Nikolai Petrov plays Chopin – Ballades & Scherzi

Existem monstros e monstros. Godzilla e Shreck, Polifemo e King Kong, Stalin e Schostakovich… Sempre fascinantes de uma forma ou de outra, bonzinhos, mauzinhos, travessos, divertidos, gigantescos… Pensemos num monstro musical do tamanho da Mãe Rússia! Que com os seus braços abertos abarcaria toda gama de sons que a percepção e o espirito humano é capaz de reconhecer, suportar e merecer por natureza, nas teclas de um piano. O camarada Petrov (1943-2011) é isso (e um dos pouquíssimos artistas russos a atuarem no exterior durante a chamada Guerra fria). Com suas dimensões que sabem às estepes – em corpo, talento e expressão. Um monstro de habilidade, que começou a brincar nas teclas do piano com ínfimos três aninhos de idade. Lembra até uma novela do H. G. Wells, sobre crianças nutridas com um certo ‘alimento dos deuses’ que as tornava gigantescas. Ora, conhecemos um sem número de gravações das baladas e scherzos do gênio polonês, porém fracamente, nunca ouvi nada igual a isso que aqui tenho a honra de trazer. Basta que se ouça a primeira Balada com atenção para que saibam do que estou falando. Existe um ditado que diz: ‘pelo dedo se vê o gigante’. Cabe perfeitamente no caso do camarada Nikolai – pelos dedos temos não somente o gigante musical, mas também uma nova dimensão que ele acrescenta a estas obras tão conhecidas. Na década de 90, quando da avassaladora crise da música erudita na Rússia, Petrov abdicou de sua possibilidade de emigrar. Preferiu permanecer na Rússia e ajudar jovens músicos – eis o próprio gigante bondoso.

b52u09Chopin, gênio absoluto, música febril, delirante; atmosfera de rosas podres e cartas mofadas; beleza sem fim, talvez o maior melodista da música (para mim o é). Pobre gênio hipocondríaco, cujo amigo Franz Liszt alcunhava maldosamente de ‘o cadáver polonês’, que morreu de úlcera e não de tuberculose. Mal este que possivelmente sequer existisse, uma vez que para se reproduzir o que escrevia, especialmente nos pianos da época, era preciso força – o que um tísico em pandarecos dificilmente conseguiria executar. Mas Chopin chegou até nós como uma espécie de Dama das Camélias do piano. Impressão essa alimentada por filmes do tipo ‘À noite Sonhamos’ com o xaroposo ator húngaro-americano Cornel Wilde. Desventurado Fréderic, exilado de sua pátria, envolvido com as calças de Madame Sand e toda sorte de baixarias familiares em torno da mesma (indico o ótimo livro ‘O funeral de Chopin’, de Benita Eisler). Um dos maiores gênios que já pisaram na face da terra, que sobrevivia a duras penas na Paris de Balzac, que se queixava nas cartas à sua irmã sobre o preço dos coches de luxo que era obrigado a usar para se dirigir às mansões aristocráticas e dar suas aulas às moçoilas descompassadas: se utilizasse uma charrete qualquer, ele sequer passaria da porta. Além das roupas caras – diga-se de passagem, vestia-se com tal esmero que criou ‘moda Chopin’: luvas cor de pérola, cartolas e afins. Que teria no final seu coração retirado, como um faraó, e metido numa urna de prata, tal era a sua obsessão pela catalepsia que poderia enterrá-lo vivo como algum mórbido herói poeano. Mas voltando às estepes sonoras do Sr. Petrov, digo que os compadres melômanos podem não preferir estas interpretações, porém me parecem únicas. Sou muito grato ao velho amigo Newman Sucupira por me haver apresentado este disco nos tempos do vinil. Como o próprio amigo, escritor, fotógrafo e melômano diria, uma gravação com muita “esclepscência” – termo intraduzível. Mas é impossível nesse instante não me reportar ao meu maior amor literário, Anton Pavlovich, meu amado Tchekhov, por falar em estepe. A Estepe, a viagem do pequeno Iegóruchka em companhia do seu tio e de um clérigo numa carroça pelas vastidões das estepes, rumo a uma nova vida numa cidade distante, onde iria estudar. Um road-movie literário, uma viagem sem fim, a busca contínua por um misterioso e poderoso personagem que nunca está onde se espera, a tempestade, a febre…

“Como todos os outros, a melancolia também tomou conta de Iegóruchka. Ele foi para sua carroça, escalou o fardo e deitou lá em cima. Olhou para o céu e pensou no feliz Konstantin e na esposa dele. Para que as pessoas casam? Para que servem as mulheres, neste mundo? Iegóruchka se fazia perguntas obscuras e pensava que, de fato, para o homem, era bom ter sempre por perto uma mulher carinhosa, alegre e bonita. Por algum motivo, lhe veio a lembrança da condessa Dranitskaia e pensou que, com uma mulher assim, sem dúvida, a vida seria muito agradável; provavelmente, ele ficaria muito satisfeito de casar com ela, se não sentisse tanta vergonha. Lembrou-se das sobrancelhas da condessa, das pupilas, da carruagem, do relógio com um cavaleiro em cima… A noite silenciosa e morna baixava sobre ele, sussurrava em seu ouvido e Iegóruchka sentiu como se aquela mulher bonita se curvasse sobre ele, o olhasse com um sorriso e quisesse beijá-lo…”

O resto é música.

