.:interlúdio:. Astor Piazzolla – “The Roug Dancer and the Cyclical Night” (Tango Apasionado).

Confissões de um Piazzóllatra Anônimo: Com esta postagem imagino que fica bem clara a minha condição de viciado, junky, em Piazzolla; como diria Augusto dos Anjos, “como o ébrio ama a garrafa tóxica de rum”, naufrago na dipsomania da música de Astor. Porque me faz bem? longe disso, é como 15 rounds contra Cassius Clay! Masoquismo musical? Talvez, se é que algum maluco psicanalista freudiano descobriu essa anomalia. Me recordo de algo que escreveu o acerbo-cômico filósofo romeno Cioran: “Com as tuas veias repletas de noites jazes como um epitáfio em meio a um circo”. É por aí a minha relação com essa música dilacerante e este texto assume um tom confessional: Sim, de viciado, que ao três anos descobriu o paraíso artificial da garrafa de Maracujina que ficava em um móvel ao meu alcance; e que ingeria goma-arábica e cabeças de palitos de fósforo… Triste sina a de um drogado. E que mais tarde, achando-se salvo do abismo, se depara com um bandoneón lancinante, capitoso, hipnótico, deletério… Sou mesmo o que Billy Wilder chamaria de Farrapo Humano. É fácil para os que não são afetados pela isca da beleza. Ah, a beleza! Nos estupores opiáticos das milongas me ressoam as linhas de Baudelaire, seu soneto à beleza ‘La Beauté’: “Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra.” Ou ainda, do mesmo vate boêmio curtido em absinto e papoulas, o seu Hino à Beleza: “Vens tu do céu profundo ou sais do precipício, Beleza? Teu olhar, divino porém daninho, Doidamente verte o bem e o malefício, E podemos por isso comparar-te ao vinho!” Eis que em meu socorro, para justificar meu fado, me vêm as palavras do grande Wilde: “A beleza é uma forma da genialidade, aliás, é superior à genialidade na medida em que não precisa de comentário. Ela é um dos grandes fatos do mundo, assim como a luz do Sol, ou a primavera, ou a miragem na água escura daquela concha de prata que chamamos de lua. Não pode ser interrogada, é soberana por direito divino.” Voilà! Non, rien de rien, non, je ne regrette rien! Não me arrependo de nada e vou afundar os dois pés na jaca, chafurdar no lodo de conhaque e mirra da música de Piazzolla até a consumação dos séculos. Ufa! O que cachaça não faz! Este é mais um disco lindo, impactante, como tantos outros de Astor, porém me parece que traz peculiaridades, com um destaque para o fenomenal músico cubano Paquito d’Rivera, que participa da gravação! A obra foi composta para um espetáculo idealizado e dirigido pela coreógrafa argentina Graciela Daniele em NY. Por mais que pesquisasse não encontrei o enredo da peça. Sei que o disco traz dois títulos: “O dançarino rude e a noite cíclica” e “Tango Apaixonado”. Não saber da temática é até melhor, pois ouvir a música nos leva a impressões talvez mais interessantes do que seria a trama do espetáculo. A mim, à parte todos os elementos piazzolescos contidos no disco, me sabe também a uma melancolia circense; algo Felliniano. Quem viu a sua joia “Ginger e Fred” (que filme, meu Deus!) saberá o que estou tentando expressar; ou o excelente filme do Patrice Leconte, recentemente lançado em DVD, “A mulher e o atirador de facas” – La Fille sur le Pont; que recomendo vivamente. Algo também do final de “O Circo” de Chaplin, enfim.

Astor Piazzola, por Pablo Morales de los Rios.

Astor Piazzola, por Pablo Morales de los Rios.

Discorremos muito sobre Astor nas postagens anteriores e sempre há o que se falar. Só para acrescentar, Astor adorava pescar tubarões. O Cavaleiro Negro do Bandonéon compôs uma ode a isso – ‘Escualo’, que dedicou ao seu digníssimo escudeiro Fernando Suarez Paz, o magnífico violinista. Disse-lhe que era uma obra que lhe dedicava com amor. Paz, numa entrevista, ironiza dizendo que a dificuldade da peça não é nada amorosa (risos). Esta obra não vai aqui, ficará para outra postagem. Mais outra?! Prometo largar o vício! Chega de tanta beleza. Só pode fazer mal. Mas, amigos, lhes garanto: Piazzolla não dá ressaca. É whisky de fina cepa; Bourbon de primeira linha; ou Falerno, se assim preferirem – ou ainda cachaça mineira da mais nobre estirpe. Hélas! Eis que retorno trôpego à pipa de Baudelaire! Como dizia o nosso poeta pernambucano Antônio Maria: “Ninguem me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire.” Embriagai-vos!:

2ica45g“É preciso estar sempre embriagado. Eis tudo! Eis a única questão! Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que vos parte os ombros e vos dobra para o chão é preciso embriagar-se sem piedade. Mas de que? De vinho, de poesia, de virtude, como preferirdes! Mas embriagai-vos. E se por vezes, nos degraus de um palácio, na relva verde de uma vala, na solitude melancólica da vossa alcova, despertais com a embriaguez já evolada ou desaparecida, indaga ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que se vai, a tudo o que geme, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala; indaga que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio vos dirão: “É hora de embriagar-se! Para não ser o cativo mártir do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem termo! De vinho, de poesia, de virtude, como quiserdes!” (Caricatura – Charles Baudelaire, por Jeff Stahl)

Gostaria de oferecer esta postagem ao amigo escritor, professor, cineasta e colega de trompete e de copo Gabriel Lopes Pontes.

“The Roug Dancer and the Cyclical Night” (Tango Apasionado).

Astor Piazzola – Bandoneón
Fernando Suarez Paz – Violino
Paquito d’Rivera – Clarineta e Sax alto
Rodolfo Alchourron – Guitar
Pablo Ziegler – Piano
Andy Gonzalez – Bass
Gravado em Radio City Studio, A & R Studio e Sorcerer Studio, Nova York; agosto e setembro de 1987.

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Wellbach

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