Flausino Vale (1894-1954): Prelúdios

Já que falei semana passada de Dworecki e sua contribuição à viola no Brasil, ocorreu-me de falar do maior dos violinistas e compositores para violino brasileiros (e que, vale abrir os parênteses, não se trata de um imigrante europeu): o mineiro Flausino Vale, chamado (com absoluta e inconteste razão) de “O Paganini brasileiro” por Villa-Lobos e que já foi executado por ninguém menos que Jascha Heifetz.

Por recomendação do Avicenna, acessei uma coleção da Funarte no Um que tenha (de onde tirei o arquivo que vocês irão baixar) e deparei com este CD em que Flausino é executado por seu maior admirador vivo: o violinista polonês naturalizado brasileiro Jerzy Milewski, que vez ou outra vejo passeando pela praia do Leme.

A maioria dos 21 prelúdios é de uma dificuldade paganiniana, pois parecem ter sido escritos para dois ou três violinos em um só, com a grande diferença – no plano da criação composicional – de se valer de cenas corriqueiras como fonte de inspiração (vejam os títulos nas faixas) e de incitar no ouvinte imagens de tal forma como Paganini nunca pensou lograr, tamanho o domínio da timbrística do violino que o mineiro possuía (quem não conseguir ouvir uma porteira em A porteira da fazenda ou identificar uma marcha fúnebre em Resquiescat in pace possivelmente tem agnosia irreversível).

Enfim, Flausino Vale é mais uma joia rara esquecida nessa bosta de país.

***

Flausino Vale (os prelúdios foram gravados fora da ordem original)

Devaneio
Sonhando
Tico-Tico
A Porteira da Fazenda
Viola Destemida
Folguedo Campestre
Implorando
A Mocinha e o Papudo
Asas Inquietas
Interrogando o Destino
Batuque
Requiescat In Pace
Mocidade Eterna
Acalanto
Rondó Doméstico
Tirana Riograndense
Repente
Brado Íntimo
Viva São João
Pai João
Casamento na Roça

Jerzy Milewski, violino

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Flausino: popular e erudito

CVL

14 comments / Add your comment below

  1. Belíssimo post!

    O CD do Jerzy Milewski é estranho. Ao escolher 21 dos 26 “prelúdios característicos e concertantes para violino só” (eis o nome completo), ele omitiu justamente o mais famoso de todos, o décimo-quinto, “Ao pé da fogueira”. Foi este que Heifetz gravou, arranjou e popularizou internacionalmente.

  2. Que EXCELENTE postagem CVL, o Flausino Vale é nosso Kant, ele foi um gênio e jamais poderia ser esquecido por nós, e com esquecer eu quero dizer que sua divulgação deveria ser compulsória, deveria se ensiná-lo nas escolas e tudo o mais que fosse necessário.
    Concordo contigo quanto a este país ser uma bosta, mas ressalto o fedor para o campo da cultura, infelizmente, o descaso é muito grande.

    abs

  3. “Ao Pé da fogueira” não foi incluido por questão de direitos autorais. O Heifetz escreveu um acompanhamento de piano e publicou a obra nos EUA, passando assim a ser detentor de todos os direitos sobre a mesma. Na época que o Milewski gravou os prelúdios, em 1984, a FUNARTE, que coordenava o projeto, não conseguiu liberação. Outra coisa, o Flausino Valle não aprovava a interpretação do Heifetz.

  4. CVL, queria dar os parabéns pela sua iniciativa.
    E também perguntar uma coisa: Você conhece o cd “O Tenor Perdido: O Violoncello Piccolo de 4 cordas”, do cellista grego (mas que vive aqui no Brasil) Dimos Goudaroulis e do cravista Nicolau de Figueiredo? Meu professor
    de cello me mostrou um dia desses na aula e falou que o cd é
    muito interessante. Eu comprei o cd, e garanto, só pelas
    informações que possuem no encarte, já vale muito a pena. O cd levou dez anos para acontecer, pois Dimos pesquisou, pesquisou, pesquisou muito, tanto sobre as origens do seu cello quanto sobre um repertório original, feito especificamente para o violonccelo piccolo. Enfim, pode ser que você tenha o cd e que eu esteja falando um monte de coisa que você já sabe. De qualquer forma me avisa, porque eu ficarei feliz em contribuir para o blog se necessário. Grande abraço!

  5. Sequestro ou consagração? Bom, o Heifetz, que tinha fama de mão-de-vaca mesmo, pode ter se apropriado dos direitos autorais do “ao pé da fogueira”, e o Flausino Valle tinha o direito de não gostar da interpretação dele. Mas, vamos e venhamos: o prestígio de ter sua música gravada por Heifetz, e de ser por ele apelidado de “Paganini brasileiro”, é algo que Flausino jamais obteria de outra forma. Muitos outros violinistas gravaram a peça no arranjo de Heifetz, a exemplo de Francescatti, e até hoje de vez em quando surgem novas gravações, e o próprio Youtube está aí para provar isso. Os demais prelúdios, por outro lado, são amplamente desconhecidos no exterior, apesar de, salvo engano, Stern e o próprio Francescatti terem gravado alguns. Mas foi a chancela de Heifetz que consagrou o “ao pé da fogueira”. Talvez Flausino lhe devesse ser mais grato; não pelo “confisco” dos direitos autorais, obviamente, mas porque Flausino era, quando vivo, literalmente desprezado pelos artistas e público brasileiros (precisou aparecer um polonês (o benfazejo Milewski) para prestigiá-lo). E ainda é, pois são raros os violinistas brasileiros que o conhecem (!!!), e mais raros os que se dão ao trabalho de interpretar uma obra sua. E mais: dentre os que o valorizam, normalmente é por causa do Heifetz. Seria nosso “complexo de vira-lata”? Ou o lugar-comum do “santo de casa não faz milagre”? Outro dia, vi uma reportagem na qual o spalla da OSESP, Emanuelle Baldini, que é italiano, falava sobre a obra de Flausino. Então, viva os “sequestradores” Heifetz, Milewski e Baldini, já que, para os brasileiros, Flausino não parece ser bom o suficiente. Com a exceção do Zoltan Paulinyi que, nascido no Brasil, tem nome e raízes húngaras, por ironia.

  6. Obrigado pela postagem.
    Flausino Vale nasceu em minha querida Barbacena e aqui vez por outra ele é lembrado mas infelizmente, ainda não reconhecido como o grande gênio que foi.

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