Béla Bartók (1881-1945): The Bartók Album, pelo Muzsikás

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Este espetacular CD — uma grande ideia do Muzsikás –, que recebe prêmios e cinco estrelas aonde vai, pode ser chamado de “conceitual”, adjetivo gasto e quase sempre mal utilizado.

Talvez não haja nenhum compositor erudito mais envolvido com a música folclórica de seu país do que Béla Bártok. Suas viagens com Kodály pelo interior da Hungria e Romênia no início do século XX serviram para preservar uma herança musical que talvez fosse perdida. É claro que ele estava interessado em encontrar motivos e inspiração para a sua música radicalmente nova, porém suas gravações serviram para que surgissem uma nova ciência, a etnomusicologia, e novos grupos folclóricos. Este The Bartók Album é um tributo ao trabalho de Bartók e Kodály. O grupo Muzsikás e a cantora Márta Sebestyén tocam e cantam as canções descobertas por Bartók. Em meio a estas, apresentam algumas gravações originais realizadas pelo próprio Bartók, fazendo a conexão das mesmas com algumas peças do compositor. Tais peças – alguns duos para violino – são interpretadas pelo principal violinista do Muzsikás, Mihaly Sipos, e pelo violinista clássico romeno Alexander Balanescu. Este CD e as gravações de Bartók dão nova dimensão ao trabalho de um dos maiores compositores do século XX.

Ouçam, por exemplo, a faixa 10, gravação realizada por Bartók, a 11, peça escrita por ele para duo de violinos e depois e 12, com o Muszikás. Depois, ouçam a faixa 13 (a partir de 2 min 50) e a comparem com a quarta faixa do CD de Andor Foldes, publicado há anos neste blog. Bom, se você não se arrepiar… OK, questão de gosto, façamos de conta…

Em 1901, fascinados pela música do também húngaro Liszt, Bartók e Kodály tomaram consciência das relações de seu predecessor com a cultura popular da Europa Oriental. Ambos jovens compositores, resolveram estudar a música dos camponeses da região. Em 1905, Bartók pleiteou uma bolsa que lhes facultou recursos para recolher essas canções “em sua própria fonte” e partiu para anotá-las e gravá-las em companhia de Kodály. Então souberam que seus conhecimentos sobre tal assunto — e os de outros compositores — eram desfigurados, quase paródias da realidade. Na verdade, o que habitualmente se chamava de música cigana (tzigane) e danças húngaras não passavam de garatujas desengonçadas, distantes da caligrafia original.

A partir de publicação das Canções Populares Húngaras, eles inauguram uma nova disciplina científica — a etnomusicologia. Nos anos posteriores, ampliaram progressivamente o horizonte geográfico de seus trabalhos: primeiro a Romênia, depois a Ucrânia, a Bulgária, até a África do Norte (Argélia e Egito) e a Anatólia (Turquia). Com o tempo, tornaram-se alvo da galhofa de certos críticos que não compreendiam a necessidade dos dois de alimentarem suas linguagens musicais com matéria viva. Estes críticos, ridicularizavam especialmente (e incompreensivamente) o último movimento da Música para Cordas, Percussão e Celesta, de Bartók, que hoje é uma das peças fundamentais do repertório erudito do século XX.

O resultado, para a arte de Bartók e Kodály, foi um estilo originalíssimo no universo erudito. Em seus trabalhos, eles utilizavam elementos alheios à música da Europa Ocidental. Depois, conseguiram uma gloriosa união de seus estilos com o da grande tradição europeia, sobretudo com Bach (caso de Bartók). Kodály foi um enorme compositor, porém — como os dramaturgos elisabetanos que tiveram o “azar” de serem contemporâneos de Shakespeare — foi sufocado pela genialidade do amigo. Bartók tornou-se subitamente célebre em 1911, quando da publicação da curtíssima peça para piano Allegro Barbaro. A música do povo era mais interessante, selvagem e intrincada do que qualquer scholar da época imaginava. O espírito científico de ambos não deve ser comparado ao dos compositores ditos “nacionalistas”, que se contentavam em tomar de empréstimo à música popular seus trejeitos para que suas obras ganhassem um colorido folclórico.

Eles assimilaram o espírito da música camponesa, aplicando, ao criar, estruturas forjadas no conhecimento aprofundado dos esquemas populares. É inegável o mérito de Bartók de observar a realidade, depreendendo dela as leis internas de seu funcionamento para, então, empregá-las em suas obras.

Bartók sentiu-se atingido quando o ministro da Educação Popular e Propaganda Nazista Goebbels, em 1936, organizou uma exposição de “Música degenerada” incluindo os nomes de Stravinsky, Schönberg e Milhaud. Escreveu ao ministro para que este inscrevesse seu nome e sua música nesse grupo. Depois, em 1938, chegou mesmo a declarar que pretendia converter-se à religião judaica como forma de ficar ao lado dos perseguidos. Expôs-se de tal maneira, que foi obrigado a aceitar os insistentes pedidos dos amigos — entre eles o de Benny Goodman — para que emigrasse, o que fez apenas em 1940. Foi para os Estados Unidos, onde morreu em 1945. Kodály viveu na Hungria até 1967. Além de compositor, era professor universitário e presidente da International Society for Music Education, da Hungarian Academy of Sciences e da International Folk Music Council.

