A Família das Cordas – Violino Piccolo – Grigoriy Sedukh

gscd– Um álbum só de violino piccolo, Vassily?

Quase.

Desde a primeira vez em que escutei os Concertos de Brandenburg de Bach, chamou-me a atenção aquele violininho serelepe e pungente a buscar espaço com valentia em meio aos tantos sopros do Concerto no. 1:

Nunca mais ouvi falar do tal violino piccolo, de tamanho a um violino 3/4 para jovens, com algumas diferenças de construção e que soa uma terça acima dos violinos convencionais, até encontrar alguns vídeos do ucraniano Grigoriy Sedukh tocando o que chamava de piccolo em peças convencionais do repertório violinístico.

Sem ler muito as letras miúdas, comprei seu CD (lançado pelo pitorescamente batizado selo “The Catgut Acoustic Society Co.”) para só depois descobrir – mais surpreso, talvez, que decepcionado – aquela história do gato comprado por lebre.

Pois aqui Sedukh não toca exatamente o instrumento de que Bach lançara mão, mas sim num chamado “violino sopranino”, que soa uma oitava acima do violino convencional e que tem, guardadas as proporções, as mesmas proporções deste. A gravação inclui somente uma faixa com um instrumento semelhante ao piccolo barroco, o  “Adagio” de Grazioli, executado num violino dito “soprano” (uma quarta acima do convencional, mais ou menos como o piccolo), além de uma peça num “mezzo” (afinado exatamente como o convencional).

O repertório é um balaio de gatos que, obviamente, não tem razão outra de ser que não a de exibir as qualidades dos instrumentos e do intérprete. Eu acho estranho abrir uma gravação com a Polonaise de Bach, que é uma obra que parece já começar no meio, mas depois as coisas melhoram bastante. Sedukh é bom violinista e, neste pequeníssimo nicho musical, mostra-nos um bom cartão de visitas.

GRIGORYI SEDUKH – VIOLIN SOLOIST

Johann Sebastian BACH (1685-1750)
Suíte Orquestral no. 2 em Si menor, BWV 1067
01 – Polonaise
02 – Badinerie

Giovanni Battista  GRAZIOLI (1756-1820)
03 – Adagio*

Niccoló PAGANINI (1782-1840)
04 – Sonatina no. 1 para violino e violão
05 – Sonatina no. 3 para violino e violão

Joseph Joachim RAFF (1822-1882)
06 – Cavatina, Op. 85 no. 3

Piotr Ilyich TCHAIKOVSKY (1840-1893)
07 – O Lago dos Cisnes, Op. 20 – Entrée et Adagio
08 – Álbum para a Infância, Op. 39 – no. 22: Canção da Cotovia
09 –  O Lago dos Cisnes, Op. 20 – Adagio †
10 –  O Lago dos Cisnes, Op. 20 – Dança Russa

Jules Émile Frédéric MASSENET (1842-1912)
11 – Thaïs – Méditation

Nikolay Andreyevich RIMSKY-KORSAKOV (1844-1908)
12 – A Lenda do Czar Saltan – O Vôo do Zangão (Шмель, Mamangaba)

Riccardo Eugenio DRIGO (1846-1930)
13 – Les Millions d’Arlequin – Adagio

Friedrich (Fritz) KREISLER (1875-1962)
14 – Marcha dos Soldados de Brinquedo

Grigoryi Sedukh, violinos sopranino, *soprano e † mezzo
Inga Dzektser, piano

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Vassily Genrikhovich

Dzektser, Sedukh - e violinos para todos os gostos
Dzektser, Sedukh – e violinos para todos os gostos

 

Astor Piazzolla (1921-1992) – Soul of the Tango – The Music of Astor Piazzolla – Yo-Yo Ma

A despeito do destaque na capa, o ótimo Yo-Yo Ma não tem tanto protagonismo neste álbum de pérolas de Astor Piazzolla. Com a reverência que lhe é tão própria, ele se alinha a grandes nomes do tango, ao Duo Assad e, notavelmente, ao próprio Astor Piazzolla (no dueto “Tango Rememberances”, cujas partes foram gravadas com dez anos de diferença) para render tributo ao mestre argentino. Claro que há muito mais em sua obra desenfreada do que cabe num só CD, e que existem roupagens muito mais radicais dessas composições já tantas vezes regravadas. Ainda assim, o que ouvimos nesta “Alma do Tango” é uma tremenda introdução a Piazzolla, com um belíssimo “Libertango” que eu deixaria tocando em loop pelo resto dos meus dias.

YO-YO MA – SOUL OF THE TANGO – THE MUSIC OF ASTOR PIAZZOLLA

Astor Pantaleón PIAZZOLLA (1921-1992)

1 – Libertango

2 – Tango suite, para dois violões: Andante

3 – Tango suite, para dois violões: Allegro

4 – Regreso al Amor (da trilha sonora do filme “Sur”)

5 – Le Grand Tango

6 – Fugata

Astor Pantaleón PIAZZOLLA e Jorge CALANDRELLI (1939)

7 – Tango Rememberances

Astor Pantaleón PIAZZOLLA

8 – Mumuki

9 – Tres Minutos con la Realidade

10 – Milonga del Ángel

11 – Café 1930

Yo-Yo Ma, violoncelo

Astor Piazzolla, bandoneón (faixa 7)

Sergio e Odair Assad, violões

Kathrin Scott, piano

Nestor Marconi, bandoneón

Antonio Agri, violino

Horacio Malvicino, violão

Hector Console, contrabaixo

Leonardo Marconi, piano

Gerardo Gandini, piano

Frank Corliss, piano

Edwin Barker, contrabaixo

Jorge Calandrelli, direção musical

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Vassily

De quando Piazzolla aprendeu a fazer caipirinha, por Beto Barreiros (https://www.revistaversar.com.br/memorias-do-box-quando-astor-piazzolla-aprendeu-a-fazer-caipirinha/)

 

 

 

 

 

Dmitri Kabalevsky (1904-1987) – Concerto para piano no. 3, “Juventude” – Gilels – Kabalevsky

0888608558273_600Estava preparando uma postagem pesadíssima para este Dia das Crianças, data frívola criada pelo comércio para, entre outras coisas, vender brinquedos e promover concursos de beleza de bebês lindamente (e, pelo menos para o Brasil, atipicamente) brancos.

A semana, no entanto, foi medonha, e como vocês não têm culpa alguma por estarem vivendo um ensolarado e colorido feriado, resolvi guardar o chumbo grosso para outro dia.

Deixo-lhes hoje este agradável concerto para piano de Kabalevsky, dedicado aos jovens pianistas da União Soviética, que com ele passaram a ter a seu alcance uma obra concertística cheia de verve, sem terem que vencer grandes dificuldades técnicas. O primeiro movimento, particularmente, é muito evocativo da galhardia da juventude. Aqui, o solo fica a cargo de gente bem grande – ninguém menos que o colosso Emil Gilels, que seria capaz de tocá-lo de costas, e com uma só mão -, sob regência do próprio compositor.

Este concerto muito breve, com meros dezoito minutos, será muito familiar aos ouvintes da FM Cultura de Dogville que, como eu, a escutavam nos bons (e velhos) tempos em que ela tocava música erudita. Sempre que sobrava uma brecha na programação, esta gravação de Gilels era um dos “tapa-buracos” de que a rádio lançava mão para arredondar a hora na grade e, quem sabe, permitir que o pessoal do estúdio tomasse um cafezinho.

Dmitri Borisovich KABALEVSKY (1904-1987)

Concerto para piano e orquestra no. 3 em Ré menor, Op. 50, “Juventude”

01 – Allegro molto
02 – Andante con moto
03 – Presto

Emil Gilels, piano
Grande Orquestra Estatal da Rádio e Televisão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Dmitri Kabalevsky, regência

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Emil Gilels - um gigante nada pueril
Emil Gilels – um gigante nada pueril

Vassily Genrikhovich

A Família das Cordas: Per la Viola da Gamba – Hille Perl

51KabaD+lcL._SY355_Se dependesse de mim, cretino gambista subamador, vocês teriam gamba aqui todos os dias.

Como isso acarretaria meu desterro deste pago bloguístico que tanto prezo, eu tento me coordenar. Hoje, entretanto, tenho um bom pretexto: estou a falar dos membros em desuso da Família das Cordas e, ei, a viola da gamba anda, infelizmente, menos em voga do que mereceria.

A situação, claro, já foi pior. É uma lástima, sem dúvidas, que o lindo timbre e som ricamente ressonante da gamba tenham sido preteridos em prol do também belo, mas bem mais robusto violoncelo com cordas de metal, espigão, e outros aditivos mais apropriados a amplas salas de concerto. Por outro lado, é impossível reclamar da qualidade dos gambistas em atividade. Já lhes apresentamos anteriormente o Midas catalão Jordi Savall e o mago italiano Paolo Pandolfo. Hoje, trazemos para vocês Hildegard Perl – Hille, para os íntimos.

