Mozart: Requiem K. 626, conclu par Sigismund Neukomm, version "Rio de Janeiro" (Acervo PQPBach)

b8k749Esta postagem apresenta o Requiem K. 626 de Mozart completo, com o “Libera me” composto e incluido por Neukomm. 

Muito embora Süssmayr e Eybler tenham completado a grande obra sacra inacabada de Mozart logo após a morte do compositor, ela permaneceu ainda inconclusa. O Libera me que no rito da Igreja Romana termina a missa para os mortos, estava ausente no Réquiem de Mozart. O Libera Me era o que faltava para conseguir terminar essa obra monumental. No Rio de Janeiro, o compositor Sigismund Neukomm teve a ousadia de enfrentar essa tarefa, compondo o final Libera me Domine para grande orquestra, para fazer sequência ao Requiem de Mozart.

Em 15 de maio de 2012, o Prof. Paulo Castagna apresentou o 11º episódio da série “Alma Latina” na Rádio Cultura FM de São Paulo (103,3 MHz), e teceu os seguintes comentários:

Franz Joseph Haydn dizia que seu melhor aluno havia sido Beethoven, mas seu preferido era Neukomm. Foi esse mesmo Neukomm que viajou para o Rio de Janeiro em 1816, em uma comitiva diplomática destinada a felicitar o novo rei e reatar suas relações com a França, rompidas desde as guerras napoleônicas.

Sigismund Neukomm deveria ficar somente alguns meses, mas acabou se encantando com o Rio de Janeiro e aceitou o convite do ministro do reino para exercer atividades musicais na corte. Uma das novas funções de Neukomm foi ensinar música aos infantes reais, como o Príncipe Dom Pedro e sua esposa Dona Leopoldina.

Poucas casas do Rio de Janeiro daquela época possuíam um piano. As variações sobre um lundu, intituladas “O amor brasileiro”, compostas por Neukomm em 1819 e aqui interpretadas por Rosana Lanzelotte, provavelmente foram destinadas ao ambiente doméstico da corte e das famílias europeias do Rio de Janeiro.

O lundu era uma exceção na elite carioca, que desejava consumir música de caráter essencialmente europeu, apartando da corte a sonoridade de qualquer outra etnia. Os autores referenciais da alta classe da época eram sempre europeus, como Haydn e Mozart.

A presença de Neukomm na corte real era, portanto, emblemática. Esse compositor havia nascido em Salzburg, na casa em frente àquela onde nasceu Mozart. E foi nesse contexto que Neukomm deparou-se com uma tarefa delicada: completar, no Rio de Janeiro, nada mais, nada menos, que o Requiem de Mozart.

Wolfgang Amadeus Mozart trabalhou neste Requiem em Viena, nos meses que antecederam sua morte, em 1791. Mozart estava atendendo a encomenda de um
comprador não identificado, e que hoje se sabe ter sido o Conde Franz Von Walsegg e não o compositor Antonio Salieri, como sugeriu o conhecido filme “Amadeus”, de Peter Shaffer, [cuja trilha sonora já postamos aquí.]

Wolfgang morreu sem terminar a partitura. Para concluí-la e entregá-la ao Conde Walsegg, o que era necessário para receber o pagamento final, Constanze Mozart procurou secretamente a ajuda de dois outros compositores e provavelmente os pagou para terminar a partitura: Joseph von Eybler e Franz Xaver Süssmayr, este último responsável pela orquestração da obra.

Com a edição que a Breitkopf & Hartel fez em 1799, a partir da versão de Eybler e Süssmayr, o Requiem de Mozart começou a circular pela Europa. E foi provavelmente um exemplar dessa edição que Sigismund Neukomm levou ao Rio de Janeiro em 1816.

José Maurício Nunes Garcia teve acesso à partitura naquele mesmo ano e dirigiu, em 1819, a primeira apresentação do Requiem de Mozart fora da Europa, em uma festividade organizada pela Confraria de Santa Cecília do Rio de Janeiro.

