Kurt Weill (1900-1950): Die sieben Todsünden (Os sete pecados capitais) – Lotte Lenya

0000030372Os Sete Pecados Capitais de Weill e Brecht (cujo nome completo é Os Sete Pecados Capitais da Classe Média) é uma obra bastante conhecida e divertida. Nos mostra como a família burguesa foi transformada num núcleo econômico, onde a moral cristã muitas vezes conflita com os interesses e necessidades econômicas.

Como dizem Marx e Engels no Manifesto Comunista:

O palavreado burguês acerca da família e da educação, acerca da relação íntima de pais e filhos, torna-se tanto mais repugnante quanto mais, em consequência da grande indústria, todos os laços de família dos proletários são rasgados e os seus filhos transformados em simples artigos de comércio e instrumentos de trabalho.

Podemos estender isso à classe média, principalmente aquela que está próxima da pobreza mas quer ascender por via de fazer algum dos filhos enriquecer. As relações entre familiares acaba se tornando puramente instrumental e funcional (em função do capital), onde a função dos pais para o filho é prover dinheiro para que a criança/adolescente possa consumir, a função do homem para a família é prover dinheiro para a “sustentação” da casa, e a função da mulher para o lar no geral é realizar todo o trabalho doméstico improdutivo e não remunerado para a manutenção da própria força de trabalho do homem (dar comida e um lar onde ele possa descansar para poder trabalhar no dia seguinte), e da força de trabalho futura (a criança). Dessa forma, todo aquele indivíduo que deixa de exercer sua função econômica no núcleo familiar, acaba por ser descartado. E se se mantém em suas funções, se torna cada vez mais alienado de si.

FrontKafka percebeu essas relações instrumentais e seus males muito bem e fez uma ótima metáfora em A metamorfose. No romance, um caixeiro viajante de nome Gregor que está cansado de trabalhar para sustentar a família, um dia acorda e sê vê metamorfoseado num inseto. A primeira coisa que pensa Gregor é que se atrasará para o trabalho. Isso demonstra bem duas coisas: o processo de alienação a que ele está submetido pelo trabalho, e a monstruosidade em que ele se torna ao se ver cansado de uma relação alienante a que ele não pode fugir.

Weill tinha bem em mente essa relação quando em Paris, a convite de escrever uma obra para uma companhia de dança, resolve compor a obra. Brecht o ajuda e escreve o libreto. Os sete pecados retratados são pecados do ponto de uma classe específica, a classe média, que verá como pecado qualquer ação que vá contra o objetivo de manter seu padrão de vida e a ordem social em que vive.

Cada movimento representa um pecado diferente, onde Anna (a protagonista), viaja por uma nova cidade. Cada movimento também tem um andamento de dança distinto: valsa, furiant[1], foxtrote[2], shimmy[3], dixieland[4] e tarantella[5]. Essas danças não são ocasionais, mas revelam um tipo de dança presente em cada cidade pelo qual Anna passa (Memphis, Los Angeles, Philadelphia, Boston, Baltimore, San Francisco). Na versão para teatro, o papel de Anna é dividido em dois, onde uma canta e a outra dança. Isso é porque ela tem duas personalidades, onde a “principal” é representada pela Anna boazinha e ingênua (a dançarina), que é quem aparentemente cai nos diversos pecados de cada movimento/cidade/dança. Já a outra Anna (cantora), seu alter ego, é sarcástica e devotada ao seu papel: instigar sua outra personalidade, da forma que for necessária, a prover dinheiro para a família pensando em seu objetivo: construir uma pequena casinha às margens do Mississípi. A divisão entre as duas personalidades poderia ser descrita como o pensamento de um trabalhador e de um burguês, ou o pensamento alienado e a razão instrumental. Ou seja, uma mentalidade que recebe ordem e está sujeita aos “vícios” do tipo de vida que leva, e o outro pensamento que está preocupado com os fins que deve tomar, independentemente de suas consequências sociais, éticas ou morais.

Para ilustrar melhor a história, recomendo a vocês que vejam essa versão feita para TV:

Os outros episódios podem ser vistos por aqui.

Ficam evidentes os pecados a que a Anna ingênua é tentada: Ter preguiça de ser explorada, ter orgulho de não mostrar seu corpo nu para ganhar dinheiro, ter raiva das injustiças que presencia em Los Angeles, ter a gula de querer comer quando está com fome devido a um regime segundo um contrato, ter a luxuria de preferir amar e dar dinheiro ao homem que ama em vez de vender o corpo ao rico que a paga bem, ter a ganância de não ficar com nenhum dinheiro nem poder amar ninguém e ter a inveja daqueles que não precisam se sujeitar a tudo isso. Graças ao seu sábio alter ego, por sete anos, em sete cidades diferentes, Anna resiste a estes pecados! Do ponto de vista da classe média americana da época, seria totalmente razoável praticar qualquer um desses atos para fazer dinheiro (aceitar um emprego precário lavando louça ou exibindo o corpo em boates, fazer regime para atingir um padrão de beleza, ficar com o homem mais rico em vez daquele a que se ama, ignorar as injustiças sociais que vê na rua diariamente, se contentar com as coisas como elas são, etc.).

Também fica claro para nós o porquê da família ter enviado a Anna para fazer dinheiro e não seus dois irmãos: o corpo de uma mulher jovem e esbelta numa sociedade como a americana do século XX é uma peça de valor comercial, e esse corpo, tão proibitivo no cristianismo, deverá ser profanado das formas mais violentas possíveis pelo mercado, sendo vendido parcial e/ou integralmente das mais diversas formas possíveis.

Essa condição da mulher como mercadoria infelizmente não se limitou apenas ao contexto da classe média americana do século XX, mas foi regra desde pelo menos o século XIX, e ainda perdura em nossos dias. Dizem Marx e Engels no Manifesto:

O burguês vê na mulher um mero instrumento de produção. Ouve dizer que os instrumentos de produção devem ser explorados comunitariamente, e naturalmente não pode pensar senão que a comunidade virá igualmente a ser o destino das mulheres.
Não suspeita que se trata precisamente de suprimir a posição das mulheres como meros instrumentos de produção.

Neste sentido, de suprimir a condição da mulher como meios de produção, é que devemos aproveitar um ano como o nosso, de 2017, onde faz 100 anos da Revolução Russa para pensar a emancipação feminina novamente. Pois foi na Rússia revolucionária onde pela primeira vez na história as mulheres tiveram direito iguais explicitamente declarados na constituição, tiveram direito a igualdade de direitos políticos e sociais no geral. Ao criarem as creches, restaurantes e lavanderias públicas conseguiram socializar o trabalho doméstico o que ajudou a libertar a mulher desse trabalho para que pudesse participar da vida pública tanto quanto o homem. A família passou a ser baseada principalmente no amor livre, e não tanto na dependência econômica. Pelo menos assim se formava a sociedade soviética russa em sua primeira década após a revolução.

Trago duas interpretações dessa obra, a principal e mais clássica é feita por Lotte Lenya, que era mulher do próprio Kurt Weill. Talvez pelo fato de conhecer bem as intenções de Weill, ela faz uma interpretação que nos lembra muito as cantoras dos cabaré de Berlim ou Paris, muito populares nos anos 20 e 30. Esse estilo de cabaré (ou kabarett, no original), foi muito utilizado por Weill em suas obras, e falarei mais disso no próximo post. A voz estridente nos parece ligeiramente “vulgar” e nos remete à tudo que havia de mais mundano e profano dos anos 20 e 30. As ironias latentes da própria história – além das diferenças de personalidade – ficam evidentes em na interpretação de Lenya. A outra interpretação é de Gisela May, que embora não saiba ser tão teatral em sua voz, tem um timbre bastante agradável e que dá um tom levemente épico e dramático à história, e que igualmente sabe interpretar as diferentes personalidades em sua voz.

Notas:

[1] Rápida dança em compasso ternário do folclore da Boêmia. (DOURADO, 2004).

[2] Variada e alegre dança norte-americana de salão para casais em compasso binário e às vezes quartenário, surgiu no início do século XX. Originou-se do ragtime e é caracterizado por ritmos sincopados e passos corridos. (DOURADO, 2004).

[3] Dança em compasso binário de negros norte-americanos do início do século XX, guardava semelhanças com o ragtime e tornou-se popular também entre os brancos em shows de cabarés, como as Zigfield follies (Folias de Siegfield). (DOURADO, 2004).

[4] Gênero jazzístico criado por músicos brancos de Nova Orleans cuja execução era caracterizada principalmente por pequenos conjuntos ou combos. De maneira genérica, refere-se ao estilo de jazz inspirado naquele estilo, executado em toda a região sulina e até os dias de hoje cultivado entre aficionados nos EUA e no mundo inteiro. A palavra tem origem na música Dixie, de Daniel Emmett, precursor dos negros ministrels (menestréis negros) norte-americanos, cujo tema foi adotado como verdadeiro hino na Guerra de Secessão. (DOURADO, 2004)

[5] Dança rápida em compasso 6/8 geralmente acompanhada por pandeiro e castanholas, é típica de regiões interioranas da Itália, como Taranto. No século XVII supunha-se que o andamento ágil da tarantela serviria para expulsar os demônios que as tarântulas inoculavam nos corpos de suas vítimas. Na música romântica, foi empregada por compositores como Bottesini, Weber, Liszt, Wieniawski, Glière e Chopin. (DOURADO, 2004).