Se essas peças todas de Bach serão familiares à maior parte das senhoras e dos senhores, asseguro-lhes que sua roupagem é bastante diferente. A Suíte BWV 1011, transposta para Ré menor, ganha muita riqueza, especialmente nos fugatos do prelúdio. O novo arranjo da Sonata/Suíte BWV 1025, originalmente para violino e cravo e baseada em uma obra para alaúde de Sylvius Leopold Weiss, soa muito mais convincente aqui como trio-sonata, com o alaúde a tocar a parte original de Weiss, e a viola da gamba. Por fim, a Sonata BWV 1029, a única das obras de álbum concebida para a gamba, ganha uma roupagem concertística que a deixa ainda mais parecida com o terceiro Concerto de Brandenburg.

PER LA VIOLA DA GAMBA – HILLE PERL

Johann Sebastian BACH (1685-1750)

Suíte no. 5 para violoncelo solo em Dó menor, BWV 1011
(transcrita para viola da gamba por Hille Perl, transposta para Ré menor)

01 – Prélude
02 – Allemande
03 – Courante
04 – Sarabande
05 – Gavotte I-II
06 – Gigue

Sonata (Suíte) em Lá maior para violino e cravo, BWV 1025
(baseada numa Suíte para alaúde de Sylvius Leopold Weiss e transcrita por Hille Perl para alaúde, viola da gamba e contínuo)

07 – Fantasia
08 – Courante
09 – Rondeau
10 – Sarabande
11 – Menuett
12 – Allegro

Sonata para viola da gamba e cravo no. 3 em Sol menor, BWV 1029
(arranjo de Hille Perl para violino, viola da gamba e contínuo)

13 – Vivace
14 – Adagio
15 – Allegro

Hille Perl, viola da gamba baixo
Lee Santana, alaúde
Andrew Lawrence-King, harpa cruzada*
Veronika Skuplik, violino
Barbara Messmer, viola da gamba baixo

* o termo “harpa cruzada” foi o melhor que encontrei para descrever a harpa sem pedais (em inglês, “double harp”). Se houver tradução melhor, peço a gentileza de me fazerem saber.

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Além de boa, é linda. A gamba, claro.
A gamba de Hille Perl e sua fiel escudeira

Vassily Genrikhovich

Ainda mais Cordas: o Ukulele (Johann Sebastian Bach – Partita em Mi maior, BWV 1006 e outras obras – John King)

51R4BSKPY1LDepois do banjo de ontem, ainda mais tomates?

Pois bem: podem atirá-los, mas não sem antes esquecerem a capa bem tosquinha do CD, desvestirem todas as lembranças que podem ter do ukulele no Feitiço Havaiano a que assistiram nas matinês (para os mais velhos) ou na Sessão da Tarde (para os nem tanto) e deixarem de lado o ranço que possam ter para com seu primo, o cavaquinho: quem assim o fizer, e depuser os tomates, irá se surpreender com a excelência desse disco.

John King (1953-
2009), que teve excelente formação como violonista clássico, dedicou sua vida a granjear reputação para o miúdo ukulele nas salas de concerto. Encomendou instrumentos a excelentes luthiers (um dos quais atende o monstro Julian Bream) e, emprestando ao diminuto braço e às delicadas cordas sua ótima técnica violonística, deixou-nos gravações que deixariam Johann Sebastian totalmente pimpão.

Aqui, King adota a técnica chamada “Campanella” (italiano para “sineta”), que leva cada nota a ser tocada numa corda diferente, resultando num som bastante límpido e ressonante, muito reminiscente daquele de uma harpa. Escutem as transcrições dos excertos de suítes, sonatas e partitas para violino e violoncelo do Demiurgo Bach, não deem muita bola para a transcrição meio perdida do “Jesus, Alegria dos Homens” que encerra o álbum, e deleitem-se!

JOHANN SEBASTIAN BACH – PARTITA NO. 3 AND OTHER WORKS TRANSCRIBED FOR UKULELE – JOHN KING

Johann Sebastian BACH (1685-1750)
transcrições para ukulele de John King

Suíte para violoncelo em Sol maior, BWV 1007

01 – Prelude
02 – Sarabande
03 – Gigue

Suíte para violoncelo no. 6 em Ré maior, BWV 1012

04 – Gavotte I-II

Suíte para violoncelo no. 5 em Dó menor, BWV 1011

05 – Gavotte I-II

Suíte para violoncelo no. 4 em Mi bemol maior, BWV 1010

06 – Bourrée I-II

Partita para violino no. 3 em Mi maior, BWV 1006

07 – Prelude
08 – Loure
09 – Gavotte en rondeau
10 – Menuet I-II
11 – Bourrée
12 – Gigue

O Cravo bem Temperado, livro I – Prelúdio e Fuga em Dó maior, BWV 846

13 – Prelúdio

Cantata “Herz und Mund und Tat und Leben”, BWV 147

14 – Coral: “Jesus bleibet meine freude”

John King, ukulele

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John King - grandes perfumes dos menores frascos
John King – tirando grandes perfumes dos menores frascos

Vassily Genrikhovich

Tous les Matins du Monde/Todas as Manhãs do Mundo – Trilha Sonora Original

Tous les Matins du Monde/Todas as Manhãs do Mundo  – Trilha Sonora Original

47688f586426ddf3d1cd7daf3b9b4c45Anteontem postei uma ótima gravação de obras para viola da gamba, e não demorou para que, entre os comentários, este bonito filme de 1991 fosse lembrado. Para minha surpresa, sua excelente trilha sonora ainda não tinha sido postada por aqui. Por isso, eu me apressei em compartilhá-la com vocês neste domingo.

Dirigido por Alain Corneau e estrelado por Jean-Pierre Marielle e Gérard Dépardieu, “Todas as Manhãs do Mundo” foi um inesperado sucesso para um filme que trata da relação entre dois gambistas franceses do século XVII: o célebre Marin Marais (1656-1728) e seu mestre, o enigmático Monsieur de Sainte-Colombe (ca. 1640-1700). Magnificamente interpretado, fotografado e realizado, e bastante fiel ao romance homônimo em que se baseou, é uma belíssima sucessão de tableaux-vivants acompanhados por uma trilha sonora M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A, a cargo daquele Midas da Música que é Jordi Savall.

Ei-la, pois, para vosso deleite.

TODAS AS MANHÃS DO MUNDO – TRILHA ORIGINAL DO FILME
Direção musical: JORDI SAVALL

Jean-Baptiste LULLY (1632-1687)

01 – Marche pour la Céremonie des Turcs
Le Concert des Nations
Jordi Savall, regência

Marin MARAIS (1656-1728)

02 – Improvisation sur les Folies d’Espagne (excertos)
Jordi Savall, viola da gamba baixo

Jordi SAVALL (1941)

03 – Prélude pour Mr Vauquelin
Jordi Savall, viola da gamba baixo

Monsieur de SAINTE-COLOMBE (ca. 1640-1700)

04 – Gavotte du Tendre

Jordi Savall, viola da gamba baixo

TRADICIONAL, arranjo de Jordi SAVALL

05 – Une jeune fillette
Montserrat Figueras e Maria-Cristina Kiehr, sopranos
Rolf Lislevand, teorbo
Jordi Savall, viola da gamba baixo

Monsieur de SAINTE-COLOMBE

06 – Les Pleurs (versão para viola da gamba solo por Jordi Savall)
Jordi Savall, viola da gamba baixo

07 – “Le Retour”, Concert pour deux violes
Christophe Coin e Jordi Savall, violas da gamba baixo

Marin MARAIS

08 – Pièces de viole, 4e. livre: “La Rêveuse”
Jordi Savall, viola da gamba baixo
Pierre Hantai, cravo
Rolf Lislevand, teorbo

François COUPERIN (1668-1733)

09 – Troisième Leçon de Ténèbres à 2 voix
Montserrat Figueras e Maria-Cristina Kiehr, sopranos
Rolf Lislevand, teorbo
Pierre Hantai, cravo
Jordi Savall, viola da gamba baixo

Marin MARAIS 

10 – Pièces de viole, 4e. livre: “L’Arabesque”
Jordi Savall, viola da gamba baixo
Pierre Hantai, cravo
Rolf Lislevand, teorbo

ANÔNIMO (século XVII), arranjo de Jordi SAVALL

11 – Fantaisie en Mi mineur
Jordi Savall, viola da gamba baixo

Monsieur de SAINTE-COLOMBE

12 – Les Pleurs
Christophe Coin e Jordi Savall, violas da gamba baixo

Marin MARAIS 

13 – Pièces de viole, 4e. livre: “Le Badinage”
Jordi Savall, viola da gamba baixo
Rolf Lislevand, teorbo

14 – Pièces de viole, 2e. livre: “Tombeau por Monsieur de Sainte-Colombe”
Jérôme Hantai e Jordi Savall, violas da gamba baixo
Pierre Hantai, cravo
Rolf Lislevand, teorbo

