.: interlúdio :. Coleman Hawkins encontra Ben Webster

.: interlúdio :. Coleman Hawkins encontra Ben Webster

Coleman Hawkins encounters Ben Webster

Eu ouço música (quase) o tempo todo, mas há algumas situações nas quais eu ouço música. Ou seja, a música e eu. Muito bem, lá estava eu num destes momentos, quando a música terminou e o CD-player rodou para o próximo CD e, Deus do Céu, o que foi isso? Uma onda sonora, forte, quente, rascante, invadiu meu espaço. Pois é, este CD da postagem estava esquecida em uma das entradas do CD-player e eu quase não mais me lembrava dele. Eu o havia comprado numa destas liquidações de fecha-loja e estava esperando para aquele dia de expandir os horizontes. Pois então, expandiu mesmo! O CD é monstro! Fui ler algumas coisa e descobri que o álbum é um clássico!

Coleman Hawkins

Produzido por Norman Granz, o disco reúne dois saxofonistas maravilhosos, Coleman Hawkins e Ben Webster, acompanhados por um time que tem Oscar Peterson ao piano. Tá bom ou quer mais? Vejam o que foi dito por Richard Meyer sobre o disco: “Bem possivelmente um dos melhores álbuns de jazz gravado até agora. (…) Este álbum é indispensável para qualquer fã de jazz.” Eu confesso não ter a menor ideia de quem seja Richard Meyer, mas concordo integralmente com ele, pelo menos no que tange a este disco.

O Tony Augarde é um crítico mais conhecido e nos diz: “Coleman Hawkins talvez tenha sido o primeiro músico a fazer o saxofone tenor realmente cantar, e um dos maiores a seguir seus passos foi Bem Webster. Portanto é uma delícia ouví-los juntos neste CD”.

Você pode apostar! Ele diz ainda: “Neste álbum, predomina a delicadeza – pois ambos músicos tornaram-se mais suaves com o passar dos anos. Mesmo assim, seus estilos eram ainda bem distintos para qualquer ouvinte poder distinguir um do outro.”

Ben Webster

Realmente, é um enorme prazer ouvir estes maravilhosos músicos inspirarem um ao outro, assim como todo o resto do time que os acompanhava na ocasião. Foi um dia memorável este 16 de outubro de 1957.

 

 

 

Coleman Hawkins encounters Ben Webster

  1. “Blues for Yolande” (Coleman Hawkins) – 6:44
  2. “It Never Entered My Mind” (Richard Rodgers, Lorenz Hart) – 5:47
  3. “La Rosita” (Paul Dupont, Allan Stuart) – 5:02
  4. “You’d Be So Nice to Come Home To” (Cole Porter) – 4:15
  5. “Prisoner of Love” (Russ Columbo, Clarence Gaskill, Leo Robin) – 4:13
  6. “Tangerine” (Johnny Mercer, Victor Schertzinger) – 5:21
  7. “Shine On, Harvest Moon” (Jack Norworth, Nora Bayes) – 4:49
  • Coleman Hawkins– tenor saxophone
  • Ben Webster– tenor saxophone
  • Oscar Peterson– piano
  • Herb Ellis– guitar
  • Ray Brown– double bass
  • Alvin Stoller– drums

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Blow it, men!

Não deixe de ouvir esta pérola de disco. Depois, me contem!

René Denon

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia No. 4 – Emmy Loose, Philharmonia Orchestra & Paul Kletzki

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia No. 4 – Emmy Loose, Philharmonia Orchestra & Paul Kletzki


Gustav Mahler (1860 – 1911)

Sinfonia No. 4, em sol maior

Esta sinfonia é bem representativa de Mahler. É uma de suas músicas mais acessíveis, devido tanto à beleza de seus temas quanto às suas dimensões. Por isso, é como um portal para este universo musical criado por ele.

Gustav Mahler viveu um tempo de muitas mudanças, fim do século XIX e início do século XX, a maior parte do tempo em Viena. Sofreu tragédias pessoais, conviveu com pessoas geniais (Freud, Klimt, Bruckner…) e deixou um enorme legado na música – tanto suas composições quanto na forma de reger e dirigir as grandes orquestras.

