Ernesto Nazareth (1863-1934) – Obras para piano – Arthur Moreira Lima (1/2) – Série Discos Marcus Pereira

arthur-moreira-lima-ernesto-nazareth-1Volta e meia, numa roda de conversa entre melômanos, sempre que o assunto envereda para o piano brasileiro, surge a inevitável pergunta:

– Pô, o que aconteceu com o Arthur Moreira Lima?

Não se referem, claro, a sua vida ou morte – Arthur está, felizmente, bem vivo e mora, muito bem aliás, em Floripa, na Ilha da Magia com a esposa e os pianos. O que querem saber é como um sujeito que esteve entre os melhores pianistas do mundo, laureado no Concurso Chopin de Varsóvia (medalha de prata, pois naquele 1965 a Martha Argerich competiu e não teve para mais ninguém), destacado intérprete de Chopin, acabara assim (e aqui capricham no suspiro desdenhoso), *desse jeito*, tocando piano num caminhão-teatro, nos recantos mais isolados do Brasil, para plateias que nunca puderam escutar um piano ao vivo.

Não entrarei no mérito do seu projeto “Piano pela Estrada”, louvado por alguns, criticado por outros tantos. Tampouco me juntarei ao coro dos que escutaram o grande pianista dos anos 70-80 esbarrando, nas décadas subsequentes, nas teclas e a se atrapalhar em obras mais difíceis. Acho que todos têm um tanto de razão em suas defesas e ataques. Se foi a técnica minguante que o afastou das grandes salas de concerto e o levou para lugares onde, suspeitam alguns, ninguém a notaria, ou se foi o contrário, talvez só ele mesmo pudesse responder. Mas cada vez que vejo Arthur a caminhar na praia, com aquele jeitão bonachão que tem desde jovem, fico com a impressão de que ele simplesmente quis remodelar a vida, e eu – que deixei Dogville para também ser menos infeliz na Ilha da Magia – compreendo e muito respeito sua decisão.

Nestas gravações dos anos 70, Arthur ainda estava no auge da forma, e ele a emprestou para o registro, com brilho e graça, de um bom punhado das obras de Ernesto Nazareth. Salvo melhor juízo, foi a primeira vez que tantas obras foram gravadas por um pianista clássico de tamanha reputação. O resultado é notável: a técnica sobra, as obras pulsam, e o ouvinte sorri. Aqui, ao contrário de alguns de seus outros projetos em música popular, como o Consertão, Arthur não soa quadrado, nem sufoca a verve do pianeiro Nazareth: quem não espera grande ginga de dedos treinados em Moscou vai surpreender-se aqui com seus graciosos pulinhos.

ERNESTO Júlio de NAZARETH (1863-1934)

ARTHUR MOREIRA LIMA INTERPRETA ERNESTO NAZARETH

DISCO 1

01 – Fon-fon
02 – Confidências
03 – Retumbante
04 – Faceira
05 – Turuna
06 – Ameno Resedá
07 – Batuque
08 – Coração que sente
09 – Duvidoso
10 – Apanhei-te, cavaquinho

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DISCO 2

01 – Famoso
02 – Fidalga
03 – Floraux
04 – Nenê
05 – Mercedes
06 – Odeon
07 – Brejeiro
08 – Eponina
09 – Escovado
10 – Pássaros em festa
11 – Sarambeque
12 – Vem cá, Branquinha
13 – Você nem sabe

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O caminhão-teatro, rumo a algum cantinho recôndito de Pindorama
O caminhão-teatro, rumo a algum recôndito de Pindorama

Vassily Genrikhovich

15 comments / Add your comment below

  1. Sou pianista amador (pois nunca me profissionalizei), e como nasci e vivo até hoje no Rio de Janeiro, tive o privilégio de poder assistir algumas muitas vezes o carioca Arthur Moreira Lima (fluminense como eu), apresentar-se em recitais, musica de câmara e acompanhado de orquestra. Não tenho a mínima dúvida em afirmar que Arthur foi o maior pianista que esse país produziu. Respeito e concordo com todos que elogiam e tecem olas a Guiomar Novaes, Nelson Freire, Szidon, Barbosa, Klein e outros mais. Porém, o nível técnico e interpretativo de Artur nunca foi alcançado por outro coterrâneo. As suas gravações de Chopin são de um primor inacreditável, podendo ser comparadas aos grandes chopinianos como Rubinstein e Horowitz. Treinado na escola russa, mostrou-se um grande leitor de Tchaikovsky e Rachimaninoff (gravou o concerto numero 3 e apresentou o mesmo concerto no Municipal do Rio, regido por um maestro russo). Quanto a Nazareth, nenhum outro pianista brasileiro o interpretou melhor e com mais ginga. Discordo totalmente do que aqui escreve Vassily Genrikhovick, quando diz que ” se não se pode esperar lá grande ginga de dedos treinados em Moscou, ela até que dá aqui uns graciosos pulinhos. Caro Vassily, será que vc ouviu o Arthur tocando ESPALHAFATOSO, VEM CÁ BRANQUINHA E MESMO RETUMBANTE E ODEON ?? Não se pode esperar grande ginga ?? O que vc entende por ginga. ?? o Arthur é o Pelé do piano Brasileiro erudito e dá um banho quando toca Nazareth. O grande mistério para todos nós, é tentar entender como Arthur se transformou em pianista de peças ingenuas e facílimas , tocadas em cima de um caminhão pelas estradas do Brasil. Quanto a isso, talvez só ele possa responder !!

