.: interlúdio :. Elza Soares, Doutora Honoris Causa

Elza Soares, por Daryan Dornelles

Elza da Conceição Gomes, 81 (ou 87) anos, nascida na favela da Moça Bonita, Rio de Janeiro; obrigada a se casar aos 12 anos com um certo Soares; mãe pela primeira vez aos 13 e viúva aos 21; que já enterrou quatro de seus sete filhos; vítima de relacionamentos abusivos e de várias camadas de preconceito; Elza que cantava carregando latas d’água morro acima; que foi cantar no programa de calouros de Ary Barroso aos 13 anos para ter o que comer; que foi zombada pela plateia por ser preta, pobre e mal vestida, e que respondeu ao ilustre anfitrião, quando lhe perguntou de que planeta ela vinha, que vinha do Planeta Fome; perseguida e apedrejada como destruidora de lares e de carreiras e ameaça à moral e aos bons costumes, particularmente em função de seu tempestuoso relacionamento com o futebolista Manoel Francisco dos Santos (1933-1983), o Mané Garrincha, que era casado; Elza que teve sua casa crivada por rajadas de metralhadora da ditadura e que se exilou com Mané e a família e as roupas do corpo para fugir uma vez mais da morte; que nunca deixou de cantar com sua voz poderosa e inconfundível o que ela é e de onde ela veio, e a dar voz a todos aqueles que vivem as dores que ela viveu; que incandesce os palcos do mundo há seis décadas com sua voz de trovão; que hoje não consegue ficar de pé sozinha, depois de fraturar várias vértebras num palco, mas que faz tremer tudo e todos quando nos deixa ouvir o que vem de seu espírito indômito; que fez seu primeiro show profissional nesta mesma Porto Alegre e neste Estado em que agora estamos, construídos sobre o legado infame da escravidão, e que tanto amam desprezar o que é preto e feminino e o que é pobre e popular; Elza que, ao ouvir o genial Louis Armstrong, encantado com seu estilo, chamá-la de “daughter” (filha), e que por não entender inglês respondeu-lhe com simplicidade que não era “doutora”, e sim “Elza”; pois essa mesma Elza-que-não-era-doutora receberá hoje, nesta mesma Porto Alegre e de minha querida alma mater, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, uma instituição pública e gratuita, vanguardista e inclusiva, o título de DOUTORA HONORIS CAUSA que me enche de orgulho e felicidade.

No exato momento em que esta postagem for ao ar, Elza, a Indestrutível, será recebida por um Salão de Atos da UFRGS abarrotado de gente e aclamada pela fração do Brasil que não se dobrou à infâmia do fascismo e do obscurantismo. Em tempos tão toscos e violentos, de ataques estatais à dignidade humana, às minorias e à educação e cultura, a láurea a uma artista e brasileira como Elza é um gesto político extraordinário que merece também ser aclamado:
VIVA ELZA!
VIVA A UNIVERSIDADE PÚBLICA!
VIVA O BRASIL FEMININO, PRETO E POPULAR!

ooOoo

 

Deus é Mulher (2018) – DOWNLOAD

Elza chora e canta Lupi (2016)

A Mulher do Fim do Mundo (2015)

Vassily

 

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  1. “No exato momento em que esta postagem for ao ar, Elza, a Indestrutível, será recebida por um Salão de Atos da Ufrgs abarrotado de gente e aclamada pela fração do Brasil que não se dobrou à infâmia do fascismo e do obscurantismo. Em tempos tão toscos e violentos, de ataques estatais à dignidade humana, às minorias e à educação e cultura, a láurea a uma artista e brasileira como Elza é um gesto político extraordinário que merece também ser aclamado:”

  2. Texto maravilhoso, vindo em hora mais que oportuna: necessária mesmo! Sem deixar de dar o devido reconhecimento à UFRGS e seu gesto histórico, nestes tempos de obscurantismo.

  3. Nossa, até parece que combinamos!
    Estava ouvindo Elza NESSE EXATO MOMENTO, quando decidi abrir o PQP e checar as novidades.

    Para ser mais preciso, estava ouvindo sua brilhante interpretação de Cadeira Vazia: https://www.youtube.com/watch?v=MvZ9G3OelFk

    Aí me pergunto: como saímos disso aqui e viemos para em MC Kevinho?
    Poooouta que pariu, tá cada vez mais treta esse meu Brasilzão…

  4. Sublime texto, Vassily. Que você escreve bem pra caral, todo mundo já notou, em deleite. Mas neste de agora, com a lembrança oportuníssima da homenagem à Gigante e da absoluta justeza e necessidade deste tipo de ação, com os louvores à UFRS, você demonstra com brilho a consciência do que é ser verdadeiro brasileiro nesta hora que demora a passar.

  5. Belíssimo texto e justíssima homenagem, tanto da UFRGS quanto do PQPBACH. Tamanho inverno, como estamos passando, ainda matará muita vida, mas há de passar. Que a música nos permita sermos felizes, aguentar e resistir.

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