Bibliografia:
DOURADO, Henrique Autran. Dicionário de termos e expressões da música. – São Paulo: Editora 34, 2004.
HOBSBAWM, Eric J. História Social do Jazz. – São Paulo: Paz e Terra, 2016.
MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. Edições Avante!. Disponível em: Arquivo Marxista Online.

Kurt Weill (1900-1950): Die sieben Todsünden (Os sete pecados capitais)

CD 1: Lotte Lenya

Die sieben Todsünden (The Seven Deadly Sins)
01 Prolog (Andante sostenuto)
02 Faulheit (Allegro vivace)
03 Stolz (Allegretto, quasi andantino – Schneller Walzer)
04 Zorn (Molto agitato)
05 Völlerei (Largo)
06 Unzucht (Moderato)
07 Habsucht (Allegro giusto)
08 Neid (Allegro non troppo – Alla marcia un poco tenuto)
09 Epilog (Andante sostenuto)

Lotte Lenya
Ernst Poettgen
Fritz Göllnitz
Julius Katona
Sigmund Roth

Die Dreigroschenoper (The Threepenny Opera)
10 Moritat vom Mackie Messer
11 Barbara-Song
12 Seeräuberjenny (Pirate Jenny)

The Rise and Fall of the City of Mahagonny
13 Havana-Lied
14 Alabama Song
15 Denn Wie Man Sich Bettet

Happy End
16 Bilbao-Song
17 Surabaya-Johnny
18 Was die Herren Matrosen sagen (The Sailor’s Tango)

Berlin Requiem
19 Vom ertrunkenen Mädchen (Ballad of the Drowned Girl)

The Silverlake, A Winter’s Tale
20 Lied der Fennimore (I Am a Poor Relative)
21 Cäsars Tod (Ballad of Caesar)

Lotte Lenya

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CD 2: Gisela May

Die sieben Todsünden
01 Die sieben Todsünden – 1. Prolog
02 Die sieben Todsünden – 2. Faulheit (Sloth)
03 Die sieben Todsünden – 3. Stolz (Pride)
04 Die sieben Todsünden – 4. Zorn (Wrath)
05 Die sieben Todsünden – 5. Völlerei (Gluttony)
06 Die sieben Todsünden – 6. Unzucht (Lust)
07 Die sieben Todsünden – 7. Habsucht (Greed)
08 Die sieben Todsünden – 8. Neid (Envy)
09 Die sieben Todsünden – 9. Epilog

Gisela May
Peter Schreier, tenor
Hans-Joachim Rotzsch, tenor
Günther Leib, Barítono
Herman Christian Polster, baixo
Rundfunk-Sinfonie-Orchester Leipzig
Herbert Kegel, regente

Berliner Requiem
10 Vom ertrunkenen Mädchen

Gisela May
Studio-Männerchor
Studio-Orchester
Henry Krtschil, regente

Happy End
11 Surabaya Johnny
12 Bilbao-Song
13 Was die Herren Matrosen sagen
14 Ballade von der Höllen-Lili

Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny
15 Havanna Song
16 Wie man sich bettet, so liegt man

Die Dreigroschenoper
17 Barbara Song
18 Song von der sexuellen Hörigkeit
19 Seeräuber-Jenny

Gisela May
Studio-Orchester
Heinz Rögner, regente

Berliner Requiem
20 Zu Potsdam unter den Eichen

Gisela May
Studio-Orchester
Henry Krtschil, adaptação e regente

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Trio de Peso: Brecht, Lenya e Weill.

Trio de Peso: Brecht, Lenya e Weill.

Luke

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Hanns Eisler (1998-1962): Die Mutter (A mãe)

coverBertolt Brecht, Máximo Gorki e Hanns Eisler? O que o maior dramaturgo do século XX tem a ver com um dos escritores russos mais lidos em todo o mundo e um compositor alemão praticamente esquecido? Ora, é fácil, a obra “A Mãe” (Die Mutter).

Gorki foi quem escreveu o romance, que fez e ainda faz muito sucesso em todo o mundo. Brecht fez uma adaptação para o teatro, a qual eu estou louco para ler, e Eisler pegou a peça de Brecht como se fosse um libreto e fez uma cantata.front

A história desta obra — seja o romance, a peça ou a cantata — se passa na Russia czarista, pré revolução de 1905, e conta a história de uma mãe que, vendo seu filho parando de ir pra bebedeira, estudando e levando amigos bondosos e barbudos pra casa, começa a se preocupar seriamente e então busca saber mais do socialismo que eles tanto falam. Apesar de eu estar apresentando-a desta forma levemente cômica, “Die Mutter” é uma obra bastante tocante. Não é que ela seja dramática — não há nada de um drama burguês nela — mas é tocante pois consegue mostrar a realidade do ponto de vista da classe trabalhadora, em sua ignorância, anseios e dificuldades. Também mostra toda a nobreza de espírito daqueles que dedicam suas vidas à luta por um mundo melhor.

Nenhuma obra seria mais adequada para homenagear o mês de Abril, que foi de extrema importância na história da Revolução Russa. Foi no dia 16 deste mês que Lenin, há 100 anos atrás, volta à Russia após um um longo exílio e é bem recebido na Estação Finlândia em um dos momentos mais famosos da história, que é quando ele exclama: “Todo Poder aos Sovietes!”. Poucos dias depois Lenin publicaria as Teses de Abril, analisou os acontecimentos políticos e expôs as táticas e a estratégia que deveria ser seguida pelos bolcheviques. Ao perceber que os sovietes (conselhos) que haviam surgido na revolução de fevereiro eram o instrumento adequado para realizar a revolução socialista, Lenin muda a estratégia: ao invés de apoiar a consolidação da revolução burguesa de Fevereiro, os bolcheviques deveriam a partir dali preparar o terreno para realizar a revolução socialista. A grandeza de Lenin reside em outros fatos além desse, como também perceber o caráter permanente da revolução, ir contra todo o pessimismo da conjuntura, ir contra a guerra capitalista que se arrastava, etc.

Muitos julgaram Lenin louco, mas alguns meses depois a revolução se concretizava, da forma teorizada por Lenin. Em nenhum momento na história alguém conseguiu realizar na prática o que teorizou. É pouco ou querem mais?

A adaptação de Eisler, apesar de nada ter a ver com a Revolução Russa, tem muito a ver com o socialismo. A obra tem elementos neoclássicos claros, e é uma das primeiras obras do realismo socialista. No meio de uma Europa entre-guerras marcada por vários compositores de vanguarda, o realismo socialista foi um movimento contraditório que era marcado internamente pelo progresso na concepção de mundo mas o atraso da evolução da forma. Hanns Eisler soube mediar bem essa contradição; temos vez ou outra uma aproximação com o dodecafonismo de Schoenberg, sem chegar à nada demasiadamente abstrato ou academicista, como por exemplo o trecho “Lob der dritten Sache” (tributo às causas das classes baixas). Talvez para facilitar, a obra toda é seguida de um narrador que vai contando a história, quase como um oratório tradicional.

Hanns Eisler teve uma longa relação artística com Bertolt Brecht durante boa parte da sua vida, assim como Kurt Weil. Sua obra pode nos empolgar desse espírito tão presente na obra de Gorki, a nobreza de lutar por algo que visa libertar os explorados, e o poder que uma convicção como essa tem de transformar as pessoas.

Hanns Eisler (1898-1962): Die Mutter

Die Mutter Op. 25

Versão 1 (1950-51)
1 Wie Die Krähe
2 Das Lied Von Der Suppe
3 Der Zerissene Rock
4 Gedanken Über Die Rote Fahne
5 Lob Des Kommunismus
6 Lob Des Lernens
7 Lob Eines Revolutionärs
8 Im Gefängnis Zu Singen
9 Lob Der Wlassowas
10 Lob Der Dritten Sache
11 Grabrede
12 Steh Auf!
13 Lob Der Dialektik

Berliner Ensemble
Ernst Busch

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Versão 2 (1969-1972)
1 Ouvertüre
2 Wie Die Krähe
3 Das Lied Von Der Suppe
4 Der Zerissene Rock
5 Gedanken Über Die Rote Fahne
6 Lob Des Kommunismus
7 Lob Des Lernens
8 Lob Eines Revolutionärs
9 Im Gefängnis Zu Singen
10 Lob Der Wlassowas
11 Lob Der Dritten Sache
12 Grabrede
13 Steh Auf!
14 Lob Der Dialektik ( Suite Nr. 4 Op. 30 )
15 Marsch Der Jugend, Die Das Wort Hat (Nr. 3)
16 Finale (Grave – Pesante – Allegro) (Nr. 4)

Rundfunk-Sinfonie-Orchester Berlin
Heinz Rögner, conductor

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Berlin Sitzung des vorbereitenden Ausschusses der Akademie der Künste der DDR, am 21.03.1950 an der der Schriftsteller, Dichter und Regisseur Bertold Brecht (rechts) und der Komponist Hanns Eisler teilnahm. U.B.z.: den Dichter und Regisseur Bertolt Brecht und den Komponisten Hanns Eisler.

