.:interlúdio:. Andrew Lloyd Webber (1948): VARIATIONS (1978)

Se eu dissesse “Andrew Lloyd Webber é um dos principais compositores ingleses do fim do século 20”, não duvido que alguém dissesse: “ah, mas ele é um compositor de musicais, não de música séria”.

Bom, a palavra “compositor” significa apenas que o sujeito compõe, não contém em si nenhuma obrigação de que o objeto composto seja isto ou aquilo, e não dá pra negar que esse sujeito vem compondo uma quantidade enorme de música desde 1965 – e música que não me parece pior que a de um monte de compositores admitidos no cânone convencional do “sério”. E confesso que gosto bastante deste divertimento puramente instrumental que ele compôs em 1977 – uma exceção numa obra onde a palavra e a voz são praticamente onipresentes.

Vocês sabem de quem eu estou falando, né? Do sujeito que em 1970 estourou com Jesus Christ Superstar, que pretendia ser a “primeira ópera rock” — mas a Tommy da banda The Who acabou saindo antes (além de ser, talvez, mais legitimamente rock). De um modo ou de outro, JC Superstar ficou dez anos contínuos em cartaz em Londres; nesse meio tempo virou filme (1973), logo depois do que o Andrew atacou de Evita (1976), Cats (1981), e mais tarde The Phantom of the Opera, Sunset Boulevard etc. etc.

No meio disso tudo, esta peça puramente instrumental teria sido composta para… pagar uma aposta de futebol perdida para o seu irmão Julian Lloyd Webber, cellista clássico.

A prenda exigida por Julian foi justamente que Andrew compusesse uma peça para cello e banda de rock… mas é bom não esquecer que isso foi em tempos em que a palavra “rock” estava significando sobretudo a experimentação de emprego dos primeiros sintetizadores (Moog, Arp etc.) por grupos como Pink Floyd ou com pretensões classicizantes como Emerson Lake & Palmer.

Enfim, não sei por quê, Andrew resolveu repetir a seu modo um argumento (digamos assim) de Rachmaninoff: compor um conjunto de 24 variações sobre o tema do Capricho para violino nº 24 de Paganini. No caso de Rachmaninoff saiu a Rapsódia sobre um Tema de Paganini op.43 (1934), para piano e orquestra. Andrew também fez uma introdução, apresentou o tema, mas acrescentou só 23 variações… entremeadas com algumas variações de suas próprias variações.

Que rótulo caberia nessa música? Sei lá, o que menos me interessa são rótulos… O fato é que as tais variações correram mundo — tanto que mesmo se nunca tiver ouvido falar delas com certeza reconhecerá trechos.

Além disso, em 1990 gravou-se uma versão para cello e orquestra, novamente com Julian no solo, e com Lorin Maazel, nada menos, regendo a London Philharmonic Orchestra — num disco que inclui ainda uma peça do pai de Andrew, o também compositor William Lloyd Webber. Mas esse disco eu nunca ouvi, não posso dizer nada a não ser que existe…

A propósito, já falei demais, né? Vamos logo à música:

Andrew Lloyd Webber: VARIATIONS (1978)
para cello solo e banda de rock

Introduction
Theme (Paganini Caprice in A minor No. 24) and Variations 1-4
Variations 5 and 6
Variation 7
Variation 8
Variation 9
Variation 10
Variations 11-15 (including the Tributes)
Variation 16
Variations 13-14 Varied (listed as 14-15)
Variation 17
Variation 18
Variations 19, 20 and 5 Varied (listed as 6)
Variations 21 and 22
Variation 23

Julian Lloyd Webber – cello
Don Airey – Grand Piano, ARP Odyssey, Minimoog, Solina String Ensemble,
Fender Rhodes Piano
Rod Argent – Grand Piano, Minimog, Roland RS-202, Yamaha CS-80
Gary Moore – Gibson Les Paul, Rickenbacker electric 12 string Guitar,
Guild acoustic, Fender Stratocaster
Barbara Thompson – Flute, Alto Flute, Alto & Tenor Saxophone
Jon Hiseman – Arbiter Auto-Tune drums, Paiste cymbals & gongs, Percussion
John Mole – Fender Precision Bass, Hayman fretless bass guitar
Additional performers: Dave Caddick, Phil Collins, Herbie Flowers,
Bill Le Sage, Andrew Lloyd Webber

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Andrew Lloyd Webber: heavy metal, pero no mucho

Ranulfus

7 comments / Add your comment below

  1. Também sou fã do Andrew Lloyd, mas não conhecia essa sua obra. Curioso os nomes da banda, que trazem o Don Airey, que substituiu o genial Jon Lord no Deep Purple, quando este resolveu se aposentar, e o recentemente falecido Gary Moore, um excelente guitarrista. Já estou baixando.
    Lembro de ouvir minhas irmãs cantarem “Jesus Christ, Superstar” quando eu era guri pequeno lá no interior do Paraná… e alguns anos depois Barbra Streisand me comoveu com sua versão para “Memories”. A Directv transmitiu há alguns anos atrás “Cats”, diretamente da Broadway, e aquela montagem também me deixou empolgado. O cara é um baita dum compositor.

  2. Engraçado… Quando ouço falar de rock e cello lembro de break of reality e Apocalyptica (bandas incríveis e altamente recomendaveis), mas esse CD é em um estilo bem diferente, gostei.

  3. Lloyd Webber de fato é um compositor bastante eficiente. Não precisa nem dizer que só com Evita, Cats e Phantom ele ganhou uma fortuna que o deixou como 65º mais rico do Reino Unido. Se isso é bom ou ruim, não me cabe julgar.
    Fiquei surpreso esses dias pois conheci o REQUIEM dele. Uma obra de 1984, bastante interessante. Me fascina a orquestração desta obra. É uma orquestra enorme e cheia de instrumentos peculiares: sintetizador Yamaha DX-7 (na época, um frisson), saxofones, oboé d’amore, uma seção gigantesca da percussão (incluindo um treco chamado ‘rototom’), e por aí vai. Mais interessante ainda é que não há violinos.
    A gravação oficial é com Lorin Maazel regendo, e solos de Placido Domingo e Sarah Brightman. Recomendo que procurem.

  4. Hahahaha… e eu também senti o mesmo medo antes de ouvir. Massss… paciência. Fazer o quê? Relutei uns 14 anos para ouvir isso aí, mas até que me surpreendi.
    Sarah B. era esposa do Lloyd Webber na época (tem gosto pra tudo, não?). Placido estava até que em boa forma, e alcança todas as notas lá nas nuvens do “Hosanna in Excelsis” e do “Ingemisco”. O que dizer do Maazel? Faz uma leitura correta. Não tem o que inventar numa obra dessas, né?
    Acho que tem que ouvir o REQUIEM com coração aberto, com os mesmos sentimentos de quem ouviu as “Variações” pop-rock-erudito deste post.
    Não se assustem com o toque “latino” do Hosanna/Benedictus, e nem com os sintetizadores do Liber Scriptus Proferetur. O mesmo eu digo para o “estilo Danny Elfman/Tim Burton” do Confutatis Maledictis.
    Deu mais medo? Hahahahaha…
    Divirtam-se!

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