Alma Latina: Música Sul Americana do Século XVIII: barroco (mesmo!) do Brasil e do Peru (Acervo PQPBach)

1568r5fDia desses eu, Ranulfus, levei um vinil ao Avicenna e falei: “Olha aqui a mais antiga obra composta no Brasil já encontrada – e de resto a única propriamente barroca. Pois o Álvares Pinto que vamos postar daqui a uns dias ainda soa barroco em muitos pontos, mas ouvindo bem já não é mais, não. Aliás, preciso ser honesto, nem a peça deste disco é 100% barroca: o recitativo sim, mas a ária já se mozarteia um tanto…”

Aí o Avicenna questionou: “Mas não se fala tanto de barroco brasileiro?” E eu: “Rótulo puxado indevidamente de outras artes. Fora isto, é tudo clássico. No mínimo ‘galante’, ‘rococó’, ‘pré-clássico’; barroco não”. “Tá, mas então você pode explicar no blog, por que isto é barroco, aquilo não?” E aí eu: ‘Ih, rapaz… não me peça isso! De ouvido é tão claro, mas em palavras…”

Então tive uma idéia pra quem se interessa por essa transição tão misteriosa: pegar várias peças de mesmo gênero (p.ex., só vocal, só sacro, só instrumental solo, só concertos com orquestra), sendo algumas do barroco maduro (Vivaldi, Händel, Bach), outras de Haydn e de Mozart-quanto-mais-jovem-melhor, e ouvir, ouvir, ouvir. Depois pegar ainda Gluck e Carl Phillip Emmanuel Bach, nascidos no mesmo ano. Deste, sugiro especialmente a magnífica ‘Ressurreição e Ascensão’ (Auferstehung und Himmelfahrt) postada aqui pelo PQP: aí vocês vão poder ouvir um Bach Filho johansebastianando aqui e se mozarteando ali (antes do próprio!) – E daí? Aguarde o próximo post da série!

Mas passemos à peça descoberta nos anos 50 por Régis Duprat: um Recitativo-e-Ária composto em Salvador, com a rara particularidade de ser cantado em português.

Música dos primeiros tempos da colonização? Hehehe… Do descobrimento até essa peça se passaram 259 anos; dela até nós, só 241. A essa altura Salvador era uma capital colonial com séculos (vocês ouvirão: “esta cabeça do Orbe Americano…”), para onde o Marquês de Pombal enviou o desembargador José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Mello, ou José Mascarenhas (ufa!), para coordenar a perseguição e expulsão dos jesuítas do Brasil. Só que o Mascarenhas parece ter se enrolado com essa e outras questões, pois dali a pouco passaria 20 anos preso… Mas quando chegou a Salvador o poder ainda estava com ele – e portanto também os puxa-sacos.

E assim, “quis a mísera fortuna” (citando de novo) que a nossa obra preservada mais antiga fossem 16 minutos da mais deslavada puxação de saco a um administrador público de reputação duvidosa, a ser apresentada com soprano, violinos e contínuo numa festinha privada que comemorava seu restabelecimento de uma doença.

O compositor? Nosso disco diz “anônimo baiano”. Mais recentemente algumas fontes têm atribuído a peça ao Padre Caetano de Melo Jesus, autor de uma das mais importantes obras teóricas em Música já produzidas em português, nascido e residente em Salvador na época… mas o manuscrito não diz nada, não. Teria sido, já, um cuidado de não comprometer o nome com causas de futuro incerto?…

De Salvador o programa nos leva ao Peru – e mais uma vez os hermanos hispânicos ganham de nós em barroquismo (mesmo se na vida prática talvez seja o reverso): outro Recitativo e Ária, também em língua profana, porém não mundano: na melhor tradição da mística espanhola, o texto compara a alma a uma borboleta (mariposa) em seu esforço de se aproximar do Sol Divino. Desta vez de autor conhecido, Orejón y Aparicio, para mim é uma absoluta jóia – mas não quero influenciar o ouvir de ninguém…

E aí o programa volta ao Brasil assumindo-se clássico de vez, com uma das primeiras gravações, se não a primeira, do hoje consagrado Lobo de Mesquita: um brevíssimo porém belo Ofertório de Nossa Senhora – belo até para mim, tão mais fã do barroco que do clássico!

