Alexander Scriabin (1872-1915): The Complete Piano Sonatas

Alexander Scriabin (1872-1915): The Complete Piano Sonatas

Não há experiência mais interessante e encantadora que perceber o desenvolvimento de Beethoven nas suas 32 sonatas para piano. Elas descrevem praticamente todas as fases técnicas e pessoais na carreira do compositor. Algo que chega próximo disso é a audição das 10 sonatas para piano do compositor russo Alexander Scriabin. Ouça a sonata n.1 e depois a n.10, dois compositores completamente distintos.

Nas primeiras três sonatas sentimos uma forte influência de Chopin, mas não o Chopin delicado das valsas e noturnos, e sim dos estudos e das duas últimas sonatas, o Chopin revolucionário. Eu já considero a primeira sonata para piano op.6 uma obra-prima. Ela tem quatro movimentos e é a mais longa de suas sonatas. O primeiro movimento (allegro con fuoco) já arrebata a atenção do ouvinte. O quarto movimento, uma marcha fúnebre em homenagem a Chopin, é uma das coisas mais lindas já escritas.

A sonata n.2 op.19 é chamada de sonata-fantasia, pois tem dois movimentos (lento-rápido) praticamente ligados. Um início melancólico com um movimento final arrebatador. Essa obra foi meu primeiro contato com a música de Scriabin, e ainda guardo na memória a época e lugar que ouvi.

A sonata n.3 op.23 talvez seja a obra, entre as demais, cujos temas são mais memoráveis. O movimento andante é sublime. Na sonata n.4 op.40 descobrimos uma sonoridade quase jazzística (Bill Evans?). Poderia ser tocada em qualquer bar “blue note” de esquina e seria muito bem recebida pela tribo do Jazz.

A partir da sonata n.5 op.53 já ouviremos um compositor que, independentemente da escola de Schoenberg, também estava explorando, no mesmo período, os limites do tonalismo. As sonatas também começam a ter apenas um só movimento.

Nesse período (pós-1903) a vida do compositor estava mudando completamente. Scriabin abandonou a mulher e quatro filhos. Partiu com a amante para Paris. Além disso, estava obcecado com as delirantes idéias teosóficas. Suas sonatas também são um reflexo dessas atividades metafísicas. A sonata n.7 op.64 chamada de White Mass é uma experiência mística. Harmonia dificílima, praticamente música atonal. A três últimas sonatas também atingem um ponto que nenhum outro compositor depois dele superou. Nem mesmo as sonatas de Prokofiev …

Devo confessar que apesar da extraordinária interpretação do pianista Marc-André Hamelin, ainda acho os registros feitos por Horowitz insuperáveis (infelizmente ele nunca gravou a integral) .

obs: Pode aparecer o nome do pianista Murray Mclachlan no seu player, mas acredite, a gravação é do Marc-André Hamelin.

Alexander Scriabin (1872-1915): The Complete Piano Sonatas

CD1:

1-4. Piano Sonata n.1, op.6
5-6. Piano Sonata n.2 (sonata-fantasy), op.19
7-10. Piano Sonata n.3, op.23
11. Fantasie op.28
12-13. Piano Sonata n.4, op.30

CD2:

1. Piano Sonata n.5, op.53
2. Piano Sonata n.6, op.62
3. Piano Sonata n.7, op.64
4. Piano Sonata n.8, op.66
5. Piano Sonata n.9, op.68
6. Piano Sonata n.10, op.70
7. Sonata-Fantaise (1886)

Performed by Marc-André Hamelin

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Marc-André Hamelin testando pianos na Sala Especial de Teclados do PQP Bach

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Piazzolla (1921-92) / Ustvolskaya (1919-2006) / Schnittke (1934-98) / Schnittke: Le Grand Tango / Grand Duet / Cello Sonata No. 2 / Epilogue

Piazzolla (1921-92) / Ustvolskaya (1919-2006) / Schnittke (1934-98) / Schnittke: Le Grand Tango / Grand Duet / Cello Sonata No. 2 / Epilogue

RostroIM-PER-DÍ-VEL !!!

Vamos voltar à Rússia com o Grand Duet (1959) para violoncelo e piano de Galina Ustvolskaya. A compositora, morta em 2006, teve um caso amoroso com Shostakovich; talvez um pouco traumático, já que aquela, nos últimos anos de sua vida, vilipendiava a imagem do compositor. A mulher era o cão e sua música retrata bem essa personalidade. O Grand Duet tem cinco movimentos com nenhum momento de alívio ou encanto. Uma obra genial por sua economia e sonoridade. No disco ainda temos a Sonata Nº 2 para Cello e Piano de Alfred Schnittke, no mesmo nível de “humor”. Já Epilogue, também de Schnittke, é uma OBRA-PRIMA. Engraçado é encontrar no início do disco uma peça de Piazzola; bem fora do contexto, mas ótima. A interpretação de Rostropovich é esplêndida.

Piazzolla (1921-92) / Ustvolskaya (1919-2006) / Schnittke (1934-98) / Schnittke: Le Grand Tango / Grand Duet / Cello Sonata No. 2 / Epilogue

1 Le Grand Tango
(Composed By – Piazzolla) 9:33
Mstislav Rostropovich (cello), Igor Uriash (piano)

Grand Duet
(Composed By – Ustvolskaya)
2 Quaver = 276 3:07
3 Crotchet = 120 2:29
4 Crotchet = 116 3:00
5 Crotchet = 160 1:45
6 Crotchet = 112 13:20
Mstislav Rostropovich (cello), Alexei Lubimov (piano)

Cello Sonata No. 2
(Composed By – Schnittke)
7 I. Senza Tempo 4:11
8 II. Allegro 2:05
9 III. Largo 4:26
10 IV. Allegro 3:41
11 V. Lento 2:26
Mstislav Rostropovich (cello), Igor Uriash (piano)

12 Epilogue For Cello, Piano And Tape (From The Ballet, Peer Gynt)
(Composed By – Schnittke) 25:49
Mstislav Rostropovich (cello), Igor Uriash (piano)

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Galina Ustvolskaya. Shosta se ligou nela e deixou a fera ferida.
Galina Ustvolskaya: a crush de Shosta que virou fera.

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Benjamin Britten (1913 – 1976): Orchestral Works

Benjamin Britten (1913 – 1976): Orchestral Works

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“Britten foi o maior compositor inglês depois de Purcell”, essa frase ouvida inúmeras vezes, é bastante justa. Não quero dizer com isso que estou desmerecendo os inúmeros compositores ingleses do século XX, mas a audição de Elgar, Vaugham Williams, Tippet, Bax… considerados gênios pelos ingleses, requer uma boa vontade por parte do ouvinte, e em certos momentos, é bem verdade que somos recompensados por isso (por exemplo: pedaços da sinfonia n.1 e o concerto para violino de Elgar, a sinfonia n.4 de Willians,…). Com Britten, não precisamos ser complacentes. Talentosíssimo compositor de óperas, entre as melhores produzidas na segunda metade do século XX, Britten não fez parte do “progresso” na música, aliás, detestava Schoenberg e Cia. Adorava Shostakovich, com quem nutriu uma amizade duradoura. Fez inúmeras visitas ao amigo na Rússia. E assim como o russo, resolveu explorar as possibilidades no mundo tonal. Mas tolice dizer, que por esse motivo, a originalidade lhe faltava. Bastam duas notas e já sabemos que foi escrito por Britten. Não canso de recomendar o compositor inglês para aqueles ouvintes pouco adaptáveis as manobras do modernismo. E o primeiro disco que recomendo é este que agora vos trago. Apesar de não ser perfeito nas interpretações, ele traz um pequeno retrato do mundo de Britten.

No primeiro disco encontramos Four Sea Interludes, que são as principais passagens orquestrais da sua mais importante ópera Peter Grimes (para quem deseja ouvir toda peça, recomendo o registro com Vickers e Colin Davis da Philips). Música tão envolvente que sentimos o cheiro da marisia. A suíte de sua ópera Death in Veneza (a última ópera do compositor) é uma peça difícil para o iniciante em Britten. No segundo disco só encontramos pérolas inestimáveis desse grande compositor. Variations on a Theme by Frank Bridge é um dos orgulhos da Inglaterra, assim como a Simple symphony, que é um clássico inquestionável (a versão para quarteto de cordas é minha preferida).

Benjamin Britten (1913 – 1976): Orchestral Works

Disco 1:
1 – 4. Sea Interludes (4) from Peter Grimes, for orchestra, Op. 33a
5. Passacaglia, for orchestra, Op. 33b (from “Peter Grimes”)
6. Young Apollo, for piano, string quartet & strings, Op. 16 (withdrawn by composer)
7. Death in Venice, opera, Op. 88 Suite

Disco 2:
1 – 11.Variations on a Theme by Frank Bridge, for strings, Op. 10
12 – 22. Lachrymae, reflections on a song of Dowland, for viola & string orchestra, Op. 48a
23 – 26. Simple Symphony, for string orchestra, Op. 4

Performed by I Musici de Montreal
Conducted by Yuli Turovsky

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Briiten (esq.) e seu companheiro de toda a vida Peter Pears. A união era tão reconhecida que a Rainha mandou telegrama de condolências a Pears quando da morte de Benjamin.
Britten (esq.) e seu companheiro de toda a vida Peter Pears. A união era tão reconhecida que a Rainha mandou telegrama de condolências a Pears quando da morte de Benjamin.

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Alfred Schnittke (1934-1998): Esquisses (Esboços)

Alfred Schnittke (1934-1998): Esquisses (Esboços)

Esquisses Schnittke ChistiakovIM-PER-DÍ-VEL !!!

Trago um disco excepcional de Schnittke. Ele é uma expansão daquele disco com a Suíte Gogol, com interpretações mais vigorosas e qualidade sonora superior. Não dá para negar a satisfação de ouvir essa música (veja abaixo minha foto de alegria).