Brecht pegando Eisler no flagra roubando os biscoitinhos que a mamãe deixou descansando na cozinha.

Luke

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Frederic Rzewski (1938): The People United Will Never Be Defeated!

CoverO dia 8 de Março é mundialmente famoso por ser o dia Internacional da Mulher. Poucos lembram ou sabem, que nesta mesma data, há 100 anos atrás, as tecelãs de São Petersburgo fizeram uma greve histórica, que acabou por ser o estopim daquilo que hoje conhecemos como a Revolução Russa. Cansadas pelas jornadas de trabalho extenuantes e em péssimas condições, que lhes dava um salário miserável, cansadas da participação do regime czarista na guerra imperialista entre as potências europeias, as tecelãs de São Petesburgo pararam a produção no dia 8 de Março (que no calendário Juliano era 23 de Fevereiro), data que era celebrada como Dia Internacional da Mulher desde 1914. Por terem iniciado a revolução que foi o maior paradigma do século XX, essas mulheres são lembradas e homenageadas na mesma data até hoje.

Para homenagear os 100 anos dessa greve histórica, venho postar a Magnum Opus de Frederic Rzewski: “The People United Will Never Be Defeated!” (O Povo Unido Jamais Será Vencido!). Baseada na composição de Sergio Ortega e o grupo Quilapayún, “El pueblo unido jamás será vencido“, que também compuseram o famoso hino da campanha de Allende, “Venceremos“. A obra foi composta por Rzewski em 1975, em homenagem à luta do povo chileno contra um regime que derrubou o presidente eleito Salvador Allende e instaurou a ditadura militar de Augusto Pinochet.

A música contém referências a outras lutas da esquerda, como citações à tradicional canção socialista italiana “Bandiera Rossa” e a “Canção da Solidariedade” de Bertolt Brecht e Hanns Eisler.

É uma obra excêntrica. O pianista deve usar técnicas incomuns, como por exemplo gritar, bater a tampa do piano e coisas do tipo. Tipicas técnicas de vanguarda do século XX. Mas não se preocupem, a maior parte da obra é tonal, usando muita da linguagem do romantismo do século XIX, mas misturando tonalidade diatônica, musica modal, e técnicas seriais. Assim como as Variações Goldberg de Bach, o tema inicial é repetido ao final.

Para além dos aspectos técnicos, a música é uma bela homenagem às lutadores e aos lutadores que tentaram fazer do nosso mundo um lugar melhor para se viver.

Viva a greve das tecelãs de São Petersburgo! Feliz dia Internacional das mulheres! 100 anos de Revolução Russa!

Frederic Rzewski (1938):

The People United Will Never Be Defeated!
36 Variations on “El pueblo unido jamas sera vencido” by Sergio Ortega

1 Theme — With determination (1:20)
2 Variation 1 — Weaving: delicate but firm (0:50)
3 Variation 2 — With firmness (0:52)
4 Variation 3 — Slightly slower with expressive nuances (1:09)
5 Variation 4 — Marcato (0:59)
6 Variation 5 — Dreamlike, frozen (1:02)
7 Variation 6 — Same tempo as beginning (1:07)
8 Variation 7 — Tempo (Lightly, impatiently) (0:58)
9 Variation 8 — With agility; not too much pedal; crisp (1:08)
10 Variation 9 — Evenly (1:00)
11 Variation 10 — Comodo, recklessly (1:00)
12 Variation 11 — Tempo I, Like fragments of an absent melody — in strict time (0:58)
13 Variation 12 (1:09)
14 Variation 13 — ♩ = 72 or slightly faster (1:34)
15 Variation 14 — A bit faster, optimistically (1:34)
16 Variation 15 — Flexible, like an improvisation (1:14)
17 Variation 16 — Same tempo as preceding, with fluctuations (1:21)
18 Variation 17 — L. H. strictly half note = 36, R. H. freely, roughly as in space (1:00)
19 Variation 18 (1:26)
20 Variation 19 — With Energy (0:37)
21 Variation 20 — Crisp, precise (0:35)
22 Variation 21 — Relentless, uncompromising (0:53)
23 Variation 22 — ♩ = 132 (0:48)
24 Variation 23 — As fast as possible, with some rubato (0:28)
25 Variation 24 — ♩ = 72 (2:00)
26 Variation 25 — ♩ = ca. 84, with fluctuations (1:55)
27 Variation 26 — ♩ = 168 In a militant manner (1:09)
28 Variation 27 — ♩ = 72 Tenderly, and with a hopeful expression (4:46)
29 Variation 28 — ♩ = 160 (1:22)
30 Variation 29 — ♩ = 144–152 (0:32)
31 Variation 30 — ♩ = 84 (2:18)
32 Variation 31 — ♩ = 106 (0:55)
33 Variation 32 (0:57)
34 Variation 33 (0:58)
35 Variation 34 (1:02)
36 Variation 35 (1:03)
37 Variation 36 (1:22)
38 Improvisation (2:38)
39 Theme — Tempo I (2:40)

Ursula Oppens, piano

Four Hands

40 I. ♩ = 96~104 (6:06)
41 II. senza misura (ca. 30” per line) (3:14)
42 III. ♩ = 72 (1:28)
43 IV. ♩ = 96 (5:05)

Ursula Oppens, piano
Jerome Lowenthal, piano

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8 de Março. Mulheres emancipadas constroem o socialismo!

8 de Março. Mulheres emancipadas constroem o socialismo!

Luke

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia No. 12 “1917”

41hOYUmCRaLO ano de 1917 é provavelmente um dos mais importantes na história humanidade. Neste ano, acontece aquela que é conhecida como a primeira revolução socialista bem sucedida da história: A Revolução Russa.

É em 22 de Fevereiro do calendário Juliano (8 de Março no calendário gregoriano), que começam os primeiros protestos desde os acontecimentos de 1905. Essas sublevações iriam culminar na resignação do czar e a instauração de um governo provisório. Esse acontecimento é o primeiro no ano de 1917 que iria culminar na Revolução de Outubro de 1917, onde o Partido Bolchevique, com a mobilização dos sovietes de Petrogrado, conseguem parar fábricas, linhas férreas, linhas de comunicação e então derrubar o governo provisório num dos acontecimentos mais memoráveis do século XX. Uma revolução que, ao gosto dos pacifistas, não teve (quase) nenhuma morte, e foi feita de baixo para cima, com a liderança estratégica dos bolcheviques.

Shostakovich, já muito conhecido aqui no blog, teve muitos problemas com o regime stalinista que iria se tornar predominante na Russia pouco depois da revolução (e das guerras contra os países que tentaram impedi-la), mas de qualquer forma, seja para agradar o regime, ou seja porque realmente admirava o acontecimento, fez sua 12ª Sinfonia em homenagem ao ano de 1917 e à revolução.

Essa sinfonia originalmente tinha sido pensada para homenagear a Lenin, mas não conseguindo pensar e incluir um texto na obra, acabou mudando seu foco. Do ponto de vista estritamente formalista, não é a melhor de suas obras, mas o quarto movimento, chamado “O Amanhecer da Humanidade”, além de ter um ótimo nome, empolga.

Meu objetivo a partir de hoje, 22 de Fevereiro, até 26 de Outubro, é traçar um histórico mais ou menos panorâmico de compositores que se engajaram politicamente pelo socialismo e seu projeto por um mundo melhor e mais justo. Tudo isso em comemoração aos 100 anos dessa revolução que marcou o século XX que ousou desafiar o mundo como ele era, ousou tentar criar um mundo melhor e nos deixou um legado que pesa sobre nossos ombros até os dias de hoje.

À Luta camaradas, por um novo amanhecer da humanidade!

Dmitri Shostakovich (1906-1975):

Symphony No. 12 “The Year of 1917”

01 I. Revolutionary Petrograd
02 II. Razliv
03 III. Aurora
04 IV. The Dawn of Humanity

Gothenburg Symphony Orchestra
Neeme Järvi, regente

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Shosta genuinamente feliz.

Shosta genuinamente feliz.

Luke

 

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Arvo Pärt (1935): Adam’s Lament

– Repost de 25 de Dezembro de 2015 –

Adianto o post que pretendia fazer no domingo e já aviso a vocês que pretendo postar Arvo Pärt aos domingos, com alguns interlúdios de vez em quando. E postar outros compositores às quintas, também com alguns interlúdios de quando em vez.

Por que adiantei o post de domingo pra hoje? Simples, temos aqui em Adam’s Lament a Christmas Lullaby, uma pequena e bela obra de natal. Além dessa temos Salve Regina, numa interpretação de Tõnu Kaljuste que não me agrada muito. Depois lhes trarei uma feita por Paul Hillier que considero muito mais adequada. Para vocês terem uma ideia, Paul Hillier é para Arvo Pärt aquilo que Jordi Savall é para Monteverdi, ou aquilo que Philippe Herreweghe é para Bach (se bem que aqui a treta é polêmica). Portanto é difícil superar Paul.