A gravação desta postagem não é a mais famosa, mas é maravilhosa. Feita em 1957 com a Philharmonia, a excelente orquestra criada por Walter Legge para a EMI, aqui está nas mãos de Paul Kletzki. O local da gravação é o Kingsway Hall e o pessoal técnico, com produção de Victor Olof, é excelente. O que mais gosto dela é a maneira como apresenta a música, com clareza e simplicidade, mas também com a sutileza necessária.

O que então deve lhe chamar a atenção nesta viagem pelo universo deste complexo compositor? Começamos com a orquestração. Mahler sabia tudo sobre isso, na teoria e na prática. Suas obras demandam orquestras enormes, gigantescas, muitos instrumentos, especialmente na percussão. Mas, ao ouvir essa sinfonia, perceberá um tratamento quase camerístico da orquestra. Grupos de instrumentos combinados de forma contrastante, muitos solos, para terror dos músicos.

O primeiro movimento desta sinfonia inicia com flautas acompanhadas do chocalho de sinos de um trenó de neve (Schelle, em alemão, sleighbells, em inglês) – percussão – seguidas de cordas e tropas, muitas trompas em Mahler. A outra coisa que você notará é a quantidade de diferentes ritmos, criando diferentes episódios dentro de um mesmo movimento. Marchas militares, landlers, valsas, irrompem pelo discurso musical, fazendo alusões às suas lembranças. Essa é outra típica característica de Mahler.

O segundo movimento tem um violino afinado um tom mais alto, para que pareça um violino rústico, uma rabeca. Os solos deste instrumento representam uma figura folclórica – folclore, outra característica de Mahler—chamada Freund Hein, que representa a morte. Estes episódios são intercalados por música muito sentimental, num típico movimento sweet and sour.

O terceiro movimento, Ruhevoll (Poco adagio) – Mahler foi um mestre na composição de adágios – é o núcleo da sinfonia e segue por bons vinte minutos. Durante o período que se dedicou à composição desta sinfonia, Mahler estudou a obra de câmera de Schubert, um mestre na arte de prolongar os movimentos de suas peças. A transição do segundo movimento para este terceiro é muito marcante. As palavras do segundo são pizzicato, staccato, staccatissimo. O terceiro movimento abre com as cordas mais graves, violas, violoncelos e contrabaixos, tocados com os arcos. Ao longo deste enorme movimento, Mahler falará das coisas importantes e profundas da vida. Basta prestar atenção. O movimento é uma longa construção para os clímaces finais. Preste atenção na maneira como Mahler usa as harpas. Poucos compositores as usam tão eficientemente. Ao fim deste movimento, chegamos aos portais do céu, que será descrito no quarto movimento.

Inovação, outra coisa de Mahler. Pela primeira vez (na história da música…) um compositor termina uma sinfonia com uma canção, um Lied. A letra vem de uma coleção de poemas anônimos (folclore) chamada Des Knaben Wunderhorn. Mahler já havia musicado vários destes poemas, inclusive este, Das himmlische Leben, uma visão do céu na perspectiva de uma criança. Os Lieder compostos por Mahler sobre esses poemas formam uma coleção à parte e alguns deles foram incorporados a algumas de suas primeiras sinfonias. Estas são então chamadas Sinfonias Wunderhorn e a quarta é uma delas.

Gravura de Moritz von Schwind, com o Knaben e a sua Wunderhorn

A canção que fecha a quarta sinfonia estava destinada à terceira. Mas, para a nossa sorte, esta já estava tão imensa que a cançãozinha ficou de fora e acabou gerando o projeto da quarta.

Para cantar esses versos infantis, Mahler pede uma voz leve de soprano. Nesta gravação isso é atingido com perfeição pela Emmy Loose. A canção narra a vida celestial, verdadeira festa no céu. Comida, bebida, dança e música, liderada por Santa Cecília e as vozes angelicais.

Gustav Mahler, por Emil Orlik, 1909

A sinfonia não foi exatamente bem recebida na época de sua estreia, mas o próprio Mahler disse: Meu tempo virá! Muito bem, ouvindo esta gravação e olhando o catálogo de gravações assim como as inúmeras apresentações desta e das demais obras de Mahler por todo o mundo, não é difícil dizer que ele estava certo.