Nikolai Petrov plays Chopin – Ballades & Scherzi
1 Balada 1 em Cm
2 Balada 2 em F
3 Balada 3 em Eb
4 Balada 4 em Fm
5 Scherzo 1 em Bb
6 Scherzo 2 em Bbm
7 Scherzo 3 em C#m
8 Scherzo 4 em E

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O gigantesco Nikolai Petrov - senhor absoluto de sua arte pianística.

O gigantesco Nikolai Petrov – senhor absoluto de sua arte pianística.

Wellbach

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.:interlúdio:. Oscar Peterson – Merry Christmas

Esta é uma postagem relâmpago, esperando que chegue a todos a tempo. Embora haja muito que se dizer sobre música de Natal, sobre Jazz, sobre discos de Natal e sobre o pianista que aqui se faz presente – num verdadeiro presente natalino para todos nós, digo apenas que Oscar Peterson era canadense, como o Zé Colmeia e também da mesma forma que os ursos canadenses, era imenso – não somente em forma, mas também em talento. Vá lá, Zé Colmeia, até onde me lembre, não tocava piano, mas não importa. Um lindo disco de Natal, que nos venha junto com a beleza de suas faixas toda boa sorte, saúde e paz que precisamos. Abraços.

‘Oscar Peterson – Merry Christmas’

God Rest Ye Merry Gentlemen
What Child Is This?
Let It Snow; White Christmas
Jingle Bells
I’ll Be Home For Christmas
Santa Claus Is Coming To Town
O Little Town of Bethlehem
The Christmas Waltz
Have Yourself A Merry Christmas
Silent Night
Winter Wonderland
Away In A Manger
O Christmas Tree

Oscar Peterson – Piano
Dave Samuels – vibrafone
Jack Scantz – flugelhorn
Lorne Lofsky – guitar
David Young – Bass
Jerry Fuller – drums
String orchestra conducted by Rick Wilkins

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O imenso Oscar Peterson. Boas festas e Felicidades a todos nós.

O imenso Oscar Peterson. Boas festas e Felicidades a todos nós.

Wellbach

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.:interlúdio:. Fernando Suárez Paz – Cuerdas para Piazzolla

Lá vem ele com mais um Piazzolla: eis o que todos estão dizendo. Aviso que o engano é verdadeiramente ledo! Não venho outra vez naufragar no rio de conhaque e rosas do mestre argentino. O boêmio aposentou as chuteiras (até o próximo episódio). No entanto, que me inspire Heráclito de Éfeso, não se trata aqui nem do mesmo rio nem do mesmo homem! Mas de outro muito chegado ao mestre. O fabuloso e incomparável violinista Fernando Suárez Paz, com um dos mais belos discos que podemos conhecer neste mundo – se é que haveria outro; e havendo, que valha à pena por conter a música que por aqui vicejou. Paz, fidelíssimo comparsa de grandes e maravilhosos estragos nas almas inebriadas pela beleza. Que com o seu violino e junto ao mago do bandoneón bordou com fina agulha e fio de ouro belos arabescos nos músculos cardíacos de tantos pobres coitados como este que vos fala.

xqb0irO violino! Ah, o violino, este nosso tão amado e rutilante comensal! Que perpassa como um espectro, porém sem jamais ser mencionado, pela obra do bardo de Avon, William Shakespeare – Bill Shaks, para os íntimos. Dando tratos ao que me resta de memória após inúmeras circum-navegações etílicas e musicais, me recordo de que o gentilíssimo bardo se refere muitas vezes a diversos instrumentos, como violas, flautas – que por vezes trata como tubos; trombetas, tambores e alaúdes… Este último, o príncipe das cordas dedilhadas, companheiro de menestréis e romançais, advindo dos longínquos e mágicos desertos das mil e uma noites. O bardo inglês o define como ‘um instrumento belo e frágil, que funciona permanentemente à beira do colapso’. Ora, que melhor definição para o violino? Que tanto quanto o seu primo mourisco também vibra em virtude da tensão de retesadas cordas, na iminência da explosão, feridas pela crina de Pégaso! Se bem recordo está em ‘Muito Barulho para Nada’ uma inspirada observação que reflete sobre o poder da música: ‘Não é estranho que as tripas de ovelha retesadas sobre a madeira afetem a alma humana?’ Amigos, sobre isso, e conhecendo-nos como os melômanos que somos, dispenso quaisquer argumentos sobre a veracidade desta lapidar reflexão shakespeariana.