Em 1978, Alfred Schnittke (1934-1998) escreveu a música incidental para uma produção que era uma adaptação para o palco do romance Almas Mortas, de Gógol. Depois de quase tudo pronto, o governo soviético proibiu a produção. Uma Suíte foi montada a partir da partitura de Gennadi Rozhdenstvensky e dois dos principais colegas de Schnittke — Gubaidulina e Denisov — contribuíram com a marcha que abre este CD. Em 1985, a música foi coreografada. O balé, chamado Esquisses foi realizado pelo Bolshoi

Schnittke foi o compositor mais importante a surgir na Rússia desde Dmitri Shostakovich. A sua música, nos seus primeiros anos, demonstra uma forte influência de Shostakovich. Mas depois ele desenvolveu uma técnica poliestilística simplesmente sensacional e única. Poliestilismo é o uso de múltiplos estilos e/ou técnicas de composição musical, e é considerado como algo pós-moderno. É a capacidade de absorver diferentes tradições e expressar-se particularmente através de uma escrita poliestilística – mistura de estilos – altamente individual e refinada, capaz de unir o passado, o presente e o futuro, o local e o universal.

Bem, para aqueles que estão ainda começando no mundo da grande música, segue um vídeo de pouco mais de 12 minutos com um resumo do que é música clássica…

Alfred Schnittke (1934-1998): Esquisses

1. March The Swan, The Pike And The Crayfish
2. Ov
3. The Childhood Of Chichikov
4. The Portrait
5. Major Kovalyov
6. Morning. The Disappearance Of The Nose
7. In Search Of The Nose
8. Despair
9. The Nose Is Found
10. The Overcoat
11. Ferdinand VIII
12. The Civil Servants
13. The Barrell-Organ
14. The Unknown Woman
15. Pas De Deux – Orch Of The Bolshoi Theatre/Andrey Tchistiakov O
16. The Debauch
17. The Sabbath
18. The Barrell-Organ
19. Spanish Royal March
20. The Ball
21. The Testament
22. March The Swan, The Pike And The Crayfish

Orchestra of the Bolshoi Theatre
Conducted by Andrey Chistiakov

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Música Contemporânea – parte 3: Wolfgang Mitterer (1958): Coloured Noise

Música Contemporânea – parte 3: Wolfgang Mitterer (1958): Coloured Noise

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Se existir uma fronteira para música, o compositor austríaco Wolfgang Mitterer está em seu extremo. Coloured Noise é uma sinfonia sem um tempo ou desenvolvimento aparente. Então não fique concentrado demais procurando uma linha condutora, “ah já sei, mais uma daquelas chatices aleatórias”, não senhor, o mundo de Mitterer é muito bem trabalhado (o homem é um organista também, toca Bach o tempo todo), é que o mundo que ele nos apresenta não tem semelhança com nada que guardamos na memória. No entanto, fiz uma interpretação muito pessoal após a terceira audição: São 23 músicos (alguma coisa de jazz é perceptível) e eletrônica que montam uma cidade noturna agitada, com botecos, puteiros, casas de jazz e clubs (bate-estaca embebida em êxtase), cinema com filmes de ação e pornografia barata, pessoas e ruídos característicos e perturbadores. A música de Mitterer é atual, pois o mundo estranho acaba sendo um retrato fiel das metrópoles. Claro que essa minha visão não deve servir de guia, o ouvinte tem que ser corajoso o suficiente para entrar nisso sem suportes. É compensador, saímos enriquecidos da experiência.

Wolfgang Mitterer (1958): Coloured Noise

1 Coloured Noise: I. Langsam 19:43
2 Coloured Noise: II. Scherzo 1 10:36
3 Coloured Noise: III. Scherzo 2 8:38
4 Coloured Noise: IV. Scherzo 3 7:57
5 Coloured Noise: V. Attacca 21:20

Composed By, Organ – Wolfgang Mitterer
Conductor – Peter Rundel
Orchestra – Klangforum Wien

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Mitterer dando uma voltinha pelo parque
Mitterer dando uma voltinha pelo parque

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Música Contemporânea – parte 2: Christopher Rouse (1949): Iscariot / Clarinet Concerto / Symphony No. 1

Música Contemporânea – parte 2: Christopher Rouse (1949): Iscariot / Clarinet Concerto / Symphony No. 1

Christopher Rouse não pode ser chamado de jovem compositor (nasceu em 1949 em Baltimore), mas foi nesta última década que sua música acabou ganhando maior prestígio. Claro que seu nome ainda é bem conhecido apenas nos Estados Unidos, mas talvez isso esteja mudando. Suas gravações, defendidas por músicos de primeira categoria, vem conquistando os ouvintes e críticos do mundo. Prêmios não faltam no seu currículo. Sua linha de composição é muito independente, apesar de notar a presença de Lutoslawski constantemente e, algumas vezes, um cheiro adocicado (no caso do concerto para flauta).

Aqui temos Iscariot (1989), título derivado do muy amigo de Jesus, Judas Iscariot. Diz o compositor que é sua obra mais autobiográfica (o que será que ele fez?). Uma obra comovente e intrigante, e no finzinho uma citação de Bach. Depois vem a peça que muito me cativou – o Concerto para Clarinete (2000). É a sensação de improviso numa obra formal. Tudo ocorre num único movimento. Deve ter se inspirado no concerto de Copland. No fim encontramos sua Sinfonia No.1 – que pode ser chamado de sinfonia adagio. Christopher Rouse é amante do Rock, escreveu até uma obra dedicada ao baterista do Led Zeppelin, aquele que morreu de pileque. E boa parte das peças anteriores à Sinfonia Nº 1 continham boa dose de rispidez, ritmos desvairados, percussivos… Diz ele que a Sinfonia Nº 1 foi o momento de ir com calma e andar em caminhos menos tortuosos. Por isso a obra toda é um grande adágio. Porém a obra está longe da monotonia, nos deixa com olhos atentos.

Christopher Rouse (1949): Iscariot / Clarinet Concerto / Symphony No. 1

1. – Iscariot
2. – Clarinet Concerto
3. – Symphony No. 1

Martin Frost (Clarinet)
Royal Stockholm Philharmonic Orchestra
Alan Gilbert (Conductor)

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Música Contemporânea – parte 1: Olga Neuwirth (Lost Highway, Vampyrotheone…)

Música Contemporânea – parte 1: Olga Neuwirth (Lost Highway, Vampyrotheone…)

É difícil ter noção das coisas quando estamos no meio de um redemoinho. E falar de música contemporânea é pior que isso. Nossa música, muitas vezes, não é necessariamente “moderna”, temos hoje ótimos compositores que pararam em Sibelius. Tem até quem ache Boulez um charlatão ou aqueles que nunca tiveram qualquer afeição com a música de Schoenberg (John Adams, por exemplo). As correntes musicais estão tão fragmentadas que um só compositor pode representar todo um modelo. Alfred Schnittke passou por uma puta crise no início dos anos 1970. O que fazer quando todas as portas já tinham sido abertas? A sua sinfonia n.1 foi mais ou menos a representação dessa situação. O poliestilismo que, fundamentalmente, faz uso de todas as correntes já existentes foi sua única saída. Mas como não cair numa obra que soe como retalhos de outros compositores? Na verdade, não podemos afirmar que este fenômeno é apenas da nossa época: ouvimos Buxtehude na obra de Bach, Haydn na obra de Beethoven, Schumann na obra de Brahms, Wagner em Schoenberg…mas esses compositores tinham um modelo que podiam explorar ou destruir. Hoje não há. Desta maneira, toda música escrita hoje é simplesmente pessoal e dificilmente será taxada de subversiva ou formadora de paradigma daqui pra frente. Depois dos 4´33´´ de Cage, só enfiando os dedos na tomada.

Nesta série vou lançar uma variedade de compositores relativamente jovens que vem se destacando nas salas de concertos e em outros meios. Todos compositores super competentes e que precisam ser conhecidos. Creio que todos eles já superaram esse peso do passado ou mesmo nunca tiveram. Ainda bem, pois tenho ouvido ótima música nesses últimos meses.

A primeira da lista é uma compositora – Olga Neuwirth. Nascida em 1968 na Áustria, Olga é uma mulher bastante competente e muito elogiada, vem fazendo concertos ao redor do mundo e, recentemente, algumas de suas obras vem sendo gravadas. Não diria que é discípula de Boulez, mas é quase isso. No entanto sua influências estão muito próximas também do cinema e da pintura. Escreveu uma semi-ópera baseada no filme de David Lynch – Lost Highway, uma de suas obras mais executadas e discutidas. Esta gravação que disponibilizo foi digerida num mês inteiro, mas as recompensas são enormes. Não vejo a hora de ver isso em vídeo.

Olga é formada também em música eletro-acústica. É criadora de uma espectro sonoro invejável e muitas vezes surpreendente. Sua música é muito visual (não é uma visão bonita de se ver). O segundo disco que trago pra vocês tem a parte instrumental de uma outra ópera – Bählamms Fest. Olga trabalha aqui com a ideia do medo, não necessariamente de algo, mas do medo do próprio medo. É preciso cuidado para ouvir isso aqui, mas não interpretem mal no início, a música te envolve até para mundos mais sutis e ternos. Olga Neuwirth já não é mais uma promessa.

Trago também um filme experimental de Viking Eggeling de 1924 com trilha sonora escrita pela Olga. Muito bacana.