Fontes: História da Música Ocidental de Jean e Brigitte Massin, um calhamaço de quase 1300 páginas, da Nova Fronteira, 1997; Música da Modernidade de J. Jota de Moraes, Ed. Brasiliense, 1983; e algo de mim mesmo, com o providencial auxílio da memória de livros e discos.

Béla Bartók (1881-1945): The Bartók Album, pelo Muzsikás

1. Dunantuli Friss Csardasok
2. Jocul Barbatesc
3. Violin Duo No.32, ‘Dance Of Maramaros’
4. Maramaros Dances
5. On The River Bank
6. Swineherds’ Dance
7. Dunantuli Ugrosok
8. Shepherd’s Flute Song
9. Forgacskuit Lads’ Dance
10. My Horse’s Shoe
11. Violin Duo No.28, ‘Sorrow’
12. Bonchida: Slow Lads’ Dance
13. Magyarbecei Oreges Csardasok
14. Pe Loc
15. Bota Dance
16. Torontal Dances
17. Ardeleana
18. Vioiln Duo No.44, ‘Transylvanian Dance’
19. Fuzes: Lads’ Dance
20. The Churchyard Gate
21. Kalotaszeg Dances
22. I Left My Homeland

On this CD:
1. Dunántúli friss csárdások (Transdanubian fast csardas)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas

2. Jocul barbatesc
Composed by Romanian Traditional
with Muzsikas

3. Duos (44) for 2 violins, Volumes 1-4, Sz. 98, BB 104 No. 32, Hegedüduó, “Máramarosi tánc,”
Composed by Bela Bartok
with Muzsikas, Alexander Balanescu

4. Máramoarosi táncok
Composed by Romanian Traditional
with Muzsikas, Marta Sebastyen, Zoltan Farkas

5. Porondos víz martján (On the river bank)
Composed by Moldavian Traditional
with Muzsikas, Marta Sebastyen

6. Kanásztáncok két hegedün (Swineherd’s dance)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas

7. Dunántúli ugrósok (Transdanubian dance)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Janos Kovacs

8. Pásztornóták hosszúfurulyán (Shepherd’s flute song)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Zoltan Juhasz

9. Forgácskúti legényes
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Ignac Veres

10. Pejparipám rézpatkója
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Alexander Balanescu

11. Bonchidai lassú magyar (Slow lad’s dance from Bonchida)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Zoltan Porteleki

12. Magyarbecei öreges csárdások (Magyarbece csardas)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Marta Sebastyen

13. Pe Loc
Composed by Romanian Traditional
with Muzsikas

14. Botos tanc (Bota dance)
Composed by Romanian Traditional
with Muzsikas

15. Torontáli táncock
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas

16. Ardeleana
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas

17. Duos (44) for 2 violins, Volumes 1-4, Sz. 98, BB 104 No. 44, Hegedüduó “Erdélyi tánc,”
Composed by Bela Bartok
with Muzsikas, Alexander Balanescu

18. Füzesi ritka magyar
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas

19. A temetö kapu (The churchyard gate)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Marta Sebastyen

20. Mérai lassúcsárdás és szapora (Kalotsaszeg dances)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas, Marta Sebastyen

21. Elindultam a hazámból (I left my homeland)
Composed by Hungarian Traditional
with Muzsikas

22. Duos (44) for 2 violins, Volumes 1-4, Sz. 98, BB 104 No. 28, Hegedüduó, Bánkódás
Composed by Bela Bartók

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Bartók pensando se deve beber tudo ou se espera pelo pessoal do PQP

PQP

10 comments / Add your comment below

  1. Que música impressionante. É vivíssima. Estou completamente apaixonado por este clima húngaro (justo eu que sou um leitor voraz das obras do maior filósofo do século XX, o húngaro Georg Lukács).
    Pena que o download do Rapidshare não anda me ajudando muito e não baixou todas as peças de uma vez. Vou ter que tentar de novo baixar as faixas restantes.

    Muito obrigado,
    Ranieri Carli.

  2. Parabens PQP, um post sensacional. Tanto pelo CD, que parece ser muito interessante, como pelo texto. Eu desconhecia a profundidade desse trabalho de Bartok e Kodaly. Alias, Bartok é um compositor que vem despertando minha curiosidade e meu gosto, culpa deste Blog. Obrigado a toda a equipe e Feliz Natal.

  3. Parabéns pelo post e pelo texto. Convenceram-me a baixar o arquivo (bom não sei se é muito difícil convencer um Bartókmaníaco a ouvir uma música dele, mas de qualquer forma você conseguiu). Vejo que a cada dia esse blog torna-se melhor, algo que achava que já seria impossível.
    Abraço, e muita sorte para esse ano que agora vem.

  4. PQP, como de praxe, seu texto está ótimo.
    Meu estado atual é: ouvindo um cd espetacular das sonatas de Haydn, tocadas pelo Hamelin, porém esperando ansiosamente para degustar esse Bartók que, pelo download ainda em 28%, sou impedido de fazer nesse momento. =)

  5. PQP, tenho um pedido que não é musical. Sabe a parte em que no texto voc^fala sobre o caso Goebbels? Gostaria de saber se você sabe de mais alguma coisa desse caso, e em que livros poderia encontrar. Se não souber, não tem problema. Desde já, obrigado. Abraços.

  6. Gabriel, acho que este caso é contado em “História de Música Ocidental” de Jean Massin e outro Massin. Não posso comprovar agora porque estou em férias na praia. Por favor, lembre-me novamente se eu esquecer. Faço a consulta para ti com o maior prazer.

    Grande abraço.

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