Fernando Suárez Paz (1941) nasceu em Ramos Mejía, uma província de Buenos Aires. Ingressou bastante jovem na Orquestra Sinfônica Juvenil da Rádio del Estado, mais tarde na Sinfônica Nacional e por quase vinte anos esteve entre os primeiros violinos da Orquestra Filarmônica de Buenos Aires. Tendo começado a tocar com cinco anos, quando seu pai lhe presenteou com um violino – apesar de acalentar o sonho que o rebento seguisse a medicina, como invariavelmente acontece. Não sabia ele que o violino do filho seria o que se costuma chamar de médico de almas – quando não está causando colapsos. Paz logo cedo também ingressou no universo do Tango e tocou com as mais representativas orquestras; sendo o nome mais requisitado como principal violino para as orquestras de diversos e famosos maestros que aportaram na Argentina: Lalo Schifrin, Burt Bacharach, Michael Legrand… Foi em 1978 que Paz foi convocado por Astor Piazzolla para integrar o seu Quinteto Nuevo Tango, no qual atuaria por dez anos e através do qual Paz apareceu para o mundo. Até 1988 gravariam dezoito álbuns, com diversos trabalhos em estúdio, trilhas sonoras, concertos internacionais e festivais como o de Montreux ao lado do vibrafonista Gary Burton. Em 1991 Paz foi o solista do ‘Concierto de Nácar’ de Astor, junto à Orquestra Filarmônica de Buenos Aires. Neste mesmo ano foi nomeado membro da Academia Nacional do Tango e ainda neste mesmo ano gravou este soberbo disco que aqui se apresenta. Esta é apenas uma parte da trajetória desse imenso artista que felizmente está ainda entre nós e a produzir beleza.

2naqxa8A ele Astor dedicou a difícil peça Escualo – tubarão, pois que Astor adorava pescar esta adorável espécie aquática. Segundo Paz, Astor a dedicara com amor, porém, a dificuldade da peça não lhe parecia nada amorosa. É uma peça bastante impressionista, na qual podemos quase que ver o animal em sua sanha voraz, coleios e ataques; algo que funciona até melhor do que aquele filmezinho famoso de décadas atrás. Outra faixa das mais impressionantes é a Fuga y Mistério, uma fuga-tango, ou vice-versa. Complexa, erudita, bela, brilhante, que me recorda o que Beethoven intentava com relação à fuga, que era dotar este gênero com algo mais, um conteúdo poético para além do engenho contrapontístico. ‘Anõs de soledad’, tema de incrível beleza vindo do celebrado disco que Astor gravou com Gerry Mulligan. ‘Invierno Portenho’, um dos mais belos momentos de sua ‘Suíte Porteña’. Todas as demais faixas são belas e arrebatadoras. Um disco raro, imperdível. Como somos felizes em saber que existe mais música entre a terra e o céu do que podemos sonhar!

Cuerdas para Piazzolla

  • Decaríssimo
  • Invierno Porteño
  • 3 minutos com la realidade
  • Final – entre Brecht et Brel
  • Fuga y Mistério
  • Concierto para Quinteto
  • Años de Soledad
  • Escualo
  • Inédito

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El Maestro ao violino, arrebatador.

El Maestro ao violino, arrebatador.

 

Wellbach

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.:interlúdio:. GRANDES INSTRUMENTISTAS BRASILEIROS – 1978

11vhe1uConheci este precioso disco como um brinde das coleções vendidas há décadas atrás pela Borges & Damasceno, alguém talvez se lembre daquelas coleções em vinil, de músicas do mundo, coletâneas de clássicos e trilhas sonoras. Até onde sei, este disco nunca saiu em CD, o que é lamentável, pois a seleção é especialíssima, traz algumas faixas que nunca encontrei em outro lugar, como o encantador chote Imperial, com Abel Ferreira e Altamiro Carrilho; ou o curioso e hilariante baião Bicharada, com Djalma Ferreira tocando um Solovox – ‘organeto’ valvulado, precursor dos modernos sintetizadores. Também o hoje tão pouco comentado Edu da Gaita, em Capricho Nortista; o genial Radamés Gnattali com o choro Pé de Moleque. Pereira Filho toca um arrasador violão elétrico em Edinho no Choro; mais o delicioso Gorgulho, com Benedito Lacerda à flauta; e o virtuosíssimo Waldir Azevedo com seu cavaquinho em Camundongo, sem esquecer o magnífico Jacob do Bandolim com a evocativa valsa Salões Imperiais. Sivuca, arrasador como em toda sua carreira, ao acordeão em Sincopado; outro quase esquecido hoje em dia é o mavioso Luiz Americano, que ao sax alto toca a valsa Sonho; este talentoso instrumentista, nascido na verdade em Itabaiana – Sergipe, jamais admitiu sua origem interiorana, dizendo-se nascido na capital do país em seu tempo e adotando a alcunha Americano. Conheci um velho ‘chorão’ que o conheceu e me asseverou estas informações. Temos também o fenomenal Garoto – o violonista a quem se atribui uma forte influência no que viria a ser a Bossa Nova, aqui tocando uma guitarra havaiana, no choro Dolente. Pereira Filho, no violão elétrico, em Edinho no Choro. O delicioso Maluquinho, choro, tocado ao órgão por André Penazzi e finalmente o mago do violão Dilermando Reis, com Doutor Sabe-Tudo. As gravações cobrem um período entre 1932 e 1963.

