Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sinfonia Nº 10 (sério!)

Beeth10— E daí, gata, tenho uma coisa pra te mostrar.

— Eu não curo reumatismo, viu?

— Nada disso, princesa, quero te mostrar aqueles motivos curtos e repetitivos.

— Repetitivos está OK, mas curtos…?

— Sim, e afirmativos.

— Em riste?

— Certamente! Vamos para aquele cantinho ali? Me parece mais adequado.

Os dois foram. A mulher já se preparava para os amassos quando o homem tirou um fone de ouvidos do bolso e um celular. Deixou tudo no ponto e introduziu levemente os fones no ouvido da mulher, que não entendia nada.

— É a 10ª de Beethoven.

A mulher fez uma cara de decepção e respondeu.

— Um, eu não estou aqui para ouvir eruditos, quero testosterona, meu! E, dois, Beethoven jamais chegou à décima, assim como tu jamais chegarias à 2ª, quiçá à 1ª!

— Nada disso. Acabam de remontar o primeiro movimento da décima.

— Quem?

— Um Cooper ou um Wyn qualquer coisa, não lembro.

— Vin? A propósito, podias ser um cavalheiro e pedir um vinho pra aquecer.

— Garçom!

— Então podemos retirar Beethoven da “Maldição da Décima”?

— O que é isso?

— Veio, tu não sabes que Bruckner, Mahler, Dvorargh, Beethoven e Spohr escreveram nove sinfonias e aí veio um raio e fulminou com todos? Isto é, com um de cada vez… Não sabia?

— Mas Mahler fez o Adagio da Décima.

— Sim, mas era um adagio, não tinha muita ação. Aquilo lá devia estar moribundo como o teu Ludwig van.

— Então a décima é perigosa? Pode matar?

— Sim, haja disposição para chegar lá…

— Eu tenho.

Ele bem que tentou, mas acabou por deixar a segunda inacabada. Ainda hoje se encontram.

Beethoven: 10ª Sinfonia (Fragmento- Gravado em 1993)

1. Symphony No. 10 in E flat (19:44)
2. A História da Décima de Beethoven (28:50)

London Symphony Orchestra
Wyn Morris

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

La decima

PQP

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15 ideias sobre “Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sinfonia Nº 10 (sério!)

  1. Essa 10a de Beethoven é baseada em reconstruções presuntivas de sketches sinfônicos encontrados. Há muita discussão quanto o estilo e a originalidade da obra – há alguns parece original demais, até para Beethoven, transcendendo ao esperado para uma nova sinfonia. Um argumento a isso é que com o marco da nona, o autor passaria a um novo modelo de escrita sinfônico, o que, de certa forma, foi visto com a nova abordagem nos quartetos finais.
    De qualquer forma, toda obra “póstuma” ou baseada em trechos encontrados é sujeita a esse tipo de interrogação; no caso dessa obra, a despeito do cuidado acadêmico que houve, ela não chegou a ser consagrada como realmente póstuma; está mais para especulativa.

    Com várias obras ocorreu algo semelhante e com um pouco mais de sucesso, como o Requiem de Mozart (Süssmayr), a sonata solo para flauta de Bach (BWV1030), Concerto para flauta de órgão de Vivaldi (RV451), que é questionada… há outros exemplos de obras póstumas… sugestões? links para mais dessas obras perdidas?

  2. Haya, obra linda. Já providencio um upload e coloco aqui nos comments.

    PQP, a tal “Décima” foi completada pelo Barry Cooper. O Wyn Morris só fez a gravação. Acho essa compleição bizarra, meio desnecessária. Mas é ótima pra conversas de bar!

  3. Para mim, essa “construção” da 10ª de Beethoven não existe. Isso não é Beethoven. Que mania que os homens têm de querer completar as obras artísticas dos outros. Eu detesto isso. Se ficou inacabada, azar, era pra ficar, e pronto. Da mesma forma é com a 10º de Mahler. Ele deixou o Adagio e fizeram o resto. Tirando o Adagio, o resto não é Mahler. E o Réquiem de Mozart para mim vai até o Hostias. A partir do Sanctus não é Mozart. Aliás, nem parece mais a mesma obra, tirando que o Lux Aeterna, que é só uma repetição do início. Abraços!