Aproveite esta oportunidade de conhecer um pouco a música de Mahler. Se você já a conhece, então terá todas as razões para apreciar ainda mais esta gravação.

Gustav Mahler (1860 – 1911)

Sinfonia No. 4 em sol maior

  1. Bedächtig. Nicht eilen
  2. Im gemächlicher Bewegung. Ohne Hast
  3. (Poco adagio)
  4. Sehr behaglich.
Philharmonia Orchestra
Emmy Loose, soprano
Paul Kletzki, conductor

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Meu tempo virá! (Mahler…)

René Denon

Maurice Ravel (1875-1937): Concertos para Piano – Jean-Philippe Collard, ONF & Lorin Maazel

Maurice Ravel (1875-1937): Concertos para Piano – Jean-Philippe Collard, ONF & Lorin Maazel

Maurice Ravel 

Concertos para piano

Uns gostam de sinfonias, outros de ópera, outros ainda gostam de quartetos de cordas. Como dizem essas camisetas que compramos para presentear os cunhados, eu gosto de todas! Mas, tenho um particular gosto por concertos para piano. Vá lá, concertos para cravo também, que tudo começou com o Johann Sebastian Bach. Melhor ainda se interpretados ao piano.

Depois de Mozart (mais de vinte), Beethoven (cinco e meio) e Brahms (dois), o número de concertos por compositor foi caindo. É verdade que a exigência em qualidade e, principalmente, originalidade, aumentou muito. A comparação com as obras precedentes já estabelecidas é apenas um dos muitos desafios que um compositor precisa enfrentar se quiser compor um novo concerto.

Outro grande desafio é iniciar a obra ganhando a atenção e a aceitação do público. Como prender a atenção de todos nos primeiros dez, vinte segundos nos quais a peça é lançada ao ar da sala de concerto ou do auditório?

Prokofiev, no seu genial Concerto para Piano No. 3, inicia com uma lindíssima e sedutora melodia no primeiro clarinete. Golpe de mestre! Mas o compositor da postagem é Ravel. Ele lança seu concerto em sol maior com um estalo de chicote! Eu sempre imaginava o maestro olhando para o carroceiro Alfio, emprestado da ópera Cavalleria Rusticana de Mascagni, pronto para estalar seu poderoso chicote. Bem menos interessante que isso, o chicote usado nas orquestras consiste de duas tabuinhas que o percussionista bate uma na outra, fazendo estalar o chicote. E aí segue o solista mandando ver no teclado, glissandos para cima e para baixo.

Isto é só o começo. Como o concerto foi composto em Paris, entre 1929 e 1931, jazz estava nos ares da cidade. Até o Pixinguinha andou por lá, como nos ensinou o Pleyel. A influência do jazz torna o concerto muito moderno, mas também muito bonito.

O movimento lento inicia com o maestro e toda a orquestra só escutando o solista por uns bons minutos, num dos trechos mais bonitos composto para piano. Só bem depois é que a flauta e outros instrumentos de sopro se juntam ao solista. É de arrepiar!

O último movimento é para fechar os trabalhos com brilho e alegria, assim como Mozart fez em seus concertos, mas aqui com uma dose jazzística de modernidade.

Jacques Février tocando o ”Concerto pour la main gauche”, na presença de Maurice Ravel

Na sequência do disco, o Concerto para Mão Esquerda, composto na mesma época que o Concerto em sol maior, mas são assim como Esaú e Jacó esses dois irmãos. Em outra postagem falarei mais desse outro concerto, prometo.

Para apresentar essas maravilhas do século XX, a postagem traz Jean-Philippe Collard, ótimo pianista. Suas gravações de Rachmaninov dessa mesma época são excelentes. A Orquestra Nacional Francesa é regida nesta gravação por Lorin Maazel e o disco ganhou o Prêmio da Gramophone de 1980, na categoria de Concerto.

Para completar o CD algumas peças para piano solo, fechando com um arranjo para dois pianos de La valse, faixa na qual Michel Beroff se junta ao Collard.

Há outras (lendárias) gravações do concerto em sol maior, como a do Arturo Benedetti Michelangeli e a da Martha Argerich, em especial a que faz dobradinha com o Concerto No. 3 de Prokofiev. Mas hoje, o Collard é o cara da postagem.