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Naqueles tempos a música instrumental ainda tinha lugar na chamada Música Popular e entrarmos em detalhes sobre as causas pelas quais esta linha de produção musical defenestrou não somente a música instrumental como também a qualidade artística, demandaria muito tempo e espaço. Fica pra outra. Como dizia Oscar Wilde, “melhor aproveitar a rosa do que analisar sua raiz no microscópio”. Assim, desfrutemos desta coleção de joias, tomando um café brasileiríssimo ou uma também autóctone cachacinha – que faz bem à vida.

Esta postagem dedico ao velho ‘chorão’ que conheci, o clarinetista e saxofonista Antônio Melo, de Itabaiana – Sergipe.

Grandes Instrumentistas Brasileiros – 1978

1 Doutor sabe tudo – Dilermando Reis
2 Capricho nortista – Edu da gaita e Orquestra de Alexandre Gnattali
3 Gorgulho – Benedito Lacerda
4 Camundongo – Waldir Azevedo
5 Imperial – Abel Ferreira e seu Conjunto
6 Edinho no choro – Pereira Filho e Conjunto
7 Maluquinho – André Penazzi
8 Salões Imperiais – Jacob do Bandolim
9 Sincopado – Sivuca
10 Dolente – Garoto
11 Sonho – Luiz Americano e Pereira Filho
12 Bicharada – Djalma Ferreira
13 Pé de Moleque – Radamés Gnattali

Produção Fonográfica – Discos Continental
Produção, pesquisa e texto de contra-capa – J. L. Ferrete

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Pizindim - 'Menino Bom' sim senhor. Aqui dormindo, por isso não está neste disco: mas vem no próximo.

Pizindim – ‘Menino Bom’ sim senhor. Aqui dormindo, por isso não está neste disco: mas vem no próximo.

Wellbach

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.:interlúdio:. Astor Piazzolla – “El Infierno tan Temido”

Confesso que bebi. Não, não aludo a um simpático livro do cartunista Jaguar, que por sua vez alude a Neruda. Jurei, sim, por São Gregório Magno e Santa Hildegarda von Bingen que bastava de Piazzolla; que afastaria de mim esse cálice de perdição. Ora, mas por que tanto alarde em torno de Piazzolla? São apenas truques sonoros envolvendo sequências harmônicas, dominantes secundárias, cromatismos e ostinatos, artifícios rítmicos e percussivos, melodias lancinantes… Certa vez até me disseram que ele nem seria lá grande coisa (!) – assevero que quando ouvi isso não estava bêbado ainda, mas depois tive de ficar. Mas bebi e vou vivendo, e como dizia o samba famoso, tem gente que não bebe e está morrendo. Um dois, três tragos de tanguedias – lembrando Platão: ‘duas e três vezes ainda, a beleza.’ Acho que esse texto está um escrito de bebum. ‘E dai?’, diz ainda o fantasma do velho Platão. Ok, zoopsia talvez, somente porque estou a divisar um casal de centopeias dançando tango vão dizer que é Delirium Tremens, mas diante desse transe apoteótico trago em meu socorro o Sr. Fernando Antônio Nogueira Pessoa, mestre absoluto da poesia e também exímio bebedor:

D.T. – Delirium Tremens – Poema alcoólico (ou pós-alcoólico)

Na realidade outro dia,
Batendo o meu sapato na parede
Matei uma centopeia
Que lá não estava de forma alguma.
Como é que pode?
É muito simples, como vê
Só o início do D.T.
Quando o jacaré cor-de-rosa
E o tigre sem cabeça
Começam a crescer
E exigir serem alimentados.
Como não tenho sapatos
Para os matar
Penso que devo começar a pensar:
Será que eu deveria parar de beber?

Quando as centopeias vierem,
Sem problema
Posso vê-las bem,
Até duplicadas!
Mando-as para casa
Com meu sapato
E, quando todas forem para o inferno,
Irei também.
Então, como um todo
estarei verdadeiramente feliz,
Porque com um sapato Real e verdadeiro
Matarei a verdadeira centopeia:
Minha perdida alma…

Fernando Pessoa – 1935

4kwy7sOra, já confessei minha piazzollatria e minha condição de Farrapo Humano à Billy Wilder por culpa do bandoneon de Mister Pantaleón e do seu violinista, aquele impiedoso reciário de corações chamado Fernando Suares Paz – que Deus o conserve! Estou ébrio, como o celebérrimo pau d’água de Vicente Celestino. Todavia, como dizia Graham Greene, “sempre existe um lugarzinho para os bêbados no coração das pessoas”. E como se não bastasse encontro também alento nas quadras (Rubaiyat) daquele gentilíssimo astrônomo, matemático e doce poeta persa de um milênio, o Omar. É, Omar Khayyam!