  4. Caro A. Reiffer,
    concordo plenamente consigo no facto de certos “musicólogos” modernos quererem acabar as obras inacabadas de certos compositores, ficando o resultado bastante medíocre, aliás como neste CD.
    Contudo, tenho que discordar de si no que toca ao Requiem de Mozart, pois o próprio compositor deixou um esboço de toda a missa, escreveu a linha do soprano e do primeiro violino em quase todos os andamentos, deixou rígidas e complexas instrucções aos seus TRÊS alunos que acabaram o Requiem e por fim o Lux Aeterna só é uma repetição do início porque Mozart o desejou e especificou numa carta a Sussmayer.

    Cumprimentos

    • Caro Reiffer, eu estou recordando os movimentos de cabeça, e por isto posso estar errado quanto à exata posição do Requiem do Mozart, mas de acordo com o que eu sei Mozart escreveu somente até a Lacrimosa. De acordo com a minha partitura (a qual eu não consigo achar agora e por isso tiro os dados da memória), apenas os dois primeiros movimentos foram inteiramente orquestrados por Mozart. A partir daí, ele escreveu somente a linha do baixo, o coro e, em alguns raros lugares, a melodia do primeiro violino (quando esta não coincidia com a linha da soprano). Mas isto só vai até a Lacrimosa. Tudo escrito depois foi realmente composto pelos seus alunos, de acordo com o que eu aprendi. Se você tiver interesse, eu vejo a edição que eu tenho depois e você pode dar uma olhada.

      E sobre o Mahler, bem, o Mahler sempre compunha suas obras primeiro numa redução em quatro linhas para depois orquestrá-las, e ele produziu um bocado de material para a 10a. O adagio é indiscutivelmente seu, completamente acabado, mas os próximos movimentos tinham muita coisa composta, algumas partes inclusive orquestradas. Aqui na biblioteca de Praga nós temos um raríssimo fac-símile do manuscrito completo da sua 10a, e é impressionante o quanto ele escreveu. Mas é verdade que há mil trechos desconectados, ou realmente rarefeitos.

      Enfim, concordo com vocês sobre estas reconstruções, realmente eu prefiro deixar as obras inacabadas. Talvez o melhor exemplo seja o final da Arte da Fuga, com aquele corte brusco.

      Abraços a todos!

  5. Costumo defender a posição de que em arte não existe nehum “tem quê”. Pela condição inevitavelmente social do ser humano a gente já “tem quê” coisas demais, e a arte é justamente o campo (não conheço nenhum outro) onde podemos nos permitir liberdade incondicionada.

    Digo liberdade no FAZER – desde que se assine embaixo do que se faz. Se não vira fraude. Se foi realmente Barry Cooper quem fez essa construção (e nem cabe aí o prefixo “re-“), então se deveria identificar a peça como de “Beethoven e Cooper”, ou melhor ainda “Cooper e Beethoven” – como se passou a usar o nome de Giazzoto junto ao de Albinoni quanto àquele famigerado Adagio, independente de ser bom ou ruim. Parceria musical é uma coisa que existe desde sempre.

    Vamos proibir a parceria porque uma das partes já estava morta e não podia se recusar? Ora, Bach fez milhões de transcriações de peças à revelia dos seus autores. (Ele podia porque era Bach? Não, ele NÃO era: antes de ter morrido aquele sujeito ainda não era o que NÓS entendemos por Bach; não tinha – felizmente – nenhum modo de saber que seria julgado um semideus no futuro, vivia e sentia-se meramente como um… artesão entusiasmado, algo assim).

    Em relação a este “Possível movimento de uma 10ª Sinfonia de Beethoven” (eu o chamaria assim), deveríamos tentar ouvir como quem não sabe o que é, sem comparar com nada. Só pela “audição em amostragem” que fiz, aposto que convence como “música boa”. Ainda preciso ouvir do começo ao fim mais de uma vez, para ver se entusiasma, além de “convencer como música boa”.

    Se der pra ficar com a impressão “música boa, não importa de quem”, o tal Cooper já merece parabéns. Se chegar a entusiasmar, duplos, triplos parabéns. Não tem sentido nenhum rejeitar um pedaço a mais de música boa no universo, e muito menos de música capaz de entusiasmar.

    Porque no fundo no fundo a beleza/grandeza da música é da mesma ordem que a da natureza: importa que é belo, o que menos importa é “quem fez”. Eita maniazinha besta, essa nossa no ocidente, de hipervalorizar um negócio chamado “personalidade individual”…

  6. Pessoal, gostei da postagem. Dá pra sentir muito do beethoven em algumas passagens. Infelizmente é como o parque dos dinossauros, rsrsr, uma parte do dna teve que ser preenchida pra que se pudesse ter uma cadeia completa. Mas acho que Beethoven não é contra isso, o mesmo utilizou-se de 27 compassos de um concerto de mozart em uma obra sua. Faz parte do mundo mundo da arte, rsrsrs.