Maurice Ravel (1875 – 1937)

Concerto em sol maior

  1. Allegremente
  2. Adagio assai
  3. Presto

Concerto para piano para a mão esquerda

Pavane pour une infante défunte

Jeux d’eau

La valse

Jean-Philippe Collard, piano
Orchestre National de France
Lorin Maazel
com Michel Béroff, segundo piano em La valse

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Michel Béroff e Jean-Philippe Collard

Não deixe de baixar e aproveitar!

 

René Denon

 

Ludwig van Beethoven (1770-1827): Piano Sonatas: Hammerklavier & Moonlight – Murray Perahia – DG

Ludwig van Beethoven (1770-1827): Piano Sonatas: Hammerklavier & Moonlight – Murray Perahia – DG

Beethoven: Piano Sonatas

Hammerklavier & Ao Luar

Murray Perahia

Eu já não me lembro qual das sonatas para piano de Beethoven ouvi primeiro. Certamente uma do triunvirato – Pathétique, Appassionata ou Ao Luar. Lembro-me de um LP da Supraphon com o pianista Jan Panenka. Mas posso estar errado, minha memória anda rebelde, lembra-se apenas daquilo que quer. Supraphon era, assim, a Naxos daqueles dias nos quais os LPs chegavam ao interior do Brasil em caixas de madeiras de formato  cúbico, levadas por kombis que iam sacolejando por estradas poeirentas ou lamacentas, dependendo da sorte do vendedor.

A Hammerklavier veio bem depois e não foi fácil. Lembro-me agora bem dos CDs da Deutsche  Grammophon com as últimas gravações do Emil Gilels, que eu ia comprando quando já morava aqui, na grande cidade. Estes CDs já morreram, oxidados. Ainda guardo os livretos, mas os falecidos foram devidamento substituidos pela caixota de nove CDs nos quais estão todas as sonatas que o Emil conseguiu gravar naquela ocasião. Não é um ciclo completo. Falta a última sonata, por exemplo (sigh). Mas entre elas uma imensa, enorme Hammerklavier, com um dos mais lindos e perfeitos Adagio sostenuto que já ouvi.

Mas não estamos aqui para falar do passado, vamos ao (quase) presente. Comprei este disco que estou postando assim que bati os olhos nele. Pois é, eu ainda vou a lojas (as que restaram) de CDs, com aquela expectativa de encontrar algo que acelere as batidas do coração e que crie aquela ansiedade de, ao chegar em casa, na primeira audição, confirmar o antecipado prazer. Estes momentos estão se tornando mais e mais raros, mas este disco me deu essas sensações no ano passado.

Ouço gravações do Murray Perahia há muito tempo. Ele me ensinou que Chopin é coisa demais de boa e dá-me constante aulas sobre os concertos para piano de Mozart. Mais recentemente ele andou pelas terras barrocas e eu fui junto, com muito prazer. Já havia ouvido algumas de suas gravações de sonatas para piano de Beethoven, mas este disco está demais. Vejam, na minha opinião, a Hammerklavier é assim, uma sonata mais cabeça, enquanto a Ao Luar, mais coração. E é aí onde mora o perigo! Muita cabeça ou muito coração pode não ser uma boa coisa. Creio que ele conseguiu um equilíbrio que me fizeram ouvir essas sonatas com o mesmo prazer de ouví-las pela primeira vez, de (re)descobrimento. Eu não conheço outro disco que junte as duas sonatas. Só estão juntas nas integrais, mas mesmo aí, em discos separados. Ele ousou e creio que fez muito bem.

Talvez não seja nada disso, talvez eu esteja apenas ficando nostálgico. Mesmo assim, vá em frente. Se você gosta de piano e de boa música, estará em ótimas mãos! Que o disco lhe agrade a mente e o coração!

Sonata para piano No. 29, em si bemol maior “Hammerklavier”, op. 106

  1. Allegro
  2. Scherzo. Assai vivace
  3. Adagio sostenuto
  4. Largo – Allegro risoluto

Sonata para piano No. 14 em dó sustenido menor, “Ao Luar”, op. 27, 2

  1. Adagio sostenuto
  2. Allegretto
  3. Presto agitato

Murray Perahia, piano

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Murray Perahia dando um toque de Rodin na sonata…

Vivaldi – Concerti per Mandolini – I Solisti Veneti – Claudio Scimone

Vivaldi – Concerti per Mandolini – I Solisti Veneti – Claudio Scimone

Viva Vivaldi!