15 – Pièces de viole, 3e. livre: Muzettes I-II
Jordi Savall, viola da gamba baixo
Pierre Hantai, cravo
Rolf Lislevand, teorbo

16 – Sonnerie de Sainte Geneviève du Mont-de-Paris
Fabio Biondi, violino
Jordi Savall, viola da gamba baixo
Pierre Hantai, cravo
Rolf Lislevand, teorbo

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Um dos belíssimos tableaux-vivants compostos por Alain Corneau
Alguns dos tableaux-vivants criados por Alain Corneau para “Tous les Matins du Monde”


Vassily Genrikhovich

Joaquín Rodrigo (1901-1991) – Concierto de Aranjuez / Isaac Albéniz (1860-1909) – Excertos da Suíte “Iberia” – Paco de Lucía

Joaquín Rodrigo (1901-1991) – Concierto de Aranjuez / Isaac Albéniz (1860-1909) – Excertos da Suíte “Iberia” – Paco de Lucía

71ijOfLdLaL._SL1200_Depois de publicar música tocada em Timbuktu e arredores e de provocar arcadas engulhadas com músicos apresentados como “analfabetos musicais” e “bugres que sabem tocar”, venho trazer ainda mais desconforto aos puristas com este álbum em que Paco de Lucía, um dos grandes nomes do flamenco, toca música erudita.

Os sumo-sacerdotes do purismo e parte da crítica, claro, caíram de tacape em cima do solista quando o disco foi lançado em 1992, por ocasião do jubileu da chegada de Colombo às Américas. Chamaram-no, entre outras coisas, de bufão e pretensioso, acusaram-no de desrespeitar as intenções do compositor e atacaram-no, óbvio, por ser um músico de flamenco e, por isso, supostamente incapaz de tocar música de concerto.

[quanto às acusações de desrespeito ao compositor, sugiro que prestem atenção no senhor idoso que aparece em segundo plano na capa do CD, à direita: ele é o PRÓPRIO Joaquín Rodrigo, que supervisionou pessoalmente a gravação. Sem mais.]

O público adorou, Rodrigo adorou, eu adorei, e o disco envelheceu muito bem. Como que para alimentar as acusações de seus detratores, Paco trouxe para o “Concierto de Aranjuez”, sem nenhum constrangimento, toda a sua caixa de ferramentas flamencas, e a abriu em sua interpretação: estão lá os ataques furibundos às cordas, os efeitos percussivos, as articulações características. O que ele conseguiu, ao menos para os meus ouvidos, foi fazer o “Concierto” soar vigoroso como nunca, com um frescor inédito.

CLARO que essa gravação, apesar de suas qualidades, não tem UMA GOTA SEQUER de violão clássico (soletando para quem ainda não entendeu: P-A-C-O D-E L-U-C-Í-A). Por isso, lógico, os devotos dessa escola provavelmente odiarão a interpretação, da qual sugiro que passem ao largo.

Aos demais, o que eu e meu ouvido bruto e pouco preconceituoso lhes podemos dizer é que, depois de Paco, se tornou muito inglória a tarefa de escutar outras interpretações do “Concierto” sem o élan que ele traz a esta figurinha tão fácil quanto linda do repertório do violão.

Três excertos da Suíte Iberia de Isaac Albéniz, transcritos mui idiomaticamente para trio de violões, completam essa gravação de que vocês podem até não vir a gostar, mas que recomendo muito conhecer.

CONCIERTO DE ARANJUEZ DE JOAQUÍN RODRIGO
interpretado por PACO DE LUCÍA

Joaquín RODRIGO Vidre (1901-1999)

Concierto de Aranjuez em Ré maior para violão e orquestra

01 – Allegro con espirito
02 – Adagio
03 – Allegro gentile

Paco de Lucía, violão
Orquesta de Cadaqués
Edmon Colomer, regência

Isaac Manuel Francisco ALBÉNIZ y Pascual (1860-1909)

Três peças da Suite Iberia

04 – Triana
05 – El Albaicín
06 – El Puerto

Paco de Lucía, José María Bandera e Juan Manuel Cañizares, violões

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Joaquín Rodrigo (1901-1999), cego desde os três anos de idade, foi prolífico compositor, virtuoso ao piano e, numa bonita homenagem da Coroa espanhola, o primeiro e único Marquês dos Jardins de Aranjuez
Joaquín Rodrigo (1901-1999), cego desde os três anos de idade, foi prolífico compositor, virtuoso ao piano e, numa bonita homenagem da Coroa Espanhola, o primeiro Marquês dos Jardins de Aranjuez

Vassily Genrikhovich

Ainda mais Cordas: o Banjo (Perpetual Motion – Béla Fleck)

51ZgNDY+BULPassada em revista a parte da família das cordas que é tocada com arcos, enveredamos por um outro ramo da família com quem os arcos não falam muito, pois as salas de concerto costumam torcer-lhes os narizes: aquele das cordas dedilhadas.

Antes que me joguem os tomates, ou me perguntem por que exus eu não apus a palavrinha .:interlúdio:. ao título de uma gravação, vejam só, de banjo, de BANJO, de B A N J O! incongruentemente atirada no meio das sacrossantas interpretações dos Pollinis e Bernsteins que os blogueiros não-vassílycos publicam por aqui, bem, antes que venham os apupos, os “foras!” e que me defenestrem, eu antecipadamente me defendo: Béla Fleck é um TREMENDO músico e merece ser ouvido.

Ok, o repertório do CD é um balaio de gatos cheio de figurinhas fáceis do repertório das coleções “The Best of”, só que ele é feito sob medida para Fleck exibir com sobras seu talento. Asseguro-lhes que dificilmente ouvirão um banjo ser tocado com tanta maestria, ainda mais acompanhado por músicos do naipe de, entre outros, Joshua Bell, John Williams e Edgar Meyer. No final, para relaxar, Fleck colocou uma ótima versão bluegrass do “Moto Perpétuo” de Paganini, mas ela está claramente identificada como tal e os puristas entre vós outros poderão deletá-la antes que ela fira algum ouvido.

E, se vocês acharam interessante o Fleck ter o nome de Béla, saibam que o nome completo do cavalheiro é Béla Anton Leoš Fleck. Sim: uma homenagem ao grande Béla, àquele Anton e a este Leoš.

PERPETUAL MOTION – BÉLA FLECK

Domenico SCARLATTI (1685-1757)
01 – Sonata em Dó maior, K. 159

Johann Sebastian BACH (1685-1750)
02 – Invenção a duas vozes no. 13 em Lá menor, BWV 784

Claude-Achille DEBUSSY (1862-1918)
03 – Children’s Corner, L. 113 – “Doctor Gradus ad Parnassum”

Fryderyk Franciszek CHOPIN (1810-1849)
04 – Mazurkas, Op. 59 – no. 3 em Fá sustenido menor

Johann Sebastian BACH
05 – Partita no. 3 em Mi maior, BWV 1006 – Prélude

Fryderyk Franciszek CHOPIN
06 – Études, Op. 10 – no. 4 em Dó sustenido menor
07 – Mazurkas, Op. 6 – no. 1 em Fá sustenido menor

Johann Sebastian BACH
08 – Invenção a três vozes (Sinfonia) em Sol maior, BWV 796

Pyotr Ilyich TCHAIKOVSKY (1840-1893)
09 – Souvenir d’un lieu cher, Op. 42 – no. 3: Mélodie

Johannes BRAHMS (1833-1897)
10 – Cinco estudos para piano, Anh. 1a/1 – no. 3 em Sol menor, após Johann Sebastian Bach

Johann Sebastian BACH
11 – Suíte no. 1 em Sol maior, BWV 1007 – Prelude
12 – Invenção a três vozes (Sinfonia) em Si menor, BWV 801

Niccolò PAGANINI (1782-1840)
13 – Moto Perpetuo, Op. 11

Domenico SCARLATTI
14 – Sonata em Ré menor, K. 213

Johann Sebastian BACH
15 – Invenção a duas vozes no. 6 em Mi maior, BWV 777

Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
16 – Sonata no. 14 em Dó sustenido menor, Op. 27 no. 2, “Luar” – Adagio sostenuto

Johann Sebastian BACH
17 – Invenção a duas vozes no. 11 em Sol menor, BWV 782

Ludwig van BEETHOVEN
18 – Sete Variações sobre “God Save the King”, WoO 78

Johann Sebastian BACH
19 – Invenção a três vozes (Sinfonia) em Mi menor, BWV 793

Niccolò PAGANINI
arranjo de James Bryan Sutton
12 – Moto Perpetuo, Op. 11 (versão bluegrass)

Béla Fleck, banjo
Joshua Bell, violino
Gary Hoffmann, violoncelo
Evelyn Glennie, marimba
Edgar Meyer, contrabaixo
Chris Thile, bandolim
James Bryan Sutton, violão folk
John Williams, violão

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Vassily Genrikhovich

 

A Família das Cordas: La Lira d’Esperia – Jordi Savall

51DGT6SWMXLAo longo da próxima semana – e na falta de outra ideia para navegar a pantagruélica discoteca arquivada no PQP Share – apresentaremos uma breve minissérie dedicada à família das cordas.