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Faixas (Lost Highway):

Disco 1
1. Lost Highway, opera: Begin
2. Lost Highway, opera: Intro
3. Lost Highway, opera: Scene 1 [Part 1]
4. Lost Highway, opera: Scene 1 [Part 2]
5. Lost Highway, opera: Scene 2 [Part 1]
6. Lost Highway, opera: Scene 2 [Part 2]
7. Lost Highway, opera: Scene 2 [Part 3]
8. Lost Highway, opera: Scene 3 [Part 1]
9. Lost Highway, opera: Scene 3 [Part 2]
10. Lost Highway, opera: Scene 3 [Part 3]
11. Lost Highway, opera: Scene 4
12. Lost Highway, opera: Scene 5 [Part 1]
13. Lost Highway, opera: Scene 5 [Part 2]
14. Lost Highway, opera: Scene 5 [Part 3]
15. Lost Highway, opera: Scene 5 [Part 4]
16. Lost Highway, opera: Scene 5 [Part 5]
17. Lost Highway, opera: Scene 6 [Part 1]

Disco 2
1. Lost Highway, opera: Scene 6 [Part 2]
2. Lost Highway, opera: Scene 6 [Part 3]
3. Lost Highway, opera: Scene 6 [Part 4]
4. Lost Highway, opera: Scene 6 [Part 5]
5. Lost Highway, opera: Scene 7 [Part 1]
6. Lost Highway, opera: Scene 7 [Part 2]
7. Lost Highway, opera: Scene 8 [Part 1]
8. Lost Highway, opera: Scene 8 [Part 2]
9. Lost Highway, opera: Scene 9 [Part 1]
10. Lost Highway, opera: Scene 9 [Part 2]
11. Lost Highway, opera: Scene 9 [Part 3]
12. Lost Highway, opera: Scene 10 [Part 2]
13. Lost Highway, opera: Scene 11 [Part 1]
14. Lost Highway, opera: Scene 11 [Part 2]
15. Lost Highway, opera: Scene 11 [Part 3]
16. Lost Highway, opera: Scene 12

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Vampyrotheone/Hooloomooloo/Instrumental-Inseln (1 CD)

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Olga
A austríaca Olga Neuwirth (1968).

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Nikolay Medtner (1879-1951): Complete Piano Sonatas

Nikolay Medtner (1879-1951): Complete Piano Sonatas

Nossa época pode parecer carente de gênios e revoluções artísticas, mas ela é absolutamente importante para revisão do que aconteceu nos últimos séculos. Assim como num epílogo de um grande livro, tudo está sendo redescoberto, desenterrado e comentado. Talvez com um certo exagero, é verdade, revirando dos escombros música de péssima qualidade. Mas ainda acho o esforço muito bem vindo, uma ótima maneira de evitar injustiças tantas vezes cometidas por nossos antepassados. O caso interessante é a do compositor Medtner, que por infelicidade dele nasceu no século errado. Sua música, basicamente escrita para o piano, era considerada ultrapassada para um século tão cheio de experiências como foi o século XX. Apesar da enorme dificuldade técnica, a música de Medtner não acrescentava nenhum traço inovador à literatura musical. Mesmo na Rússia, seu país de origem, era preferível tocar Scriabin ou Rachmaninov, cujos traços geniais eram muito mais percebidos pelos interpretes e pelo público. Ainda sim todos os grandes pianistas russos interpretaram pelo menos uma vez a música de Medtner (Horowitz, Richter, Gilels,…)

No entanto, veja o que dizia Rachmaninov, em 1921, para Medtner “Eu repito o que já disse a você na Rússia, você é, na minha opinião, o maior compositor da nossa época”. Mas naquela época Rachmaninov também não estava em boa posição diante da crítica. Ou seja, a “carta de recomendação” de Rachmaninov na tinha muito valor, mas essa “carta” ajudou Medtner a fazer concertos pelos Estados Unidos. Hoje as avaliações são outras. A música de Medtner vem conquistando à atenção de muitos interpretes e consequentemente dos ouvintes.

Eu conheço bem as suas obras para piano solo, assim como os seus adoráveis concertos, e confesso que no início não fiquei convencido do seu valor. Mas a música sempre pedia outra audição, mesmo sem encontrar um porquê, a música de Medtner me viciava. Na verdade não tenho argumentos convincentes para defender esta música, pois ela não tem traços novos e, alguma vezes, soa como retalhos de influências, no entanto há uma linguagem entre as notas que é única e preciosa. Mas como qualquer viciado que não quer tomar drogas sozinho, trago uma exuberante caixa com quatros CDs interpretadas pelo melhor dos pianistas, Marc-André Hamelin.

No primeiro disco é possível perceber traços inspirados na primeira sonata op.5 e na interessante Zwei Marchen op.8. A sonata op.5 é uma dessas obras que realmente viciam imediatamente, alguns de vocês irão ouvir essa obra repetidas vezes essa semana. É isso que podemos chamar de um início promissor. No segundo disco, a promessa se confirma. A sonata op.22 é um primor de estrutura, um corpo sem brechas, mantendo o encanto do início ao fim. As mudanças de ritmos seguram a concentração de qualquer ouvinte. Esta sonata de um só movimento tem uma linha melódica não tão óbvia como foi no caso da sonata op.5, mas aí está talvez sua qualidade, ela nos conquista por seu desencadeamento e virtuosismo. Depois partimos para outra ótima peça, a sonata op.25 no.1, cujo segundo movimento lembra muito o que Rachmaninov faria nas variações Paganini. Mas cá entre nós, eu prefiro Medtner. E você deve concordar comigo quando ouvir a extraordinária sonata op.25 no.2, que para alguns críticos é uma das mais bem desenvolvidas do século XX. O segundo movimento é de uma liberdade que chegamos a pensar que o pianista está improvisando.

No terceiro disco continuamos em alto nível, difícil encontrar pontos fracos aqui. Destaco a faixa 5, a sonata-reminicenza que tem um tema inesquecível que vai sendo desenvolvido também ao longo dos outros movimentos. O quarto disco tem as duas sonatas mais singelas e ao mesmo tempo mais avançadas de Medtner, as op53 n.1 e n.2. O Scherzo da op.53 n.1 (faixa 7) é um outro exemplo de música viciante, já ouvi isso inúmeras vezes. Música de primeira.

Disco 1
1. Sonata In F Minor Op. 5: Allegro
2. Sonata In F Minor Op. 5: Intermezzo: Allegro
3. Sonata In F Minor Op. 5: Largo divoto
4. Sonata In F Minor Op. 5: Finale: Allegro risoluto
5. Zwei Marchen Op. 8: Andantino
6. Zwei Marchen Op. 8: Allegro
7. Sonaten-Triade Op. 11: No. 1 In A Flat Major
8. Sonaten-Triade Op. 11: No. 2 In D Minor (Sonata-Elegy)
9. Sonaten-Triade Op. 11: No. 3 In C Major

Disco 2
1. Sonata In G Minor Op. 22: Tenebroso, sempre affrettando – Allegro assai – Interludium (Andante lugubre) – Allegro assai
2. Sonata-Skazka In C Minor Op. 25 No. 1: Allegro abbandonamente
3. Sonata-Skazka In C Minor Op. 25 No. 1: Andantino con moto
4. Sonata-Skazka In C Minor Op. 25 No. 1: Allegro con spirito
5. Sonata In E Minor ‘Night Wind’ Op. 25 No. 2: Introduzione: Andante – Allegro
6. Sonata In E Minor ‘Night Wind’ Op. 25 No. 2: poco e poco Allegro molto sfrenatamente, presto

Disco 3
1. Sonata-Ballada In F Sharp Major Op. 27: Allegretto
2. Sonata-Ballada In F Sharp Major Op. 27: Introduzione: Mesto
3. Sonata-Ballada In F Sharp Major Op. 27: Finale: Allegro
4. Sonata In A Minor Op. 30: Allegro risoluto – Allegro molto
5. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 1 Sonata-Reminiscenza: Allegretto tranquillo
6. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 2 Danza graziosa: Con moto leggiero
7. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 3 Danza festiva: Presto
8. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 4 Canzona fluviala: Allegretto con moto
9. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 5 Danza rustica: Allegro commodo
10. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 6 Canzona serenata: Moderato
11. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 7 Danza silvestra
12. Vergessene Weisen (Forgotten Melodies) Op. 38: No. 8 Alla Reminiscenza: Quasi coda

Disco 4
1. No. 1 Meditazione: Introduzione, quasi Cadenza – Meno mosso – Meditamente
2. No. 2 Romanza: Meditamente
3. No. 3 Primavera: Vivace
4. No. 4 Canzona matinata: Allegretto cantando, ma sempre con moto
5. No. 5 Sonata tragica: Allegro non troppo
6. Sonata In B Flat Minor ‘Sonata Romantica’ Op. 53 No. 1: Romanza: Andantino con moto, ma sempre espressivo
7. Sonata In B Flat Minor ‘Sonata Romantica’ Op. 53 No. 1: Scherzo: Allegro
8. Sonata In B Flat Minor ‘Sonata Romantica’ Op. 53 No. 1: Meditazione: Andante con moto
9. Sonata In B Flat Minor ‘Sonata Romantica’ Op. 53 No. 1: Finale: Allegro non troppo
10. Sonata In B Flat Minor ‘Sonata Minacciosa’ Op. 53 No. 2: Allegro sostenuto
11. Sonate-Idylle In G Major Op. 56: Pastorale: Allegretto cantabile
12. Sonate-Idylle In G Major Op. 56: Allegro moderato e cantabile

Marc-Andre Hamelin, piano

Baixe Aqui – DISCO 1
Baixe Aqui – DISCO 2
Baixe Aqui – DISCO 3
Baixe Aqui – DISCO 4

Selfie do Medtner: tesão
Selfie do Medtner: tesão

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Alfred Schnittke (1934 -1998): Gogol Suite; Labyrinths

Alfred Schnittke (1934 -1998): Gogol Suite; Labyrinths

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Quem nunca se deliciou com as obras de Gogol entende pouco a alma russa. O descrédito às instituições e à burocracia é fonte, por exemplo, da ótima e engraçada peça Inspetor Geral, o conto O Nariz e o grande romance semi-queimado Almas Mortas. O humor de Gogol transcende seu tempo e parece impregnar a arte russa. Algo que também surge na música de Prokofiev e principalmente de Shostakovich. Foi dessa fonte literária e musical que Schnittke escreveu várias brincadeiras musicais reunidas na chamada Suíte Gogol. Uma das obras mais divertidas e empolgantes que ouvi (aliás, inúmeras vezes). Essa obra é um refresco que contrapõe a pesada e densa peça chamada Labyrinths. Um grande obra de Schnittke que mereceria um texto mais longo e detalhado. Mas como hoje é dia dos namorados, um evento de absoluta importância, é realmente a Suíte Gogol que destaco aqui.

