Marlui Miranda (1949): IHU 2 : Kewere = Rezar (Missa Indígena)

Inspirado pela postagem da Misa Criolla pelo amigo Avicenna, apresento-lhes a Missa Indígena Kewere da pesquisadora, compositora e cantora indigenista Marlui Miranda.

Tive a oportunidade de apreciar a Missa Kewere em julho de 1997, numa transmissão ao vivo da TV Cultura , direto da Catedral da Sé de São Paulo, em comemoração ao IV Centenário de Morte de José de Anchieta. A Catedral estava completamente tomada pelo povo, com a presença de representantes das nações indígenas, do Governador do Estado, do Presidente da República e do Cardeal Arns. Fiquei apaixonado logo de cara pelas melodias e pela linguagem indígena.

Para falar sobre  a obra, nada melhor que as palavras da própria compositora cearense, em texto extraído do encarte do cd.

Muitas missas étnicas foram compostas, tais como a “Missa Creolla”, a “Missa da Terra Sem Males”, “Missa Yoruba”. A Missa Kewere assume os ingredientes culturais dos índios amazônicos brasileiros, distantes de uma tradição musical erudita.

Em Kewere, a idéia central é a contraposição de crenças: de um lado, cantos de pajés; de outro, versos cristãos de José de Anchieta e textos da liturgia acomodados dentro da mesma trama composicional. Os cantos indígenas selecionados são de natureza solene, lírica, portanto dignificam e são adequados para serem interpretados por orquestra sinfônica e grande coro sinfônico. Assim, a escolha desta formação pareceu-me pertinente à ideia da catequese, da conversão dos índios a uma religião européia. A língua tupi ancestral unifica a composição como um todo.

Ao mesmo tempo que o “oratório” nos distancia das origens deles, nos aproxima misteriosamente, porque uma parte da interpretação vocal é feita de maneira étnica, evocando personagens indígenas, vozes esquecidas no passado da catequese. Assim, no Kyerie, a índia canta à sua maneira, misturando duas crenças: “Kyrie Eleyson… Tupã oré r-ausubar iepé… Tupã Eleyson…”, enquanto, paralelamente, acontece um canto “gregoriano” e um canto de “nominação”, este último explicado como uma espécie de “batismo”, inspirado na tradição indígena.

Kewere é uma composição de equilíbrio delicado, em que procurei adequar o sentido poético dos Aruá, dos Tupari, dos Urubu-Kaapor. Estes cantos são tão leves e frágeis quanto os espíritos que os trouxeram através do mundo dos sonhos. É nesta estrutura leve que pousam os versos de José de Anchieta.

Marlui Miranda

.oOo.

01. Canto de Entrada
Música: Marlui Miranda
(adaptada dos cantos dos índios Aruá)
Texto: José de Anchieta
extraído de Dia da Assunção, quando levaram sua imagem a Reritiba, v.v. 45 séc.XVI
Arranjo: Nelson Ayres

2. Kyrie
Música: Marlui Miranda
Traduzido para o tupi por: Eduardo Navarro
Arranjo: Marlui Miranda
Percussão: Paolo Vinaccia
Teclado: Bugge Wesseltoft

3. Glória
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Tupari
Texto: José de Anchieta
extraído de Pitãngi Porãgeté, v.v. 18 e 36 séc. XVI
Arranjo: Marlui Miranda

4. Aleluia: Aclamação do Evangelho
Música: Marlui Miranda
Texto: José de Anchieta
extraído de Tupána Kuápa, v.v. 39 séc. XVI
Arranjo: Marlui Miranda

5. Credo
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Urubu-Kaapor
Texto: José de Anchieta
extraído de Em Deus, Meu Criador, v.v. 1, 8 e 29, séc. XVI
Piano e Teclado: Bugge Wesseltoft
Baixo Acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Paolo Vinaccia

6. Ofertório
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Aruá
Traduzido para o tupi por: Eduardo Navarro
Arranjo: Caíto Marcondes
Teclado: Bugge Wesseltoft

7. Pai Nosso
Música: Marlui Miranda
Texto extraído do Catecismo da Língua Brasílica séc. XVI
Arranjo: Mateus Hélio

8. Agnus Dei
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Aruá
Texto: José de Anchieta
extraído de Pitãngi Porãgeté, v.v. 92-95 e de Polo Moleiro, v.v. 122-125
Arranjo: Nelson Ayres

9. Comunhão
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Urubu-Kaapor
Texto: José de Anchieta
extraído de Santíssimo Sacramento, séc. XVI
Arranjo Coral: Marlui Miranda
Piano e Teclado: Bugge Wesseltoft
Baixo Acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Paolo Vinaccia

10. Ação de Graças
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Urubu-Kaapor
Traduzido para o tupi por: Eduardo Navarro
Arranjo: Marlui Miranda
Percussão: Paolo Vinaccia

11. Canto Final
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Aruá
Texto: José de Anchieta
extraído de Dia da Assunção, quando levaram sua imagem a Reritiba, v.v. 90-98 séc.XVI
Arranjo: Ruriá Duprat
Piano e Teclado: Bugge Wesseltoft

Baixe as Letras e Traduções

Concepção e Composição de Marlui Miranda, adaptada da música dos índios, Aruá, Tupari e Urubu-Kaapor
Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo
Coral Sinfônico do Estado de São Paulo
Coral IHU
Regência: Maestro Aylton Escobar

BAIXE AQUI / DOWNLOAD HERE

Strava

38 comments / Add your comment below

  1. Muito linda a missa. Estranhei a princípio porque realmente a técnica de canto é indígena, mas depois apreciei a beleza da obra. Valeu o post, Strava.