Já que a cortesia manda sempre começarmos com os mais velhos, deixo-lhes esta gravação em que o Midas Jordi Savall maneja alguns ancestrais dessa família, entre os quais a viela (vieille, antecedente imediata da lira da braccio que eventualmente chegaria à viola) e o rebab mourisco. O eclético repertório compõe-se de cantigas e danças medievais de vários lugares da Europa, incluindo peças do Norte da África e canções sefarditasacompanhadas de toques muito econômicos de percussão.

LA LIRA D’ESPERIA – JORDI SAVALL

01 – Rotundellus (Galícia – Cantiga 105)
02 – Lamento (Adrianopoli, sefardita)
03 – Danza de las Espadas (Argel, El Kantala)
04 – Istampitta – In Pro (Itália, manuscrito do século XIII)
05 – Saltarello (Itália, manuscrito do século XIII)
06 – Ritual (Argel, Zendani)
07 – El Rey de Francia (Esmirna, sefardita)
08 – Danza Ritual (Galícia, Cantiga 353)
09 – Istampitta – La Manfredina (Itália, manuscrito do século XIII)
10 – Trotto (Itália, manuscrito do século XIII)
11 – Albra (Castellón de la Plana)
12 – Paxarico tu te llamas (Sarajevo, sefardita)
13 – Danza del Viento (Argel, berber)
14 – Istampitta – Lamento di Tristano (Itália, manuscrito do século XIII)
15 – Saltarello (Itália, manuscrito do século XIII)
16 – Ductia (Galícia, Cantiga 248 – Gasconha)

JORDI SAVALL, viela, rebab, rebel mourisco
PEDRO ESTEVAN, percussão

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Vassily Genrikhovich

Até onde sei, Savall jamais gravou com essa lira da braccio. Ah, mas deveria.
Até onde sei, Savall jamais gravou com essa lira da braccio.
Só lamento.

 

Julian & John – Julian Bream e John Williams

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Dois monstros do violão clássico tocando juntos: o inglês Julian Bream e o australiano John Williams.

Preciso dizer mais?

Mais, então, não digo.

Desfrutem!

JULIAN BREAM & JOHN WILLIAMS – JULIAN AND JOHN

William LAWES (1602-1645)

Suíte para dois alaúdes

01 – Corant 1
02 – Alman
03 – Corant 2

Ferdinando Maria Meinrado Francesco Pascale Rosario CARULLI (1770-1841)

Duo em Sol maior para dois violões, Op. 34 no. 2

04 – Largo
05 – Rondo

Ferran (Fernando) SOR i Muntades (1778-1839)

L’encouragement em Sol maior para dois violões, Op. 34 no. 4

06 – Cantabile
07 – Tema con variazioni
08 – Valsa

Isaac Manuel Francisco ALBÉNIZ y Pascual (1860-1909)

09 – Cantos de España, Op. 232 – No. 4: Córdoba

Enrique GRANADOS y Campiña (1867-1916)

10 – Goyescas – Intermezzo

Manuel de FALLA y Matheu (1876-1946)

11 – “La Vida Breve” – Danza española

Joseph-Maurice RAVEL (1875-1937)

12 – Pavane pour une Infante Défunte

Gabriel Urbain FAURÉ (1845-1924)

Dolly, Suíte Op. 56

13 – Berceuse
14 – Mi-a-ou
15 – Le Jardin de Dolly
16 – Kitty-Valse
17 – Tendresse
18 – Le pas espagnol

Enrique GRANADOS y Campiña

19 – Danças Espanholas, Op. 37 – no. 2: Oriental

Julian Bream e John Williams, arranjos e violões

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Eis o OUTRO John Williams famoso, compositor estadunidense de trilhas sonoras, e que tá de saco cheio de que lhe peçam para tocar um violãozinho
Eis o OUTRO John Williams famoso, o compositor estadunidense de trilhas sonoras, que está de saco cheio de que lhe peçam para tocar um violãozinho

Vassily Genrikhovich

O Mestre Esquecido, Capítulo 4 (Chopin – Valsas – Antônio Guedes Barbosa)

R-4836621-1377025177-5564.jpegConvidamos os fãs do Mestre Esquecido a acompanharem o GRUPO “ANTÔNIO GUEDES BARBOSA” no Facebook.

É com imensa satisfação que anunciamos, após algumas negociações no mercado negro internacional de LPs, uma ação de contrabando confesso e a inestimável ajuda de um leitor-ouvinte do PQP Bach, que dispomos agora da DISCOGRAFIA COMPLETA do genial Antônio Guedes Barbosa – conquista que comemoraremos ao postá-la, pouco a pouco, por aqui!

Chegamos àquela que é talvez a maior gravação do Mestre Esquecido: as quatorze valsas de Chopin que tomaram o público de assalto, que piraram completamente o cabeção da crítica e formaram um dos pouquíssimos álbuns dele lançados comercialmente neste Brasil insensato que tão pouco o conhece.

Sou tão tiete dessa gravação que me faltam até os superlativos para descrevê-la. Trata-se, simplesmente, da melhor interpretação que conheço para estas obras, que só podem ser chamadas de menores por quem nunca escutou Barbosa tocá-las. Elegância, precisão, humor, brilho… nada falta. Talvez sobre rubato, mas a gente perdoa, tamanha a musicalidade que, acima de tudo e de todos, transborda de cada faixa.

É escutar e catapultar imediatamente para o panteão dos favoritos.

CHOPIN – AS 14 VALSAS
ANTÔNIO GUEDES BARBOSA

Fryderyk Franciszek CHOPIN (1810-1849)

01 – Grande Valse Brillante em Mi bemol maior, Op. 18
02 – Três Valsas, Op. 34 – No. 1 em Lá bemol maior
03 – Três Valsas, Op. 34 – No. 2 em Lá menor
04 – Três Valsas, Op. 34 – No. 3 em Fá maior
05 – Valsa em Lá bemol maior, Op. 42
06 – Três Valsas, Op. 64 – No. 1 em Ré bemol maior
07 – Três Valsas, Op. 64 – No. 2 em Dó sustenido menor
08 – Três Valsas, Op. 64 – No. 3 em Lá bemol maior
09 – Duas Valsas, Op. 69 – No. 1 em Lá bemol maior
10 – Duas Valsas, Op.69 – No. 2 em Si menor
11 – Três Valsas, Op. 70 – No. 1 em Sol bemol maior
12 – Três Valsas, Op. 70 – No. 2 em Fá menor
13 – Três Valsas, Op. 70 – No. 3 em Ré bemol maior
14 – Valsa em Mi maior, WN 18

Antônio Guedes Barbosa, piano
(de um CD esgotado da extinta Kuarup Klassics, que eu tenho há vinte e cinco anos e não vendo por dinheiro algum!)

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Suas imagens são tão difíceis de encontrar quanto tuas gravações, Toninho!

 

Vassily Genrikhovich

Johann Sebastian Bach (1685-1750) – Suítes para Violoncelo Solo – Julius Berger

Johann Sebastian Bach (1685-1750) – Suítes para Violoncelo Solo – Julius Berger

MI0001033551Depois de minha estreia neste eudaimônico blogue, ainda sob os auspícios do patrono PQP Bach, prossigo em minha bicicleta, e já sem rodinhas, a largar música por suas veredas.

Começo com uma gravação que toca em cheio as fibras deste coração ademais durão: nada menos do que o primeiro CD importado que comprei, ainda no século passado.

Para os jovens entre vós outros que não entendem nem o fascínio de um CD importado, nem muito menos como poderia ele amaciar miocárdio tão rijo, eu explico:

Naqueles medonhos tempos em que não só se votava no Collor com esperança, mas também no Afif por causa do jingle, eu comprei meu primeiro CD player, então conhecido como “toca-discos-laser”. A indústria fonográfica brasileira já investia sua sanha caça-níqueis em explorar, como é de sua praxe, os veios do lucro fácil e abundante. Como bem se sabe, aqui ao sul do Equador tais mananciais estão sempre mais próximos do telecoteco e das letras marotas do que de qualquer coisa que envolva arcos, espigões e cordas de tripa. Por conta disso, os lançamentos nacionais em música erudita restringiam-se essencialmente a um punhado de gravações remixadas em compact discs por uma empresa, cujo nome não mencionarei aqui por, assim digamos, responsabilidade jurídica. Pois aquele inominado moedor de som tinha o peculiar talento de fazer até mesmo a Filarmônica de Berlim completa, tocando a “Abertura 1812” de Tchaikovsky com coro, carrilhões e canhão, soar como a charanga do Brasil de Pelotas (nada contra) a tocar do fundo de um tarro de leite – e, cúmulo do ultraje, ainda acondicionar os tristes produtos em caixinhas meio foscas e ganhar dinheiro com isso.

