Cláudio Santoro (1919-1989): Sinfonia n.º 6 (1958). Radamés Gnattali (1906-1988): Sinfonia Popular n.º 1 (1956)

sinfonias gnattali santoro6 http://www.tropis.org/imagext/santoro-gnattali-capa-peq2.jpg Faz poucos dias (27/07) postei uma digitalização feita em casa do Concerto para dois violões, oboé e cordas de Radamés Gnattali, e aí resolvi aproveitar o embalo e digitalizar a obra de mais peso que tenho desse compositor: a Sinfonia Popular, de 1956.

Por umas conversas com o CVL fiquei com a impressão de que ele compôs toda uma série de peças sob esse nome, mas no disco esta aparece sem número, então suspeito que seja a primeira. [Depois da postagem, o leitor Vinícius confirmou e deu a data de composição das demais: 1969 (2ª e 3ª – me parece interessante que bem no ano de lançamento deste disco!), 1974-75 (4ª) e 1983 (5ª). Valeu, Vinícius!]

A edição é do antológico selo Festa, que se empenhou em documentar a produção brasileira de concerto dos anos 50 e 60. Foi lançado em 1969, infelizmente ainda em mono – o que reduz drasticamente a percepção das vozes internas da massa sonora. A execução é da Sinfônica Brasileira (OSB) sobre regência do Cláudio Santoro, autor da sinfonia do outro lado.

Nascido em Porto Alegre, Radamés Gnattali (‘nhátali’) viveu principalmente no Rio, onde suscedeu Pixinguinha como arranjador da orquestra da gravadora Victor. Vocês vão reparar: o espírito do rádio brasileiro em meados do século 20 deve demais à sonoridade da orquestração de Gnattali.

Não vou me aprofundar em análises, só quero dizer que gosto muito dos seus trechos em contraponto (fugatos), que mostram que sabia mais que manejar massas espetaculosas para levantar cantores. E que me parece notável o seu movimento lento (Estensivo con fantasia), inteiramente baseado no pregão baiano “Olhe a flor da noite”. Até estranho que não tenha virado um standard.

Se o gaúcho Gnattali foi o mais popular e midiático dos nossos sinfonistas, talvez o amazonense Cláudio Santoro tenha sido o mais erudito e tecnicamente refinado dos nossos compositores. Sei que o CVL lhe tem fortes ressalvas, mas ainda não tive chance de aprofundar a conversa.

Talvez tenha a ver com o fato de Santoro ser vários compositores em um: nos anos 40 adotou a técnica dodecafônica, cujos resultados na maior parte – confesso – ainda hoje me parecem duros de ouvir e não sei se um dia serão menos. Mas, comunista militante, a partir de 1948 opta pelos caminhos do “realismo socialista”, voltando porém aos caminhos experimentais nos anos 60 e 70. Foi nosso compositor de sinfonias mais prolífico, sendo a primeira de 1940 e a décima-quarta de 1989, seu último ano de vida.

A Sexta Sinfonia, regida aqui pelo autor, é de 1958 e usa material temático caracteristicamente brasileiro – porém de modo muito menos óbvio e infinitamente mais complexo que o de Gnattali (não estou dizendo que melhor… nem pior!). Além disso, em vários momentos me recorda Shostakóvitch – não sei se vocês vão concordar.

Como já respondi a um leitor no outro post, fora esta sinfonia tenho pouquíssima coisa de Santoro, sobretudo peças curtas, em discos que já planejava digitalizar e postar ao longo dos próximos um ou dois semestres – mas para quem quiser ver outras coisas, e logo, há um volume considerável de obras suas no blog Música Brasileira de Concerto (agora linkado também na coluna ao lado) .

Radamés Gnattali: Sinfonia Popular [n.º 1] (1956)
01 Allegro moderato 6:07
02 Estensivo con fantasia 6:44
03 Con spirito 5:11
04 Allegro 6:03

Cláudio Santoro: Sinfonia n.º 6 (1958)
05 Allegro grazioso e vivo 4:27
06 Andante molto 5:29
07 Allegro vivo 2:40
08 Allegro deciso – final 6:10

Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Cláudio Santoro

Gravação em vinil (mono): Festa, 1969
Digitalizado por Ranulfus em jul.2010

. . . . . BAIXE AQUI – download here

Maestro Radamés
Maestro Radamés

Ranulfus

4 comments / Add your comment below

  1. Amigos do P.Q.P. Bach. Baixo muito discos de seu blog, mas também compro de vez em quando mp3 online. Tenho alguns discos raros que gostaria de compartilhar. Poderiam entrar em contato comigo por e-mail para discutirmos isso?

  2. Caro Ranulfus, o CVL tem razão. O Gnattali compôs uma série de 5 sinfonias populares e essa é realmente a 1ª delas, composta em 1956 as outras são de 1969 (2ª e 3ª), 1974 – 1975 (4ª) e 1983 (5ª)…

  3. Valeu, Vinícius! Vou atualizar no título!

    Interessante ver que ele compôs a 2ª e a 3ª no ano em que este disco foi lançado! Será que foi motivado a retomar a idéia justo por isso? Eu digo sempre que datas sozinhas não dizem nada – mas datas comparadas podem revelar volumes de informações!

    Mais uma coisa: talvez o mais bonito da internet seja ter deixado evidente diante dos nossos olhos como “conhecimento é construção coletiva”. Juro que me emociona ver a nós brasileiros montando pouco a pouco, por paixão – aqui e em outros blogs – um panorama da nossa música como oficialidade nenhuma se empenhou em montar até hoje!

  4. Como gostei muito de comentar, voltei. Além dessa versão da obra de Gnattali, há uma outra também disponível na internet, no blog acima indicado (Música Brasileira de Concerto). Se trata de gravação mais moderna (2000), com a Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina regida por Norton Morozowicz, o mesmo que recentemente esteve no blog tocando flauta. O link para quem quiser comparar é:

    http://musicabrconcerto.blogspot.com/2009/04/compositores-brasileiros-osuel.html

    Abraços!

    P.S. Desculpem-me se for da política de comentários a proibição de fazer referência a links. Tomei essa liberdade pelo fato de que o destino conspirou para que fosse o mesmo site indicado na postagem.

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