    PS.: Quem teria a “Missa da Terra Sem Males” e a “Missa Yoruba”?

  2. Yesss! NÃO SEI SE UM DIA PODERÁ HAVER POSTAGEM MAIS RELEVANTE neste blog – a não ser talvez o IHU 1, que não é sinfônico mas também é de altíssima qualidade (depois de me roubarem 2 originais tenho apenas uma cópia sem muitos dados, mas se ninguém mais tiver posso compartilhar).

    Esclareço: em quase toda música pela qual “babo” neste blog eu vejo sobretudo um interesse de GOSTO, de satisfação pessoal. Mas no trabalho da Marlui eu vejo, além do gosto, uma IMPORTÂNCIA HISTÓRICA ÍMPAR. Pois ela fez um resgate etnográfico real de coisas que muito facilmente iriam se perder em poucos anos, mas não se deteve no resgate etnográfico para especialistas: deu a isso um forma artística que simultaneamente é de alta qualidade para os ouvidos “ocidentais” e não trai a verdade da forma e do espírito ameríndios. Uma grandeza de realização raríssima na História, eu digo – e não só na história do Brasil ou das Américas.

    Villa-Lobos é gênio, mas todo mundo sabe que dizer que fez pesquisa etnográfica é piada: trabalhou sobre material colhido por outros, ou se ele mesmo colheu foi sem rigor nenhum. Fez, aqui entre nós, muita “macumba pra turista ver”. Como era gênio, a fez genial, grande música. Mas sem verdadeira justiça nem ao mundo ameríndio nem ao mundo afro.

    Quanto às outras missas referidas, boa parte são realizações da Teologia da Libertação, com intenções políticas compreensíveis mas longe de serem grandes realizações artísticas (e nem mesmo litúrgicas, filosóficas, antropológicas, teológicas). Pelo menos é o caso das brasileiras Missa dos Quilombos e Missa da Terra sem Males – colchas de retalhos díspares demais e que descambam fácil demais para o demagógico.

    Quanto a Missa Iorubá, nunca ouvi falar. Seria interessante… Mas me pergunto se não estavam pensando em outra que circulou nos anos 60, a Missa LUBA, relativa a um povo do Congo. Era sem dúvida interessante mas pura percussão e canto secco, o que se mantém nos limites do que todo mundo acha que é o máximo que a África realizou em música – e isso me frustra: mais importante seria ouvir, p.ex., a kora, uma espécie de harpa efetivamente clássica, testemunho do refinamento das cortes imperiais do Máli e em torno desde o século XIII.

    Já ao espelhar em si, SEM RESOLVER, toda a tensão, toda a trágica dramaticidade do encontro das culturas européia e ameríndia, e isso com uma seriedade e respeito absolutos no trato com o material sonoro ameríndio, a obra de Marlui Miranda me parece realmente um monumento a ser destacado no meio de toda a produção musical do continente.

    Sei que a Marlui tinha projetado uma série de IHUs de 1 a 6, mas parece que não continuou depois deste 2 (a Missa). Alguém aqui terá mais informação a respeito?

  3. Há três ondas rolando nesse blog: a russa, a mozartiana e a católico-etnográfica. hehehe

    Vou contribuir com a terceira assim que possível, postando a Grande Missa Armorial (1982), de Capiba, permeada de ritmos nordestinos, embora o texto seja em latim. Pena que a interpretação não seja tão solene quanto deveria.

  4. O caro Strava me enviou um link com a Missa da Terra sem Males e ela é isso que o Ranulfus relatou: demagógica e politizada, sem falar que parece um genérico da Missa Crioula (todos os movimentos são baseados em ritmos sul-americanos, como pude ver no encarte). Só não deleto do meu HD porque não é um registro fácil de se encontrar e foi presente do Marcelo.

    1. Ainda não tive oportunidade de ouvir a Missa da Terra sem Males, apenas fiz uma busca rápida e encontrei o link. Vou ver se dou uma sacada logo mais! Já é notório que não sou muito chegado a música vocal e sendo missa, são pouquíssimas as que me interessam, mas vamos ver…
      Estou pensando numa grande postagem com a trilogia de Carl Orff, chamada TRIONFI, que engloba as cantatas Carmina Burana, Catulli Carmina e Trionfo di Afrodite. O que acham?

