Música na Corte Brasileira – Vol. 3 de 5: Na Corte de D. Pedro I (Acervo PQPBach)

25g3urtMúsica na Corte Brasileira – Vol. 3
Na Corte de D. Pedro I
1965

 

A Arquiduquesa d’Áustria, D. Leopoldina de Habsburgo, primeira esposa de D. Pedro I e mãe de D. Pedro II, escrevendo a seu pai, o lmperador Francisco I, em data de 19-11-1821, encaminha a este uma Missa cantada de Sigismond Neukomm e acrescenta que essa obra “contem duas fugas que, todos sabemos, vós muito gostais”. Passa então ao principal: “O meu marido é compositor também, e faz-vos presente de uma Sinfonia e Te Deum, compostos por êle; na verdade são um tanto teatrais, o que é culpa do seu professor (Marcos Portugal), mas o que posso assegurar é que êle próprio os compôs sem auxílio de ninguém”. D. Pedro I estudou teoria, harmonia, composição, flauta, clarineta, fagote, trombone, violino, celo. Tinha boa voz e cantava acompanhando-se êle próprio ao cravo e à guitarra. No entanto, os interesses afetivos e as preocupações políticas do monarca impediam-no de dar assídua atenção à vida musical. Assim, com a abdicação de D. Pedro I encerrou-se um período ainda de relativo esplendor devido principalmente, e de qualquer modo, à presença daqueles mestres insígnes, José Maurício, Marcos Portugal e Neukomm.

De José Maurício Nunes Garcia pouco resta no gênero instrumental puro. E eis, porém, surge há pouco a Overtura em Ré (como está inscrito nas suas partes), a extraordinária Abertura em Ré. Vem-nos ela dum passado talvez mais do que sesquicentenário; chega-nos com as suas intatas vivências, nobre e dramática de acentos, dum vigoroso dinamismo. E estruturada com mão de mestre, nos elementos pouco numerosos porém incisivos.  De imediato, a Abertura em Ré colocou-se na culminância não somente da música instrumental do Reino e do Império, como de nossa música sinfônica de todos os tempos, entre o melhor que, nesse terreno, temos produzido.

A Sinfonia de D. Pedro I (Queluz, Portugal 12-X-1798 Porto, 14-IX-1834) a que alude D. Leopoldina será possivelmente a obra agora cognominada Abertura Independência, antes sempre mencionada como Sinfonia Para Grande Orquestra. Será a mesma a que se refere a seguinte carta, de Gioacchino Rossini a D. Pedro ll e que foi publicada por Álvaro Cotrim (Álvarus) no seu livro sobre Daumier, ed. do S. de D. do M.E.C.: “Pendant le trop court séjour de sa Majesté l’Empereur Don Pedro à Paris j’ai fait exécuter au Théatre Italien uneouverture de sa composition qui était charmante, elle eut un grand succès, et comme par discrétion je n’ai pas nommé l’auteur on m’adressa des compliments croyant peut-être que la susdite overture était composé par moi, erreur qui ne déplaira pas à son auguste fills, qui pourrait bien en souvenir m’adresser un peu d’un café si célèbre de vos contrées. (Ass. DG. Rossini/Paris  5 avril/1866)” zelosamente conservada em São João del-Rei, cujas tradicionais orquestras possuem preciosos arquivos, sobretudo de música do Oitocentos. Apresenta na parte de 1.a clarineta a seguinte inscrição: “Ouvertura composta pelo Senhor D. Pedro I na época da Independência do Brasil“. A sua propensão para a composição é de maior evidência em outras obras por ele deixadas, como o Te-Deum para o batizado da lnfanta D. Maria da Glória, futura D. Maria II, ou o Credo – outrora muito executado em todo o Brasil – da missa cantada em 5 de dezembro de 1829, na Capela Imperial, escrita especialmente para a celebração de suas bodas com a Arquiduquesa D. Amélia de Leuchtenberg, sua segunda esposa.

Sigismond Neukomm (Salzburgo, 10-VII-1778 – Paris, 3-IV-1858), vindo na comitiva do Duque de Luxemhurgo, embaixador da Áustria, teve aqui posição e atividades abaixo do seu merecimento. Retornou à Europa (Paris) em 1821. A ele, no entanto, se deve o reconhecimento do valor do Padre José Maurício, por êle declarado “o maior improvisador do mundo”; a regência por José Maurício do Requiem de Mozart foi nestes termos por êle comentada no “Allegemeine Musik-Zeitung”, de Viena: “A execução da obra-prima mozartiana nada deixou a desejar.” Deu lições a D. Pedro I e a Francisco Manuel da Silva. É de sua autoria a primeira obra conhecida em que aparece um tema musical brasileiro: o belo capricho O Amor Brasileiro, no qual engastou a melodia de um lundu, obra essa encontrada em Paris por Mozart de Araujo, que também alí verificou a existência de uma Fantasia Para Grande Orquestra Sobre uma Pequena Valsa de D. Pedro I. Harmonizou modinhas do músico popular carioca Joaquim Manuel.