  7. Prezados,

    Este assunto não é novo. Já escutei outra versão deste movimento em: http://www.amazon.com/Beethoven-Concerto-major-Symphony-Movement/dp/B000000A7Y

    Baixei este mais pelos comentários que não conhecia.

    A musicologia está indo de vento em popa, como pode ser observado em restaurações de originais de obras como a Ópera Leonora de Beethoven, que para mim provou ser superior ao próprio Fidélio. Já escutaram com Gardiner? Vale a pena!
    http://www.amazon.com/Beethoven-Leonore-Martinpelto-Hawlata-Gardiner/dp/B000001GYV

    Agora no caso deste movimento, presumo que não dá para tirar muitas conclusões. Eu mesmo, às vezes, achava que escutava uma versão orquestrada da Grande Fuga. (Seria isto um esboço de outro quarteto? Faria mais sentido, não?). Enfim, minha opinião, vale como curiosidade apócrifa e não histórica.

    Finalizando com uma brincadeira. Menti quando disse que não dava para chegar a conclusão alguma. Minha conclusão é que a 10ª sinfonia de Beethoven ainda é a 1ª de Brahms. 🙂

    Abraços.

  8. Concordo plenamente com o José Eduardo: essa gravação vale apenas pela curiosidade e é “ótima para conversa de bar”. Mas, não dá para leva-la rigorosamente a sério. Na época da estréia dessa “Décima Sinfonia de Beethoven”, o seu “criador”, Barry Cooper, dava entrevistas como se fosse o próprio compositor ou como se tivesse encontrado, pessoalmente, o Santo Graal ou algo parecido. Apesar de ter iniciado a reconstrução apenas como um estudo acadêmico, a repercução da “obra” (que tomou proporções absurdas) acabou por inflar o ego do musicólogo inglês!!

    A obra, pelo que sei, foi elaborada para fins de estudos e deveria ficar restrita aos círculos acadêmicos. Contudo, o público parece necessitar de lendas e de “descobertas” sobre grandes artistias e personalidades. A Décima Sinfonia de Beethoven sempre esteve no imaginário dos beethovianos mais “fundamentalistas”. Já tentaram, salvo engano, atribuírem ao mestre de Bonn uma sinfonia (chamada de Jena), que, depois foi atribuída a Frietrich Witt e quem fez essa descoberta? Barry Cooper.

    Basta uma simples análise do processo de composição do velho Ludwig para termos a certeza que uma décima sinfonia seria um tanto quanto improvável: 1- Beethoven vivia revisando seus projetos e, por várias vezes, abandonava-os definitivamente ou usava parte do material em outra música totalmente diferente; 2- A obra de Beethoven tem um nítido caratér evolutivo, ou seja, da primeira até a Nona Sinfonia, Beethoven sempre EVOLUIU durante sua produção musical. Uma Décima Sinfonia teria que ser necessariamente igual ou superior à Nona Sinfonia; 3- Beethoven considerava a Nona Sinfonia como uma obra-prima e ele levou um bom tempo para conclui-la, e note-se que ele vinha já planejando essa sinfonia desde a época que estudava com o Haydn; 4- Entre a Oitava e a Nona Sinfonia temos um período de 11 anos. Beethoven realmente não pensava em compor outra sinfonia depois da Oitava. Com a Nona ele esperava coroar todo o seu trabalho sinfônico; 5- O processo de criação de Beethoven era complexo e uma obra poderia ter inúmeras versões antes do compositor chegar a uma forma definitiva (por ex, a Quinta Sinfonia teve mais de 20 versões antes da versão final conhecida).

    Dentro desses argumentos, como poderia se sustentar a plausibilidade de uma Décima Sinfonia ou mesmo de um movimento isolado desta?

    Mas, como eu disse no inicio, vale a pena apenas pela curiosidade ou para uma boa conversa de bar.

  9. Ola,
    Como musico, prefiro continuar com as obras inacabadas mesmo!!!
    Não sou especialista em terminar obras, mas essas que foram “acabadas”, não soam lá essas coisas…dá pro gasto !!!!
    Melhor original! Cada Arranjador termina do melhor modo possivel…!

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