Música na Catedral de São Paulo – Brasilessentia Grupo Vocal & Orquestra de Câmara da UNESP (Acervo PQPBach)

14np6h4Música na Catedral de São Paulo
Brasilessentia Grupo Vocal
Vitor Gabriel, regente

Orquestra de Câmara da UNESP
Ayrton Pinto, diretor artístico

As obras aqui gravadas representam uma mostra das mais de 450 composições referentes à Série Manuscritos Musicais dos Séculos XVIII-XIX da Seção de Música do Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo (ACMSP), que pertenceram ao antigo arquivo musical da Catedral, selecionadas e transcritas pela equipe responsável por sua organização e catalogação.

O acervo musical preservado no Arquivo da Cúria Metropolitana começou a ser constituido na Catedral de São Paulo em 1774, quando da chegada do compositor português André da Silva Gomes (1752- 1844), para exercer a função de mestre de capela. Até as primeiras décadas do séc. XIX, predominaram no arquivo as cópias do próprio A. S. Gomes e, em menor número, as dos músicos Floriano da Costa e Silva e Antonio Joaquim de Araújo, surgindo, como copistas predominantes, em meados deste século, os mestres de capela Antonio José de Almeida e Joaquim da Cunha Carvalho. A maioria das obras copiadas até essa fase filia-se, esteticamente, à música religiosa europeia da segunda metade do séc. XVIII e de inícios do séc. XIX, relacionada, sobretudo, ao repertório musical da Sé Patriarcal de Lisboa naquele periodo.

O jornal Correio Paulistano informava, em 01/10/1861, que o repertório da Catedral carecia de renovação e que lá ainda se ouviam músicas do tempo de D. José I (1750-1777) e de D. João VI (1792-1821), como as de André da Silva Gomes, Marcos Portugal (1762-1830) e José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), considerando a única música progressista da cidade, naquele momento, a militar … Na segunda metade do séc. XIX, entretanto, o arquivo da Catedral foi ampliado, pela incorporação de uma grande quantidade de cópias feitas por músicos locais (a maioria delas por João Nepomuceno de Souza) ou então trazidas de outras regiões brasileiras e do exterior, a maioria ligada ao estilo operístico italiano do séc. XIX. Em 25/01/1864, na festa do padroeiro da cidade, os moços do coro da Catedral, membros da Sociedade Musical Paulistana e o organista Hermenegildo José de Jesus, regidos por Antonio José de Almeida e pelo então mestre de capela Joaquim da Cunha Carvalho, executaram obras sacras recém trazidas de Roma pelo Cônego Joaquim do Monte Carmelo.

É muito provável que, na transição do século XIX para o XX, grande parte desse arquivo ainda estivesse na Catedral de São Paulo. Parte dos manuscritos relacionados ao arquivo pode ter permanecido com músicos particulares. Cópias realizadas por músicos que atuaram nessa igreja, como André da Silva Gomes, Romualdo Freire Vasconcelos, Antonio José de Almeida, Floriano da Costa e Silva, por exemplo, foram preservadas no Arquivo Veríssimo Glória (músico que trabalhou em São Paulo no inicio do séc. XX), atualmente de propriedade do musicólogo Regis Duprat. Provavelmente pela perda de interesse da maior parte do repertório sacro dos séculos XVIII e XIX, decorrente da tendência de depuração do “funesto influxo que sobre a arte sacra exerce a arte profana e teatral“, regulamentada no Motu Proprio (1903) do Papa Pio X, as obras remanescentes do arquivo musical foram retiradas da Catedral em inícios do século XX. Recolhido na Cúria Metropolitana, então na Praça Clóvis Bevilacqua, lá permaneceu até sua transferência para o atual espaço no bairro do Ipiranga, inaugurado em 30/ 11/1984.

Furio Fransceschini (1880-1976), mestre de capela desde 1908, não conheceu integralmente o arquivo musical, nem na Catedral nem na Cúria. Entretanto, no concerto que organizou em homenagem ao centenario da morte de José Maurício Nunes Garcia em 16/12/1930, na Igreja de Santa Ifigênia (onde então funcionava a Sé, pois fora demolida a antiga Catedral), Franceschini incluiu no programa o hino Ave maris stella de André da Silva Gomes, para 4 vozes e órgão, cujo manuscrito autógrafo localizou no Arquivo da Cúria, em uma caixa com 17 composições, organizada entre 1929-30. Esta e outra caixa com 14 peças resultaram da iniciativa de Francisco de Salles Collet e Silva, primeiro diretor do Arquivo (1918-1934), de organizar o antigo arquivo musical da Catedral, dedicando-se apenas a algumas obras, provavelmente às que ainda encontrassem função nas concepções de música sacra estabelecidas no século XX.

Se Collet e Silva chegou a planejar uma organização para o acervo musical do Arquivo da Cúria, infelizmente não chegou a empreendê-la em sua totalidade: até a década de 60, receberam número de catálogo mais alguns manuscritos e cerca de 30 volumes de música litúrgica, impressos nos sécs. XIX e XX. Clóvis de Oliveira, que em 1946 escreveu a primeira monografia sobre André da Silva Gomes (publicada em 1954), não conhecia nenhum outro manuscrito com música desse mestre de capela no Arquivo da Cúria, além do citado Ave maris stella.