Concerti per Mandolini

I Solisti Veneti

Claudio Scimone

 

Antonio Vivaldi, o padre vermelho, nasceu no dia 4 de março de 1678, em Veneza. Ele renasceria em 1950, como nos conta H. C. Robbins Landon no seu livro Vivaldi, Voice of the Baroque. Landon conta que estava em uma loja de discos em Nova Iorque quando ouviu pela primeira vez, assim como os atendentes da loja e os outros clientes, a famosa gravação das Quatro Estações pelo selo Cetra.

Capa do LP com As Quatro Estações”, lançada pelo selo Cetra

Essa música que havia estado adormecida nas prateleiras das bibliotecas por duzentos anos (o dobro da Bela Adormecida) ressurgia para dar início a um dos maiores sucessos da música clássica, a música de Antonio Vivaldi. O renascimento, pelo menos da música, se deve muito a Gian Francesco Malipiero, outro importante veneziano. E como se diz nestas ocasiões, o resto é história…

Eu ouço música de Vivaldi desde antes do movimento dos instrumentos de época. Às vezes nem tanto, mas sempre sofro recaídas. Eram nosso campeões de Vivaldi: I Musici, Raymond Leppard e The English Chamber Orchestra, Neville Marriner e The Academy of St. Martin-in-the-Fields, entre os ingleses. Havia também Jean-Claude Malgoire e La Grande Ecurie & La Chambre du Roy, tantos mais. Depois vieram os HIP (historically informed performance) Christopher Hogwood e The Academy of Ancient Music, Trevor Pinnock e The English Concert. Os italianos Fabio Biondi, Rinaldo Alessandrini e tantos outros.

Capa da edição do disco do post em LP

Hoje, em homenagem a esta tão importante figura da música, alguém que teve suas obras estudadas e adaptadas por Johann Sebastian Bach, apresento um CD que mata um pouco a saudade daqueles dias anteriores ao HIP. Este CD, aos cuidados de musicos venezianos, mostra que a (boa) música tem um brilho que transcende até mesmo modismos interpretativos.

Aproveite a folga do Carnaval para ouvir este brilhante disquinho com lindos e sonoros concertos vivaldianos.

Antonio Vivaldi (1678 – 1741)

Concerto em sol maior, RV 532

  1. Allegro
  2. Andante
  3. Allegro

Concerto em dó maior, RV 425

  1. Allegro
  2. Largo
  3. (Allegro)

Concerto em dó maior, RV 558

  1. Allegro molto
  2. Andante molto
  3. Allegro

Concerto em ré maior, RV 93

  1. (Allegro giusto)
  2. Largo
  3. Allegro

I Solisti Veneti

Ugo Orlandi e Dorina Frati, mandolines
Claudio Scimone

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Viva, Vivaldi! Desfrutem!

René Denon

 

 

La Folia – Corelli, Marais, Martín y Coll e outros – Jordi Savall

La Folia – Corelli, Marais, Martín y Coll e outros – Jordi Savall

La Folia

1490 – 1701

Corelli, Marais, Martin y Coll,

Ortiz & Anônimos

A motivação para este disco é o carnaval. Evoé, Momo! É claro que poderíamos escolher o Carnaval, de Schumann, mas isso parece muito batido. Então, hoje, vamos de Folia!

Minha primeira lembrança de Folia, em música, é a Sonata de Corelli, que conheci do disco do Grumiaux. Meus dois CDs desta gravação (Sonatas Op. 5, de Corelli, Grumiaux e Castagnone) enferrujaram (sigh…). Tenho ainda  uma cópia virtual em algum lugar. Mas, a postagem de hoje é com Savall, Jordi Savall!

Neste disco ele reuniu oito peças inspiradas nesta dança que (aprendi no livreto) surgiu em Portugal, como nos ensina Gil Vicente, o do teatro. São danças associadas às pessoas simples, pastores e camponeses. Daí também vem o nome, Folia, de folia mesmo.