Havia, lógico, alternativas à agonia e ao desespero. Lojas especializadas e ar-condicionadas ofereciam uma cornucópia de gravações importadas para quem – em dólares, de preferência – se dispusesse a pagar por elas. A mim, espinhudo estudante, que não só vivia de mesada, mas ainda por cima mesada em cruzados novos (eu lhes falei que os tempos eram medonhos!), restavam só dois expedientes: o plantão permanente ao pé do dito três-em-um, munido de minhas fitas virgens, pronto para pulsar o “REC” a cada anúncio de obra favorita, ou, como já se disse, os fanhosos lançamentos da gravadora-da-qual-não-se-diz-o-nome.

Entre minhas jornadas no purgatório de melômano de classe média, eu peregrinava aos frescos templos ladrilhados de CDs da Deutsche Grammophon e ficava lá a gastar as horas, que me sobravam mais do que o dinheiro, a sorver o ar gelado, escutar os entreveros dos ubíquos anciãos que pareciam capazes de matar ou morrer por Karajan ou Celibidache – e, ah sim, salivar muito de cobiça.

Antes que encontremos Pollyana Moça e comecemos com ela o jogo do contente, eu pego a contramão, engato a segunda e lhes conto que houve um dia em que me caíram no colo cinquenta dólares, cuja origem não revelo nem sob tortura chinesa, que me eram suficientes para não somente uma, mas sim para DUAS daquelas cobiçadas caixinhas repletas de prazer aural.

Corri, claro, feito um Dodge à minha loja preferida. Quando cheguei, o proprietário – um híbrido do Homer Simpson com o Shylock d’O Mercador de Veneza – acabara de colocar uma gravação no toca-discos-laser, que é a mesma que vocês escutarão na faixa 1 do primeiro CD a seguir.

Que dizer daquilo?

Ainda hoje não saberia responder. Se daquele transe me sobrasse um neurônio sequer para uma palavra, ele me gritaria “SUBLIME”. E, enquanto meus sentidos viravam suco, um violoncelo – instrumento que eu tolamente acreditara ser monódico – tecia, em semicolcheias, engenhosas ilusões de harmonia e movimento.

Nem percebi o dinheiro trocando de mãos. Para Shylock Simpson, aquele foi tão só o tilintar de mais um punhado de dobrões. Para mim, jovem melômano, eram as chaves para um devoto amor que eu nunca mais deixaria.

E mais não lhes digo acerca da música, pois se eu lhe pudesse descrever a beleza em palavras, ela não precisaria, enfim, ser música.

JOHANN SEBASTIAN BACH (1685-1750)

SEIS SUÍTES PARA VIOLONCELO SOLO, BWV 1007-1012

JULIUS BERGER, violoncelo de cinco cordas (Jan Pieter Rambouts, Amsterdam, 1700)

CD 01

SUÍTE NO. 1 EM SOL MAIOR, BWV 1007

01 – Prélude
02 – Allemande
03 – Courante
04 – Sarabande
05 – Menuet I & II
06 – Gigue

SUÍTE NO. 4 EM MI BEMOL MAIOR, BWV 1010

07 – Prélude
08 – Allemande
09 – Courante
10 – Sarabande
11 – Bourrée I & II
12 – Gigue

SUÍTE NO. 5 EM DÓ MENOR, BWV 1011

13 – Prélude
14 – Allemande
15 – Courante
16 – Sarabande
17 – Gavotte I & II
18 – Gigue

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CD 02

SUÍTE NO. 2 EM RÉ MENOR, BWV 1008
01 – Prélude
02 – Allemande
03 – Courrante
04 – Sarabande
05 – Menuet I & II
06 – Gigue

SUÍTE NO. 3 EM DÓ MAIOR, BWV 1009

07 – Prélude
08 – Allemande
09 – Courante
10 – Sarabande
11 – Bourrée I & II
12 – Gigue

SUÍTE NO.6 EM RÉ MAIOR, BWV 1012

13 – Prélude
14 – Allemande
15 – Courante
16 – Sarabande
17 – Gavotte I & II
18 – Gigue

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Julius Berger, todo faceirão
Julius Berger, todo faceirão

Vassily

Vladimir Horowitz – The Last Recording (1989)

51QBA35W04LPara o pavor de um de nossos colaboradores, que chama Vladimir Samoylovich (Volodya, para os íntimos) de “Horrorowitz”, pretendo trazer para cá um tanto do legado de um dos maiores pianistas do século XX.

A longa carreira de Horowitz acompanhou a evolução dos meios de gravação, dos rolos do processo Welte-Mignon (uma versão mais sofisticada da pianola), passando pelos discos de 78 rpm e chegando aos meios digitais. Seus altos e baixos foram, também, fartamente documentados: entre a fúria maníaca do jovem virtuose recém-chegado aos Estados Unidos, para quem nada parecia impossível, e o pianista decadente, cada vez mais maneirista e sequelado pela insegurança e pelos psicotrópicos, Horowitz foi um artista de poucos meios-termos. Em sua última década de vida, que começou com recitais lamentáveis, capazes de enfurecer até mesmo as pacientes plateias japonesas, redimiu-se pelo uso mais comedido de seus truques pianísticos e (dentro do que lhe era possível) uma placidez mais atenta às intenções dos compositores.

Esta gravação, dias antes de sua morte, é uma de suas melhores. Predomina Chopin, interpretado com muito colorido e elegância. O destaque é uma Fantasia-Improviso não só fiel à partitura, mas também impressionantemente ágil para dedos de 86 anos. Os Noturnos de Chopin fazem a gente lamentar que Horowitz tenha gravado poucas outras obras da série, e a Sonata de Haydn beira a perfeição. Concluir o álbum com “Liebestod” e morrer meros cinco dias depois de seu último acorde foi, suspeitam alguns, o último gesto apelativo desse grande pianista.

VLADIMIR HOROWITZ – THE LAST RECORDING

Joseph HAYDN (1732-1809)

Sonata em Mi bemol maior para piano, Hob. XVI:49

01 – Allegro
02 – Adagio e cantabile
03 – Finale – Tempo di menuetto

Fryderyk Franciszek CHOPIN (1810-1849)

04 – Mazurca em Dó menor, Op. 56 no. 3
05 – Noturno em Mi bemol maior, Op. 55 no. 2
06 – Fantasia-Improviso em Dó sustenido menor, Op.66
07 – Estudo em Lá bemol maior, Op. 25 no. 1
08 – Estudo em Mi menor, Op. 25 no. 5
09 – Noturno em Si maior, Op. 62 no. 1

Ferenc LISZT (1811-1886)

10 – Prelúdio sobre um tema da cantata “Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen” de J. S. Bach, S. 179

Wilhelm Richard WAGNER (1813-1883)
transcrição de Franz Liszt

11 – Tristan und Isolde – Isoldes Liebestod

Vladimir Horowitz, piano

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Obrigado, Volodya!
Obrigado, Volodya!

Vassily Genrikhovich

In memoriam Jessye Norman (1945-2019) – Georges Bizet (1838-1875) – “Carmen”, ópera em quatro atos

In memoriam Jessye Norman (1945-2019) – Georges Bizet (1838-1875) – “Carmen”, ópera em quatro atos

Escrever às pressas, inda mais premido pela comoção, sempre é ingrato, quanto mais se é para lamentar a perda de alguém tão extraordinário quanto Jessye Norman, que nos deixou ontem. Nada que eu nestas linhas colocasse faria justiça à sua grandeza. Nada evocaria a beleza de sua voz, poderosa e inconfundível, a serviço de um repertório vasto e coerente, sempre alimentado pelos desafios que a levaram de Legrand a Schoenberg, e mesmo a encarar a demoníaca prosódia magiar no “Castelo do Barba-Azul” de Bartók sob Boulez. E nada que eu lhes trouxesse, nada em absoluto, estaria à altura de sua trajetória inesquecível, da Geórgia racista sob as leis de Jim Crow às plateias e aos ouvidos do planeta.

Por isso, paro por aqui.

“No final das contas”, disse Jessye numa entrevista, “na hora de escolher o que cantar, eu me faço apenas uma pergunta: posso falar das profundezas do meu ser com essa canção, com esse papel na ópera? Se posso, canto”.