    2. Andei tentando escutar a Missa da Terra sem Males, mas não consegui fazê-lo atentamente. Tem a insturmentação até bonitinha em alguns momentos, porém não me trouxe empolgação. Dificilmente retomarei a tentativa. Mas vale ficar com o registro, para posteriores repasses para quem se interessar.

  5. Que Gloria é esse??? A coisa mais sublime que ouvi nos ultimos tempos. De uma simplicidade hipnótica encantadora.
    O resto achei muito bom, mas o Gloria me “assustou”. Parabéns pela postagem Sr. Strava.

    1. Obrigado avoado. O Glória é umas das partes que gosto mais na missa, mas eu adoro esses versos do Aleluia: “Pejó pabenhe, Iesu momoránga, sausúba raánga, xe irunamo be…” com o “Opakatu abá yby marã-e yma supé i guasem-i” em contraposição.
      Abraço!

  6. Que Gloria é esse??? A coisa mais sublime que ouvi nos ultimos tempos. De uma simplicidade hipnótica encantadora.
    O resto achei muito bom, mas o Gloria me “assustou”. Parabéns pela postagem Sr. Strava. (Não acha que precisaria de uma tag para “Miranda”?)

    1. Precisamente: você acaba de redescobrir na prática o sentido original da palavra en-CANTA-mento… e aí, sejam da Índia ou dos índios, são as repetições hipnóticas que estão com tudo! 😀

  7. Estava brincando! rsrsrs
    Fiquei, realmente, de pesquisar, mas pense num negócio díficil. Estou convencido de que seria mais fácil encontrar uma agulha num palheiro, pois pelo menos sabemos que ela está lá. Já a tal missa, não temos a certeza de que já foi disponibilizada por alguma alma caridosa.

    1. Por acaso, passeando por aí, li esses comentários ao que, notei, da parte do RM, muita propriedade e conhecimentos.De fato, Marlui Miranda nos trouxe , pelo menos por um curto período de tempo, registro de etnocultura exemplar, historicamente perfeito e eticamente correto. Pena não termos mais os CDs para multiplicação dessa visão e informação cultural para a formação de muitos jovens e adultos. Não conheceremos talvez obra nacional tão perfeita…por isso mesmo não é (não foi), na continuidade, valorizada.Abraços.
      Obs.: Como baixar Download de Kewere ??

  8. mais uma vez agradeço. eu me emocionei quando ouvi pela priemeira vez, na quarta suite do descobrimento do brasil de vila lobos, o entrada do canto dos indios na procissão da cruz. ouvi repetidamente, apesar de pequena, e sem considerações politico religiosas: apenas a voz dos indios oresente na musica. obrigado poe mais essa oportunidade.

  9. Caros, especialmente Strava,
    Ontem, sábado, 7 de maio de 2011, tive a felicidade de passar por São Paulo, bem no horário em que a Cultura FM fazia entrevista com Marlui Miranda enquanto tocava Kewere, obra da qual já tinha ouvido falar, mas não conhecia. Moro em Ubatuba e, tão logo cheguei aqui, pus-me a pesquisar. No entanto, aqui onde moro internet só a mais cara do mundo (aprox R$ 150 por 850k nominais, uns 120-500k efetivos), via rádio, mas que tem uma espécie de proxy. Resultado: não é possível baixar nada pelo RapidShare. Tenho grande interesse especialmente nas letras e traduções (do link http://rapidshare.com/files/270749724/Strava_-_Missa_Kewere_-_Letras_e_tradu__es.rtf). Assim, peço a quem souber de algum link com esse conteúdo em outro “share” que poste aqui a dica, por favor.
    A propósito, postagem e comentários ótimos. Parabéns!
    Grato.
    Elcio

  10. Stravinsky,
    Muito obrigado pela gentileza. E, sim, se for possível, também gostaria de ter o cd.
    Estou me deliciando aqui com as palavras e a sonoridade (imaginada) do Tupi, língua da qual restaram poucos traços entre os caiçaras de Ubatuba. Um trabalho de fôlego, a sua digitação. Parabenizo-o!
    Grato
    Elcio

  11. olá!
    infelizmente não consigo o download do IHU. :\
    parece que o link está quebrado.
    ficaria MUITO GRATO se puder me enviar um novo link ou o arquivo.
    sou apaixonado neste álbum de Marlui, e as letras são bem difíceis de achar.
    até!
    castor de assunção

  12. Olá a vocês desse belíssimo trabalho de divulgação e educação!

    Assisti a uma reprise dessa missa na TV Cultura e fiquei encantado com as melodias. Poderiam postar novamente. Ficaria muito grato a vocês.

    Abraços,

    1. O link foi atualizado, mas a postagem só voltará a estar disponível às 20h de hoje (segunda-feira 24/04/2017).

      Aproveitei para atualizar o link também do IHU 1, que estará disponível às 20h de quarta-feira (26/04/2017).

      Obrigado pelo toque, Lucas!

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