Jordi Savall, Ariana Savall, Rolf Lislevand e Pedro Estevan

As cinco primeiras faixas do disco são relativamente curtas e servem para esquentar o clima, despertar nossas atenções. A sonoridade das peças, desde os primeiros acordes do disco, deixa claro que a produção é de altíssima qualidade. O conjunto liderado pelo Savall é ótimo. Atenção especial para o Rolf Lislevand, um bamba. Norueguês enorme, toca todo tipo de viola, violão, guitarra, tiórba, o que você imaginar.

Para mim, o núcleo deste disco são as faixas seis, com suas Diferencias sobre las Folias, de Antonio Martín y Coll, e sete, a Sonata de Corelli, aquela do Opus 5. Diferencias aqui significa variações e eu não conhecia qualquer peça de Martín y Coll. Eu que tenho um fraco pelas variações, gostei. Na corelliana sonata, Jordi toca uma viola da gamba soprano, muito lindo!!

A peça final, de Marin Marais, segue ainda por dezoito minutos, mas eu já havia colocado o disco lá, bem alto, na minha lista.

Outros compositores se deixaram inspirar pelas folias, entre eles Alessandro (o pai do Domenico) Scarlatti, Vivaldi e até gente da família aqui, o Carl Philipp Emanuel. Outros ainda, como Rachmaninov e suas Variações sobre um tema de Corelli e até Liszt, que caiu na folia com a Rapsódia Espanhola, são mais tardios, mas provam que a inspiração continuou.

De qualquer forma, o que temos para hoje é o magnífico time do Jordi Savall com suas variações e diferenças sobre a Folia!

 

  1. Anônimo – Folia: Rodrigo Martinez (1490) (Improvisations D’Après Le Villancico Du Cancionero De Palacio)
  2. Diego Ortiz – Recercada Quarta Sobre La Folia (1553)
  3. Antonio de Cabezón – Folia: Para Quien Crié Yo Cabellos (1557) (D’Après Venegas De Henestrosa)
  4. Diego Ortiz – Recercada Ottava Sobre La Folia (1553)
  5. Juan del Enzina – Folia: Hoy Comamos Y Bebamos (Vers 1520) (Improvisations D’Après Le Villancico De Juan Del Enzina)
  6. Antonio Martín y Coll – Diferencias Sobre Las Folias (D’Après Le Mss. Flores De Música 1357-60 Madrid Bibl. Nacional (1706-1709))
  7. Arcangelo Corelli – Follias (1700) (Op. 5 Roma 1700 / MS. VM7 6308 Paris Bibl. Nationale)
  8. Marin Marais – Couplets De Folies (1701) (Seconde Livre De Pièces De Viole, Paris 1701)

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Savall, caindo na Folia!

Aproveitem!

René Denon

Schubert – Lieder – Dietrich Fischer-Dieskau & Gerald Moore

Schubert – Lieder – Dietrich Fischer-Dieskau & Gerald Moore

Lieder – Um gosto adquirido!

Lieder é a palavra alemã que significa canções, no plural. Lied é o singular, canção. Quando usamos Lied (ou Lieder), estamos nos referindo a uma canção com letra em alemão, com acompanhamento ao piano. Às vezes, o acompanhamento é feito por uma orquestra mas, quase sempre, piano.

Schubert não foi o primeiro a compor Lied, Mozart e Beethoven, por exemplo, o fizeram antes dele. No entanto, Schubert realmente tinha um talento imenso para isso. Em sua breve existência, compôs mais de seiscentos Lieder. Entre essas canções, dois ciclos – Die Schöne Müllerin e Winterreise, ambos com poesia de Willelm Müller. O ciclo chamado Schwanengesang difere um pouco dos anteriores por ser  uma reunião de canções com poesias de três diferentes poetas. Foi assim arranjado e nomeado pelo editor que esperava assim divulgar essas últimas canções.

Ao contrário de outros compositores seus contemporâneos, Schubert não tinha facilidade de ter sua obra orquestral executada. A Sinfonia Inacabada assim ficou não por falta de inspiração ou, mais tragicamente, pela morte do compositor. É mais provável que a falta de perpectiva de execussão tenha levado seus esforços para outras obras. Se bem que os dois movimentos formam bem mais do que um simples torso, eles realmente se completam. Schubert não ouviu suas duas grandes e últimas sinfonias. Assim, sua obra é repleta de Lieder, música para piano, música de câmera (ah, o Quinteto de Cordas…).