Neukomm publicou, no ano de 1820, uma interessante notícia em alemão sobre a estréia carioca do Requiem de Mozart, no Allgemeine Musikalische Zeitung de Leipzig. Seu primeiro parágrafo diz o seguinte:

“Rio de Janeiro – A corporação dos músicos […] comemora anualmente a Festa de Santa Cecília e, alguns dias após, é celebrada uma missa em memória dos músicos falecidos no decorrer do ano. Para esse fim, alguns integrantes da corporação, interessados em boa música, propuseram o Requiem de Mozart, que foi executado em dezembro passado na Igreja do Parto, por uma orquestra numerosa. O mestre da Capela Real, Padre José Maurício, assumiu a direção do conjunto”

O Requiem de Mozart foi reapresentado no Rio de Janeiro em 1821 e, para essa ocasião, Neukomm decidiu completá-lo. Mas este compositor não fez o mesmo que Eybler e Süssmayr fizeram em Viena. Neukomm apenas acrescentou, ao final do Requiem, o Responsório “Libera me”, que não havia sido planejado por Mozart, mas que era previsto na liturgia romana.

Wolfgang estava atendendo a uma encomenda do Conde Walsegg destinada ao aniversário de falecimento de sua esposa, e para esse tipo de ocasião, um Requiem não inclui o “Libera me”, cantado somente nas missas de corpo presente.

Wolfgang Amadeus Mozart (Austria, 1756-1791)
Requiem In D Minor, K 626 – I. Introitus: “Requiem aeternam” / II. Kyrie
Requiem In D Minor, K 626 – IIIa. Sequenz: “Dies irae, dies illa”
Requiem In D Minor, K 626 – IIIb. Sequenz: “Tuba mirum spargens sonum”
Requiem In D Minor, K 626 – IIIc. Sequenz: “Liber scriptus proferetur”
Requiem In D Minor, K 626 – IIId. Sequenz: “Quid sum miser dunt dicturus?”
Requiem In D Minor, K 626 – IIIe. Sequenz: “Rex tremendae majestatis”
Requiem In D Minor, K 626 – IIIf. Sequenz: “Recordare, Jesu pie”
Requiem In D Minor, K 626 – IIIg. Sequenz: “Ingemisco tamquam reus”
Requiem In D Minor, K 626 – IIIh. Sequenz: “Confutatis maledictis”
Requiem In D Minor, K 626 – IIIi. Sequenz: “Lacrimosa dies illa”
Requiem In D Minor, K 626 – IV. Offertorium: “Domine Jesu Christe, rex gloriae”
Requiem In D Minor, K 626 – V. “Sanctus, sanctus, sanctus, Dominus”
Requiem In D Minor, K 626 – VI. “Agnus Dei”
Requiem In D Minor, K 626 – VII. Communio: “Lux aeterna luceat eis”
Sigismund Ritter von Neukomm (Salzburg, 1778 – Paris, 1858)
Requiem In D Minor, K 626 – VIII. Communio: “Libera me, Domine”

Mozart: Requiem K. 626, conclu par Sigismund Neukomm – 2005
La Grande Écurie et la Chambre du Roy & Kantorei Saarlouis
Direction: Jean-Claude Malgoire

CD gentilmente cedido pelo musicólogo Prof. Paulo Castagna. Não tem preço !!!
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XLD RIP | FLAC 285,5 MB | HQ Scans 17,2 MB |

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
MP3 320 kbps – 136,9 + 17,2 MB – 48,8 min
powered by iTunes 12.0.1

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Boa audição.

mt32qc

 

 

 

 

 

 

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.Avicenna

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22 ideias sobre “Mozart: Requiem K. 626, conclu par Sigismund Neukomm, version "Rio de Janeiro" (Acervo PQPBach)

  1. Mestre Avicenna, suas postagens sempre são uma inspiração para mim. Já conhecia esse CD, porém não ainda não tive a oportunidade de ouvi-lo. E sim, com certeza, a capa é belíssima, fazendo jus ao conteúdo.
    Curiosamente, hoje, dia 6 de agosto, é feriado na cidade em que passei a maior parte de minha infância e adolescência, no interior do Paraná. É dia do Nosso Senhor Bom Jesus. A cidade com certeza está em festa.

  2. Ah, Avicenna,
    Neukomm é um cara genial, digno de figurar no panteão dos compositores mais famosos. Pena que não é isso que acontece.
    Estou aqui ansioso para ouvir o Requiem completado por ele. Já conheço esse Libera Me de outra psotagem sua, mas no conjunto da obra de Mozart é outra coisa!

    Um abraço

  3. ééé !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    todos os links no cosmo obscuro da internet [que vi!] para este cd estavam inativos… quase tive um ataquecardiacobenéfico ao abrir a página do blog , agorinha , e ver esta capa esplendorosa no topo ! prioridade máxima no jd … fez minha noite , obrigado ! *-*

    ouvi falar de certa leitura diferenciada n’essa gravação … estava agoniado ! agora , jájá , d’aqui há pouco , em breve , logo – ai , ai – vou poder tirar isso a limpo !