“Olha com indulgência aqueles que se embriagam: os teu defeitos não são menores. Se queres paz e serenidade, lembra-te da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.”

“Busca a felicidade agora, nada sabes do amanhã. Apanha um grande copo repleto de vinho, senta-te ao luar e pensa: Talvez amanhã a lua me procure em vão.”

“Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo debaixo da terra. Sem amigo ou amores. Confio-te um grande segredo: não reflorescem as tulipas murchas.”

“Vinho, bálsamo para o meu coração doente. Vinho da cor das rosas, vinho perfumando, para calar a minha dor. Vinho e o teu alaúde de cordas de seda, minha amada.”

“Do meu túmulo se erguerá um tal perfume de vinho que embriagará os passantes; e será tal a serenidade que dele não conseguirão se apartar os amantes.”

“Alguns amigos me dizem: Não bebas mais, Khayyam! Respondo: Quando bebo ouço o que me dizem as rosas, as tulipas, os jasmins: ouço até o que não diz a minha amada.”

“O vinho te dá o calor que te falta, suaviza o julgo do passado e te alivia das brumas do futuro. Inunda-te de luz e te liberta desta prisão.”

“Cansado de indagar aos sábios, indaguei à taça: Para onde irei depois da morte? Ela de respondeu murmurando: Bebe em minha boca. Bebe longamente: Não voltarás.”

2r6nz4mDiante disso, que pensar? Quem poderia condenar-me o vício? Que círculo dantesco me poderia requisitar? Talvez não um inferno dantesco, mas um piazzolesco! Este belo disco chama-se “El infierno tan temido”. Ah, se o inferno for isso, que me aguarde com escancarados portais; e que sobre eles se escrevam o dístico famoso na Comédia da “águia dos latifúndios florentinos” – no dizer de Augustinho dos Anjos; serei tão indiferente quanto o seria Khayyam. Astor escreveu inúmeras trilhas sonoras e esta foi para uma película de 1980, “El infierno tan temido” dirigida por Raúl de la Torre, diretor de filmes que misturam tango com erotismo – nada mais eloquente. Por sua vez, o título advém de um poema que figura em um conto do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti:

No me mueve, mi Dios, para quererte 
el cielo que me tienes prometido, 
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte. 
Tú me mueves, Señor, muéveme el verte 
clavado en una cruz y escarnecido, 
muéveme ver tu cuerpo tan herido, 
muévenme tus afrentas y tu muerte. 
Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera, 
que aunque no hubiera cielo, yo te amara, 
y aunque no hubiera infierno, te temiera. 
No me tienes que dar porque te quiera, 
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.

Não falarei da música do disco, não é preciso. Basta somente sentar-se ao luar como Khayyam e ouvir mais este espetáculo do mestre argentino; com vinho, whisky, cerveja ou cachaça, pois que a ordem dos fatores não altera o produto. Vale enfim embriagar-se nesta beleza e bronzear-se nesse inferno sonoro – e que este fogo seja eterno, in saecula saeculorum, amém!

Dedico esta postagem ao amigo de aventuras musicológicas e enológicas, o musicólogo uruguaio-bahiano Pablo Sotuyo Blanco.

Astor Piazzolla – El infierno tan temido
1 El infierno tan temido, part 1
2 El infierno tan temido, part 2
3 El infierno tan temido, part 3
4 El infierno tan temido, part 4
5 Isa Rizzo, part 1
6 Isa Rizzo, part 2
7 Tema di Grazia, part 1
8 Tema di Grazia, part 2
9 Tema di Grazia, part 3
10 Tema di Grazia, part 4
11 Tema di Grazia, part 5
12 Desesperado
13 Gracia alegre
14 Tangueria, part 1
15 Introduzione
16 Tangueria, part 2
17 Tangueria, part 3
18 Gracia Amor
19 Tema di Grazia, part 6
20 Effetti
21 Fotografia (solo bandoneon)
22 Final (solo bandoneon)

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O Sr. Fernando Antônio Nogueira Pessoa, "em flagrante delitro"

O Sr. Fernando Antônio Nogueira Pessoa, “em flagrante delitro”

Wellbach

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.:interlúdio:. Astor Piazzolla – “The Roug Dancer and the Cyclical Night” (Tango Apasionado).