    1. Olá, Beto!
      Embora não tenha lhe parecido assim, nós concordamos quanto à ginga e à graça destas gravações. Afinal, escrevi que “o resultado é notável: a técnica sobra, as obras pulsam, e o ouvinte sorri”. Nesse pulsar das obras, para mim, está a ginga – que entendo como a capacidade de fazê-las menearem, usando com inteligência as síncopes e, particularmente nas obras de andamento mais lento, graciosamente o rubato.

      Apesar da formação na escola russa, o elemento brasileiro das interpretações que Arthur é muito evidente. Tento imaginar como Nazareth soaria nas mãos de grandes pianistas como Gilels ou Kehrer, o professor de Arthur; daí, ouço estas gravações do grande pianista fluminense e fico feliz com que ele tenha continuado, a despeito da excelente e muito estrita formação em Moscou, um pianista brasileiro.

      Talvez não tenha me expressado da melhor maneira, mas relendo o trecho que você citou continuo achando que elogiei Arthur, em vez de criticá-lo: no confronto entre a expectativa acerca um pianista que estudou muitos anos na Rússia (“dedos treinados em Moscou”) e a deliciosa realidade dessas gravações (a ginga que “dá seus pulinhos”), o que quis dizer é que realidade superou, com sobras, as expectativas. Talvez reformule a frase e a menção aos “pulinhos”, que passaram a você e podem passar a outros leitores uma impressão desdenhosa que, sinceramente, não foi minha intenção.

      Fica aqui desde já o convite para conferir aqui, em breve, a segunda parte da bela série!

    2. Quanto às gravações de Chopin, também concordamos. Pretendo divulgar aqui, na volta de minhas férias, um pouco da rica discografia chopiniana de Arthur, em especial aquela de seu apogeu técnico nos anos 70 e 80, que guardo com carinho e revisito com entusiasmo.
      Volte sempre!

  2. Pouco sei da trajetória e vida pessoal deste pianista, mas o que eu sei é que a melhor interpretação das Bachianas Brasileiras No. 4 (para piano) de Heitor Villa-Lobos, e da Apassionata do grande Ludwig Van que já ouvi, foram pelas mãos dele em dois CD’s que desapropriei de meu pai e mantive para mim.

  3. O Arthur só tocou bem até o início da década de 80. Depois, ficou gordo, abandonou os estudos e suas apresentações eram marcadas por esbarrões sucessivos. Mas, para a minha surpresa, ele tocou o concerto n.1 de Chopin há três anos atrás com a Orquestra da Petrobrás de forma brilhante. Quando ele estuda, arrasa!.

  4. Caro Vassily, acho que no fim todos concordamos sobre a genialidade do Arthur M. Lima, que como você mesmo lembrou, ficou em segundo lugar na Competição Internacional de piano Fréderich Chopin, na sua VIIª edição, em 1965, que teve Argerich como vencedora. Na ocasião, Moreira Lima levou além da medalha de prata, também o prêmio de Melhor sonata, melhor mazurka e prêmio da platéia, o que, temos que reconhecer, não foi pouca coisa, como se pode verificar neste vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=wqTzNVXrU0I) entre 2:36 e 4:41, quando nosso ilustre representante executa o scherzo n.2.. Genial !!!!

    1. Fico muito impressionado ao assistir a estes vídeos. Como estamos na iminência de mais um Concurso Chopin (em outubro, se não me engano), o Instituto Nacional Chopin de Varsóvia disponibilizou um aplicativo para smartphone que permite acesso a fotos e vídeos de concursos passados. Da última vez que o acessei, estavam disponíveis vídeos de Moreira Lima tocando na final de 1965 e, o que me surpreendeu ainda mais, da ótima Diana Kacso tocando em 1975 (edição vencida por Zimerman, em que ela ficou em sexto lugar). Se você tiver um smartphone, recomendo fortemente o aplicativo!

  5. Postagem fantástica, já havia visto essa gravação em outro blog musical, embora infelizmente os links estivessem inativos.

    Acho fantástica a obra de Ernesto Nazareth, já tinha ouvido as obras dele em uma gravação feita por Iara Behls pela Naxos, ouvi-las novamente, desta vez por um pianista brasileiro, mesmo que eu não tenha tanta familiaridade com o mesmo, é uma experiência bastante agradável.

    Muito obrigado pela postagem.

  6. Excelente postagem! Agradecido. Queremos mais Arthur e Ernesto e muitos outros!
    Gostaria de perguntar (ou acrescentar) se a iniciativa dessas gravações são obra de um sujeito genial chamado Marcus Pereira, a quem muito devemos pela sua coragem de construir um grande e excelente painel de nossas raízes musicais. E muito mais!
    Se for o caso, os créditos seriam bem-vindos, pois muitos ainda não o conhecem e nem sua magnifica obra.

    1. Caro Gladistone,

      Faltaram, de fato, os créditos ao grande Marcus Pereira. Esta falha será compensada com a publicação de parte da discografia do selo, acompanhada de sua história combativa – quixotesca, até – na construção do que você bem chamou de “painel de nossas raízes musicais”.

      Obrigado pela lembrança!

  7. Nunca dei a devida importancia e pêso aos nossos músicos, salvo os já consagrados como Villa-Lobos. Agora minha postura mudou. Quero saber e conhecer mais sobre eles.

    manuel

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