Falando em Savall, uma curiosidade: as lullaby’s desse álbum – Estonian Lullaby e Christmas Lullaby – foram dedicadas a ele e à sua mulher. E uma coincidência (que não tem nada a ver com Savall mas comigo): o texto usado no Christmas Lullaby é do evangelho de Lucas.

Tenham um ótimo dia.

Arvo Pärt (1935): Adam’s Lament

01 Adam’s Lament

02 Beatus Petronius

03 Salve Regina

04 Statuit et Dominus

05 Alleluia-Tropus*

06 L’Abbe Agathon

07 Estonian Lullaby

08 Christmas Lullaby

Latvian Radio Choir
Sinfonietta Riga
Vox Clamantis
Estonian Philharmoic Chamber Choir
Tallinn Chamber Orchestra
Tõnu Kaljuste, regente
Tui Hirv, soprano*
Rainer Vilu, barítono*

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Feliz natal criançada do pqp.

Feliz natal criançada do pqp.

Luke

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Erik Satie (1866-1925) & Takashi Yoshimatsu (1953): Crystal Dream

Temos aqui uma bela experiência que junta um repertório “antigo” com um repertório contemporâneo. Alguns exemplos já foram feitos nesse blog, como Der Bote de Alexei Lubimov, e a improvável mistura de Jean-Philippe Rameau com György Ligeti feita por Cathy Krier.

Aqui a mistura acontece com Erik Satie e Takashi Yoshimatsu. A semelhança entre os dois é ao mesmo tempo uma peculiaridade: ambos não seguem nenhum estilo que esteja presente no tempo deles mas também não são grandes inovadores.Satie em sua época utilizava melodias simples e tocantes puxando um pouco do romantismo, mas ao mesmo tempo utilizava diferenças ritmicas que distoavam das regras deste. Takashi Yoshimatsu é o que podemos chamar de um neorromantico, mas ao mesmo tempo traz influências do jazz que nada têm a ver com o romantismo.

A peculiaridade da música dos dois compositores é o que os une apesar de distantes historicamente. E é o que torna esse álbum tão peculiar, pouco  mas surpreendentemente agradável.

Erik Satie (1866-1925) & Takashi Yoshimatsu (1953): Crystal Dream

01 Gymnopedie No.1

02 Interlude To Water

03 Gnossienne No.1

04 Romance From The Past

05 Gnossienne No.4

06 Nonchalantry Prelude

07 Gymnopedie No.2

08 Globular Romance

09 Gymnopedie No.3

10 Arabesque In Twilight

11 Gnossienne No.3

12 Prelude To Little Spring

13 Romance To Listless Summer

14 Barcalore On Autumn

15 Pastoral On Winter

16 Croquis Et Agaceries D’un Gros Bonhomme: En Bois Tyrolienne Turque

17 Croquis Et Agaceries D’un Gros Bonhomme: En Bois Danse Maigre

18 Croquis Et Agaceries D’un Gros Bonhomme: En Bois Espanana

19 Interlude With Birds

20 Gnossienne No.2

21 Gnossienne No.5

22 Memory Of Interlude

23 Reverie Du Pauvre

24 Interrupted Faint Prelude

25 Caresse

26 Je Te Veux

27 Distant Dream Romance

28 Gnossienne No.6

29 Noel In Midnight

30 Sarabande No.3

31 Static Dream Pavane

1, 3, 5, 7, 9, 11, 16-18, 20, 21, 23, 25, 26, 28, 30 composed by Erik Satie

2, 4, 6, 8, 10, 12-15, 19, 22, 24, 27, 29, 31 composed by Takashi Yoshimatsu.

Pascal Rogé, piano

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Pascal Rogé já apareceu muitas vezes por aqui no blog.

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Luke

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Arvo Pärt (1935): Lamentate

Lamentate é uma das maiores composições de Arvo Pärt. É um concerto onde o piano é o elemento solista, mas tanto pra mim, quanto na visão do próprio compositor, não se assemelha nem um pouco à um concerto para piano tradicional. Como qualquer ouvinte experiente de Arvo Pärt deve ter percebido, suas composições raramente seguem tipos de composição tradicionais, como sinfonias, sonatas, motetos, etc. Por isso são mais conhecidas pelos nomes do que pelo seu tipo.

Essa obra, segundo a Wikipedia, foi dedicada à obra de um escultor britânico-indiano, chamada Marsyas:

Marsyas por Anish Kapoor

Vemos que essa obra, apesar de enorme e imponente, parece ao mesmo tempo ser delicada e frágil. É quase como a forma que o próprio Arvo Pärt descreve Lamentate:

“Essa obra é mercada diametralmente por dois humores opostos… Exagerando um pouco, Eu descreveria esses opostos como ‘brutalmente esmagadora e ‘intimamente frágil’.”

E acho que não tem maneira melhor de descrever Lamentate. Certamente aqueles que estavam acostumados com a delicadeza de Alina, por exemplo, ficarão estarrecidos com a brutalidade de Lamentate.

O solista é Alexei Lubimov, pianista por quem me apaixonei ao ouvir seu álbum Der Bote. Aqui ele é igualmente apaixonante em seu desempenho.

Arvo Pärt (1935): Lamentate

01 Da Pacem Domine

Lamentate
02 I. Minacciando
03 II. Spietato
04 III. Fragile
05 IV. Pregando
06 V. Solitudine – stato d’animo
07 VI. Consolante
08 VII. Stridendo
09 VIII. Lamentabile
10 IX. Risolutamente
11 X. Fragile e conciliante

Hilliard Ensemble
SWR Stuttgart Radio Symphony Orchestra
Andrey Boreyko, conductor
Alexei Lubimov, piano

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Alexei Lubimov

Alexei Lubimov

Luke

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Arvo Pärt (1935) — Henryk Górecki (1933-2010) — Galina Ustvolskaya (1919-2006) : Solo Piano Works

A capa deste álbum incomoda em três pontos: no design feio, no marketing e no esquecimento (ou será machismo?) de Ustvolskaya. A feiura da capa vocês podem perceber. O design é marketeiro pois coloca o nome de Górecki em caixa muito mais alta do que o nome de Pärt, que em 1994 — época do lançamento deste álbum — era menos conhecido que Górecki suponho eu. Esquecida pois mesmo as obras de Ustvolskaya ocupando a maior parte do álbum, o nome dela nem aparece na capa, só na parte de trás.

Mas apesar desses escorregões, é um álbum razoável.

As obras de Pärt vocês já estão cansados de ouvir. A sonata no. 1 e os quatro prelúdios de Górecki são tensos, imprevisíveis e violentos em alguns momentos. Algo que é inteiramente diferente da calmaria das obras de Pärt no começo do álbum, o que causa um estranhamento se ouvimos tudo em sequência.

Mas nada supera a deliciosa violência e tensão do piano de Ustvolskaya. Seus prelúdios dançam entre a leveza e a tensão. Se ouvirmos puramente os doze prelúdios, nos parece que falta algo na obra, como se estivesse inacabada. O álbum termina com a sonata no. 6 de Galina, tensa, densa e pesada. Tipicamente o estilo de Galina que assusta uns e leva outros ao gozo.

Arvo Pärt (1935):

01 Fur Alina

Variationen Zur Gesundung Von Arinushka
02 I: Moderato
03 II
04 III
05 IV: Piu Mosso
06 V
07 VI

Henryk Górecki (1933-2010):

Sonata No. 1
08 Allegro Molto, Con Fuoco
09 Grave Pesante E Corale
10 Allegro Vivace, Ma Non Troppo

Four Preludes
11 Molto Agitato
12 Lento-recitativo
13 Allegro Scherzando
14 Molto Allegro Quasi Presto

Galina Ustvolskaya (1919-2006):

Twelve Preludes
15 I
16 II
17 III
18 IV
19 V
20 VI
21 VII
22 VIII
23 IX
24 X
25 XI
26 XII

27 Sonata No. 6

David Arden, piano

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Apesar de sua música ser anormalmente tensa, Galina sabia sorrir muito bem.

Apesar de sua música ser anormalmente tensa, Galina sabia sorrir muito bem.

Luke

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Arvo Pärt (1935): Miserere

Hoje não farei uma análise propriamente minha, pois estou com pouco tempo, mas deixo aqui uma ótima análise de um consumidor da Amazon (se alguém requisitar, posso traduzir depois):

This disc is a single-composer study, of which it can be said that some items are better examples of his work than others.
Two works on this disc show Part’s tintinnabuli style in full bloom. “Miserere” itself is over thirty minutes long, and by far the best item in the programme. A setting of Psalm 51 in Latin (the same text as set in the famous Allegri “Miserere”) with verses interpolated from the “Dies Irae” of the Missa pro Defunctis, this work shows how Part’s style can magically draw a wealth of emotions from the simplest of musical concepts. Indeed, the work opens with the barest of motifs: the words of the psalm are chanted on three notes by a high solo tenor, interspersed with triadic statements (the so-called tintinnabuli pitches) on clarinet, and moreover bound together with distinct silences. This develops as the text unfolds: a solo counter-tenor joins the tenor in a haunting duet; meanwhile the instrumental ensemble expands to include other woodwinds and organ, all of which offer what appears to be a delicate wordless commentary. An abrupt change of pace comes with the “Dies Irae” verses, sung by a four-part chamber choir with massive, apocalyptic statements from woodwinds, brass, organ, percussion and electric guitars (!) – yet all is in the same style as the opening. After this massive outburst of terror, the opening discourse returns, sung by soloists (soprano, counter-tenor, two tenors and a bass). The interplay of voices and instruments carries the text forward in strikingly beautiful and sensitive ways. The work ends, in pure penitence and supplication, with a further choral statement, this time sung with heart-rending quietness: the “Rex tremendae” verse of the “Dies Irae,” bringing the work to a close. It truly is one of Part’s masterpieces – a proof that the extreme simplicity of the tintinnabuli style need not be limited to small-scale works, and can indeed break free of sounding annoying or repetitive. Recorded here in a very generous acoustic, played and sung with clarity and gravity, and carrying a beautifully sustained emotional weight, this is a definitive performance – a real gem.