    ééé !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    [!]

  4. certamente avicenna!

    passei estes dias ouvindo a gravação postada e devo dizer que, de fato, ela apresenta – se comparada aos registros mais antigos como os de böhm ou bruno walter – as ‘inovações’ em tempo e dinâmica que esta peça vem sofrendo desde fins da década de 1980. no entanto , para o ouvido acostumado as leituras mais atuais – estas que cordialmente desconsideram as indicações de tempo e transformam , por exemplo , o andante do ‘confutatis’ em presto – a maneira de conduzir do malgoire não está muito distante. talvez o que haja de mais inusitado aqui , e que traz ao cd este glamour de ‘world premiere’ [ou ao menos trouxe em 2005!] , seja a inclusão do ‘libera me’ pensado pelo neukomm .

    ainda assim , digo , mesmo que n’uma avaliação geral malgoire não esteja muito além de um savall , um currentzis ou kuijken , este cd possui nuanças singulares que merecem ser louvadas , e como não quero estender este meu comentário – em muitos sentidos raso e incompleto , haha – destacarei duas somente :

    a.] o equílibrio de intensidade entre voz e orquestra é um dos mais felizes que já ouvi . isso pode ser percebido de forma nítida na sequência do ‘voca me’ até o ‘lacrimosa’ , em que devido aos registros agudos das vozes femininas e do naipe de cordas , as coisas podem ficar um tanto ‘confusas’ – coisa que não acontece n’esta gravação , pelo contrário , tudo está muito limpo e bem dividido , resultando em algo assombroso de tão belo.

    b.] além do contraste bem planejado , a cor do conjunto de vozes , sobretudo do coro feminino , está acima da média . é um canto muito bem ponderado o que ouvimos aqui – até no tocante a pronúncia do latim. esse grupo ‘kantorei saarlouis’ é mesmo fora de série ! quanto aos solistas , embora eu já tenha ouvido sopranos mais encantadoras e tenores menos tímidos [uns bem atrevidos até!] , o barítono e a mezzo-soprano fazem um excelente trabalho!, e o ‘tuba mirum’ d’este requiem é um verdadeiro termômetro para medir o desempenho individual d’eles …

    enfim , de maneira assaz reducionista , foram essas [até agora] minhas impressões … mais uma vez agradeço a postagem – fascinante e indispensável na discoteca de qualquer amante d’esta obra colossal – e que já é , sem sombra para dúvidas , uma de minhas interpretações favoritas !

    o/

    • Gostaria antes de mais nada de agradecer o comentário tão aprofundado e de ouvido tão afinado como o seu, Profanis.

      Aliás, eu nem sei bem o que falar pra um cara com um ouvido assim, além de não conhecer muitas versões do estrondoso Requiem de Mozart (também não sabia que o pessoal mais recente tem feito o andamento do Confutatis mais rápido do que se pede na partitura…).
      Só posso reafirmar que a orquestração e o coro são de uma limpeza muito grande, em que a gente percebe perfeitamente todos os instrumentos e vozes com clareza, ainda que eu ache que os metais pesaram um tanto e acabaram chamando a atenção um pouco demais em alguns trechos.
      Mas, num geral, a execução é primorosa, muito bem equilibrada entre vozes e orquestra, e o Libera Me de Neukomm torna a gravação ainda mais atraente, pois ele foi um grande compositor também.

      Obrigado, volte sempre e nos brinde com suas palavras em seus comentários.

      • bisnaga !

        perdoe minha indelicadeza em tardar tanto a responder e , na verdade , isso aqui nem é uma resposta a este teu comentário tão cheio de gentilezas . enfim … não adianta dizer o ‘como’ , mas andei um tanto ocupado – contudo de boas coisas musicais! – e continuo . então também continuarei te devendo um comentário aqui . somente agora que estou voltando a acompanhar as postagens d’este , e de outros tantos oásis .

        mais uma vez , me perdoe !
        grande abraço … o/

        e em breve ‘mando notícias’ .

  5. ¡Muchas gracias por esta grabación tan interesante!
    Voy a hacer una pregunta sobre un compositor portugués del siglo XIX, José Avelino Canongia, que tiene cuatro conciertos para clarinete.
    ¿Ustedes tendrán alguna grabación de ellos?
    Muchas gracias desde Buenos Aires.

  6. Pingback: Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) – Requiem (Schreier) | P.Q.P. Bach

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