W. A. Mozart (1756-1791) – Don Giovanni – [DG] – Ferenc Fricsay

Mozart – Don Giovanni

Para apreciar devidamente a música de Mozart, é preciso se dar conta de que ele foi um compositor de óperas. A música de Mozart, mesmo quando não é uma ária ou um terzetto, canta como se estivesse em um palco de um teatro de ópera. Ouça, com esta perspectiva, o Andante um poco sostenuto do Concerto para piano No. 18, em si bemol maior, K. 456. As cordas cantam, o piano declama e as madeiras tecem comentários. Ouça o primeiro movimento da Serenata para Orquestra em ré maior, K. 320 – Posthorn-Serenade. Este Adagio maestoso – Allegro com spirito é uma abertura de ópera!

Eu não conheço todas as óperas de Mozart. Nunca ouvi Idomeneo ou La Clemenza di Tito. Há ainda outras que eu não ouvi. Mas tenho ouvido bastante as três óperas com libretos de Lorenzo da Ponte, além de O Rapto do Serralho e (é claro) A Flauta Mágica, estas cantadas em alemão.

Hoje vamos de Don, Don Giovanni! A primeira vez que eu ouvi Don Giovanni foi no século passado e era esta gravação que vos trago hoje. Os três LPs estavam em uma caixota com a figura do Don vestido em preto sobre fundo avermelhado, cantando uma de suas árias, provavelmente Deh, vieni alla finestra.

Esta talvez seja a ópera das óperas. Bom, talvez não, há também a Tosca. Xi, é melhor evitar polêmicas! Quem precisa delas?

Se você não conhece o enredo, prepare-se, há luta com espadas, cenas de sedução, perseguições e um fantasma. Há personagens representando as pessoas comuns e há aqueles que representam a nobreza. Há diálogos (hilariantes) entre essas classes sociais. Você perceberá um traço comum nas óperas de Mozart que eu conheço que também aparece aqui: uma dualidade entre certos personagens, que são opostos mas se completam. Tamino e Papageno na Flauta Mágica. Belmonte e Pedrillo no Rapto do Serralho. Em uma certa medida, O Conde d’Almaviva e Figaro, nas Bodas do próprio. Acho que preciso ouvir de novo o Così fan Tutte, mas aqui é o Don Giovanni e seu serviçal, Leporello. É a oposição do nobre e do plebeu, do refinado e do rústico… Bom, acho que você percebeu a ideia.

Escultura comemorativa da ópera Don Giovanni, de Mozart, em Praga, República Tcheca. Don Giovanni teve sua premiere no dia 29 de outubro de 1878, em Praga.

A ópera conta a história do dissoluto Don Giovanni, que passa todo o tempo fazendo coisas bem pouco louváveis – assassinando um velhinho, assediando todos os rabos de saia que lhe cruzam o caminho, até seu destino final, um banquete com música seguido de um encontro surpreendente que o leva diretamente aos infernos. É assim, um adorável vilão, mais um para essa imensa galeria. Seria interessante uma análise sobre o que nos diz o Don nestes dias de (tão necessária) consciência de politicamente correto pensar e agir. Mas isto, deixemos para os blogs especializados.

O libreto de Lorenzo da Ponte é um primor, o cara foi um bamba! Como é cantada em italiano, com um pouquinho de imaginação dá para perceber tudo. Você aprenderá admiráveis palavrões como bricconaccia, scioccone, mascalzone… Afinal, ópera é cultura!

Aqui está um link para o libreto com tradução para o português, da página do Teatro Municipal de São Paulo.

Há muitas trapalhadas, troca de personagens, cenas com muitas pessoas no palco, como era de se esperar nas óperas da época. O crème de la crème é a grande cena final, o banquete seguido da descida aos infernos. Sei, estou dando um baita spoiler…  Mas ópera é assim, a gente lê a sinopse antes e, mesmo assim, adora ver tudo novamente.

Dietrich e Ferenc trocando umas ideias sobre o andamento da “Fin ch’han dal vino”…

Nesta gravação, nenhum cantor é italiano, mas (rest assured) são impecáveis. A começar pelo Don, cantado pelo (jovem) Dietrich Fischer-Dieskau. Quem soaria mais sedutor na ária Deh, vieni alla finestra, ou faria com mais competência os diálogos (ótimos, são da pena do Lorenzo da Ponte) com o Leporello de Karl Christian Kohn? O tenor Ernst Haefliger canta as duas árias de Don Ottavio, Dalla sua pace e Il mio tesoro, com voz extraordinária. O contraste entre os dois principais personagens femininos, a relutante e ainda apaixonada Donna Elvira, de Maria Stader, e Donna Anna sedenta de vingança de Sena Jurinac, é bem marcado.  Os papéis coadjuvantes de Masetto e Zerlina estão a cargo de Ivan Sardi e Irmgard Seefried. Ela brilha no dueto Là ci darem la mano, là me dirai di sì, com o Don. O Don era terrível!

Ferenc Fricsay

A Orquestra da Rádio de Berlim, assim como o coro e todo o cast estão sob a direção do lendário maestro húngaro Ferenc Fricsay.

O que dizer mais? Parece um feixe de contradições. Uma ópera de duas horas e meia em dias de músicas que duram alguns minutos. História de um malfeitor que (como nas novelas) passa todo o tempo fazendo vilanias para ser triunfalmente castigado no final. Os mocinhos são uns poias e cantam alegremente no fim: Questo è il fin di chi fa mal…

Como ouvir uma obra como esta? Sugiro um dia que houver tempo. É preciso tempo para tanta coisa. Pois então, se tiveres esse tempo, vá lá, prepare-se, e cuidado com o volume do som, pois a abertura já vai, de cara, lhe arrancar as meias… ou o chapéu!

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)

Don Giovanni

Don Giovanni – Dietrich Fischer-Dieskau
Il Commendatore – Walter Kreppel
Donna Anna – Sena Jurinac
Don Ottavio – Ernst Haefliger
Donna Elvira – Maria Stader
Leporello – Karl Christian Kohn
Masetto – Ivan Sardi
Zerlina – Irmgard Seefried
RIAS-Kammerchor
Radio-Symphonie-Orchester Berlin

Ferenc Fricsay

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MP3 | 379 MB

Questo è il fin di chi fa mal!

René Denon

6 comments / Add your comment below

  1. Dá pra entender a obsessão de Saramago pela Don Giovanni — à qual escreveu até uma peça teatral, O Dissoluto Absolvido. É linda demais, puta que me pariu!

  2. Estou ansioso para escutar este Mozart sobre a batuta do Fricsay, até hoje não achei nenhuma execução pela qual me apaixonasse inteiramente.
    Obrigado pela sugestão René, grande abraço.

    Alab.

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