Confissões de um Piazzóllatra Anônimo: Com esta postagem imagino que fica bem clara a minha condição de viciado, junky, em Piazzolla; como diria Augusto dos Anjos, “como o ébrio ama a garrafa tóxica de rum”, naufrago na dipsomania da música de Astor. Porque me faz bem? longe disso, é como 15 rounds contra Cassius Clay! Masoquismo musical? Talvez, se é que algum maluco psicanalista freudiano descobriu essa anomalia. Me recordo de algo que escreveu o acerbo-cômico filósofo romeno Cioran: “Com as tuas veias repletas de noites jazes como um epitáfio em meio a um circo”. É por aí a minha relação com essa música dilacerante e este texto assume um tom confessional: Sim, de viciado, que ao três anos descobriu o paraíso artificial da garrafa de Maracujina que ficava em um móvel ao meu alcance; e que ingeria goma-arábica e cabeças de palitos de fósforo… Triste sina a de um drogado. E que mais tarde, achando-se salvo do abismo, se depara com um bandoneón lancinante, capitoso, hipnótico, deletério… Sou mesmo o que Billy Wilder chamaria de Farrapo Humano. É fácil para os que não são afetados pela isca da beleza. Ah, a beleza! Nos estupores opiáticos das milongas me ressoam as linhas de Baudelaire, seu soneto à beleza ‘La Beauté’: “Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra.” Ou ainda, do mesmo vate boêmio curtido em absinto e papoulas, o seu Hino à Beleza: “Vens tu do céu profundo ou sais do precipício, Beleza? Teu olhar, divino porém daninho, Doidamente verte o bem e o malefício, E podemos por isso comparar-te ao vinho!” Eis que em meu socorro, para justificar meu fado, me vêm as palavras do grande Wilde: “A beleza é uma forma da genialidade, aliás, é superior à genialidade na medida em que não precisa de comentário. Ela é um dos grandes fatos do mundo, assim como a luz do Sol, ou a primavera, ou a miragem na água escura daquela concha de prata que chamamos de lua. Não pode ser interrogada, é soberana por direito divino.” Voilà! Non, rien de rien, non, je ne regrette rien! Não me arrependo de nada e vou afundar os dois pés na jaca, chafurdar no lodo de conhaque e mirra da música de Piazzolla até a consumação dos séculos. Ufa! O que cachaça não faz! Este é mais um disco lindo, impactante, como tantos outros de Astor, porém me parece que traz peculiaridades, com um destaque para o fenomenal músico cubano Paquito d’Rivera, que participa da gravação! A obra foi composta para um espetáculo idealizado e dirigido pela coreógrafa argentina Graciela Daniele em NY. Por mais que pesquisasse não encontrei o enredo da peça. Sei que o disco traz dois títulos: “O dançarino rude e a noite cíclica” e “Tango Apaixonado”. Não saber da temática é até melhor, pois ouvir a música nos leva a impressões talvez mais interessantes do que seria a trama do espetáculo. A mim, à parte todos os elementos piazzolescos contidos no disco, me sabe também a uma melancolia circense; algo Felliniano. Quem viu a sua joia “Ginger e Fred” (que filme, meu Deus!) saberá o que estou tentando expressar; ou o excelente filme do Patrice Leconte, recentemente lançado em DVD, “A mulher e o atirador de facas” – La Fille sur le Pont; que recomendo vivamente. Algo também do final de “O Circo” de Chaplin, enfim.

Astor Piazzola, por Pablo Morales de los Rios.

Astor Piazzola, por Pablo Morales de los Rios.

Discorremos muito sobre Astor nas postagens anteriores e sempre há o que se falar. Só para acrescentar, Astor adorava pescar tubarões. O Cavaleiro Negro do Bandonéon compôs uma ode a isso – ‘Escualo’, que dedicou ao seu digníssimo escudeiro Fernando Suarez Paz, o magnífico violinista. Disse-lhe que era uma obra que lhe dedicava com amor. Paz, numa entrevista, ironiza dizendo que a dificuldade da peça não é nada amorosa (risos). Esta obra não vai aqui, ficará para outra postagem. Mais outra?! Prometo largar o vício! Chega de tanta beleza. Só pode fazer mal. Mas, amigos, lhes garanto: Piazzolla não dá ressaca. É whisky de fina cepa; Bourbon de primeira linha; ou Falerno, se assim preferirem – ou ainda cachaça mineira da mais nobre estirpe. Hélas! Eis que retorno trôpego à pipa de Baudelaire! Como dizia o nosso poeta pernambucano Antônio Maria: “Ninguem me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire.” Embriagai-vos!:

2ica45g“É preciso estar sempre embriagado. Eis tudo! Eis a única questão! Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que vos parte os ombros e vos dobra para o chão é preciso embriagar-se sem piedade. Mas de que? De vinho, de poesia, de virtude, como preferirdes! Mas embriagai-vos. E se por vezes, nos degraus de um palácio, na relva verde de uma vala, na solitude melancólica da vossa alcova, despertais com a embriaguez já evolada ou desaparecida, indaga ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que se vai, a tudo o que geme, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala; indaga que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio vos dirão: “É hora de embriagar-se! Para não ser o cativo mártir do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem termo! De vinho, de poesia, de virtude, como quiserdes!” (Caricatura – Charles Baudelaire, por Jeff Stahl)

Gostaria de oferecer esta postagem ao amigo escritor, professor, cineasta e colega de trompete e de copo Gabriel Lopes Pontes.

“The Roug Dancer and the Cyclical Night” (Tango Apasionado).