Foi somente no final da década de 50 que o musicólogo Francisco Curt Lange tomou conhecimento do importante material ali existente. Interessado no desenvolvimento das pesquisas em acervos musicais paulistas, Curt Lange estimulou Regis Duprat a iniciar em 1959, seus estudos no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo. Duprat começou sua pesquisa pioneira no Arquivo da Cúria em 1960, publicando um catálogo de obras, de André da Silva Gomes em seu livro Música na Sé de S.P. Colonial (São Paulo: Paulus, 1995).

Transferido para o Ipiranga em 1984, juntamente com a documentação referente ao Bispado de São Paulo, os manuscritos musicais ali chegaram sem qualquer organização, enquanto os livros litúrgicos se dispersaram da cota original. Por iniciativa do Chefe do Arquivo, Jair Mongelli Jr., entre 1987-88, os manuscritos foram empacotados em 16 volumes, sem ordem definida, assim permanecendo até maio de 1996, quando iniciamos sua organização. Nessa época, constituimos a Equipe de Organização e Catalogação da Seção de Música do ACMSP – formada pelos pesquisadores Paulo Castagna (coordenador), Fabio del’ Antonio Taveira, Fernando Pereira Binder, Ivan Chaves Nunes e pelo Maestro Vitor Gabriel – equipe que também trabalhou para a realização desta gravação.
(Paulo Castagna e Vitor Gabriel, extraído do encarte, 1998)

Sigismund Ritter von Neukomm (1778-1858)
Libera me (para a Absolvição e Inumação na Missa dos Mortos)
01. 1. Libera me
02. 2. Tremens factus
03. 3. Quando caeli – Dies illa
04. 4. Requiem
05. 5. Libera me
06. 6. Kyrie
07. 7. Requiescat

Pietro Terziani (Roma, 1765-1831)
08. Mihi autem nimis (Ofertório da Missa de Santo André Apóstolo)
José Alves (Portugal, sec. XVIII)
Dixit Dominus (Salmo 109)
09. 1. Dixit Dominus
10. 2. Donec ponam
11. 3. Juravit Dominus
12. 4. Tu es sacerdos
13. 5. Gloria Patri
14. 6. Sicut erat

José Gomes Veloso (Portugal, séc. XVIII)
Iste sanctus (Anfífona de Magnificat das Primeiras Vésperas de um Mártir, fora do Tempo Pascal)
15. 1. Dixit Dominus
16. 2. Et a verbis impiorum
17. 3. Fundatus enim

José Joaquim dos Santos (Portugal, c.1747-1801)
Lauda Sion (Sequência da Missa da Festa do Corpo de Deus)
18. 1. Lauda Sion Salvatorem
19. 2. Sub diversis speciebus
20. 3. Amen

André da Silva Gomes (Lisboa, 1752 – São Paulo, SP, 1844)
Confitebor Tibi Domine (Salmo 110)
21. 1. Confitebor Tibi Domine
22. 2. Sanctum et terribile
23. 3. Intellectus bonus
24. 4. Gloria Patri
25. 5. Sicut erat

André da Silva Gomes (Lisboa, 1752 – São Paulo, SP, 1844)
26. O vos omnes (Moteto para o depósito da Imagem do Senhor dos Passos)
Anônimo (Séc. XVIII)
Procissão do Enterro (Para Sexta-feira Santa)
27. 1. Heu! Heu!
28. 2. Pupilli facti sumus
29. 3. Cecidit corona
30. 4. Spiritus cordis
31. 5. Æstimatus sum
32. 6. Sepulto Domino
33. 7. In pace factus est
34. 8. In pace in idipsum
35. 9. Caro mea

Antônio José de Almeida (S. Paulo, 1816-1876)
36. Música para Verônica, na Procissão do Enterro de Sexta-feira Santa – O vos omnes
Antônio José de Almeida (S. Paulo, 1816-1876)
Ladainha de Nossa Senhora
37. 1. Kyrie eleison
38. 2. Pater de cælis
39. 3. Sancta Maria
40. 4. Sancta Virgo
41. 5. Mater divinæ
42. 6. Mater castissima
43. 7. Mater intemerata
44. 8. Regina angelorum
45. 9. Regina prophetarum
46. 10 Agnus Dei

Manuel José Gomes (SP, 1792-1868)
Ária para o Pregador
47. 1. Veni Creator Spiritus
48. 2. Amen

Música na Catedral de São Paulo – 1998
Brasilessentia Grupo Vocal, Vitor Gabriel, regente
Orquestra de Câmara da UNESP, Ayrton Pinto, diretor artístico
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Boa audição!

sm7jmt

 

 

 

 

 

Avicenna

19 comments / Add your comment below

  1. Não consigo baixar o arquivo. Clicando no link, sou remetido a uma página do RapidShare e nela não aparece nem a opção do “Slow Download” nem a do “High-Speed Download”. Alguém saberia me dizer o que está acontecendo?