The other tintinnabuli work (track 2) is “Festina lente” – “hurrying slowly” – which is scored for string orchestra and harp and makes use of the mensuration canon technique employed by the composer in “Miserere” and other works. This is a softer and more direct piece than “Miserere,” but the effect is refreshing after the profound writing of the former – and like “Miserere,” it is sensitively performed here.

The last work on the disc may at first seem off-putting. “Sarah was ninety years old” was composed just prior to Part’s formation of tintinnabuli (he had previously written serial music, like that of Schoenberg). It is a minimalist piece – the first four minutes or so feature nothing but a single drum, played with two beaters to produce alternating timbres of sound. These timbres are hacked out in a single rhythmic pattern that never seems to end: this is said to symbolise the ninety years of barren life lived by Sarah, wife of Abraham in the biblical book of Genesis. Presently, two tenors enter with an array of chords, cycling around each other and also set to a basic repeating rhythm. After more knocking from the drum and more very simple vocal droning, the organ enters, massive yet restrained, and an ecstatic solo soprano takes up the wordless narrative – Sarah conceives a child, the first of many that became the Israelites in the Genesis story. At first hearing (and perhaps several subsequent ones) this piece will seem dull and pointless; it does have a remarkable meaning, however, and it is quite gem-like even as it is barren and seemingly devoid of musical content.

Having described the contents of this disc, I feel that ultimately no description, not even the more explicitly-detailed ones given in the booklet, can prepare the listener for this music. If you like Arvo Part, it is essential listening; if you like the Hilliard Ensemble, it is one of their outstanding performances beyond any doubt. Some listeners may find it tedious, others may simply find it too overwhelming and give it a miss. However, with its excellent performances and intricate designs (such as are a hallmark of ECM New Series), this record is certainly very special.

Arvo Pärt (1935): Miserere

01 Miserere

02 Festina Lente

03 Sarah Was Ninety Years Old

The Hilliard Ensemble
Orchester Der Beethovenhalle Bonn
Dennis Russell Davies, conductor

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Arvo Pärt pichando a neve.

Arvo Pärt pichando a neve.

Luke

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Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sinfonia No. 9 em ré menor Op. 125 “Choral” — Karl Böhm

frontA nona sinfonia de Beethoven. Primeira sinfonia que utilizou coro em sua composição. Ao longo da história, utilizada com fins políticos tanto por socialistas, conservadores e liberais. Aclamada como o hino nacional da União Europeia em 1972. Foi escolhida, por Carl Sagan e outros cientistas, dentre todas as obras musicais da humanidade para integrar o disco de ouro que juntamente com milhares de outras informações sobre a humanidade, foi acoplada à sonda Voyager, que hoje já está fora de nosso sistema solar. Foi a partir do tamanho necessário para gravar uma interpretação completa sua (60-75 minutos em média), que foi definido o diâmetro atual de um CD. Já foi postada dezenas de vezes aqui no blog. O que há mais para dizer sobre esta sinfonia que vocês não saibam?

Gosto bastante dessa interpretação de Karl Böhm. Ele sabe diminuir a velocidade na hora certa e ser rápido e conciso quando é necessário. Embora em algumas partes ele possa ser lento até demais.

Divirtam-se.

Beethoven: Symphonie No. 9

Ludwig van Beethoven (1770-1827):

Symphony No. 9 in D minor Op. 125 “Choral”
01 I. Allegro ma non troppo, un poco majestoso
02 II. Molto vivace
03 III. Adagio molto e cantabile
04 IV. Presto
05 V. ‘O Freunde, nicht diese Töne’ – Allegro assai

Konzertvereinigung Wiener Staatsopernchor
Wiener Philharmoniker
Karl Böhm, conductor
Jessye Norman, soprano
Brigitte Fassbaender, mezzo-soprano
Plácido Domingo, tenor
Walter Berry, bass

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Karl Böhm.

Karl Böhm.

Luke

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Arvo Pärt (1935): Kanon Pokajanen

Quero discutir com vocês um pouco sobre música modal. Para entender melhor boa parte das obras de Pärt que postei até agora e as que virão no futuro, é bom ter uma noção do que se está escutando.

Imaginem algo circular, que não tem um fim, mas apenas uma progressão estável e contínua, variando muito pouco em sua forma e sempre retornando para os mesmos pontos. Essa ideia de circularidade não é apenas a ideia de história que tinham, por exemplo, os gregos antigos, ou os povos ameríndios do século XVI, é uma ideia que predominou na construção musical que veio do oriente e que se fixou por séculos no ocidente, o chamado cantochão (mais conhecido como canto gregoriano). A música ocidental como a conhecemos, a qual chamamos tonal, só veio a nascer com a Ars Nova no século XIII. Ao contrário da música modal, que anda em círculos, a música tonal possui uma construção teleológica, ou seja, com um telos, ou um fim. A música tonal poderíamos dizer, é como uma montanha russa, cheia de altos e baixos, enquanto a música modal, permanence constante e linear.

Um bom exemplo do que quero dizer é o segundo movimento de Tabula Rasa, Silentum, onde a música permanece constante e parece estar num ciclo infinito. Semelhantemente, quando forem ouvir a Kanon Pokajanen, entre um Ode e outro pode lhes parecer estar na mesma música, e durante vários momentos ao longo do álbum alguns modos se repetem. Se pensarmos bem, é até contraditório que o cristianismo, religião que delimita um fim pra história, possa conter em sua cultura algo de cíclico, sem fim. Mas a musica modal ocidental é resultado do contato com o oriente, cuja visão da história é, em algumas culturas, cíclica. Por isso que, um compositor, que em pleno final do século XX recupera a imemorável tradição musical medieval sacra, veio a surgir justamente no leste europeu, sob o cristianismo ortodoxo, que, querendo ou não, ainda conserva certas influências do oriente medieval.

Este é um álbum para se ouvir no momento mais espiritual e calmo possível. Um dia nublado, silencioso, uma enorme paz no espírito e aquele sentimento de que ouvir qualquer coisa dramática demais não vai cair bem. Desligue a TV (como brincou o próprio Pärt sobre como essa música deveria ser ouvida), o celular, e sinta a beleza e o imenso poder de uma fé.

Arvo Pärt (1935): Kanon Pokajanen for soloists & mixed choir

CD1

Kanon Pokajanen
01 Ode I
02 Ode III
03 Ode IV
04 Ode V
05 Ode VI

CD2

01 Kondakion

02 Ikos

03 Ode VII
04 Ode VIII
05 Ode IX

06 Prayer After the Canon

Estonian Philharmonic Chamber Choir
Tõnu Kaljuste, conductor
Ave Moor, alto
Kaia Urb, soprano
Tiit Kogerman, tenor

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writing

Luke

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James MacMillan (1959): Veni, Veni, Emmanuel

coverEstreamos aqui hoje o compositor escocês James MacMillan. Católico que é, grande parte de suas obras são sacras, mas também adora compor pra orquestra. Seu primeiro concerto para percussão, chamado “Veni, Veni, Emmanuel”  ganhou o mundo e parece ser a obra mais executada do compositor.

Cheguei a assistir a estreia do segundo concerto para percussão na Sala São Paulo, que ao contrário de seu antecessor, não tem um nome. Impressionado, e acreditando que poderia encontrar coisas mais picantes — graças a toda propaganda que a Osesp fazia de MacMillan e de seu primeiro concerto para percussão — resolvi procurar mais coisas e encontrei este álbum.

Certamente o segundo concerto para percussão é melhor. Em Veni, Veni, Emmanuel MacMillan parece não saber o que está fazendo, apenas sabe que está fazendo barulho e para empolgar um pouco, coloca um dança entre um movimento e outro do concerto, além de repetir o tema principal de várias formas diferentes até o final do concerto. Mesmo assim, parece faltar o sal necessário para que possamos sentir o gosto da música. Talvez ao vivo seja melhor.

Em “…as others see us…” o compositor tenta criar “pinturas musicais” de alguns personagens históricos britânicos, como Henry VIII, George Byron, T. S. Elliot e Dorothy Hodgkin. Faz tudo isso a partir de um mesmo tema escocês. Não acho que a brincadeira dê muito certo.