E foi assim, caros leitores-ouvintes, que Jessye Norman nos falou através de Carmen.

ooOoo

Alexandre César Léopold (dito Georges) BIZET (1838-1875)

Carmen, opéra-comique em quatro atos, sobre libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, baseado na novela homônima de Prosper Mérimée

Jessye Norman – Carmen
Neil Schicoff  – Don José
Mirella Freni – Micaëla
Simon Estes – Escamillo
Chœur de Radio France
Maîtrise de Radio France
Orchestre National de France
Seiji Ozawa, regência

DISCO 1

1 – Prélude

ATO 1
2  – Sur la place chacun passe
3 – Regardez donc cette petite qui semble vouloir nous parler
4 – Avec la garde montante nous arrivons, nous voilà
5 – Il Y A Une Jolie Fille Qui Est Venue Te Demander
6 – Et La Garde Descendante Rentre Chez Elle Et S’en Va
7 – Dites-moi, Brigadier ?
8 – La Cloche A Sonné
9 – Dans l’Air, Nous Suivons Des Yeux La Fumée
10 – Mais Nous Ne Voyons Pas La Carmencita !
11 – Quand Je Vous Aimerai ? … L’Amour Est Un Oiseau Rebelle (Havanaise)
12 – Carmen ! Sur Tes Pas Nous Nous Pressons Tous !
13 – Qu’est-ce Que Ca Veut Dire, Ces Façons-Là ?
14 – Parle-Moi De Ma Mère !
15 – Ma Mère, Je La Vois, Oui, Je Revois Mon Village !
16 – Attends Un Peu Maintenant… Je Vais Lire Sa Lettre
17 – Au Secours !
18 – Voyons Brigadier
19 – Avez-Vous Quelque Chose A Répondre ? – Tra La La La
20 – Où Me Conduirez-Vous ?
21 – Près Des Remparts De Séville (Séguidille)… Tais-Toi
22 – Le Lieutenant !… Prenez Garder ! – Voici L’Ordre

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DISCO 2

1 – Entr’acte 1:45

ATO 2
2 – Les Tringles Des Sistres Tintaient
3 – Vous Avez Quelque Chose A Nous Dire, Maître Lillas Pastia ?
4 – Votre Toast, Je Peux Vous Le Rendre, Señors
5 – Messieurs Les Officiers, Je Vous En Prie
6 – Le Dancaïre Et Le Remendado Ont A Vous Parler De Vos Affaires
7 – Nous Avons En Tête Une Affaire !
8 – En Voìlà Assez ; Je T’ai Dit Qu’il Fallait Venir, Et Tu Viendras
9 – Je Vais Danser En Votre Honneur
10 – Au Quartier ! Pour L’appel ! … Ah! J’étais Vraiment Trop Bête !
11 – La Fleur Que Tu M’avais Jetée
12 – Non ! Tu Ne M’aimes Pas !
13 – Holà ! Carmen ! Holà ! Holà !
14 – Bel Officier, L’amour Vous Joue En Ce Moment Un Assez Vilain Tour !

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DISCO 3

1 – Entr’acte

ATO 3
2 – Ecoute, Compangon, Ecoute
3 – Halte ! Nous Allons Nous Arreter Ici
4 – Mêlons ! Coupons !
5 – Carreau ! Pique ! … La Mort !
6 – Eh Bien ?
7 – Quant Au Douanier, C’est Notre Affaire !
8 – C’est Ici
9 – Je Dis Que Rien Ne M’épouvante
10 – Mais… Je Ne Me Trompe Pas… C’est Don José !
11 – Je Suis Escamillo, Torero De Grenade !
12 – Holà, Holà, José !
13 – Halte ! Quelqu’un Est Lâ Qui Cherche A Se Cacher !

14 – Entr’acte

ATO 4
15 – À Dos Cuartos ! À Dos Cuartos !
16 – Qu’avez-vous Donc Fait De La Carmencita ?
17 – Les Voici ! Les Voici ! Voici La Quadrille !
18 – Si Tu M’aimes, Carmen, Tu Pourras, Tout À L’heure, Être Fière De Moi !
19 – C’est Toi ! – C’est Moi !

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❤️️

Vassily Genrikhovich

John Field (1782-1837) – Noturnos para piano – John O’Conor

John Field (1782-1837) – Noturnos para piano – John O’Conor

410VHTXwnvLVocês achavam que não voltariam tão cedo a ouvir O’Conor, não é?

Pois se enganaram – ou, como diriam os saudosos sbornianos de “Tangos & Tragédias”, “essa história não se ESTÂNNCA por aqui”.

Ei-lo aqui tocando a série de Noturnos de seu compatriota Field, notável como precursor do gênero que Chopin celebrizaria. Já publicamos anteriormente uma gravação das mesmas obras num piano Broadwood, então sugerimos compará-la com o que Field tem a dizer com seu Steinway de Hamburgo.

Ainda sobre O’Conor, quem ainda não tem urticária à menção de seu nome tem a recomendação de assistir ao documentário a seguir, o “Campo de Recrutas Beethoven”, que acompanha a rotina de um curso de imersão em Positano, na costa amalfitana, e as masterclasses com jovens pianistas. Não há legendas, e o espesso sotaque irlandês de O’Conor fica às vezes pouco inteligível, especialmente nos mui frequentes momentos de entusiasmo, mas acho que serão cinquenta e poucos minutos bastante agradáveis para quem apreciou suas Sonatas de Beethoven:

JOHN FIELD – THE NOCTURNES – JOHN O’CONOR

John FIELD (1782-1837)

Noturnos para piano

01 – Noturno em Mi bemol maior
02 – Noturno em Dó menor
03 – Noturno em Lá maior
04 – Noturno em Si bemol maior
05 – Noturno em Fá maior
06 – Noturno em Lá maior
07 – Noturno em Mi bemol maior
08 – Noturno em Mi menor
09 – Noturno em Mi bemol maior
10 – Noturno em Sol maior
11 – Noturno em Ré menor
12 – Noturno em Dó maior
13 – Noturno em Dó maior
14 – Noturno em Fá maior
15 – Midi em Mi maior

John O’Conor, piano

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A carinha de jujuba do simpático O'Conor não volta tão cedo, prometo!
A carinha de jujuba do simpático O’Conor não volta tão cedo, prometo!

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (9/9)

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (9/9)

51s2PP-lgOLE eis que chegamos ao volume que encerra esta maratona Beethoven com John O’Conor.

O critério para este CD, claro, foi um só: “sobras sortidas”. É a única explicação para justapor a curiosa e incomumente longa Sonata op. 7, de 1796, com a ótima Sonata “quasi una Fantasia” Op. 27 no. 1, injustamente eclipsada por sua irmã famosa de Opus e, acredito, obra superior em termos de arrojo e invenção. No meio delas, a pouco ouvida Sonata Op. 22, altamente estimada por Beethoven e talvez a última de suas obras mais convencionais no gênero.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. IX – JOHN O’CONOR

Sonata no. 4 em Mi bemol maior, Op. 7

01 – Molto allegro e con brio
02 – Largo, con gran espressione
03 – Allegro
04 – Rondo: Poco allegretto e grazioso

Sonata no. 11 em Si bemol maior, Op. 22

05 – Allegro con brio
06 – Adagio con molta espressione
07 – Menuetto
08 – Rondo: Allegretto

Sonata no. 13 em Mi bemol maior, Op. 27 no. 1, “Quasi una Fantasia”

06 – Andante
07 – Allegro molto e vivace
08 – Adagio con espressione
09 – Allegro vivace

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John O’Conor, piano

Um jovem e cabeludo John
Um jovem e cabeludo John

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (8/9)

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (8/9)

519ZGuJ2TBLChegamos ao penúltimo CD da série e à colossal, mastodôntica, ___________ [insira aqui seu adjetivo superlativo favorito] Sonata Op. 106, vulgo “Hammerklavier”.

Como a peça dispensa apresentações, vou incorporar o espírito de alguém que nada mais tem a fazer além de chover no molhado. Escolho o de Anton Schindler, o factotum de Beethoven, notório por muito atochar em sua biografia do compositor e adulterar os cadernos de conversação que o compositor, completamente surdo, usava para se comunicar, e que serviram de base para pesquisas biográficas. Já imbuído do espírito do famoso trouxão, faço aqui algumas perguntas bestas:

– O título “Sonata für das Hammerklavier” (“sonata para o piano de martelos”) explicita o instrumento preferido do compositor numa época em que o pianoforte, o clavicórdio e o cravo eram usados para tocar as sonatas de Beethoven. Se o título também foi usado para a Sonata Op. 101, por que o apelido colou somente na Op. 106?

– Se já na Sonata Op. 90 Beethoven começou a preferir indicar o andamento e as indicações de expressão em seu alemão nativo a fazê-lo no italiano de praxe, por que na mamútica, transcendental “Hammerklavier” ele voltou a recorrer à língua do Petrarca?

– Quando descreveu a fuga final como “a tre voci, con alcune licenze” (“a três vozes, com algumas licenças”), estaria Ludwig imaginando que alguém realmente se importaria com as liberdades que tomou em relação às estritas regras da forma, em vez de se chocar, como até hoje nos chocamos, com esta mais difícil e complexa de todas as fugas para teclado???

– Será possível algum dia escutar alguma interpretação plenamente satisfatória desta obra enorme e horrendamente difícil? E, se ela já existe, qual é? (para mim, a versão de Pollini era a preferida até escutar aquela do MAGO Sokolov, que algum dia postarei aqui)

– Vocês têm interesse de escutar uma versão da “Hammerklavier” para orquestra? Ou vão me crucificar de cabeça para baixo por isso?