Astor Piazzola – Bandoneón
Fernando Suarez Paz – Violino
Paquito d’Rivera – Clarineta e Sax alto
Rodolfo Alchourron – Guitar
Pablo Ziegler – Piano
Andy Gonzalez – Bass
Gravado em Radio City Studio, A & R Studio e Sorcerer Studio, Nova York; agosto e setembro de 1987.

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Wellbach

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.:interlúdio:. Hermeto Pascoal – Por Diferentes Caminhos – Piano Solo, 1988

Magos existem. Eu vi um deles. Na verdade o último dos magos da música ainda sobre a terra. Capaz de transformar tudo o que toca, literalmente falando, em matéria musical. Sua aura faz brotar música por onde ele passa e quando ele toca a sua alquimia deixa pasmos até mesmo os que o acompanham há anos; a música se transforma, se transmuta, o que era bossa vira valsa, frevo, choro… Os músicos ao seu lado se esquecem de tocar, boquiabertos diante daquilo. Seu poder parece emanar de alguma Pedra Filosofal que traz entre as barbas alvas – com as quais ele também produz música, quando quer. Hermeto Pascoal é uma força da natureza. Quero narrar aqui um sonho que tive há alguns anos, embora ache piegas esse negócio de contar sonhos, mas Jung me autorizaria e para mim ele também é mago. Havia uma grande clareira em meio a uma mata, ali acontecia uma festa, índios e outras pessoas de diferentes origens. Hermeto tocava flauta no meio de uma roda de músicos, meio toré, meio arraial nordestino. Ele saia da roda e se afastava mais e mais em direção à mata. Eu o seguia mata dentro e o perdia de vista; logo mais notei no chão suas pegadas e eram luminosas. Emanava uma luz forte e azulada. Ora, interpretar sonhos ficou pro Zezinho da Bíblia e para o saudoso Pedro de Lara. Apenas digo que meus encontros com o mago me deixaram tatuagens musicais nos ossos, impressões radioativas provocadas por sua aura poderosíssima. A mais representativa foi em Mar Grande, na Ilha de Itaparica, do outro lado do mar frente a Salvador, na pousada ‘Sonho de Verão’ do amigo irmão Eratóstenes (Toza) Lima; singularíssima pessoa, mistura de músico, administrador, ecologista, ufólogo, mestre cuca, cronista, arquiteto, escultor… Neste lugar onde vivemos muitas aventuras musicais havia um grande palco em frente à piscina e ali uma diversidade de instrumentos à disposição de todos os músicos que por ali passassem. Hermeto pousou ali por uma noite e nos deu de sua arte fartamente. Espetáculo. Após o que, antes que tivéssemos o privilégio de tocar para o mestre, fui até ele e pedi que autografasse minha surdina growl, um desentupidor de pia; objeto muito conhecido entre jazzistas trompetistas, objeto que guardo como relíquia hierática.

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Na manhã seguinte acordei bem cedo, queria me despedir do mestre, que partiria presto. Fiquei ruminando no flugelhorn uns exercícios de rotina. Ele apareceu e disse: “Você estava tocando escalas cromáticas! É difícil no flugel, não é? Você sabe onde posso conseguir uma surdina pra flugel?” Respondi que existe, mas que é rara e ajudaria apenas amarrar um pano na campana. Ele gostou da ideia, disse que tinha o hábito de acordar muito cedo, sentar no chão e tocar flugel, acordando a casa toda e por isso ficavam furiosos; daí o interesse numa surdina (risos). No café da manhã seu filho indagou: “Pai, quer pão?” Foi o bastante para Hermeto, que tomou uns talheres, percutiu as xícaras e fez um baião: “Kepão, kepão…”