Alfred Schnittke (1934 -1998): Gogol Suite; Labyrinths

Gogol Suite
1. I. Overture. Allegro
2. II. Chichikov’s Childhood. Andantino
3. III. The Portrait. Slow Valse
4. IV. The Cloak. Andante-Accelerando
5. V. Ferdinand VIII
6. VI. The Bureaucrats. Allegro
7. VII. The Ball. In Tempo Di Valse
8. VIII. The Legacy. Pesante

Labyrinths
9. I. Moderato-Allegretto Scherzando-Meno Mosso-Adagio
10. II. Moderato
11. III. Allegretto
12. IV. Agitato
13. V. Cadenza-Andante-Maestoso

Malmoe Symphony Orchestra
Lev Markiz

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Alfred Schnittke (1934-1998): Sim, eu fui irreverente pra caralho. E daí?
Alfred Schnittke (1934-1998): Sim, eu fui irreverente pra caralho. E daí?

CDF Bach

Michael Daugherty (1954-): Fire & Blood, Motorcity Triptych and Raise the Roof

Michael Daugherty (1954-): Fire & Blood, Motorcity Triptych and Raise the Roof

IM-PER-DÍ-VEL !!! (Revalidado por PQP)

Uma das minhas recentes descobertas foi o compositor americano Michael Daugherty. Há três anos tive o primeiro contato com sua música, num concerto na Holanda, onde tocaram sua obra mais popular Metropolis Symphony , que foi escrita em homenagem ao superman. A obra é despretensiosa e engraçada, mas extremamente bem escrita. O passado desse compositor é estranho e eclético, já foi músico de Jazz, Rock, Funk, …mas percebeu que pra escrever música sinfônica ou “clássica” tinha que suar a camisa. Foi pra Europa estudar com Boulez e Ligeti (boas referências, não?).

Vamos ao disco que foi gravado ao vivo. Fire and Blood é um concerto para violino inspirado nos murais de Detroit, concebidos pelo pintor mexicano Diego Rivera. A música é muito empolgante. O violino virtuoso e sempre presente. O segundo movimento é lindíssimo, forte presença da música mexicana (ex: ouçam o que acontece em 02:40). O terceiro movimento é arrebatador, o público no fim vai ao delírio. MotorCity Triptych é outra obra que também merece nossa atenção.

Espero que vocês apreciem esse joker que, de certa forma, indica um novo rumo da música clássica.

CDF

Michael Daugherty (1954-): Fire & Blood, Motorcity Triptych and Raise the Roof

1. Fire and Blood: I. Volcano
2. Fire and Blood: II. River Rouge
3. Fire and Blood: III. Assembly Line
4. MotorCity Triptych: I. Motown Mondays
5. MotorCity Triptych: II. Pedal-to-the-Metal
6. MotorCity Triptych: III. Rosa Parks Boulevard
7. Raise the Roof

Detroit Symphony Orchestra
Ida Kavafian (violin) and Brian Jones
Neeme Jarvi

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Michael Daugherty: jokerman super competente e talentoso
Michael Daugherty: jokerman super competente e talentoso

CDF

Songs of Brahms, Sibelius, Stenhammar…

Songs of Brahms, Sibelius, Stenhammar…


Estou trabalhando muito para disponibilizar uma série dedicada à música dos nossos dias. Compositores relativamente jovens (50 anos, o limite) serão trazidos aqui para que possamos ter um panorama bem geral da música contemporânea. Mas não se enganem, não são compositores de beira de esquina tentando um lugar ao sol. Falo daqueles que já são relativamente reverenciados pela imprensa especializada, mas que são completamente desconhecidos nesse nosso país de bananas. Enfim, em breve veremos eles por aqui…

Hoje trago um disco que é muito importante para mim, e motivado também pelo desafio de um dos nossos ouvintes. Um disco com canções de Brahms, Sibelius e Stenhammar. Não vou escrever uma linha, pois é completamente desnecessário.

Gravação em 320 Kbps.

Faixas:

Brahms
1. Funf Lieder, Op.105: Like Melodies it Moves
2. Funf Lieder, Op.105: Ever Lighter Grows my Slumber
3. Funf Lieder, Op.105: Lament
4. Funf Lieder, Op.105: In The Churchyard
5. Funf Lieder, Op.105: Betrayal

Sibelius
6. The Dream, Op.13 No.5
7. Until the Evening, Op.17 No.6
8. Splinters on the Water, Op.17 No.7
9. Black Roses, Op.36 No.1
10. Rushes, Whisper! Op.36 No.4
11. Diamond on the March Snow, Op.36 No.6
12. The First Kiss, Op.37 No.1
13. Was it a Dream? Op.37 No.4

Stenhammar
14. Prince Aladdin of the Lamp, Op.26 No.10
15. Adagio, Op.20 No.5
16. Starry Eye, Op.20 No.1
17. Florez och Blanzeflor, Op.3

Brahms
18. Four Serious Songs, Op.121: Prediger Salomo, Cap.3; For it Goes with Men as with Beasts
19. Four Serious Songs, Op.121: Prediger Salomo, Cap.3; So I Returned, & Considered All
20. Four Serious Songs, Op.121: Jesus Sirach, Cap.41; O Death, How Bitter Thou art
21. Four Serious Songs, Op.121: S. Pauli and die Corinther I, Cap.13; Though I Speak with the Tongues…

Håkan Hagegård (baritone)
Warren Jones (piano)

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Você pensa que não conhece Håkan Hagegård mas conhece sim. Ele esteve na fantástica montagem de Ingmar Bergman para "A Flauta Mágica" de Mozart.
Você pensa que não conhece Håkan Hagegård mas conhece sim. Ele esteve na fantástica montagem de Ingmar Bergman para “A Flauta Mágica” de Mozart.

CDF

Arnold Schoenberg (1874-1951): Choral Works

Arnold Schoenberg (1874-1951): Choral Works

Link revalidado por PQP

Ouvir é um ato que requer humildade. É imprescindível acreditar. Infelizmente nossa natureza não é assim, o que alguns chamam de senso crítico, eu chamo de idealização ou característica estética preferida. E isso, na maioria das vezes, leva a um impedimento da expressão do outro. A grande maioria de vocês sabem da dificuldade de ouvir o novo (não estou falando de um período específico da história). Aquela linguagem que é totalmente alheia ao nosso mundo tem que “forçosamente” criar uma memória musical. Pois a apreciação quase sempre vem da lembrança. Não foi a toa que boa parte das grandes obras-primas tiveram uma rejeição inicial. No meu caso, devo confessar que tenho enorme dificuldade com a música medieval e renacentista, isso porque meus ouvidos estão acostumados a uma certa dinâmica que é muito difícil abandonar. Ou talvez a sonoridade, tão próxima da arquitetura das igrejas, seja muito sacrificada numa gravação. Vou citar um exemplo bem geral: estou lendo uma biografia fantástica sobre Handel (Handel – Paul Henry Lang; Dover). Esta biografia foi lançada no início dos anos 1960, época na qual a música barroca, instrumental ou operística, era pouco executada (com exceção de Bach). Há um capítulo fantástico e quase profético sobre a estética das óperas barrocas, praticamente impossível de ser apreciada pelo século XIX e início do século XX. Pois o público valorizava um certo realismo ou tipo de ação no palco, que era inexistente e desinteressante para o ouvinte do período barroco. Tanto Handel como Rameau, por exemplo, deveriam enfatizar apenas as características psicológicas dos personagens, já que a ação (temas bíblicos, romanos ou gregos, em geral) era amplamente conhecida pelo público na época. Muitas vezes o mesmo libreto era usado por vários compositores. O que realmente importava era como o compositor arrancava lirismo e verdade daquilo. Hoje, passado algumas décadas depois do livro, o público é bem menos ortodoxo e muito mais interessado nesse período genial da música, um período além de Bach.

“E o que isso a ver com Schoenberg?” Bem, esse disco com obras corais, praticamente todos a cappela, me lembram um pouco a dificuldade que tenho com a música medieval. É difícil essa empreitada neste momento da minha vida (quanto mais cedo acostumar o ouvido, melhor), mas não vejo a música de Schoenberg mais difícil que a música de Guillaume de Machaut, por exemplo. São mundos tão distantes no tempo, mas tem tanto em comum. Pelo menos, não falta humildade nas minhas audições.