As três principais obras do álbum fazem um uso extensivo da percussão e a incrível Evelyn Glennie as executa muito bem, embora em “…as others see us…” e Three Dawn Rituals, Glennie não possa fazer milagres com a falta de criatividade de MacMillan.

As musicas de MacMillan parecem ser mais experimentações infantis do que resultado de conflitos internos que o compositor supera por meio da composição. Olhem Pärt, Schnittke ou Boulez por exemplo. Cada um desses compositores, divididos entre o conhecimento tradicional de composição que aprenderam e a época em que viviam, usaram de sua música para superar essa contradição. Uns demoraram mais, outros menos, mas todos os três, e alguns outros da mesma época, superaram suas contradições. Podemos sentir isso claramente na música desses compositores.

Em MacMillan não sentimos nada disso. A música dele, dependendo da obra, parece mesclar serialismo, colagem de outras obras, dissonâncias, adagios, e nada disso parece satisfazer a música ou o ouvinte. Ele não parece estar querendo buscar resolver nada no sentido ideal — ou material no resultado de sua própria música — mas fazer apenas umas brincadeiras em meio à qualquer plano de fundo musical que lhe venha à mente.

Evelyn Glennie. Provavelmente a melhor percussionista do mundo, e certamente a melhor coisa deste álbum.

Evelyn Glennie. Provavelmente a melhor percussionista do mundo, e certamente a melhor artista deste álbum.

James MacMillan (1959): Veni Veni Emmanuel

Veni, Veni, Emmanuel
01 Introit–Advent
02 Heartbeats
03 Dance–Hocket
04 Transition: Sequence I
05 Gaude, Gaude
06 Sequence II
07 Dance–Chorale
08 Coda–Easter

Scottish Chamber Orchestra
Jukka-Pekka Saraste, conductor
Evelyn Glennie, percussion

09 After the Tryst

James MacMillan, piano
Ruth Crouch, violin

…As Others See Us…
10 “…As Others See Us…” : Henry VIII (1491-1547)
11 “…As Others See Us…” : John Wilmot (1647-1680)
12 “…As Others See Us…” : John Churchill (1650-1722)
13 “…As Others See Us…” : George Gordon (1788-1824) and William Wordsworth (1770-1850)
14 “…As Others See Us…” : Thomas Stearns Eliot (1888-1965)
15 “…As Others See Us…” : Dorothy Mary Hodgkin (b. 1910)

Three Dawn Rituals
16 Larghetto
17 Allegro moderato
18 Andante

19 Untold

Members Of The Scottish Chamber Orchestra
James MacMillan, conductor

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James MacMillan fingindo que não é com ele.

James MacMillan fingindo que não é com ele.

Luke

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Johannes Brahms (1833-1897) — Franz Schubert (1797-1828) — Felix Mendelssohn ( 1809-1847): Piano Trios — Isaac Stern Trio

FrontDou uma pausa na polinização de música contemporânea para trazer este álbum que traz os belíssimos trios para piano de Brahms, Schubert e o primeiro de Mendelssohn, interpretados por esse trio de peso: Isaac Stern no violino, Leonard Rose no violoncelo e Eugene Istomin no piano.

Adquiri esse álbum só pelo Trio No. 2 do Schubert, cujo segundo movimento compõe a trilha sonora do belíssimo Barry Lyndon, filme dirigido por Stanley Kubrick. Mas acabei que me deliciei com todos eles, principalmente o primeiro de Brahms e o primeiro de Mendelssohn. Não cheguei a ouvir muitas interpretações desses trios, até porque essa interpretação sempre conseguiu satisfazer minha alma, mas acho que cinco estrelas na Amazon não é pouca coisa. É o tipo de coisa que o PQP ou o FDP categorizariam como imperdível.

Isaac Stern Collection Vol. 1: Piano Trios

CD1

Johannes Brahms (1833-1897):

Piano Trio No. 1 in B major Op. 8
01 I. Allegro con brio
02 II. Scherzo: Allegro molto – Trio: Meno allegro
03 III. Adagio
04 IV. Allegro

Piano Trio No. 2 in C major Op. 87
05 I. Allegro
06 II. Adante con moto
07 III. Scherzo: Presto – Poco meno presto
08 IV. Finale: Allegro giocoso

CD2

Piano Trio No. 3 in c minor Op. 101
01 I. Allegro enérgico
02 II. Presto non assai
03 III. Andante graziozo
04 IV. Allegro molto

Franz Schubert (1797-1828):

Piano Trio in E-flat major No. 2 D. 929
05 I. Allegro
06 II. Andante con moto
07 III. Scherzo – Allegro moderato
08 IV. Allegro moderato

CD3

Piano Trio in B-flat major No. 1 D. 898
01 I – Allegro moderato
02 II – Andante un poco mosso
03 III – Scherzo: allegro
04 IV – Rondo: Allegro vivace

Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809-1847):

Piano Trio in D minor Op. 49
05 I – Molto allegro agitato
06 II – Andante con moto tranquillo
07 III – Scherzo: Legiero e vivace
08 IV – Finale: Allegro assai appassionato

Isaac Stern, violin
Leonard Rose, cello
Eugene Istomin, piano

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Stern, Istomin e Rose passeando no parque.

Stern, Istomin e Rose passeando no parque.

Luke

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Bela Bartók (1881-1945) — Péter Eötvös (1944) — György Kurtág (1926) — Miklós Rózsa (1907-1995) — Tibor Serly (1901-1978) : Two words, viola and Hungary

coverO post de hoje é digno de duas rapsódias húngaras de Liszt. Temos aqui, CINCO compositores húngaros diferentes em dois álbuns, e, talvez tão extraordinário quanto isso, todos com obras para viola! Sério, só tá faltando o Gyorgy Lukács pra completar o bacanal… Brincadeira, Lukács apesar de húngaro, era filósofo, não músico. E antes que venham polemizar, já digo: Eötvös e Serly, nasceram em regiões que antes faziam parte da Hungria, embora hoje sejam regiões de outros países. E além disso, ambos são de família húngara, assim como também é György Kurtág, outro que nasceu na Romênia mas é húngaro.

Mas vamos falar da viola. Eu a adoro. Por ser um instrumento meio “hipster” na orquestra, diferentemente do violino ou piano, muito pouco foi feito por ela pelos compositores clássicos e românticos. Foram os modernos e os compositores contemporâneos que, abraçando esse instrumento “marginalizado” e tão satirizado, fizeram obras grandiosas. Só para citar dois bons exemplos de obras deliciosas para viola, o concerto para viola de Schnittke, e a sonata para viola de Shostakovich.

Existe uma afinidade eletiva aqui entre compositores húngaros cujo estilo é de vanguarda e o uso de um instrumento antes secundário, a viola. E não é ao acaso que todos eles sejam do século XX, época de grandes transformações sociais que vão influenciar diretamente a produção cultural. Os dois álbuns parecem saber disso, pela seleção de obras que fazem.

Em ambos os álbuns temos o Concerto para Viola de Bartók, que já foi postado muitas vezes aqui no blog, e o qual eu devo admitir não ter digerido muito bem, mas não pelo estilo de Bartók (o qual eu adoro), mas pelo próprio ethos húngaro que eu ainda não consegui absorver tão bem quanto acredito já ter absorvido o ethos russo e alemão, por exemplo. A interpretação dos concertos fica a cargo que ninguém menos que Lawrence Power e, respirem fundo, Kim Kashkashian. Não há do que reclamar aqui amiguinhos. Dois interpretes maravilhosos.

O álbum com Power começa com o Concerto para Viola de Miklós Rózsa, compositor muito conhecido pelas composições para Hollywood, que chegam a quase cem segundo a wikipedia. Assim como Bártok, também mesclou elementos da música húngara em suas composições e podemos sentir o ethos húngaro em sua música de forma semelhante a como sentimos na música de Bártok. Pelo menos é o que se pode dizer ouvindo o concerto para viola dele. Por causa disso, poderíamos dizer que ele também era um modernista. Seu concerto me lembra um pouco o primeiro concerto para violino de Shostakovich, principalmente o quarto movimento “Allegro con spirito”.

Tibor Serly, é mais conhecido por ter sido o responsável por terminar o Concerto para Viola de Bartók. E em sua época era mais conhecido como violinista, mas também era compositor e sua obra mais conhecida é a Rapsódia para viola e orquestra, que compõe o álbum com Power.

Do álbum com Kim, além de Bartók temos Péter Eötvös, que é regente e compositor. No álbum ele rege sua própria obra, um concerto para viola a que ele chama de Replica. Sua música parece uma mistura de Shostakovich e Schnittke, e diferentemente de Bártok, Serly ou Rozsa, não faz uma música essencialmente húngara. Sua música parece usar do serialismo integral, o que resulta numa música que não remete a nada específico. E, geralmente, tendo a dizer que quando isso acontece é sintoma do vazio no coração do homem pós-moderno. Ok, talvez eu tenha ido longe, mas acho que essa minha impressão dialoga muito com a ideia que ele tenta passar na obra de um “adeus de pessoas que estão indo à lugar nenhum”, segundo o libreto.