Schubert e Vogl

Essas obras sim, eram muito e bem executadas. Schubert esteve sempre rodeado de amigos, em especial o barítono Michael Johann Vogl, que divulgou as canções de Schubert até o fim de sua vida.

Mas, vamos ao disco! Ouvir Lieder é o que podemos chamar, um gosto adquirido (an acquired taste). Nem todo mundo, mesmo entre os que apreciam música, exercem essa excentricidade.

Aqui está a minha proposta: ouça este disco, assim, umas dezessete vezes. Se, depois disto, você não gostar, então é provável que Lieder não  seja a sua praia. Mas, se você tiver uma mínima queda para isso, logo depois da segunda ou terceira vez que ouvir o disco, estará cantarolando ou acompanhando o ritmo, mesmo que, se assim como eu, não for versado em alemão, língua danada de difícil.

Como Schubert era capaz de musicar qualquer poema – de grandes, imensos poetas, até seus menos dotados amigos, suas escolhas para as letras eram assim, um pouco erráticas. Sabe-se lá o que, no poema, lhe inspirava e o colocava ação? Uma vez que o poema lhe tocasse, lá estava a correta melodia, o acompanhamento justo…

Mesmo sem o domínio da língua, se você que adentrar este território, vale a pena estar atento para algumas coisas. Alguns temas são recorrentes e sabendo disto, é mais fácil entrar no clima. Por exemplo, a ideia do caminhante – Wanderer – o cara que sai pela floresta, admirando a natureza, é bem comum. Algumas palavras indicam o caminho: tiefer Nacht (a noite lá é sempre profunda…), Wasser (água, mas assim, água corrente, o riozinho…), Ruh’ (paz, descanso…), Einsame, Abendrot.

Se há alguma chance de que você goste de Lieder (se você já gosta, então sabe do que estou falando), este disco é um ótimo ponto de partida.

Dietrich Fischer-Dieskau dedicou grande parte de sua vida aos Lieder – excelente intérprete, voz inconfundível, também escreveu muito sobre a arte da interpretação. Aqui é acompanhado por Gerald Moore, o decano dos pianistas que acompanham cantores.

O disco é repleto de gemas, peças curtas, lindas melodias com acompanhamento de piano, uma combinação vencedora. Não coloque o disco de lado sem ouvir Auf dem Wasser zu singen, Du bist die Ruh’, Ständchen, faixa 5, há duas canções no disco com este nome. Esta é do Schwanengesang. Der Lindenbaum, do ciclo Winterreise, também tem carreira solo. Die Forelle, canção cujo tema foi usado em um magnífico quinteto com piano. Heinderöslein, com poesia de Goethe e, ímpossível não mencionar o Erlkönig, também com letra de Goethe. Este é o Lied dos Lieder. Nesta canção o cantor interpreta quatro personagens, tudo isso em quatro minutos.

Mas, chega de falar, deixo o Dietrich e o Gerald encarregados de convencê-lo das artes de Schubert. Você pode descobrir que vale a pena adquirir certos gostos.

Schubert – Lieder 

  1. Schubert: Auf dem Wasser zu singen, Op.72, D.774
  2. Lachen und weinen, Op. 59/4, D.777
  3. Du bist die Ruh’, Op. 59/3, D.776
  4. Der Wanderer, Op.4/1, D.493 – Ich komme vom Gebirge her
  5. Ständchen “Leise flehen meine Lieder”
  6. Der Einsame, Op.41, D.800
  7. Im Abendrot, D.799 – O wie schön ist deine Welt
  8. An Sylvia, Op. 106 No. 4, D. 891
  9. Ständchen “Horch, horch, die Lerch!” D.889
  10. Sei mir gegrüsst, Op.20/1, D.741
  11. Seligkeit, D.433
  12. Der Lindenbaum
  13. Die Forelle, Op. 32, D. 550
  14. Rastlose Liebe, Op. 5 No. 1, D. 138
  15. Heidenröslein, Op. 3 No. 3, D. 257
  16. An Schwager Kronos, Op. 19 No. 1, D. 369
  17. Wandrers Nachtlied I, Op. 4 No. 3, D. 224
  18. Erlkönig, Op. 1, D. 328
  19. Der König in Thule, Op. 5 No. 5, D. 367
  20. Jägers Abendlied, Op. 3 No. 4, D. 368
  21. Der Musensohn, Op. 92 No. 1, D. 764
  22. Wandrers Nachtlied II, Op. 96 No. 3, D. 768

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Schubert, dando um tempo…

Não deixe de ouvir!