Arnold Schoenberg (1874 – 1951) – Choral Works

1. Satires (3), for chorus and instruments, Op. 28: Am Scheideweg (At the Crossroads)

2. Satires (3), for chorus and instruments, Op. 28: Vielseitigkeit (Versatility)
3. Satires (3), for chorus and instruments, Op. 28: Der neue Klassizismus (The New Classicism)
4. Pieces (4) for chorus & ensemble, Op. 27: Unentrinnbar (Inescapable)
5. Pieces (4) for chorus & ensemble, Op. 27: Du sollst nicht, du mußt (Thou Shall Not, Thou Must)
6. Pieces (4) for chorus & ensemble, Op. 27: Mond und Menschen (Moon and Mankind)
7. Pieces (4) for chorus & ensemble, Op. 27: Der Wunsch des Liebhabers (The Lover’s Wish)
8. Pieces (6) for male chorus, Op. 35: Hemmung (Restraint)
9. Pieces (6) for male chorus, Op. 35: Gesetz (The Law)
10. Pieces (6) for male chorus, Op. 35: Ausdrucksweise (Means of Expression)
11. Pieces (6) for male chorus, Op. 35: Glück (Happiness)
12. Pieces (6) for male chorus, Op. 35: Landsknechte (Yeomen)
13. Pieces (6) for male chorus, Op. 35: Verbundenheit (Obligation)
14. German Folksongs (3) for chorus, Op. 49: Es gingen zwei Gespielen gut
15. German Folksongs (3) for chorus, Op. 49: Der Mai tritt ein mit Freuden
16. German Folksongs (3) for chorus, Op. 49: Mein Herz in steten Treuen
17. Peace on Earth (Friede auf Erden), for chorus & instruments ad lib, Op. 13
18. Dreimal tausend Jahre, for chorus, Op. 50a
19. De Profundis, for chorus, Op. 50b

Performed by Südfunk-Chor Stuttgart
Rupert Hubert

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Schoenberg em seu exílio californiano
Schoenberg em seu exílio californiano

CDF

Iánnis Xenákis (1922-2001): Orchestral Works, Vol.1

Iánnis Xenákis (1922-2001): Orchestral Works, Vol.1

Talvez seja cedo falar sobre quem fica e quem sai do cenário musical nos próximos anos. Mas das injustiças cometidas no passado, já melhoramos muito. Quem ainda a pouco duvidava da excelência de um Haydn, hoje quebra a cara. Em qualquer lugar sério, sua maestria é reconhecida. São inúmeros os concertos e gravações em sua homenagem. Vivaldi também passou por situação semelhante. Telemann é outro mestre que sofreu muito pela maldita comparação com Bach, mas hoje há vastíssima discoteca dedicada a ele. Enfim, estamos falando da redenção de compositores bem antigos. E o que acontecerá com a música dos compositores pós-1945? Acho que todos concordam que ela nunca será popular, pois exige do ouvinte uma participação muitas vezes extenuante e pouco recompensadora. Toda vez que ouço Pli Selon Pli de Boulez perco alguns quilos. Como disse, ainda é cedo.

No entanto, não podemos dizer que este cenário pós-1945 foi homogêneo. Trago Xenakis para provar que sua música lembra muito a impetuosidade de um Beethoven, não é necessário pensar muito em ritmo ou texturas (apesar da música ser riquíssima nesse quesito), é como pular no precipício, você não tem muito o que fazer, mas nunca irá bocejar. Acredito que Xenakis vai permanecer conosco para sempre.

Iánnis Xenákis (1922-2001) – Orchestral Works, Vol.1

1 – Aïs, for amplified baritone, solo percussion & orchestra
2 – Tracées, for 94 musicians
3 – Empreintes, for 85 musicians
4 – Noomena, for 103 musicians
5 – Roáï, for 90 musicians

with Beatrice Daudin
Luxembourg Philharmonic Orchestra
Conducted by Arturo Tamayo

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Xenákis
Xenákis: impetuosidade e permanência

CDF Bach

Erkki-Sven Tüür (1959): Symphony Nº 4 (Magma)

Erkki-Sven Tüür (1959): Symphony Nº 4 (Magma)

Sobre a polêmica, erudito e popular, que também lembra um pouco a relação ateu e teísta, não há muito que dizer, é mesmo um assunto interminável e muito controverso. Mas é inegável a coexistência entre aquele que afirma e o que nega. Por isso, nos assuntos musicais, só conheço Música e musiquinha; e nos assuntos religiosos, sou pós-teísta, aquele que não vê relevância no assunto. Mas é óbvio que certas “categorias” de músicos vivem na sombra dos grandes mestres, transformando belezas e inovações em clichês, e raramente fogem do meu padrão de musiquinha.

Sou extremamente crítico com relação às “misturas”. Não pela tentativa de encontrar uma linguagem inusitada, mas utilizar esse fato, o de misturar rock e clássico ou rock e jazz, como o principal elemento da obra musical; o que é um absurdo. No recife, o fator mais importante é misturar, mesmo que o resultado, na maioria das vezes, seja de uma mediocridade só. Temos um pianista famoso por aqui, que usa como logotipo – “quem disse que o erudito e o popular não podem se casar?” Claro que pode. Quem é um apaixonado por Villa, sabe que essa mistura funciona muito bem. Mas no caso particular do referido pianista, vejo apenas uma sombra distante de “erudito” (aliás, termo pedante que só existe no Brasil. Certo é música clássica ou Música, como costumo chamar).

Trago para vocês uma interessante tentativa. A sinfonia n.4, Magma, de 2002 escrita pelo compositor nascido na Estônia – Erkki-Sven Tüür (quem se habilita a pronunciá-lo?) . O cara tinha uma banda de rock, no fim dos anos de 1970, chamada “In Spe”, que já misturava elementos da música barroca. Na sinfonia ou sinfonia concertante para percussão é visível a forte influência do Rock e Jazz. Eu acho que ele foi bem sucedido, a peça é envolvente; apesar de certas passagens pouco inspiradas, levando minha concentração a se perder. Mas dessa nossa geração de “misturas”, poucos tem a competência de Tüür.

P.S.:A percussionista Evelyn Glennie é absolutamente incrível, e acreditem, a moça é surda.

Erkki-Sven Tüür (1959): Symphony Nº 4 (Magma)

Faixas:

1. – Igavik (Eternity) for male choir & orchestra (in memoriam Lennart Meri, 2006)
2. – Inquiétude du fini for chamber choir & orchestra (dedicated to Arvo Pärt, 1992)
3. – Symphony No.4 Magma for solo percussion & symphony orchestra (dedicated to Evelyn Glennie, 2002)
4. – The Path and the Traces for strings (2005)

Estonian National Symphony Orchestra
Conducted by Paavo Järvi

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Tüür
Tüür

CDF

Arnold Schoenberg (1874-1951): Weihnachtsmusik & Transcriptions

Arnold Schoenberg (1874-1951): Weihnachtsmusik & Transcriptions

Link revalidado por PQP

Volto com 3 belos discos. O primeiro disco foi uma agradável surpresa. Traz uma pequena peça para o Natal e transcrições feitas por Schoenberg. Todas as peças são miniaturas transcritas para um pequeno quinteto às vezes com violinos, clarinete ou flauta, mas sempre com a presença marcante do harmonium (um tipo de sanfona avantajada) e piano. A peça que abre o disco, Weihnachtmuzik, é melódica e despretensiosa, para ouvir com toda a família perto da árvore de Natal. A transcrição do Lieder eines fahrenden gesellen de Mahler é a jóia do disco, neste caso para ouvir sozinho. Berceuse élégiaque de Busoni também recebe uma transcrição excelente, parece um Arvo Part melhorado. No final temos uma justa homenagem ao Strauss II, que fazia uma música ligeira de altíssima qualidade. Duas adoráveis transcrições das famosas Rousen aus de Sudem e Kaisewalser. Todas as obras do disco foram escritas por volta de 1920. Claro que a motivação maior dessa postagem é para lavar a alma e prepará-la … (continua)

Faixas:

1. Weihnachtsmusik (Musique de Noël), for 2 violins, cello, piano & harmonium
2. Transcription ‘Lieder eines fahrenden Gesellen’: Wenn mein Schatz Hochzeit macht
3. Transcription ‘Lieder eines fahrenden Gesellen’: Ging heut’ Morgen übers Feld
4. Transcription ‘Lieder eines fahrenden Gesellen’: Ich hab’ ein glühend Messer
5. Transcription for voice & chamber ensemble of Mahler’s ‘Lieder eines fahrenden Gesellen’: Die zwei
6. Transcription for piano quintet, flute, clarinet, piano & harmonium of Busoni’s ‘Berceuse elegiaque’
7. Transcription for string quartet, flute, clarinet & piano, of Johann Strauss’ ‘Emperor Waltz’
8. Transcription for string quartet, harmonium & piano of Johann Strauss’ ‘Rosen aus dem Suden’

Performed by Paul Meyer, Michel Moragues, Isabelle Berteletti, Louise Bessette, Jean-Luc Chaignaud

Conductor by Michel Béroff

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Transcreve, Arnold, transcreve...
Transcreve, Arnold, transcreve…

CDF Bach

Karlheinz Stockhausen (1928-2007): Unsichtbare Chore from DONNERSTAG aus LICHT

Karlheinz Stockhausen (1928-2007): Unsichtbare Chore from DONNERSTAG aus LICHT

Stockhausen foi um arrojado pretensioso, mas isso não pode ser considerado um defeito do compositor. Muita música de qualidade foi feita em terreno de soberba e egoísmo. Além disso, não podemos deixar de esquecer que há muita sinceridade nesta manipulação do destino, a crença do compositor que a música pode ter importância na transformação do mundo. Stockhausen acreditava que sua música conectava o homem a Deus assim como seres de outros mundos. Uma mistura de crenças judaico-cristãs com ufologia.

A ópera Licht, composta em sete partes, cada uma relacionada aos dia da criação, é o exemplo máximo desta pretensão. Ela teve início em 1977 e foi completada em 2003. A execução desta ópera é praticamente impossível de ser realizada, pois Stockhausen exige uma série de estruturas extra-musicais (diversos tipos de combinações sonoras, uma parafernália eletrônica,…) que levariam qualquer produtor ao desespero. A mais notável dessas exigências é o uso de quatro helicópteros (já postada aqui). O que vamos ouvir agora é um trecho de mais ou menos 48 minutos da ópera “Quinta-feira” chamado de Unsichtbare Chore (coros invisíveis). A gravação que temos aqui foi lançada pela gravadora Deutsche Grammophon no início desse ambicioso projeto (hoje um disco raríssimo de encontrar). A música é para coro com intervenções inusitadas.

Performed by West German Radio Chorus
Prepared by H. Schernus, G. Ritter and K. Stockhausen

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E agora é só apertar um botão, tá?
E agora é só apertar o botão, tá?

CDF / PQP (Revalidação)

Wolfgang Rihm (1952) e Alfred Schnittke (1934 -1998): String Quartets Nros. 4

Wolfgang Rihm (1952) e Alfred Schnittke (1934 -1998): String Quartets Nros. 4

Post revalidado por PQP Bach.

