The Real Chopin, Epílogo (1 de 2)

18043_3_0_0Antes de tocar meu barco para outras praias e prosseguir com a desova do bocado de música que creio ter a compartilhar convosco, volto brevemente para mais dois rápidos estrebuchos que concluirão a série “The Real Chopin”, cuja maior parte já foi publicada em duas mamúticas postagens feitas pelo patrão PQP – a primeira aqui, a segunda ali.

Na ocasião, alertei que muito conteúdo fora propositalmente deixado de fora, uma vez que este arbitrário curador que vos fala atentou tão só a seu gosto pessoal e prestou contas somente à coerência (não muita) que cabe em seu matutante melão. E, antes que sobre ele chovam tomates, lembro os resmungões de que os 21 discos da coleção, na maioria em forma de recitais, foram reorganizados gratuita e abnegadamente por mim de acordo com gênero musical, tarefa que facilita bastante a vida dos melômanos e que, se não exatamente hercúlea, me queimou alguma pestana.

No entanto, diante da boa repercussão das postagens originais, e de alguns pedidos de leitores do PQP Bach, revi minha posição enfastiada. Assim, os venerandos pianos Pleyel e Érard voltam a este blogue para completar a série em duas prestações.

A primeira delas deverá atender, entre vós outros, somente aqueles colecionadores obsessivos, os que fazem absoluta questão do completo, do integral, do inteirinho, compasso por compasso, colcheia por colcheia, sem perder uma só fermata. Esses tipos, garanto, poderão em breve repousar sob o dossel da serenidade, mesmo que isto signifique ter que escutar, por exemplo, alguns compassos escritos para os cachorros de George Sand, amante do compositor.

Diferentemente de Beethoven, que volta e meia vendia alguma bobagem escrita em dois toques para não terminar o mês no vermelho, Chopin foi mais criterioso quanto ao que submetia à publicação. De sua primeira obra-prima consumada (os Estudos Op. 10) até a última obra publicada em vida (a Sonata Op. 65 para violoncelo e piano), foram poucos os passos em falso que levou para a prensa. Muito o que cai fora desse intervalo – obras infantojuvenis, exercícios para conservatório, peças de ocasião e esboços deixados de lado – aparece nas gravações a seguir.

ooOoo

FRYDERYK FRANCISZEK CHOPIN (1810-1849)

THE REAL CHOPIN – RONDOS

A despeito do título, o volume inclui também a curiosa Sonata em Dó menor, exercício de composição dos tempos de Conservatório de Varsóvia. Nela, originalidade do compositor aparece em lampejos, sufocada pelas exigências da forma-sonata. Tem-se a sensação de se ouvir Chopin brigando para romper uma dura carapaça que, estranhamente, me soa como um pastiche de Hummel

1 – Rondó em Dó menor, Op. 1 – Nikolai Demidenko [P]
2 – Rondó à la Mazur em Fá maior, Op. 5 – Tatiana Shebanova [E]
3 – Rondó em Mi bemol maior, Op. 16 – Nikolai Demidenko [P]
4 – Rondó em Dó maior para dois pianos, Op.73 – Tatiana Shebanova [E] e Jarosław Drzewiecki [P]
5 – Rondó em Dó maior, Op. 73 [versão preliminar para piano solo] – Tatiana Shebanova [E]

E = piano Érard, 1849
P = piano Pleyel, 1848

6 – Sonata no. 1 em Dó menor, Op. 4 – Allegro maestoso
7 – Sonata no. 1 em Dó menor, Op. 4 – Minuetto. Allegretto
8 – Sonata no. 1 em Dó menor, Op. 4 – Larghetto
9 – Sonata no. 1 em Dó menor, Op. 4 – Finale. Presto

Ewa Pobłocka, piano Pleyel (1848)

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THE REAL CHOPIN – VARIATIONS – MINIATURES

Esse volume é um balaio de gatos que começa com as interessantes variações sobre “Là ci darem la mano”, em versão para piano solo (o original para piano e orquestra, com Nelson Goerner e Frans Brüggen, foi postado aqui), e termina com o bizarro Gallop em Lá bemol, que é a tal da peça escrita para os dois cachorros da amante: o primeiro, chamado Dib, que é citado numa anotação sobre a pauta do manuscrito; e o outro, Marquis, certamente o preferido, que deu o título à composição.