Sobre a qualidade técnica musical desta e de outra realização da Laudatória: no século XX o gosto brasileiro se distanciou tanto da antiga tradição do bel-canto, que por um bom tempo ficou impossível encontrar solistas suficientemente preparados para obras como estas. Hoje são um pouco menos raros, mas a dificuldade ainda existe. Creio que foi bem ousado, do Olivier Toni, gravar um programa que é 90% solo de soprano com as condições que tinha – mas também que a importância de fazer um primeiro registro audível destas obras mais que justifica a ousadia. E eu não digo que a solista é ruim: em muitos aspectos faz um belo trabalho. Mas, pelo menos na época, realmente não tinha o amadurecimento técnico necessário para enfrentar todas as exigências das obras. Então não espere embarcar na voz da soprano e relaxar: é outra a coisa que você foi convidado a apreciar aqui!

Há poucos anos o grupo Armonico Tributo, de Campinas também gravou a ‘Laudatória’ (se outros também gravaram, não sei). Encontra-se no CD duplo ‘América Portuguesa’, uma seleção notável da produção brasileira mais antiga (disponível em alguns outros blogs), e a solista (Elizabeth Ratzerdorf) se mostra mais que preparada para a tarefa. Mas infelizmente isso não significa que tenhamos aí uma realização satisfatória da obra, devido a um equívoco estilistico bastante comum hoje em dia: acreditar que todo barroco tem que ser acelerado e saltitante, e acabou. E onde fica o caráter próprio de cada peça? Será que não dá pra entender o caráter imposto a uma obra quando a primeira palavra do texto, enunciada com todo destaque, é “herói”? Não faz diferença que o herói fosse de mentira: a música não é!

Anônimo, Bahia, 1759 [Padre Caetano de Melo Jesus?]
(descoberta e revisão de Regis Duprat)
1. Laudatória para Canto, Violinos e Baixo-Contínuo: Recitativo e Ária

José de Orejón y Aparicio (Huacho, 1706-Lima,1765)
(descoberta e revisão de Andrés Sas)
2. Mariposa – Cantata Para Soprano, Violinos e Baixo-Contínuo: Recitativo e Ária

José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (Vila do Príncipe, 1746- Rio de Janeiro, 1805)
(descoberta e revisão de F. Curt Lange)
3. Ofertório de Nossa Senhora

Orquestra de Câmara de São Paulo – 1965
Olivier Toni, regente – Marília Siegl, soprano solista (faixa 1 e 2)
Grupo Coral do Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, Walter Lourenção, diretor (faixa 3)
* Todas as obras aparecem aqui em primeira gravação mundial *

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Textos e comentários do encarte disponíveis em PDF AQUI

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Boa audição!

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Texto: Ranulfus
Lay-out, digitalização e mouse conductor: Avicenna

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9 ideias sobre “Alma Latina: Música Sul Americana do Século XVIII: barroco (mesmo!) do Brasil e do Peru (Acervo PQPBach)

  1. Realmente, uma discussão interessantíssima e um CD que deve sê-lo idem.

    Li o texto, saí à sacada e pedi uma solução ao bando de tucanos desnorteados que voa sem rumo em Porto Alegre. Sem rumo não! Me disseram que vinham serra abaixo.

    — Sen… hor, a… a…cho que não havia uma cultura comum. D… dependia da cultura ou do gosto pessoal destes padres separados por km de distância, sem contato entre eles e morrendo de saudades da Europa. Deviam ter alguns que achavam que quanto mais barrocos, mais perto de deus, outros pelo contrário. Havia outros que só queriam saber da bunda dos nativos. Não havia uma luz comum como nós temos o FHC, mesmo desligado — respondeu trêmulo seu líder. E perguntou.

    — Como fazemos para continuar descendo?
    — Apenas vá em frente — respondi.

  2. O texto deste post foi ATUALIZADO hoje devido à confirmação de que o recitativo e ária ainda são considerados a peça mais antiga, e com a informação & crítica sobre uma gravação mais recente da peça.