René Denon

Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sinfonia No. 4 em si bemol maior, Op. 60 – Carlos Kleiber

Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sinfonia No. 4 em si bemol maior, Op. 60 – Carlos Kleiber

Qual é o tamanho de um disco?

Esta é a primeira postagem que faço neste Blog, que já faz parte do meu dia-a-dia há muito tempo! Passar a fazer postagens é um grande passo para mim. A possibilidade de compartilhar o amor pela música desta maneira, me dá muitas alegrias! Agradeço a forma fraterna e encorajadora que fui aqui recebido! Bem, aqui vamos nós…

O disco desta postagem fere dois princípios gerais da indústria fonográfica. O Princípio da Integralidade – integral das sinfonias de Mahler, integral das sonatas para piano de Beethoven, integral dos quartetos de Schubert…

Aqui temos um disco com a Sinfonia No. 4, em si bemol maior, Op. 60, de Beethoven. Só isto. Tudo isto! O disco não faz parte de algum ciclo gravado pela orquestra tal sob a batuta do regente fulano de tal.

O segundo princípio que o disco agride é o Princípio do Contrapeso. Como os CDs foram idealizados para uma “nona sinfonia”, para que ele seja economicamente atraente, deve conter uns setenta ou mais minutos de música gravada. É por isso que vemos tantos CDs com um contrapeso além da peça principal. Uma espécie de lado B virtual, uma vez que o CD tem apenas um lado.

Nada disso aqui. Nada de appetizer ou sobremesa, apenas o main course – o prato principal!

O livreto (apenas um folderzinho) com duas folhas nos conta que a gravação foi feita ao vivo, no dia 3 de maio (Im wunderschönen Monat Mai) de 1982. Lembremos que no hemisfério norte, maio é o mês da primavera (Früling, já du bist’s!).

Vejam, Quarta Sinfonia, não uma de número ímpar, Eróica ou Sétima. Para agravar ainda mais, nada de repetição no primeiro movimento. Mas, amigos, que disco destamanho! Baita disco! Carlos Kleiber é lenda, dispensa apresentações – mas vale a pena lembrar, nada afeito a gravações. Dizem as más línguas, o homem só entrava no estúdio quando a geladeira estava vazia.

Por que um disco de pouco mais de trinta minutos é tão imenso? Veja a explicação nas palavras do próprio maestro, expressas no livreto:

Para mim, autorizar uma gravação é normalmente um horror. Mas, a performance da Bayerisches Staatsorchester tornou a aprovação desta gravação ao vivo, um prazer pessoal. Não poderíamos e não queríamos usar qualquer truque de embelezamento ou mínima correção neste retrato aural (snapshot) de uma performance. (…) Para aqueles que têm um ouvido para a vitalidade, há coisas aqui que nenhuma orquestra pode tocar tão fervorosamente e com tanto prazer ou tão inspirada e deliciosamente como esta orquestra naquele dia.

Vielen Dank!

C Kleiber.

Eu diria que a orquestra tocou febrilmente naquele dia de primavera! Portanto, aperte o cinto na cadeira ou no sofá, aumente o volume, delicie-se e redescubra esta inesquecível quarta. Se achar o disco curto, toque de novo, sem problemas!

Sinfonia No. 4, em si bemol maior, Op. 60

  1. Adagio – Allegro vivace
  2. Adagio
  3. Menuetto. Allegro vivace
  4. Allegro ma non tanto

Bayerisches Staatsorchester – Carlos Kleiber

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FLAC | 146 MB

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MP3 | 74,7 MB

Carlos Kleiber

Até a próxima!

René Denon