Cartas para a redação.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. VIII – JOHN O’CONOR

Sonata no. 27 em Mi maior, Op. 90

01 – Mit Lebhaftigkeit und durchaus mit Empfindung und Ausdruck [“com vivacidade e ao longo [de todo o movimento] com sentimento e expressão”]
02 – Nicht zu geschwind und sehr singbar vorgetragen [“não tão rápido e executado de maneira cantável”]

Sonata no. 28 em Lá maior, Op. 101

03 – Etwas lebhaft und mit der innigsten Empfindung [“algo vivaz, com o mais profundo sentimento”]
04 – Lebhaft, marschmäßig [“vivo, como marcha”]
05 – Langsam und sehnsuchtsvoll [“lento e saudoso”] – Geschwind, doch nicht zu sehr und mit Entschlossenheit [“rápido, mas não demais, e com muita determinação”]

Sonata no. 29 em Si bemol maior, Op. 106, “Hammerklavier”

06 – Allegro
07 – Scherzo: Assai Vivace
08 – Adagio sostenuto
09 – Largo: allegro risoluto – Fuga a tre voci, con alcune licenze

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John O’Conor, piano

A única maneira que concebo - além da feitiçaria - de tocar a contento a fuga final da "Hammerklavier"
A única maneira que concebo – além da feitiçaria – de tocar a contento a fuga final da “Hammerklavier”

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (7/9)

51l4YSHtgNLPara a sétima estação da odisseia de John O’Conor com as sonatas de Beethoven, a Telarc resolveu reunir todas as sonatas curtinhas em um só volume.

Essas obras são tão breves que nenhuma delas chega sequer perto de durar tanto quanto o Adagio sostenuto da Sonata “Hammerklavier”, que encontraremos no volume seguinte. Meu xodó entre elas, apesar de seus singelos dois movimentos, é a Sonata Op. 78, cognominada “À Thérèse”, que é das obras-primas mais concisas de Beethoven, na bonita e incomum tonalidade de Fá sustenido maior.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. VII – JOHN O’CONOR

Sonata no. 9 em Mi maior, Op. 14 no. 1

01 – Allegro
02 – Allegretto
03 – Rondo: Allegro comodo

Sonata no. 10 em Sol maior, Op. 14 no. 2

04 – Allegro
05 – Andante
06 – Scherzo: Allegro assai

Sonata no. 19 em Sol menor, Op. 49 no. 1

07 – Andante
08 – Rondo: Allegro

Sonata no. 20 em Sol menor, Op. 49 no. 2

09 – Allegro ma non troppo
10 – Tempo di menueto

Sonata no. 22 em Fá maior, Op. 54

11 – In tempo d’un menuetto
12 – Allegretto

Sonata no. 24 em Fá sustenido maior, Op. 78

13 – Adagio cantabile
14 – Allegro vivace

Sonata no. 25 em Sol maior, Op. 79

15 – Presto alla tedesca
16 – Andante
17 – Vivace

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John O’Conor, piano

John O'Conor e um amigo em trajes maneiros
John O’Conor e um amigo em trajes maneiros

 

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (6/9)

51Vdjr-N3LLSe a Telarc não começou a série do começo, não poderíamos esperar que ela terminasse pelo fim, não é mesmo? Pois as três últimas sonatas de Beethoven aqui estão, no miolo, o que as tira do contexto como as obras culminantes do compositor para seu instrumento favorito (embora ele ainda viesse a parir as geniais Variações Diabelli). Na minha opinião, não há testamento mais impressionante de uma evolução artística do que comparar as Sonatas op. 2, redondinhas e peroladas, com a concisão visionária da Sonata Op. 111, cuja “Arietta” final inclui um trecho que já foi chamado de “proto-jazz”:

A nós outros, bem, só nos resta dizer “amém”.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. VI – JOHN O’CONOR

Sonata no. 30 em Mi maior, Op. 109

01 – Vivace, ma non troppo – Adagio espressivo
02 – Prestissimo
03 – Tema: Molto cantabile ed espressivo – Variazioni I-VI

Sonata no. 31 em Lá bemol maior, Op. 110

04 – Moderato cantabile molto espressivo
05 – Allegro molto
06 – Adagio ma non troppo – Fuga: Allegro ma non troppo

Sonata no. 32 em Dó menor, Op. 111

07 – Maestoso – Allegro con brio ed appassionato
08 – Arietta: Adagio molto semplice e cantabile

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John O’Conor, piano

Para variar um pouco, aqui não vai uma foto de John O'Conor, mas sim de Thomas Mann, cujo "Doutor Fausto" inclui um admirável capítulo em que o Prof. Kretschmar discorre, em uma palestra para a população da fictícia Kaisersachern, sobre os motivos que teriam levado Beethoven a não escrever um terceiro movimento para a Sonata Op. 111
Para variar um pouco, aqui não vai uma foto de John O’Conor, mas sim de Thomas Mann, cujo “Doutor Fausto” inclui um maravilhoso capítulo em que o Prof. Kretschmar discorre, em uma palestra para a população da fictícia Kaisersachern, sobre os motivos que teriam levado Beethoven a não escrever um terceiro movimento para a Sonata Op. 111

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (5/9)

513vJOalRFLTocamos o barco, quinto CD da série – e QUE CD, amigos!

Não bastassem as três sonatas do Op. 10, sem dúvidas as primeiras obras de peso de Beethoven no gênero, ainda há a belíssima Op. 26, conhecida e apelidada em função da “Marcia funebre” do terceiro movimento, mas cujo miocárdio se encontra nas belíssimas variações de abertura.

Ah, e a Op. 10 no. 3 me parece a primeira obra-prima de Beethoven no gênero, com um “Largo” maravilhoso. Se lhe tivessem inventado um apelido tão bom quanto a “Patética” Op. 13, talvez ela fosse conhecida como merece.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. V – JOHN O’CONOR

Sonata no. 5 em Dó menor, Op. 10 no. 1

01 – Allegro molto e con brio
02 – Adagio molto
03 – Finale: prestissimo

Sonata no. 6 em Fá maior, Op. 10 no. 2

04 – Allegro
05 – Allegretto
06 – Presto

Sonata no. 7 em Ré maior, Op. 10 no. 3

07 – Presto
08 – Largo e mesto
09 – Menuetto: Allegro
10 – Rondo: Allegro

Sonata no. 12 em Lá bemol maior, Op. 26, “Marcha Fúnebre”

11 – Andante con variazioni
12 – Scherzo: Allegro molto
13 – Maestoso andante: Marcia Funebre sulla morte d’un eroe
14 – Allegro

John O’Conor, piano

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Ao contrário dos pianistas mais jovens - sim, Lang Lang: estou olhando para você - a gente não acha fotos de O'Conor em poses de êxtase ou com cara de quem tomou chá de fita.
Ao contrário dos pianistas mais jovens – sim, Lang Lang: estou olhando para você – a gente não acha fotos de O’Conor em poses de êxtase ou com cara de quem tomou chá de fita.

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (4/9)

516E1xAO8ILNo quarto CD da série, volta-se para onde se começa: lá do começo.

As três sonatas do Op. 2, são obras em estrita sonata-forma, nos quatro movimentos protocolares, com um minueto/scherzo como terceiro movimento, etc. Não é à toa que foram dedicadas a Haydn, o mais famoso compositor da época, e que fora, brevemente, professor de Beethoven. São tão bem-acabadas que até mesmo o pancadinha Glenn Gould, notório sabotador das obras de Lud Van (quem escutou sua “Appassionata” sabe do que estou falando), declarou sua admiração por elas e fez gravações razoavelmente atentas à partitura e reverentes às intenções do compositor. Creio que elas se prestem muito bem ao estilo limpo de O’Conor, que não exagera nos contrastes dinâmicos, nem procura oportunidades de bravado onde elas pouco existem.

Em outras palavras: a turma do Lang Lang vai odiar.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. IV – JOHN O’CONOR

Sonata no. 1 em Fá menor, Op. 2 no. 1

01 – Allegro
02 – Adagio
03 – Menuetto: Allegretto – Trio
04 – Prestissimo

Sonata no. 2 em Lá maior, Op. 2 no. 2

05 – Allegro vivace
06 – Largo appassionato
07 – Scherzo: Allegretto
08 – Rondo: Grazioso

Sonata no. 3 em Dó maior, Op. 2 no. 3

09 – Allegro con brio
10 – Adagio
11 – Scherzo: Allegro
12 – Allegro assai

John O’Conor, piano

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John O'Conor a sorrir, como suas interpretações do Op. 2 de Beethoven.
John O’Conor a sorrir, como suas interpretações do Op. 2 de Beethoven.