  2. Mistério sinistro esse o seu, Alexandre Semedo!

    Acabei de clicar no link e deu tudo certo.
    Até agora já houve um número expressivo de dowloads e ninguém reclamou!

    Você poderia tirar uma ‘foto’ do que aparece e me enviar para avicenna@uol.com.br?

    Obrigado,

    Avicenna

  3. Avicenna, as segundas-feiras sem as suas postagens não são as mesmas. Elas são necessárias e servem de impulso propulsor para que tenhamos uma semana mais alegre e feliz.

    Viva a música colonial brasileira.

    Graças a você temos a oportunidade de conhecer essas preciosidades.

    Abraços musicais, grande e estimado Avicenna.

  4. Amigo Carlinus,

    Tenho prazer em pertencer à confraria PQPBach, que segundo o PQP, ‘acho que nosso nível é bom pra caralho’!

    Obrigado pelo incentivo!

    Avicenna

  5. Olá!!!!! Concordo plenamente com o Carlinus!!! Segunda-feira sem Avicenna, uma semana de depressão!!!!! Bela postagem… mas, desculpe-me a ignorância, esse Neukomm copiou Mozart ou fez uma “variação sobre o tema”?

    Um grande abraço e boa semana a todos!!!!

    Jorge Tadeu

  6. Caro Conterrâneo!

    Já há um coro a clamar por suas postagens de segunda! Que beleza! E que oportunidade para descobrir este tipo de música pouco conhecida do grande público. Baixei-o, sem problemas, diga-se de passagem, e estou ouvindo-o enquanto escrevo-te.
    É um tipo de música que deve ser apreciado feito um vinho fino!
    A propósito, “Nunc Est Bibendum”!

    Até a próxima segunda caro Avicenna.

  7. Eu realmente me sinto envaidecido com tamanhas e exageradas manifestações, que afagam o coração do mais empedernido mortal.

    Muito obrigado, Adriano.

    Conterrâneo, estive na nossa cidade neste sábado e meu primo informou que o Dr. Alberto Seabra, pai da homeopatia no Brasil, nasceu em Tatuí! (Por sinal, os fios de ovos da Celina estão cada vez melhor …)

    Um grande abraço,

    Avicenna

  8. Caro Avicenna:

    Se não engano-me, há um medalhão homenageando o citado na praça do Barão de Suruí, no lado onde a Rua Maneco Pereira cruza com a Cel. Aureliano de Camargo.
    Quanto aos fios de ovos, o caro vai perdoar-me mas não conheço, perguntei para minha mãe há pouco, por telefone, e ela também não sabe, lembrei-me da Clara, que faz bolos e fios de ovos também, e que mora perto do Barão, do lado do medalhão do Dr. Alberto, e também havia a dona Olinda, que fazia doces de figo em calda que nunca esqueço…

  9. Exatamente, Adriano, nesse canto da Praça do Barão (que hoje tem outro nome).

    Você não devia ter me lembrado da dona Olinda!! Seus doces de figo em calda (ou doce de laranja em calda) com uma bela fatia de queijo de Minas era a sobremesa que meus pais me preparavam quando ia visitá-los. (Ví muito ela raspar os côcos para fazer doce!)

    Filho ingrato e desnaturado de Tatuí! Os fios de ovos da Celina infestam até os supermercados em S. Paulo, hoje em dia! Veja: http://comida.ig.com.br/comidas/como+preparar+fios+de+ovos/n1237773851385.html

    Um grande e açucarado abraço!

    Avicenna

  10. Avicenna, não é por nada não, mas o trabalho que você faz aqui no PQP é uma das coisas mais comoventes que eu vejo na internet brasileira. Resgata nossa história, mostra-nos um lado que jamais imaginaríamos ter.
    Como já disseram, as segundas sem seus posts não são as mesma.

  11. Muito obrigado pela sua presença, Mau!

    Espero estar atingindo o objetivo principal de mostrar, ao maior número possível de internautas, que existe um tesouro inexplorado da nossa rica história musical.

    Um abraço!

    Avicenna

  12. Ah, Avicenna, que deleite! E tem o Manoel José Gomes, pai de Carlos Gomes e de Sant´Anna Gomes (ambos postamos aqui), conhecido por Maneco Músico, que foi regente da banda de Campinas e mestre de capela da matriz de lá.
    Foi importante copista de partituras e algumas de suas cópias de André da Silva Gomes (não era seu parente)e Padre José Maurício Nunes Garcia são as únicas que resistiram até os dias atuais. Se acervo está todo guardado e arquivado em Campinas, no Museu que neva o nome de seu filho. Grande cara, esse Maneco!
    Obrigado por esta beleza!

  13. Avicenna,

    Acabei de te mandar um email com o print do erro que deu quando tentei baixar este arquivo. Aparece como se o arquivo não estivesse no Rapidshare. Se puder, dê uma olhada.

    Abraço e mais uma vez parabéns pelo excepcional trabalho de resgate à nossa querida Música Brasileira!!

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