É com grande alegria que termino o delicioso livro do Arthur Nestrovski – Outras Notas Musicais. O livro é um compilação dos últimos dez anos da vida musical desse crítico, músico, poeta e agora, diretor artístico da Osesp. Mais ou menos 95% das críticas foram impressões vividas nas salas de concertos de São Paulo. Os progressos da Osesp, as tentativas operísticas no Municipal (muitas falhas e sucessos), os célebres convidados (Barenboim, Masur, Gidon Kremer,…), a Cultura Artística,… A descrição de Nestrovski é, na medida do possível, completa e detalhada. Só quando a clareza não é mais possível, a poesia de Nestrovski contorna essa dificuldade. Um livro sobre música e como escrever sobre música. Assim como algum de nós, Nestrovski é um entusiasta da música moderna, em especial Alfred Schnittke. Seu relato do concerto do Alban Berg Quartett na sala Cultura Artística (2003) é invejável, nos apresenta a natureza do quarteto de cordas n.4 de Schnittke, às vezes com simplicidade e noutras, em detalhes quase audíveis (ex: “Final do terceiro movimento: primeiro violino entoa uma melodia cromática, dobrada em oitavas pelo violoncelo sul ponticello…o segundo violino sustenta uma nota longa. Viola pontuando em pizzicato…”). Para compensar a frustração de não ter ido a este concerto, deixo com vocês uma gravação ao vivo do Alban Berg Quartett interpretando a mesma obra de Schnittke – o quarteto de cordas n.4. Não posso esquecer de mencionar o excelente quarteto de Wolfgang Rihm que abre o disco. Pode não ser genial como Schnittke, mas é extremamente empolgante. Comprem esse livro e ouçam essa música do outro mundo.

Wolfgang Rihm (1952) e Schnittke (1934 -1998): String Quartets Nros. 4

Wolfgang Rihm

1 – String Quartet No. 4: I. Agitato – 6:07

2 – Con Moto, allegro – andante – allegro molto – 6:50

3 – Adagio – 6:56

Alfred Schnittke

4 – String Quartet No. 4: I. Lento – 7:59

5 – String Quartet No. 4: II. Allegro – 8:00

6 – String Quartet No. 4: III. Lento – 6:10

7 – String Quartet No. 4: IV. Vivace – 3:49

8 – String Quartet No. 4: V. Lento – 10:39

Alban Berg Quartet

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Schnittke: o homem do poliestilismo
Schnittke: o homem do poliestilismo

CDF

Pierre Boulez (1925-): Sur Incises

Pierre Boulez (1925-): Sur Incises

Não podemos ser felizes. Não é possível a felicidade num ambiente hostil. E enquanto estivermos vivos, acabaremos cedendo, mais cedo ou mais tarde, aos ataques inusitados, às angustiantes sensações e o depressivo tédio. Então pra quê se enganar com a vida, se morrer é a melhor opção contra a infelicidade? Resposta simples, o homem é medroso, prefere sofrer, pois se acostuma com o sofrimento. Já na morte, o homem não sabe o que encontrará. Para os ateus é óbvio, tutto è finito. E para qualquer religioso de verdade, a morte o melhor caminho, a única saída para felicidade, por isso não podemos negar que os grandes homens de fé da atualidade são os suicidas.

Depois dessa introdução revigorante, gostaria de salientar certos pontos na música de Pierre Boulez que me fizeram pensar sobre esse assunto. O desconhecido é o que o homem mais teme. Não é surpresa, portanto, descobrir que a música do francês é tão pouco atrativa para o ouvinte temente. Ela foge completamente da percepção natural de um ser humano, que na maioria das vezes é acostumado à linearidade da vida, a um destino certo e um final de glória no reino divino. Mas este mesmo ser doutrinado, que sabe o certo e errado, cai na armadilha de sua própria natureza complexa e fascinante. Por mais que ele tente, a sua mediocridade não será bastante para mudar isso. Só a mediocridade máxima levará o homem à felicidade plena.

Bastam segundos de Sur Incises para percebermos que estamos perdidos. No belo livro “A música desperta o tempo” de Daniel Barenboim, há uma passagem sobre a importância da memória auditiva. Quando ouvimos música, “o ouvido lembra-se do que já percebeu e, por meio disso, volta ao passado ou pode até ter consciência dele e do presente ao mesmo tempo…o ouvido cria a conexão entre o presente e o passado e envia sinais ao cérebro quanto ao que esperar do futuro”. Algo absolutamente impossível na música de Boulez. Assim como na pintura abstrata, onde o espaço parece não ter início ou fim, na música de Boulez, a idéia de passado e futuro é inexistente. Ou seja, uma dificuldade incrível para o homem moderno que tem sempre como guia o tempo. Eis o paradoxo, a música moderna não foi feita para o homem moderno.

O sofrimento escurece os objetivos que levam à felicidade. E nesse caminho tortuoso, o som do ponteiro do relógio é ensurdecedor. Já com Boulez, aprendemos que a questão do sofrimento e felicidade é irrelevante, assim como o bendito tempo. O homem é catapultado ao espaço onde não há pontos de referências. A música de Boulez é música de contemplação.

Faixas:

1. Sur Incises (1996/1998) pour trois pianos, trois harp, trois percussion-claviers – Moment I

2. Sur Incises (1996/1998) pour trois pianos, trois harp, trois percussion-claviers – Moment II

3 – 6. Messagequisse (1976/77) pour violoncelle solo et six violoncelles

7 – 15. Anthèmes 2 (1997)

Performed by Jean-Guihen Queyras, Ensemble InterContemporain

Conducted by Pierre Boulez

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Boulez:
Boulez: o anti-medíocre

CDF

Witold Lutoslawski (1913-1994): Concerto for Orchestra / Jeux Venitiens / Livre pour Orchestre / Mi-Parti


Não há nada mais complexo e difícil que ouvir. Quando paramos de falar (um grande passo, aliás), não necessariamente paramos para ouvir. A mente continua sua tagarelice até entrar em uníssono com o interlocutor. Para os mais incontidos, frases rápidas são exclamadas para ressaltar as idéias do outro (que na verdade são também do ouvinte). No fim, tudo continua como começou. O prazer que sentimos na concordância desfaz qualquer possibilidade de aprendermos algo diferente.

A música, no entanto, nos faz aprender um bocado sobre essas deficiências. Ouvindo a música de Haydn, por exemplo, consigo ver minhas limitações, principalmente quando o mestre me prega aquelas surpresas: tudo levando a um caminho e, pronto! Dou de cara com um caminho inusitado e nunca imaginado por mim. No futebol, a experiência foi a mesma. Lembro de ter sido um jogador razoável na minha infância, mas ficava puto da vida com os dribles que um fedelho me dava. Ouvir, assim como viver, é confrontar nossas fraquezas. E quem está disposto a isso com frequência?

Outro compositor que mostra muito como é limitada minha imaginação é o polonês Witold Lutoslawski. Sua linguagem não é fácil, mas tem uma unidade e coerência que ajuda o ouvinte a seguir adiante. No fim tenho a sensação de que ganhei muito com meu silêncio.

Witold Lutoslawski (1913 – 1994): Concerto for Orchestra
/ Jeux Venitiens / Livre pour Orchestre / Mi-Parti

1. Con: I. Intrada (Allegro Maestoso)
2. Con: II. Capriccio, Notturno E Arioso (Vivace)
3. Con: III. Passacaglia, Toccata E Corale (Andante Con Moto – Allegro Giusto)
4. Jeux Venitiens
5. Livre Pour Orchestre
6. Mi-parti

Performed By Polish Radio NSO
Witold Lutoslawski

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Lutoslawski: imaginativo e original

CDF

Arnold Schoenberg (1874 – 1951): Verklärte Nacht, Pelleas und Melisande

Link revalidado por PQP.

Verklärte Nacht (Noite Transfigurada), escrita em 1899 para um sexteto de cordas, foi um dos raríssimos sucessos que Schoenberg teve em vida. Já velho, quando vivia nos Estados Unidos, ficou surpreso e felicíssimo em perceber que um taxista ouvia sua música no rádio. Ao contrário de suas obras do período atonal, Noite transfigurada é apaixonante logo na primeira audição. O tema da obra é curioso: um casal se encontra numa noite de lua cheia, e no meio do pega-pega a moça revela, arrependida, que está grávida de outro homem. “Não importa” diz o rapaz, “vou cuidar da criança como se fosse minha e viveremos para sempre felizes”. A presente versão que vamos ouvir é uma transcrição feita pelo próprio compositor em 1917 para orquestra de cordas e revista em 1943. Devo confessar que Schoenberg fez certo, pois a orquestra dá mais dramaticidade à obra. Como a composição foi influenciada por Wagner e Brahms, eu diria que a versão para orquestra está para Wagner, assim como o sexteto está para Brahms. E como Karajan foi um perfeito condutor de Wagner, esta gravação é obrigatória. Até os maiores detratores de Schoenberg caem de amor por esta obra.

Pelleas und Melisande, Op. 5, escrita três anos depois, não teve o mesmo sucesso. A obra é tonal, mas tão intrincada, complexa e densa que praticamente sufoca o ouvinte. A peça é um poema sinfônico de Richard Strauss elevado a 10. Dizem alguns especialistas que Schoenberg “exagerou” no empenho de criar algo novo, mas como é recompensador. Em certos momentos eu chego a pular da cadeira: “Isso”. O problema é que o “isso” não é tão freqüente. Novamente, não há melhor defensor da obra que o general Karajan e sua filarmônica de Berlim.