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (3/9)

51glGJs6IrLMais Beethoven, mais O’Conor, mais sonatas com apelidos, e poucos deles me parecem mais incompreensíveis do que “A Caça” para a Op. 31 no. 3, que é notável pelo fato de não ter movimentos lentos. A primeira do Op. 31, que abre este disco, é das minhas preferidas: composta em 1801, em meio a uma guirlanda de obras-primas, mostra com todas as garrinhas o Beethoven ácido e inventivo das décadas seguintes. Da “Pastoral”, em Ré maior, nada se precisa dizer, até porque eu já escrevi “obra-prima” logo acima, e não pretendo ser repetitivo.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. III – JOHN O’CONOR

Sonata no. 15 em Ré maior, Op. 28, “Pastoral”

01 – Allegro
02 – Andante
03 – Scherzo: Allegro vivace
04 – Rondo: Allegro ma non troppo

Sonata no. 16 em Sol maior, Op. 31 no. 1

05 – Allegro vivace
06 – Adagio grazioso
07 – Rondo: Allegretto

Sonata no. 18 em Mi bemol maior, Op. 31 no. 3, “A Caça”

08 – Allegro
09 – Scherzo: Allegretto vivace
10 – Menuetto: Moderato e grazioso
11 – Presto con fuoco

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Será que teremos fotos suficientes de O'Conor para completar a série???
Será que teremos fotos suficientes de O’Conor para completar a série???

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (2/9)

51riUzX98dLProsseguindo a série da integral das Sonatas para piano de Lud Van com John O’Conor, alcanço-lhes o segundo tomo.

Se aqui o critério da gravadora parece ter sido outra vez selecionar sonatas com apelidos célebres, este recital resulta mais equilibrado, por conta das obras melhor buriladas. Se o movimento inicial da “Waldstein” pode soar como o desfraldar de cortinas, o “Wiedersehen” de “Les Adieux” fecha-as deixando tudo redondinho.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. II – JOHN O’CONOR

Sonata no. 21 em Dó maior, Op. 53, “Waldstein”

01 – Allegro con brio
02 – Introduzione: Adagio molto
03 – Rondo: Allegretto moderato

Sonata no. 17 em Ré menor, Op. 31 no. 2, “Tempestade”

04 – Largo – Allegro
05 – Adagio
06 – Allegretto

Sonata no. 26 em Mi bemol maior, Op. 81a, “Les Adieux/Lebewohl”

07 – Das Lebewohl (Les Adieux): Adagio – Allegro
08 – Abwesenheit (L’Absence): Andaste espressivo
09 – Das Wiedersehen (Le Retour): Vivacissimamente

John O’Conor, piano

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"How you doin'?"
“How you doin’?”

Vassily Genrikhovich

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – As 32 Sonatas para piano – John O’Conor (1/9)

51nYIa68t7LEnquanto vocês estão a me ler, eu estou a caminho do Congo, onde deverei passar uma boa parte das próximas semanas.

Sim, falo sério.

E o que vocês têm com isso?

Nada, é claro: afinal de contas, vocês só querem postagens novas, e estão pouco se lixando once Vassily está quando sua postagem nova aparece para vocês enquanto se preparam para o almoço, não é?

Bem que fazem, leitores!

Só menciono a expedição ao Congo  para justificar, de antemão, por que minhas postagens serão mais sucintas, e talvez repetitivas, ao longo deste setembro. Por ora, posso-lhes dizer que aqueles que detestam piano devem iniciar os preparativos para a urticária. Mas vocês não seriam desalmados a ponto de xingarem alguém que está no Congo, certo?

Esta integral com as Sonatas de Beethoven por John O’Conor, feita por um especialista na obra pianística do velho Ludovico, é uma gravação aclamada pela crítica. Eu a vi ser tão incensada que temi uma decepção cabal ao escutá-la, o que felizmente não aconteceu. Era a minha preferida até escutar a série com Pollini, e continua entre minhas mais queridas, junto com as de Schnabel, Gulda e Brendel (sim, vocês podem ter outras – mas estas são as minhas).

O’Conor reúne, talvez, o que as gravações do notável trio de austríacos têm de melhor, acrescentando um quê de, sei lá como chamá-la, talvez “sanguinidade”, que torna suas interpretações muito atraentes. Neste primeiro volume da série, claro, a gravadora fez questão de colocar as Sonatas mais célebres, aquelas com apelidos apelativos, para ver se seduz o ouvinte familiarizado com elas a comprar os oito volumes restantes. Ainda assim, e em que pese o som um pouco opaco da Teldec, a “Patética”, a “Luar” e a “Appassionata” são defendidas com brilho por O’Conor, cujas interpretações, aparentemente despojadas à primeira audição, só revelam riqueza e complexidade ao longo de revisitas.

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

SONATAS PARA PIANO, VOL. I – JOHN O’CONOR

Sonata no. 8 em Dó menor, Op. 13, “Patética”

01 – Grave – Allegro di molto e con brio
02 – Adagio cantabile
03 – Rondo. Allegro

Sonata no. 14 em Dó sustenido menor, Op. 27 no. 2, “Luar”

04 – Adagio sostenuto
05 – Allegretto
06 – Presto

Sonata no. 23 em Fá menor, Op. 57, “Appassionata”

07 – Allegro assai
08 – Andante con moto
09 – Allegro ma non troppo

John O’Conor, piano

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O'Conor em ação
O’Conor em ação

Vassily Genrikhovich

Paul is not dead: celebrando a vida de Paul Badura-Skoda (A Man and His Music – Young and Curious [1941-46])

Paul is not dead: celebrando a vida de Paul Badura-Skoda (A Man and His Music – Young and Curious [1941-46])

Há dois dias, algumas postagens em minhas redes sociais deram conta do desaparecimento, aos 91 anos, do grande Paul Badura-Skoda, o subdecano dos pianistas (pois o decano é, sem dúvidas, o incansável Menahem Pressler: noventa e seis anos, oito décadas de carreira, participações em todas as formações do Beaux Arts Trio – de Daniel Guilet a Antonio Meneses – estreia com a Filarmônica de Berlim com noventa primaveras, e que tinha um recital marcado com o jovem Badura-Skoda para o mês passado, e que foi cancelado por indisposição do garoto austríaco). Imediatamente, comecei a escrever uma postagem lamentando o fato e celebrando a longa vida artística e, particularmente, o prolífico legado de Paul, fartamente registrado em gravações ao longo de sete décadas, muitas delas, como notou nosso colega Pleyel, em instrumentos de época, antes que esta prática entrasse em voga.

O sono me chamou, e a postagem jazeu incompleta, o que me poupou-me do vigoroso constrangimento de publicá-la só para depois constatar, com alegre cara de tacho, que, assim como acontecera com Mark Twain  e das muitas teorias a darem conta de que Sir James Paul is no more, os rumores da morte do Paul austríaco foram grandemente exagerados.

Ainda bem.

Com votos de que o notável vienense se recupere prontamente, deixo-lhes o primeiro duma série de discos comemorando seu septuagésimo quinto aniversário – efeméride que, como veem, já fez seu baile de debutantes. Nele, Paul – adolescente e adulto jovem – deixa-nos alguns bombons, tanto em leituras do repertório tradicional para o piano, em peças a que voltaria dezenas de vezes, quanto em gravações para o acordeão, o instrumento favorito na família Skoda – uma delas, o arranjo para a abertura de La Gazza Ladra, que dedica à mãe pelo seu dia.

Gute Besserung, und komm schnell wieder auf die Beine!

PAUL BADURA SKODA – A MUSICAL BIOGRAPHY – 75h BIRTHDAY TRIBUTE – CD1

Johann Sebastian BACH (1685-1750)
O Cravo bem Temperado, livro 1: Prelúdio e Fuga em Dó sustenido menor, BWV 849
01 – Prelúdio
02 – Fuga

Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Sonata para piano no. 21 em Dó maior, Op. 53, “Waldstein”
03 – I. Allegro con brio

Fryderyk Franciszek CHOPIN (1810-1849)
04 – Barcarola em Fá sustenido maior, Op. 60
05 – Fantasia em Fá menor, Op. 49

Hans Ulrich STAEPS (1909-1988)
06 – Pan Pan

Louis GRUENBERG (1884-1964)
07-12 Six Jazz Epigrams

Billy GOLWYN (?-?)
13 – Verbena

Leopold MITTMANN (1904-1976)
14-16 Jazz Babies

Gioachino Antonio ROSSINI (1792-1868)
17 – La gazza ladra: Abertura

Pietro FROSINI (1885-1951)
18 – Serenade italienne

Hermann SCHITTENHELM (1893-1979)
19 – Der Eislaufer (The Ice Skater)

Josef SCHNEIDER (1866-1940)
20 – Tarantella

21 – Entrevista com Paul Badura-Skoda (em alemão)

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Vassily Genrikhovich

“O piano não consegue respirar naturalmente – o pianista tem que insuflar vida no piano” – por isso que Paul também toca, como faz nesta gravação, o acordeão.