A Abertura “Le Héros” (O Herói) dedicada a D. Pedro I, é cabalmente reveladora da segurança artesanal de Neukomm.

A Missa de Nossa Senhora da Conceição (de “8 de dezembro”), de José Maurício, escrita em 1810, está provavelmente completa, porque naquela época era frequente encontrarem-se partituras de missas contendo somente o Kyrie, mais o Gloria, ou o Credo. A sua feição é predominantemente teatral, a exemplo de tantas do melhor repertório barroco, aí incluídas as de Haydn e Mozart. João de Freitas Branco narra: “Aliás D. João VI manifestara a Marcos Portugal o seu real desejo de que tornasse a sua música sacra mais leve e parecida com a profana – de ópera, está claro. (H. da M. Portuguêsa, 1959, Lisboa, p. 142‘)”. Assim, compreende-se que tantos elementos da linguagem musical do melodrama estejam acusados nessas páginas das quais, ainda assim, não estão excluídas a nobreza natural de inflexões expressivas, caracteristicas da música do Padre-Mestre, bem como a sua superioridade no trato da matéria coral.

Para Marcos Portugal, operista de renome europeu, cantado nos maiores teatros, com peças traduzidas até para o russo e o alemão, a Modinha saloneira não passaria de simples aria-minor e despretensiosa. Assim, esta delicada Cuidados, Tristes Cuidados, em que se afirma o melodista experiente.

D. Pedro I deixou-nos uma página que nunca mais saiu do sentimento de todos os brasileiros, e hoje já com leve pátina de simpático arcaismo: o Hino da Independência, letra de Evaristo da Veiga. Após a abdicação, a bordo da corveta “D. Amélia”, em viagem da Ilha da Madeira para o Pôrto – a fim de confirmar no trono de Portugal a sua filha D. Maria II – compôs o Hino da Carta Constitucional, Carta que iria outorgar para contrapô-la ao absolutismo de seu irmão D. Miguel. Esse hino foi mantido como Hino Nacional Português até a Revolução Republicana de 1910.

Bernardo José de Sousa Queiroz, músico português, radicado no Rio de Janeiro desde, parece, antes da chegada da Côrte, foi bastante considerado como operista e autor de peças leves, como a valsa O Aniversário, de 1838, ou o Lundum Variado, de 1839. Pelo “Jornal do Commercio”, em 1835, “oferece seus préstimos” como “mestre de música e compositor”. A Abertura em Si Bemol, de 1814, mostra um músico senhor do seu “métier”.
Andrade Muricy, da Academia Brasileira de Música, 1965 (extraído da contra-capa do LP)

Pe. José Maurício Nunes Garcia (1767-1830, Rio de Janeiro, RJ)
01. Abertura Em Ré Maior
Imperador D. Pedro I (Queluz, Portugal, 1798 – idem, 1834)
02. Independência – Abertura
Sigismund Ritter von Neukomm (1778-1858)
03. O Herói – Abertura
Pe. José Maurício Nunes Garcia (1767-1830, Rio de Janeiro, RJ)
04. Missa de Nossa Senhora da Conceição para 8 de dezembro de 1810 – Kyrie e Fuga
Marcos Antonio Portugal da Fonseca (Portugal, 1762-Rio, 1830)
05. Cuidados, Tristes Cuidados
Imperador D. Pedro I (Queluz, Portugal, 1798 – idem, 1834)
06. Hino da Carta Constitucional
Bernardo José de Souza Queiroz (Séc. XIX)
07. Abertura em Sí Bemol (1814)

Música na Corte Brasileira – Vol. 3 de 5: Na Corte de D. Pedro I – 1965
* Faixa 01 a 06: Associação de Canto Coral. Maestrina Cleofe Person de Mattos & Orquestra Sinfônica Nacional da Rádio M.E.C. Maestro Alceo Bocchino
* Faixa 07 a 11: Collegium Musicum da Rádio M.E.C. Maestrina Julieta Strutt & Orquestra Sinfônica Nacional da Rádio M.E.C. Maestro Alceo Bocchino
Selo Odeon, Coordenador-Assistente: Marlos Nobre

LP gentilmente ofertado pelo nosso ouvinte Antonio Alves da Silva e digitalizado por Avicenna.

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
MP3 320 kbps – 93,6 MB – 40 min
powered by iTunes 9.1

Boa audição.

medico

 

 

 

 

 

Avicenna

14 comments / Add your comment below

  1. Ando interessado em música clássica brasileira. Notei que não há posts de Antônio Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani, e de Hekel Tavares, por exemplo. Postar suas obras enriqueceria o blog, e eu ficaria feliz e agradecido. Obrigado, P.Q.P. Bach, por todo o seu trabalho!