Arnold Schoenberg (1874 – 1951): Verklärte Nacht, Pelleas und Melisande

1. Verklärte Nacht, Op.4 – Arr. String Orch. (second vers. 1943) – 1. Grave
2. Verklärte Nacht, Op.4 – Arr. String Orch. (second vers. 1943) – 2. Molto rallentando
3. Verklärte Nacht, Op.4 – Arr. String Orch. (second vers. 1943) – 3. Pesante
4. Verklärte Nacht, Op.4 – Arr. String Orch. (second vers. 1943) – 4. Adagio
5. Verklärte Nacht, Op.4 – Arr. String Orch. (second vers. 1943) – 5. Adagio
6. Pelleas und Melisande op.5 – Die Achtel ein wenig bewegt
7. Pelleas und Melisande op.5 – Heftig
8. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 9: Lebhaft
9. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 16: Sehr rasch
10. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 33: Ein wenig bewegt
11. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 36: Langsam
12. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 43: Ein wenig bewegter
13. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 50: Sehr langsam
14. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 55: Etwas bewegt
15. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 59: In gehender Bewegung
16. Pelleas und Melisande op.5 – Ciff. 62: Breit

Berlin Philharmonic Orchestra
Conducted by Herbert von Karajan

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fsf
“Vou cuidar da criança como se fosse minha e viveremos para sempre felizes”. É isso aí, tem que assumir!

CDF

Edgard Varèse (1883-1963): The Complete Orchestral Works – Link revalidado pois…

… PQP Bach ama este CD. Com a palavra, CDF Bach.

Observação: este post recebeu uma substancial “reforma” no dia de hoje. O comentarista Karyttus nos enviou este CD duplo em 320 kbps — a versão anterior trazia links de arquivos de 192 kbps. Sugerimos aos nossos fiéis e infiéis visitantes que baixem novamente este extraordinário trabalho.

Quem foi o pai da música moderna? Schoenberg, Stravinsky ou Varèse? Alguns dizem que Schoenberg estava muito preso ao romantismo, por isso não mereceria esse título (haja vista o famoso e polêmico artigo de Boulez, “Schoenberg morreu”), e que Stravinsky abandonou o posto, logo cedo, para vagar no neo-classicismo. Já Varese sim, esse foi aquele cuja música nunca chegou perto dos séculos anteriores. “Moderno” até as raízes. Bem, eu não acho que seja assim. Quem ouviu os dois últimos quartetos de Schoenberg sabe que aquela música não tem nada de romântica, assim como outros exemplos que devo colocar nesse site. E quem acha que Stravinsky recuou, tá muito enganado. O homem olhava para o passado para escrever música nova. Vários compositores importantes foram influenciados pelo neo-classicismo de Stravinsky. Nas suas últimas fases de composição Stravinsky escrevia música atonal à la Webern, até abandonar e escrever outra coisa. Então pela a influência que os três compositores tiveram no século XX, eu diria que a música moderna é filha de três pais, sobrinha de Webern e neta de Debussy. Mas não há dúvida que os traços dessa “moça” são mais parecidos com Varèse.

Vejam um exemplo: Amériques. Composição para grande orquestra feita no início da década de 1920. Só a seção de percussão tem 10 músicos tocando 21 instrumentos. É uma versão extrapolada da sagração da primavera de Stravinsky. Veremos que essa busca por novas sonoridades é o que caracteriza a personalidade do compositor. Por isso, depois de ter escrito obras fantásticas para orquestra, como a mais famosa Arcana ou apenas para um grupo de 13 percussionistas chamada de Ionisation (1931), Varèse passou um longo período parado. Esperava algo que o motivasse, uma sonoridade nova.

Com o aparecimento das fitas magnéticas para gravação e os equipamentos eletrônicos que iam surgindo (Varèse sempre teve bons amigos cientistas) novos timbres foram criados. Nascia a música eletrônica. A mais fascinante obra desse período é Deserts para orquestra e fita cassete. Lembra muito o filme Terminator 2, nas cenas que se passam no futuro. É assombroso. Já Poème èlectronique (1958) precisa de uma pessoa para apertar o botão e rodar a fita.

Muitos dizem que a música eletrônica é fria. Não penso assim, quem ficou dias e dias construindo aquele som foi um ser-humano criativo em busca de novas possibilidades. O processo é similar ao desenvolvimento de instrumentos clássicos, como no caso do aperfeiçoamento do piano. Enfim apenas um meio para criação.

A gravação do Chailly é célebre e premiada, mas imperfeita. Deserts neste disco, por exemplo, é sofrível e nem merece ser ouvido. A melhor versão dessa obra é aquela da gravadora Naxos (talvez eu coloque aqui). O que há de melhor neste cd são as grandes obras orquestrais com a Royal Concertgebouw a todo vapor, com especial atenção a Amériques e Arcana.

As obras anteriores à Amèrique foram queimadas, sobrevivendo uma singela canção esquecível – Un grand sommeil noir.

Edgard Varèse (1883-1963): The Complete Orchestral Works

Disco 1:

1. Tuning up
2. Amériques
3. Poème Electronique
4. Arcana
5. Nocturnal
6. Un grand sommeil noir

Disco 2:

1. Un grand sommeil noir – Version for voice & piano
2-3. Offrandes
4. Hyperprism
5-7. Octandre
8. Intégrales
9. Ecuatorial
10. Ionisation
11. Density 21.5
12-18. Déserts
19. Dance for Burgess

Performed by Royal Concertgebouw Orchestra
Conducted by Riccardo Chailly

BAIXE O CD1 AQUI — DOWNLOAD CD1 HERE

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Edgard Varèse: pensaram que iam se livrar de mim?

CDF Bach

Krzysztof Penderecki (1933-): Orchestral Works (Link revalidado)

Esse álbum duplo é IM-PER-DÍVEL !!!, diz PQP.

… para algo realmente extenuante. Pendereki dos anos 1960 é o meu preferido; experimental, pessimista, trágico e macabro. Como disse um amigo, “é preciso colhões para ouvir isso aqui”. Esse disco duplo tem as mais importantes obras do mestre polonês, as mais indigestas, bem diferente das últimas obras neo-românticas do compositor, período injustamente chamado (por compositores invejosos) de decadente.

A primeira obra é uma das mais perfeitas sínteses do primeiro período do compositor – Anaklasis – cuja duração é de poucos minutos. Anaklasis está para Penderecki assim com Atmospheres está para Ligeti, ambas as peças escritas por volta de 1960. Em seguida temos sua obra mais popular – Threnody (1960)– que, anos depois, passou a ter o subtítulo “para vítimas de Hiroshima”. Ela foi escrita para uma orquestra de cordas (52, no total), cujo tratamento em muitos momentos é percussivo. É inegável a originalidade dessa obra, e em termos sentimentais, a melhor tradução do horror da guerra, no mesmo nível do Survivor from Warsaw (1947) de Schoenberg e das sinfonias de Shostakovich. Obra que não mostra sinais de velhice. No disco 1, ainda destaco De Natura Sonoris I (1966) e II (1971) – desculpem mas não encontro palavra melhor – geniais (no caso do Naturas II, devo concordar com o meu amigo). Capiccio para violino e orquestra também não fica pra trás. Percebam, falo ainda do primeiro disco.

O segundo disco parece ser ainda melhor. Com o ótimo concerto para cello n.1 (1966) e a excepcional sinfonia n.1 (1973), cujo inicio é realmente excitante. É difícil acreditar que um compositor tão difícil fosse ser tão popular, talvez o mais reverenciado compositor da segunda metade do século XX. Não posso esquecer da Partita para cravo e orquestra, minha obra preferida.

Claro que muito do que foi feito e imitado nessa “famigerada” época foi justamente esquecido. Escrever música “difícil” ou “original” não dá garantia de sobrevivência. Mas passado esse período, o que ficou? Olha, é difícil dizer. Hoje, eu ouço música contemporânea sem expectativas e tenho adorado o que venho descobrindo…(continua)

CDF

Faixas:

Disco 1

1. Anaklasis for Strings & Percussion (1959)
2. Threnody to the Victims of Hiroshima (1959 – 61)
3. Fonogrammi
4. De Natura Sonoris No. 1
5. Capriccio for Violin and Orchestra (1967)
6. Canticum Canticorum Salomonis (1970)
7. De Natura Sonoris No. 2

Disco 2

1. Emanations for Two String Orchestras
2. Partita for Harpsichord and Chamber Orchestra
3. Cello Concerto No. 1
4. Symphony No. 1 (1995 Digital Remaster): I. Arche – Dynamis I
5. Symphony No. 1 : II. Dynamis II – Arche II

Perfomed by Polish Radio National Symphony Orchestra and London Symphony Orchestra
Conducted by Krzysztof Penderecki

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

CDF (revalidação por PQP)

Witold Lutoslawski (1913 – 1994): String Quartet – LINK REVALIDADO

Gosto tanto da música de Lutoslawski que chego a dizer que ele é meu compositor favorito; claro, ao lado de Messiaen. Tenho praticamente sua obra completa na cabeceira da minha cama. Destaco esse pequeno disco (23 minutos) com uma de suas obras mais importantes: o Quarteto de Cordas (1964). Obra que submete os músicos a certas liberdades de tempo, improvisações controladas, e quase total independência entre os instrumentos. Mas não se enganem Lutoslawski é extremamente preciso em suas composições. Um senhor metódico e disciplinado escrevendo música de natureza rebelde.

Outro destaque é o Kronos Quartet, músicos que estavam possuídos nesta gravação.

Faixas:

1. String Quartet: Introductory Movement
2. String Quartet: Main Movement

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

CDF

Balaio de Preconceitos

Lembro bem que minha primeira experiência como ouvinte atento foi com esse disco ao vivo de Chuck Mangioni. Foi uma revolução, pois na época eu só ouvia o que passava nas rádios (imaginem!). Não sei como foi parar em minhas mãos. Mérito meu não foi, meu miolo era mole demais para isso na época. Lembro, contudo, que as faixas 2 à 6, eu ouvia quase todos os dias, e claro, o clássico “Round Midnight”. O disco ainda me agrada, não sei se pela qualidade dos músicos (participações especiais de Dizzy Gilespie e Chick Corea) ou pelas lembranças de minha época de fedelho. Mas quem sabe outro menino desavisado acesse esse disco e sofra do mesmo impacto prazeroso e transformador.