O álbum termina com a obra do indecifrável György Kurtág. Não consegui entender muito bem qual a “ideia por trás da matéria” de sua música. Fui descobrir um pouco dele e sei que ele gosta de fazer citações nas obras. Citações essas que vão desde Bach até Webern. Na obra aqui em questão, segundo o libreto, parece que tem Brahms, Haydn e Bartók. Não captei nenhum.

Viola Concertos by Rosza, Serly & Bartok

Miklós Rózsa (1907-1995):

Viola Concerto Op. 37
01 1. Moderato assai
02 Allegro giocoso
03 Adagio –
04 Allegro con spirito

Bela Bartók (1881-1945)

Viola Concerto (completed in 1949 by Tibor Serly), Sz 120, BB 128
05 I. Moderato –
06 II. Adagio religioso –
07 III. Allegro vivace

Tibor Serly (1901-1978)

08 Rhapsody for viola & orchestra

Bergen Philharmonic
Andrew Litton, conductor
Lawrence Power, viola

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Kim Kashkashian Plays Béla Bartók, Peter Eötvös, György Kurtág

Bela Bartók (1881-1945)

Viola Concerto (completed in 1949 by Tibor Serly), Sz 120, BB 128
01 I. Moderato
02 II. Adagio religioso – allegretto
03 III. Allegro vivace

Péter Eötvös (1944)

04 Replica, for viola & orchestra

György Kurtág (1926)

05 Movement for viola & orchestra

Netherlands Radio Chamber Orchestra
Peter Eötvös, conductor
Kim Kashkashian, viola

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Meu xará Lukács, com certeza o melhor composi... não... pera...

Meu xará Lukács, com certeza o melhor composi… não… pera…

Luke

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Antonín Dvořák (1841-1904): Symphony No. 9 “From the New World” & Cello Concerto

coverHoje vou quebrar um pouquinho minha tradição de postar compositores modernos e contemporâneos, e vou postar um álbum de um compositor romântico.

Romântico? Na verdade, nem tanto. Dvorák, compositor tcheco, tinha um ideal nacionalista e modernista em sua música que antecipa bastante o movimento modernista que seria acompanhado por outros grandes compositores europeus como Jean Sibelius e Edvard Grieg. A sua Sinfonia No. 9, conhecida como “Do Novo Mundo” é uma obra extremamente reconhecida do repertório da música erudita. Percebi que o blog estava precisando que ela fosse repostada.

Embora num primeiro momento o nome possa remeter à uma ideia de novo mundo utópico ou imaginário, o drama de novo mundo foi muito real. Veio a partir do choque que Dvorák teve em sua estadia nos Estados Unidos. E junto à sinfonia, Dvorák escreveu também, no “novo mundo”, o famoso concerto para violoncelo.

A interpretação aqui é polêmica. Embora os performers sejam ótimos, a Orquestra da Academia de Santa Cecília conduzida por Antonio Pappano e o solista do concerto para violoncelo sendo Mario Brunello, por ser ao vivo, temos muitos “sons de marcenaria” como diria PQP. Eu não me importo, mas alguns comentaristas da Amazon foram cruéis em seu julgamento.

Antonín Dvořák (1841-1904)

CD1

Symphony No. 9 in E minor Op. 95 “From the New World”
01 Adagio – Allegro molto
02 Largo
03 Scherzo: Molto vivace – Poco sostenuto
04 Allegro con fuoco

Accademia di Santa Cecilia Orchestra
Antonio Pappano, conductor

CD2

Cello Concerto in B minor Op. 104
01 Allegro
02 Adagio, ma non troppo
03 Finale: Allegro moderato – Andante – Allegro vivo

Accademia di Santa Cecilia Orchestra
Antonio Pappano, conductor
Mario Brunello, cello

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Brunello, Pappano e a orquestra da Academia de Santa Cecília em ação.

Brunello, Pappano e a orquestra da Academia de Santa Cecília em ação.

Luke

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Alfred Schnittke (1934-1998): Concerto for piano and Strings & Requiem

Eu sou um fissurado por concertos para piano. Meus primeiros amores neste gênero vêm dos concertos para piano de Mozart, os quais do 17 ao 26 eu ouvi várias vezes, tendo apadrinhado o 20 e o 24 como meus favoritos, justamente por sua carga mais emotiva e levemente melancólica. Também amo os concertos para piano de Chopin, com sua forte carga expressiva, ao mesmo tempo que delicada e profunda. Assim como também amo os de Liszt, que é um romântico diametralmente oposto à Chopin em seu estilo, embora seus concertos sejam igualmente apaixonantes. Já na música moderna e contemporânea, as coisas mudam bastante em relação aos concertos para piano.

Diferentemente de compositores que dentro de uma tradição seguem estilos diferentes (por exemplo Chopin e Liszt) ou de compositores que dentro de uma tradição usam uma forma de composição específica como meio de prática acadêmica de sua técnica musical (como Mozart fazia com seus concertos para piano), na música moderna, a partir do início do século XX, os compositores se viram perdidos num mundo onde já não existia mais certezas nem uma tradição paradigmática, como foi antes o romantismo, o clássico e o barroco. Por isso, alguns acabam abandonando até mesmo as formas tradicionais de composição (sinfonia, sonata, concerto, etc.), embora os elementos constitutivos de sua música em si não sejam tão radicais, como, por exemplo, fez Debussy ou Satie. Outros continuam usando as velhas formas de composição mas acabam criando ou mesclando estilos que, a não ser pelo próprio arranjo dessas formas (orquestra, quarteto de cordas, etc.), pouco lembram as formas em que se inserem, como por exemplo fez Bartók e Shostakovich. Schnittke se situa entre as duas tendências; a maioria de suas obras é feita sob um molde tradicional (sinfonia, concerto, sonata, etc.), mas ele viola um pouco as regras fazendo algumas mudanças, como é o caso de seu concerto para piano.

Escrito em 1979, seu concerto para piano e cordas não parece ter a intenção de ser um concerto para piano como qualquer outro, já que é feito em um único movimento e que mescla, segundo Christopher Culver, “variação, sonata e forma cíclica (o que geralmente se chama de modalismo)”. É o poliestilismo de Schnitte em um de seus melhores exemplos de genialidade. Com poucas “radicalidades” que os ouvidos menos treinados podem não gostar, e com uma aura espiritual e meditativa em seu início, esse concerto é uma ótima introdução ao estilo de Schnittke, para você leitor que nunca ousou se aventurar nas obras deste compositor. Só o motivo inicial já é apaixonante, justamente por sua simplicidade.

Além do concerto, temos também o Réquiem.

Muitos compositores ao longo da história compuseram em cima deste tema tão latente na história do pensamento humano: a morte. Por mais ateu que alguém seja, é difícil não se emocionar com a dramaticidade que alguns compositores ao longo da história da música auferiram às suas homenagens aos mortos e à morte. Essencialmente, o réquiem é um texto liturgo cristão, logo, algumas características são fixas, como seus movimentos. Agnus Dei, Lacrimosa, Tuba Mirum, são todos trechos desta tradicional cerimônia. O meu trecho favorito é o Dies Irae. E quero fazer uma comparação entre meios diferentes de se musicar esse trecho. Vamos ouvir, por exemplo, o Dies Irae do Réquiem de Mozart:

Mozart, compositor clássico, faz um Dies Irae pouco expressivo mas bastante conciso. É uma música “redonda”, com temas que se intercalam e que não se desenvolvem muito.

Vejamos agora o Dies Irae do Réquiem de Verdi:

Verdi, compositor romântico, já é muito mais radical. Usando recursos “operísticos”, ele dá muito mais expressividade pra música, embora toda a sacralidade da obra possa ir pro brejo com tamanha expressividade.

Vejamos agora, Schnittke:

O arranjo volta a ser pequeno, embora alguns elementos ali (a guitarra e o baixo elétricos, por exemplo) sejam elementos totalmente “profanos”, tanto na liturgia cristã quanto na “liturgia” erudita (risos). A expressividade operística dá lugar à uma expressividade sombria e violenta, que eu diria ser muito condizente com nossos tempos.

Comparações deste tipo são boas para entendermos a diferença da passagem de uma época pra outra. Do clássico ao romantismo muita coisa mudou, mas do romatismo ao poliestilismo de Schnittke aconteceu uma mudança brutal, não só no arranjo orquestral e forma expressiva como também, e principalmente, na estrutura da música, que não explicarei em maiores detalhes aqui para não me alongar.

Num futuro não tão distante trarei as 10 sinfonias de Schnittke, que são uma boa forma de se aprofundar mais no estilo do compositor.

Bom deleite a vocês.

Alfred Schnittke (1934-1998): Concerto for piano andStrings & Requiem

01 Concerto for Piano and Strings

Requiem Op. 101
02 Requiem
03 Kyrie
04 Dies Irae
05 Tuba Mirum
06 Rex Tremendae Majestatis
07 Recordare
08 Lacrimosa
09 Domine Jesu
10 Hostias
11 Sanctus
12 Benedictus
13 Agnus Dei
14 Credo
15 Requiem

Russian State Symphonic Capella
Russian State Symphony Orchestra
Valery Polyansky, conductor
Igor Khudolei, piano

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Alfred Schnittke num belo retrato que na minha visão caracteriza bem o espírito do compositor, feito por Reginald Gray (1972).

