maioria dos ouvintes de concerto hoje em dia iria ficar se debatendo e chamando essa peça de “rame-rame”, graças à falta de cultura e aprimoramento do gosto musicais que permitissem avançar até alcançar a compreensão de toda a expressão que Kientzy e a orquestra proporcionam.

    Ainda bem que este blog existe.

  11. Realmente o Niculescu é hipnótico, cvl. O modo como ele consegue ser incisivo sem ser violento, te envolvendo aos poucos, é algo por que babo. No mais, é uma música que usa de elementos aleatórios de uma maneira muito legal. A peça pode ter interpretações bem diferentes. Tenho aqui uma outra gravação do Kientzy que é outra coisa, no início é um pouco mais sombria, e no geral soa bem mais sacra. Qualquer hora posto aqui para comparação.

    William, sobre os saxofonistas que você citou, não conheço nada. Vou ver se dou uma procurada depois. Além do Kientzy, os saxofonistas que melhor conheço são o Emil Sein (também romeno), o Claude Delangle e o John Harle. Mas, como o melhor que conheço do repertório para sax vem da Romênia, Kientzy e Sein são mesmo minhas referências.

  12. Hi, Jacky!

    I’m be anxiously expecting your offers. Having Vieru’s unpublished recordings makes me even more curious. I’d love if you had the 7th symphony, for instance, as it’s my favorite piece by him. I have just a record I’ve got from teh romanian radio and the quality is far from what the music deserves.

  13. itadakimasu,i don’t know how to upload here..
    I can send to you by mail the links and a general presentation,asking you to translate in portugues..
    Obrigado

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