Digna de nota, em meio ao balaião, é a variação que Chopin escreveu para a obra coletiva “Hexaméron”, coordenada por Liszt, e que contou também com colaborações de Thalberg, Pixis, Czerny e Herz – praticamente o panteão pianístico da época. Entre uma bobagenzinha e outra, também se encontra a única fuga escrita pelo compositor, a duas vozes e em Lá menor. Produto de sua última década de vida, foi publicada postumamente. Talvez Chopin pretendesse prestar com ela uma modesta homenagem a Bach, a quem venerava, e cujo “Cravo bem Temperado” era a base das lições ministradas a seus alunos.

01 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Introdução [Allegro]
02 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Tema [Allegretto]
03 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Variação I [Brillante]
04 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Variação II [Veloce, ma accuratamente]
05 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Variação III [Sempre sostenuto]
06 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Variação IV
07 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Variação V [Adagio]
08 – Variações em Si bemol maior sobre “Là ci darem la mano”, da ópera “Don Giovanni” de Mozart, para piano solo, Op. 2 – Finale – Alla Polacca

Nikolai Demidenko, piano Pleyel (1848)

09 – Variações em Si bemol maior sobre “Je vends des escapulaires” da ópera “Ludovic” de Hérold, Op. 12
10 – Variações em Mi maior sobre a canção alemã “Der Schweizerbulb”, B. 14
11 – “Souvenir de Paganini”, Variações em Lá maior sobre “O Carnaval de Veneza”, B. 37
12 – Variações sobre uma canção irlandesa de Thomas Moore, para piano a quatro mãos, B12A †
13 – Variação em Mi maior sobre a marcha da ópera “I Puritani” de Bellini, para o “Hexaméron”
14 – Peças para piano, Op. 72 – no. 3: Três Escocesas – no. 1 em Ré menor
15 – Peças para piano, Op. 72 – no. 3: Três Escocesas – no. 2 em Sol maior
16 – Peças para piano, Op. 72 – no. 3: Três Escocesas – no. 3 em Ré bemol maior
17 – Peças para piano, Op. 72 – no. 2: Marcha Fúnebre em Dó menor
18 – Contradança em Sol bemol maior ††
19 – Cantabile em Si bemol maior ††
20 – Largo em Mi bemol maior
21 – Moderato em Mi maior, “Feuille d’Album”
22 – Allegretto em Fá sustenido maior, “Mazurka”
23 – Canções Polonesas, Op. 74 – No. 2: “Wiosna” (versão para piano solo)
24 – Fuga em Lá menor
25 – Gallop em Lá bemol maior, “Marquis”

Tatiana Shebanova, piano Érard (1849)
† Tatiana Shebanova e Stanisław Drzewiecki, piano Érard (1849)
†† Ewa Pobłocka, piano Pleyel (1848)

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Uma das duas únicas fotografias conhecidas de Chopin, tomada por L. A. Bisson com um daguerreótipo em 1849, ano da morte do compositor. O desconforto em seu semblante me é perturbador.
Uma das duas únicas fotografias conhecidas de Chopin – e, de longe, a mais famosa – tomada por L. A. Bisson em 1849, ano da morte do compositor. Acho fascinante como este retrato destoa das poses caprichadas (até porque o tempo de exposição dos daguerreótipos era muito longo!) da época. Parece quase um instantâneo. O olhar de Chopin é inquisitivo, mesmo penetrante, e o desconforto em seu semblante, pelo menos para mim, perturbador.

Vassily

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