Alfred Schnittke num belo retrato que na minha visão caracteriza bem o espírito do compositor, feito por Reginald Gray (1972).

Luke

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Henri Dutilleux (1916-2013) — Béla Bartók (1881-1945) — Igor Stravinski (1882-1971): works played by Anne-Sophie Mutter

Anne-Sophie Mutter, muito amada pelos editores e leitores deste blog, interpreta aqui Dutilleux, Bártok e Stravinsky. Eu não tenho nem um pouco da intimidade que o PQP ou o FDP têm com ela, mas digo sem medo que neste álbum o vigor de seu toque é arrepiante.

Pelo menos é o que eu posso dizer ao ouvir o concerto para violino do Stravinsky, que deste álbum, é minha peça favorita. Stravinsky foi um bicho muito esquisito. Começou sua carreira de forma ascendente, com uma obra atrás da outra gerando sucesso e polêmicas, tudo isso a partir de um estilo próprio que condizia com a quebra das tradições e convenções na música que ocorria numa época em que a Europa era sacudida pela guerra e por revoluções. Mas esse estilo não durou muito, em sua fase seguinte, o neoclassicismo (que foi só uma das três fases de estilo de composição ao longo da longa vida de Stravinsky), o compositor resolveu voltar às velhas formas de composição. Um desses trabalhos é o concerto contido aqui, muito embora tudo que Stravinsky faça, seja num estilo de vanguarda, seja num estilo neoclássico, é perceptivelmente ímpar. Eu adoro isso nele.

Temos também o belo concerto para violino de Bártok e Sur le même accord abrindo o CD, obra que Dutilleux dedicou à própria Mutter (Já viram que muitos grandes homens perdem a cabeça por essa pessoa).

Anne-Sophie Mutter plays Dutilleux, Bartók, Stravinsky

Henri Dutilleux (1916-2013)

01 Sur le même accord

Orchestre National de France
Kurt Masur, conductor

Béla Bartók (1881-1945)

Violin Concerto No.2, BB 117, Sz.112
02 1. Allegro non troppo
03 2. Andante tranquillo – Allegro scherzando – Tempo 1
04 3. Allegro molto

Boston Symphony Orchestra
Seiji Ozawa, conductor

Ígor Stravinski (1882-1971)

Violin Concerto in D major
05 1. Toccata
06 2. Aria 1
07 3. Aria 2
08 4. Capriccio

Philharmonia Orchestra
Paul Sacher, conductor

Anne-Sophie Mutter, violin

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Dutilleux e Mutter.

Dutilleux e Mutter.

Luke

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Arvo Pärt (1935): I Am The True Vine

  • Repost de 8 de maio de 2016

Como devem ter percebido ao longo de todo esse tempo em que venho postando obras de Pärt, boa parte de sua produção musical é profundamente religiosa. A Berliner Messe que vem completa neste álbum, na ótima interpretação de Paul Hillier, nos lembra o cantochão tradicional (sobre o qual discuti aqui), mas com aquele toque de tintinnabuli que tanto nos agrada.

A beleza deste álbum está na sutileza e na beleza de sua religiosidade, portanto tentar escutá-lo buscando qualquer outra tendência “modernosa” que Pärt geralmente tem, por exemplo, em suas obras orquestrais ou camerísticas, não vai satisfazer o ouvinte afoito.

Se quiserem uma imersão completa na Berliner Messe, vocês podem até acompanhar a letra disponível no próprio site do compositor.

Além da Missa, reparem na beleza do Ode IX da Kanon Pokajanen. Trarei ela completa em breve, só aguardo o espírito necessário para escutá-la inteira de uma só vez. Infelizmente não estará na interpretação de Hillier, que neste álbum, conseguiu fazer um trabalho excelente (como lhe é de costume quando o assunto é Arvo Pärt).

Arvo Pärt (1935): I Am The True Vine

01 Bogoróditse dyévo (Hail Mary), for chorus

02 I Am the True Vine, for chorus

03 Ode IX: Nýnje k wam pribjegáju

04 The Woman with the Alabaster Box, for chorus

05 Tribute to Caesar, for chorus

Berliner Messe

06 Kyrie
07 Gloria
08 Erster Alleluiavers
09 Zweiter Alleluiavers
10 Veni Sancte Spiritus
11 Credo
12 Sanctus
13 Agnus Dei

Theatre of Voices
The Pro Arte Singers
Paul Hillier, conductor

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A interpretação de Hillier torna a música de Pärt matadora, acreditem.

A interpretação de Hillier torna a música de Pärt matadora, acreditem.

Luke

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Yitzhak Yedid (1971): Arabic Violin Bass Piano Trio

  • Repost de 24 de abril de 2016

Hoje estreio mais um compositor contemporâneo no blog, o israelense filho de pais sírios que hoje mora na Austrália, Yitzhak Yedid.

O fato de ele ter pais que imigraram da síria não é irrelevante. É justamente a música árabe que ele tenta reproduzir aqui e em outras obras suas. E foi a partir do contato com a cultura árabe na Síria que seu estilo foi influenciado, especialmente o estilo da obra que os trago hoje.

É uma das melhores coisas que ouvi ultimamente. Pianista de jazz que ele é, poderemos em alguns momentos da obra nos perguntarmos: “É música judaica, árabe, ou jazz?” Segundo ele, são as três coisas.

Por mais improvável que possa ser, essa mistura dá certo. O que há de melhor das três culturas é colocado a serviço de uma música que além de muito bem composta, é muito bem improvisada. Melodias árabes e judias se alternam, confundindo-se e mostrando sua irmandade.

Semelhantemente à uma brincadeira que já havia sido feita por Arvo Pärt em Orient & Occident, aqui o compositor frequentemente alterna entre o ocidente moderno (neste caso, a improvisação do Jazz), e o oriente (neste caso, o tipo de harmonia da música árabe e da música judaica). E como podem ver pelos nomes dos trechos dos movimentos, o compositor tenta a todo momento suscitar imagens e a contar uma história. Confesso não ter prestado tanta atenção no que Yitzhak tenta contar a partir dos títulos, deixarei isso para uma próxima audição. No momento, a música dele por si só já é deliciosamente instigante.

Yitzhak Yedid (1971):

Arabic Violin Bass Piano Trio: Suite in Four Movements
First Movement
01 Taqsim, dedicated to the day of tomorrow (01:59)
02 The image of an old weary man (04:14)
03 The pianist’s gaze (01:49)
04 Poetic fractions (02:34)
05 Evolution of hatred and bitterness (02:53)
06 His final request (01:01)

Second Movement
07 The High Priest’s whispered prayer on Yom Kippur as he leaves the Holy of Holies (06:43)
08 The dancers’ gleeful cries (01:17)
09 Olive branches in the candelabra (00:10)
10 Belly dancing in an imaginary cult ritual (00:42)
11 Eruption (01:01)
12 “And thus would he count” (00:25)
13 An even more powerful eruption (00:44)
14 “One, one and one, one and two, one and three, one and four, one and five” (04:15)

Third Movement
15 Image of a homeless Holocaust survivor on the streets of Tel Aviv (04:40)
16 The double bassist’s voice (03:24)
17 Awakening the dead (02:14)
18 An Israeli chorale, dedicated to the Holocaust survivor (02:29)

Fourth Movement
19 Cries of joy (00:23)
20 The violinist’s gaze (03:20)
21 Hallucinatory Debka dance (02:19)
22 Magic of a sensual belly dancer (01:37)
23 And again the cries (00:31)
24 The image of the old man from the First Movement (04:04)
25 The madness of creation (01:50)
26 Epilogue: the prayer of purification (02:46)

Yitzhak Yedid, piano
Sami Kheshaiboun, arabic violin
Ora Boasson Horev, double bass

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"Isaquinho" feliz da vida.

“Isaquinho” feliz da vida.

Luke

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Alfred Schnittke (1934-1998) — Arvo Pärt (1935): Voices of Nature

  • Repost de 21 de Abril de 2016

Voices of Nature é um álbum com obras para vozes tanto de Pärt quanto de Schnittke.

O destaque aqui fica com o belíssimo e profundo Concerto para Coro de Schnittke. Se vocês ouviram o álbum do Kronos Quartet com obras de Schnittke, vocês notarão que o segundo movimento do concerto é o belíssimo Collected Songs Where Every Verse Is Filled With Grief.

Além disso, temos algumas obras pequenas dos dois compositores as quais não são tão valiosas, embora também belas.

E para os conservadores, não se preocupem, Schnittke no concerto deste álbum não utiliza de seu famoso poliestilismo.

Voices of Nature

Alfred Schnittke (1934-1998):

Concert for Choir
01 I
02 II
03 III
04 IV

05 Voices of Nature for ten women’s voices and vibraphone

Arvo Pärt (1935):

06 Dopo la vittoria (Piccola Cantata)

07 Bogoróditse Djévo

08 ‘I am the True Vine’

Swedish Radio Choir
Tõnu Kaljuste, conductor

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Lindo casal: Pärt pensando no coito, Schnittke pensando no amor.

Pärt pensando no coito, Schnittke pensando no amor.

Luke

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