    1. É isso mesmo, Gabriel, o Ranulfus disse tudo: ainda há muuiiittoooo a ser postado … e de compositores brasileiros!!!!!
      Aguarde!
      Continue antenado!
      Obrigado pela sua presença … não desligue!!!!

        1. Boa idéia, CVL, obrigado! Sinal que você gostou dele.
          Amanhã sai uma nova postagem minha e destaco o meu canal no YouTube, após a minha assinatura.
          Valeu!

  2. Com certeza, ainda há MUUUUITO a ir acrescentando no blog… o que só é possível com o tempo… Mas do Hekel Tavares já tem sim um concerto p piano, procure em Tavares!

  3. Sabe, tem compositores que eu acho que facilitaria se a gente colocasse em duas versões, nas categorias: Gomes e Carlos Gomes. Pq alguns estão com nome inteiro: Francisco Manuel da Silva. Se for só Silva ninguém vai desconfiar. Mesmo só Gomes, ou Tavares, muitos nem lembram de olhar. Deve ser Guarnieri ou Camargo Guarnieri? Honestamente, acho que melhor seria ter as duas formas lositadas nas categorias. (Mas se houver boas razões para não, aceito que me contem, colegas veteranos!)

    1. Concordo, depois a gente pode revisar isso. Os compositores que são conhecidos por nomes compostos deveriam ser assim categorizados: Amaral Vieira, em vez de Vieira, por exemplo.

      1. A questão é que somos um site de alcance internacional, e não existe uma convenção universalmente válida para isso. Muitos irão sempre procurar em Vieira, e muitos em Amaral. Similarmente, muitos em Gomes, muitos em Carlos; muitos em Guarnieri, muitos em Camargo.

        E como a única razão de ser dessas categorias é facilitar o acesso, não consigo atinar com nenhuma contra-indicação a que um mesmo compositor apareça sob duas formas, para facilitar.

        Isso era a “referência cruzada” dos índices analíticos de livros (Carlos Gomes: v. Gomes), mas como aqui o índice se forma automaticamente pela mera inserção de categoria, é mais fácil que as duas referências remetam diretamente à mesma lista de arquivos. Pq não?

        1. Porque nos seria trabalhoso e o resultado não prezaria pela sucintez: criar duas ou três referências em vez de uma só nos iria obrigar a uma reedição de posts cansativa (principalmente para os membros mais antigos) e iria encher mais ainda o menu de tags à direita.

          Claro que você está certíssimo, mas a referência cruzada, se confortável nos livros, é contra a praticidade da internet.

          O ideal seria que um tag encaminhasse automaticamente para um outro, tido como central (tipo Vieira para Amaral Vieira), mas ainda não inventaram esse recurso. Vamos pensar noutra forma.

      2. Momento “Manual do Estadão” 🙂

        A tradição manda que sobrenomes portugueses (e boa parte dos brasileiros) sejam sempre duplos: Lopes-Graça, Braga Santos, Amaral Vieira, Almeida Prado, Camargo Guarnieri, Graça Aranha, Guerra-Peixe, Lorenzo Fernandes, Costa e Silva, Cavaco Silva, Freitas Branco, Machado de Assis, Eça de Queiroz.

        Há exceções: Mignone, Gnatalli, Nobre, Bocchino, Seixas, Bontempo, Pessoa, Camões.

        Confesso que não sei se Villa-Lobos é um nome duplo ou simples…

        1. Ah, sim, tem uma categoria especial: a do sujeito conhecido por prenome. O compositor “Nunes Garcia” não existe: mas há o “Padre José Mauricio” ou, simplesmente, “José Maurício”, como prefiro.

  4. Infelizmente qualquer tradição portuguesa costuma primar pela a-sistematicidade e pouca racionalidade… Sinceramente, não gostaria de ter de me submeter a nenhuma, não… E acho que os casos onde há incerteza sobre a referência são poucos e não inflariam demais as nossas categorias. Ainda acho que seria a melhor idéia…

    Quanto a tags, pelo que sei sua criação pode ser 100% livre, ilimitada, infinita; a multiplicidade só ajuda nos mecanismos de busca, e pra outra coisa eles não servem. Ou estarei enganado?

    E finalmente: também prefiro “José Maurício”. (Inclusive porque se ele mesmo se identificasse como “padre” não teria tido, e criado amorosamente, os cinco filhos que teve…) Mas há sites internacionais que o tratam por Nunes Garcia. E aí: vamos ignorar?

    Por isso sou sempre partidário do velho ditado latino quid abundat non noscit … ou “o que abunda não prejudica” !

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