  3. Essa gravação foi uma das primeiras de música dessa época. Ainda não havia, no Brasil uma consciência interpretativa de música mais antiga, como há hoje. O Recitativo e Ária, anônimo datado de 1759, em Salvador, ainda é a obra comprovadamente mais antiga encontrada, que foi escrita no Brasil. O dedicatário da obra foi enviado a Salvador para tratar da expulsão dos jesuítas de todo o território português. Logo que chegou, foi acometido de grave doença. Quando se recuperou, foi recebido na Academia Brasílica dos Renascidos, com uma grande homenagem, ocasião essa para a qual foi escrita a obra. O texto deixa bem claro as intenções da obra quando diz: “E bem que quis a mísera fortuna que lhe fosse molesta a hospedagem, senhor, desta Bahia. Que dela, os naturais só vos desejam faustos anos de vida e saúde, pela afável virtude e próspera urbanidade.” A peça é claramente escrita num estilo barroco napolitano, que dominava o gosto português da época. Obras de António Teixeira (1707-1759?)e Francisco António de Almeida (1702? – 1755?)podem comprovar isso. Aliás, dois grandes compositores portugueses injustamente desconhecidos. A atribuição de autoria a Caetano Melo de Jesus foi feito pelo musicólogo americano Robert Stevenson, com base no fato de que ele seria o compositor mais importante de Salvadoor naquela época. É uma suposição razoável, mas insuficiente, uma vez que conhecemos muito pouco da vida musical baiana daquela época, pois a maior parte da documentação foi irremediávlemente perdida. Acho que a melhor gravação dessa obra é aquela que está num CD gravado em Campinas, dirigido pelo Edmundo Hora.
    Em 1984, o historiador Jaelson Trindade, que trabalhava para o IPHAN em Mogi das Cruzes, encontrou por acaso, dentro das capas de um livro de uma Irmandade local, uma coleção de manuscritos musicais avulsos muito antigos. Como ele não tinha formação musical, chamou o Régis Duprat para avaliar a documentação. O Régis divulgou rapidamente que as obras encontradas tinham sido descobertas por ele e que se tratava de música escrita na capitania São Paulo na década de 1720, pois o nome de um tal Faustino Xavier do Prado aparecia num dos manuscritos e, ele era músico atuante em Mogi das Cruzes na época. O problema é que algum tempo depois, foi identificado um manuscrito no Museu da Música de Mariana, autografado por Lobo de Mesquita, da mesma obra. A notação em ambos os manuscritos é muito arcaica e polifônica, provávelmente do sec.XVII. É uma música no estilo de compositores protugueses como Diogo Dias Melgás. Há muito mais dúvidas do que certezes sobre esses manuscritos hoje em dia. Portanto, o Recitativo e Ária segue como a mais antiga obra encontrada no Brasil.

    • É uma grande satisfação receber essa sua colaboração, Harry! Uma verdadeira aula compacta, por “entregar” tantas pequenas informações que fazem enorme diferença na formação de uma visão do nosso passado musical, e do ‘estado da arte’ do nosso conhecimento desse passado.

      É agoniante perceber, por um fiapo ou outro, que havia muito mais lá, mas que provavelmente nunca iremos recuperar mais que isso: fiapos… E o pior é que nós brasileiros parecemos não aprender: como é que deixamos a obra de um Villa-Lobos não ter uma edição integral oficial? Como é que deixamos o trabalho de músicos que conhecemos pessoalmente, e mal acabam de falecer, entrarem no mesmo rumo do esquecimento, dispersão, falta de conservação?

      Aproveito para dizer que, da minha parte, ainda pretendo postar também a sua reconstrução do Te Deum de Álvares Pinto. Estou impressionado como essa mesma obra é capaz de se mostrar diversa nas 5 gravações que já ouvi. Vou propor ao Avicenna que, assim que a gente tenha em mãos a digitalização da gravação da ‘estréia’, de 1968, a gente faça um só post com links para todas as diferentes gravações que tiver conseguido.

      Enfim: receba o “obrigado” é um forte abraço do Avicenna e meu, e tenho certeza que também de toda a turma aqui!

  4. Ranulfus, é uma grande satisfação para mim escrever aqui. Mais tarde, vou contar toda a história do Te Deum do Luís Álvares Pinto. Leciono a disciplina “Música no Brasil” para os cursos superiores de música da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Quem dera que os alunos tivessem a metade do interesse que vocês aqui no pqpbach têm!

    Um grande abraço,

    Harry Crowl

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