Daí pra frente, descobri que a música não foi feita só pra dançar, tomar cachaça ou pensar na namorada. Depois de muitos anos intensos, ainda continuo desfazendo alguns dos meus preconceitos no mundo musical. Um bem antigo e ainda atual é sobre a importância de Telemann para história da música. Quem aqui já não leu que esse compositor alemão escreveu mais de 3000 trabalhos? Quase o que todos os outros grandes compositores escreveram em todas as épocas juntos. Um verdadeiro compositor de “quantidade”. Não era aceitável que Telemann, na época, pudesse ser mais famoso e importante que o velho papai Bach. Mas a vingança não tardou, Telemann caiu feio nas épocas seguintes, enquanto Bach subia no pedestal. Essa justiça dos tempos, no entanto, é imperfeita, nega a possibilidade de entendermos a fama e importância de Telemann na época.Trago para vocês três discos para mostrar um pouco da diversidade e qualidade desse grande compositor. O primeiro disco traz uma micro-ópera chamada Pimpinone, que costumava ser apresentada nos intervalos das grandes óperas de Handel. A obra é musicalmente divertidíssima e empolgante com apenas duas personagens, o chefe da casa Pimpinone e sua empregada Vespeta. Algo muito próximo de La Serva Padrona de Pergolesi. Pimpinone é uma ópera italiana em língua alemã. No segundo disco já vamos ver Telemann fazendo música religiosa, com aquele tom sombrio e ao mesmo tempo esperançoso da música alemã. São cantatas intimistas com poucos instrumentos que, sem exagerar, estão em pé de igualdade com algumas cantatas de Bach. No terceiro disco, vamos para a Espanha, onde Telemann com maestria única e original faz uma pequena peça musical sobre o “cavaleiro da triste figura” – Don Quichotte auf der Hochzeit des Comacho. Uma obra-prima ainda desconhecida da maioria dos ouvintes.

Outro injustiçado que até virou motivo de piada – Muzio Clementi. Em 1780, o pobre Clementi participou de uma pequena “competição” com Mozart para ver quem melhor interpretava e improvisava. Nem preciso dizer quem causou mais forte impressão. Mozart escreveu ao pai “ ele toca até bem…mas não tem bom gosto…muito mecânico” e depois em 1783 escreveu “Clementi é um charlatão, assim como todos os italianos”. Clementi foi basicamente um compositor para piano, e muito das suas sonatas iniciais apresentam, apesar do virtuosismo cativante, um pouco desse característica “mecânica” apontada por Mozart. No entanto, creio que Mozart teria mudado de opinião se ouvisse as sonatas do último período de Clementi. São sonatas beethovianas, com aquelas transições inesperadas e inspiradas. Prestem atenção na harmonia inicial da sonata op.40 n.2. As sonatas op.50 são às vezes mais inspiradas que as sonatas de Mozart (quem diria?).

Falo agora não apenas de um compositor desconhecido ou injustiçado, mas de uma época toda – a nossa. A música pós-1945 não convenceu o público e ainda não continua convencendo, com raríssimas exceções. Britten, Shostakovich, Arvo Part entre outros que estão fora do mainstream moderno, não contam. Falo dos compositores que estão na ponta da locomotiva, aqueles que escreveram a história do modernismo, esses estão na corda bamba da imortalidade. Citados em livros, porém desconhecidos nos palcos. “Culpa deles?” Só se a exploração de novos mundos for considerada um defeito. George Crumb é um compositor americano, um grande experimentador de possibilidades sonoras, abriu um novo espectro sonoro e pessoal, mas sem perder o foco de sua inspiração, aliás, inspiração muito ligada a poesia de Garcia Lorca. Esse disco trata de estudos moderníssimos para piano, algo que deixaria Chopin ou Liszt assustados. Na minha primeira audição imaginei ouvir um pequeno ensemble de músicos, mas foi engano meu, temos apenas o pianista e seu piano. Makrokosmos (1972-1973) é composto de dois volumes com 12 fantasias cada um sobre os símbolos do zodíaco. É preciso ouvir para acreditar. Absolutamente imperdível.

Baixe Aqui – Chuck Mangione- Tarantella
Baixe Aqui – Telemann-Pimpinone
Baixe Aqui – Telemann-Cantatas
Baixe Aqui – Telemann-Don Quichotte
Baixe Aqui – Clementi-Piano Sonatas (2cds)
Baixe Aqui – Crumb-Makrokosmos I+II

cdf

Os melhores do ano segundo CDF

Eu sempre fui muito influenciado por listas. Se encontro algo dizendo “Os Dez melhores…” procuro uma canetinha para anotar. Pensando bem, quase tudo que conheço (música, livros,…) foi por indicação. Claro que com a idade ganhei certa autonomia nas escolhas. Mas se alguém diz “você deve ler esse livro”, vou na loja comprar. Li até Paulo Coelho. Por outro lado, minha capacidade de convencer outra pessoa é sofrível. Já dei livros e discos a torto e a direito sem nenhum feedback. Por essas e por outras é que fiquei motivado a fazer essa pequena listas dos 5 melhores discos que ouvi esse ano. Pois esse frustrado que vos fala se realiza por aqui, com a boa vontade e interesse de vocês. Não tive preocupação de escolher esses discos por período ou ano que foi realizado, foi simplesmente pelos números de vezes que coloquei no meu toca-discos esse ano.
Começo com Haydn, o maior dos compositores. Bach, Mozart ou Beethoven quase nos convencem de uma certa transcendência; com Haydn, isso não acontece. Ele sempre nos coloca no chão, na vida real. Mesmo em suas missas ou oratórios a celebração não é para Deus, mas à Natureza e ao homem. Por isso o século do romantismo rejeitou o mestre da luz. Em suas óperas, tanto tempo desprezadas, podemos também encontrar a ironia e clareza que também não cativam aqueles de coração mole. “Il Mondo della luna” e “Orlando Paladino” são óperas imperdíveis, que desnudam o lado bom e engraçado da natureza humana. Sorte nossa que Haydn ganhou fôlego com sua visita a Inglaterra, lugar único na valorização de um gênio. Áustria sempre foi injusta com seus compositores em vida: Mozart, Haydn, Schubert, Mahler e Schoenberg. Salzburg, terra onde Mozart nasceu, era o lugar mais provinciano do mundo. As recordações de Mozart daquele lugar sempre foram as piores possíveis, hoje essa cidade sobrevive do turismo em cima do filho que tanto desprezou, vendendo chocolate e camisinhas com a marca Mozart. Com Haydn aconteceu a mesma coisa, sempre foi tratado como serviçal na Áustria. Já na Inglaterra, foi recebido como celebridade, vindo a ganhar um bom dinheiro, o suficiente para comprar uma bela casa e viver independente. O disco “Haydn in London” mostra um desses frutos preciosos que devemos a Londres. Na verdade, são trios para piano, flauta e violoncelo cuja riqueza está justamente em sua simplicidade cristalina.
Mahler foi outro que também passou por dificuldades na Áustria, principalmente quando dirigia a ópera de Viena. Mas ele foi tão genial que conseguiu respirar um pouco a brisa do triunfo. Só que depois de sua morte, em 1911, Mahler ainda continuou sendo desprezado por seu país por um longo tempo. Foi pela boa vontade de seus amigos Bruno Walter, Mengelberg, Klemperer e outros que sua música ainda continuou sendo ouvida nas décadas que se seguiram. Trago para vocês o ciclo de canções orquestrais “Das Knaben Wunderhorn” interpretado por Dietrich Fischer-Dieskau, Elisabeth Schwarzkopf, regida por George Szell (meu maestro preferido junto com Carlos Kleiber). Eu tenho ótimas versões dessa obra, mas aqui o negócio é diferente. O disco já começa com Revelge, a canção militarizada com toda aquela pompa instrumental, como se tivéssemos assistindo uma parada do exército rumo à um bela batalha, mas a ironia do “tralali, tralalei, tralalera” e a sensação de desastre iminente é bem típica do maior profeta da música.
Vamos agora para a Rússia, com o Grand Duet (1959) para violoncelo e piano de Ustvolskaya. A compositora, morta em 2006, teve um caso amoroso com Shostakovich; talvez um pouco traumático, já que aquela, nos últimos anos de sua vida, vilipendiava a imagem do compositor. A mulher era o cão, sua música retrata bem essa personalidade. O Grand Duet tem cinco longos movimentos com nenhum momento de alívio ou encanto. Uma obra genial por sua economia e sonoridade. No disco ainda temos a segunda sonata para cello e piano de Schnittke, no mesmo nível de “humor”. Engraçado é encontrar no início do disco uma peça de Piazzola; bem fora do contexto, mas genial. Interpretação de Rostropovich.
Os próximos dois discos, Canções de Brahms com a mezzo-soprano argentina Bernada Fink e “Dream of Gerontius” de Elgar, foram meus preferidos esse ano. Pois é, senhores, Elgar sim. Tenho raiva do compositor por tratar sua genialidade com pouco rigor. Se ele tivesse enxugado um pouco mais suas obras, ele chegaria no primeiro escalão. Mas os momentos geniais de “Dream of Gerontius” valem o esforço de ouvir passagens pouco inspiradas. As canções de Schubert e Schumann são bem gravadas e conhecidas, mas não tanto as canções de Brahms. Depois de ouvir esse disco encantador, é difícil entender porque. Estão entre as melhores de todos os tempos. A interpretação de Bernarda Fink é soberba.

Ok, pessoal, encerro minha lista esperando convencer vocês 🙂

Feliz Ano Novo!!!

cdf

Baixe Aqui – Haydn in London
Baixe Aqui – Mahler – Das Knaben Wanderhorn
Baixe Aqui – Ustvolskaya
Baixe Aqui – Elgar- Dream of Gerontius – Disco 1
Baixe Aqui – Elgar- Dream of Gerontius – Disco 2
Baixe Aqui – Brahms