Ballaké Sissoko (kora) & Vincent Ségal (violoncelo) – Chamber Music

41CBH7khTPLBonita gravação de um improvável duo de kora (a harpa-alaúde mandê) e violoncelo. Os músicos são amigos, e foi sua amizade quem os levou, por fim, ao estúdio.

O francês Ségal nasceu em Reims e estudou em Lyon. Enveredou por todo lado em sua carreira, inclusive para o dito “trip-hop” com seu grupo Bumcello. Seu instrumento, aqui, definitivamente não soa como aquele para o qual Bach escreveu suas maravilhosas suítes. Ségal o faz mergulhar de espigão e tudo, e inclusive percussivamente, na longa tradição representada por seu parceiro africano.

O malinês Ballaké Sissoko nasceu em Bamako, capital do país, e foi muito influenciado pelo compatriota Toumani Diabaté, o grande nome da kora. A origem do instrumento remonta ao período correspondente à Idade Média na Europa. Mais adiante, no apogeu do império Songhay, a região que hoje é o Mali enriqueceu graças ao lucrativo comércio de ouro, sal e, infamemente, escravos. O principal entreposto das caravanas era a mítica cidade de Tomboctou, também conhecida como Timbuktu. Inestimável e mui ameaçada integrante do Patrimônio Cultural da Humanidade, ela é sede de uma das mais preciosas (e frágeis) bibliotecas do mundo islâmico. De quebra, como bem deverá se recordar quem lia os quadrinhos das aventuras de Mickey e de Tintin, Timbuktu é sinônimo de fim de mundo, e não à toa: está a pelo menos três dias (que para mim foram cinco) de Bamako, num ônibus atrolhado, tórrido e sovaquento, com janelas invariavelmente seladas por conta da fobia local a brisa – QUALQUER brisa.

Em compensação, para quem está em Marrakesh e tem um camelo, Tombouctou é logo ali (foto do autor)
Em compensação, para quem tem um camelo e está em Marrakesh, Tombouctou é logo ali (foto do autor)

Voltando à vaca fria, não creio que caibam quaisquer ressalvas à postagem deste disco num blogue criado pelo filho renegado da família Bach. O demiurgo Johann Sebastian é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim de toda Música, e este álbum que ora apresento, afinal, contém não só grande música, critério bastante para que o lancemos aqui, mas também arte que é clássica até o caroço. Como o colega Ranulfus muito bem defendeu nos comentários de uma antiga postagem, “uma das coisas que me motivam na colaboração no blog é tentar demonstrar o quanto nosso conceito de ‘clássico’ pode ser justificadamente expandido para além das suas fronteiras tradicionais (no fundo etnocêntricas), e isso com criações autênticas, não com adaptações tipo ‘transcrições de canções populares para orquestra’.”

Ditto.

CHAMBER MUSIC (2009)

Ballaké Sissoko, kora
Vincent Ségal
, violoncelo

01 – Chamber Music (Sissoko)
02 – Oscarine (Ségal)
03 – Houdesti (Sissoko)
04 – Wo Yé N’gnougobine (Sissoko)
05 – Histoire de Molly (Ségal)
06 – “Ma Ma” FC (Ségal)
07 – Regret – À Kader Barry (Sissoko)
08 – Halinkata Djoubé (Sissoko)
09 – Future (Sissoko)
10 – Mako Mady (Sissoko)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Ségal e Sissoko na curtição, e uma menina de butuca.
Ségal e Sissoko na curtição, e uma guria de butuca.

Vassily

6 comments / Add your comment below

  1. Excelente disco, tenho acompanhado desde o começo as postagens do Diabaté, as quais achei fantásticas, verdadeiras preciosidades.

    Esses discos abriram novos horizontes pra mim, acho muito interessante a cultura africana, tão denegrida pelo eurocentrismo, e não há dúvidas da erudição presente nesses discos, mesmo soando às vezes estranhos aos nossos ouvidos acostumados a música ao estilo europeu.

    Muito obrigado pela postagem.

    1. Sem dúvida soam estranhos no começo, Manuel. Eu os considero um gosto adquirido, e muito recompensadores a quem se dispõe a prová-los. Mesmo assim, e como toda música, mesmo a muito boa, não serão do gosto de todos. Para a felicidade de quem não os aprecia, o blogue tem um cardápio bem extenso 🙂

  2. Vassily – Me desculpe, não quis depreciar, pelo contrário, é na diversidade
    que a gente adquire a sabedoria. O novo é sempre mais dificil de digerir, porem
    o tempo tudo aplaina. Quero parabeniza-los por tão brilhante iniciativa e
    desprendimento, colocando a nossa disposição acervo tão maravilhoso!
    Não sei se posso fazer perguntas por aqui mas queria saber se voces
    disponibilizaram Die Kunst der Fuge e a Chacone da partita n.2 bwv1004.
    de vosso paizão J.S.Bach.
    obrigado.

    1. Hahaha, não se preocupe, Manuel: não entendi qualquer intenção depreciativa em seu comentário, tampouco pretendi com o meu lhe fazer qualquer reparo. Concordamos integralmente. Se eu tivesse me fiado, por exemplo, na minha primeira reação ao escutar música clássica indiana – com toda aquela verve frenética, microtons e cordas ressonando por simpatia – eu nunca mais a teria escutado. Foi com insistência que a digeri – e a aprendi a amar.

      Quanto à sua pergunta, Die Kunst der Fuge foi disponibilizada, sim, em algumas versões – lembro-me de cravo solo, duo de cravos, conjunto de flautas-doces e aquela de Glenn Gould, por exemplo. Já a maravilhosa Chacona apareceu em várias gravações das Sonatas e Partitas para violino solo, além de pelo menos um CD dedicado somente a suas transcrições. É possível que postagens mais antigas contenham links inválidos. Por isso, se não encontrar o que procura, avisa-nos para que tomemos alguma providência. Volte sempre!

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