33uzi3nOutra vez que o encontrei foi numa casa noturna na qual eu tocava. Ele chegou e estávamos em ação. Parei tudo e lhe dedicamos uma Asa Branca bem Free-jazz. Ele tocou no meu trompete e depois subiu ao palco para nos conceder duas horas de maravilhas ao piano. A última vez que o vi foi um acaso, estava num ponto de ônibus diante de um restaurante chinês. Um taxi apareceu e ele surgiu. Fui lá pedir-lhe a bênção. Não preciso ressaltar que para um músico instrumentista toda essa tietagem é normal e dá orgulho tratando-se de Hermeto. Mas falemos do presente registro sonoro. Em 1988 Hermeto entrou num estúdio para gravar um disco solo no piano acústico. Muitas das faixas foram improvisadas, temas criados, desenvolvidos e concluídos instantaneamente; como somente os seus feitiços poderiam conceber. A primeira faixa, uma joia chamada ‘Pixitotinha’. Para quem não sabe a palavra é um substitutivo carinhoso para algo ou alguém pequeno, como uma criança; significando ‘pequenininha’. Termo muito usado em minha terra e no meu tempo de criança, Caruaru – Pe; meu avô Raimundinho (que Deus o tenha) usava bastante esta palavra. Foi uma peça criada instantaneamente, como uma pérola ou uma rosa que se materializa entre as mãos do mago. A sua conhecida peça Bebê nos vem com impetuosa e expressiva verve, tema talvez mais famoso do mestre. ‘Macia’ é uma brisa alvissareira, uma impressão suave como o nome da peça, um lampejo Debussyano, um véu que esvoaça. ‘Nascente’, um evocação da força criativa da natureza, que evolui para figuras cada vez mais complexas. ‘Cari’, uma melodinâmica de passagem, um trecho de energia musical do qual temos apenas um vislumbre. ‘Fale mais um pouquinho’, outro momento musical curioso e meio jocoso, como o titulo. ‘Por diferentes caminhos’, título do álbum, partindo de um ostinato que até lembra certo prelúdio gotejante de Chopin, para logo nos mergulhar em reflexões melódicas de cativante beleza; brisas de nordeste entrando pela janela, ponteios… ‘Eu Te Tudo’, uma peça inquieta, que certa nostalgia tenta apaziguar sem sucesso; as progressões engolfam a melodia, que luta para se instaurar, perdendo-se na distância das últimas notas agudas. ‘Nenê: um dos mais belos momentos do disco e que dispensa qualquer comentário, apenas ouçamos; digo apenas que o velho Villa decerto trocaria alguns dos seus charutos por certos trechos improvisados por Hermeto; a faixa é aberta pela voz do próprio, dedicando a música, que será feita naquele instante a um amigo baterista e compositor. Ao final, arrematando numa imponente cadência em ritardo, ouvimos o grito de Hermeto: “Obrigado Nenê!”, que a essa altura deve ter-se acabado de emoção. Na faixa ‘Sintetizando de verdade’ temos o que considero um dos maiores momentos de improvisação musical já gravados. Hermeto, no piano preparado (ou sabotado), nos arrebata com uma espantosa, meditativa e tenaz odisseia por plagas nordestinas; encontramos pelo caminho rastros de cangaceiros e beatos, depois o que parece um oriental com seu burrico carregado de quinquilharias, moçoilas com potes de água fresca, mandacarus e flores exóticas, frutas de palma e revoadas de passarinhos verdes; serras e riachos secos; para enfim nos levar a um povoado em festa, foguetório e forró na praça, meninada e bacamarteiros, bandas de pife e sanfonas. A habilidade do músico é espantosa e diria, sem receio, que a peça faria inveja a Prokofiev e Bartók – quem nem tiveram a sorte de conhecer a música nordestina. Em ‘Nostalgia’ Hermeto nos surpreende com um famoso tango que executa à sua maneira, lembrando talvez dos tempos em que tocava na noite e em happy hours. Uma história que ele mesmo conta desses tempos é que naquelas ocasiões, enquanto a audiência batia papo alheia ao seu piano, ele aproveitava para estudar algumas ousadias harmônicas e afins. Certa vez um sujeito veio de lá e perguntou: “O que você está tocando aí?” e ele: “E vocês, o que estão falando lá?” (mais risos). A última faixa, ‘Amanhecer’, mais um meditativo momento que evoca alvoradas e atmosferas orvalhadas, com um perfume de melancolia; a inquietude também está lá, porém dessa vez a melodia impera e nos conduz a um final cheio de luz – como as suas pegadas em meu sonho. Hermeto é inextinguível, temos a sorte de existir tal artista em nossas terras e, graças aos céus, ainda entre nós e gerando música. Que assim permaneça pelos séculos do séculos, magnífico Hermeto Pascoal, Mago dos Magos.

Por Diferentes Caminhos – Hermeto Pascoal – Piano solo, 1988
1 Pixitotinha
2 Bebê
3 Macia
4 Nascente
5 Cari
6 Fale mais um pouquinho
7 Por diferentes caminhos
8 Eu Te Tudo
9 Nenê
10 Sintetizando de verdade
11 Nostalgia
12 Amanhã

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Mago dos Magos - Esta coroa ninguém usurpa.

Mago dos Magos – Esta coroa ninguém usurpa.

Wellbach

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.: interlúdio:. Suíte Troileana / Lumière – Astor Piazzolla

Numa postagem anterior contamos como Dom Nonino, pai de Astor, salvou o filho para si e o gênio para nós, impedindo que o mesmo embarcasse no avião fatal de Gardel. Também contamos como Nadia Boulanger aconselhou o discípulo argentino a trilhar a senda do ‘si mesmo’, após vê-lo provar suas habilidades na imitação da arte de nomes como Debussy e Ravel. Um detalhe, segundo o próprio Astor, é que ela, após pedir-lhe que tocasse o que sabia de fato fazer, indagou se ele seria idiota de abandonar sua real natureza para ser um bom compositor erudito quando poderia ser único no que sabia fazer de fato – Tango; ou melhor, Novo Tango. Esta postagem traz duas obras: Suíte Troileana e Lumière. Lumière é a trilha sonora de um filme de 1976 com Jeanne Moreau, na qual destacamos a primeira faixa ‘Soledad’ pela sua profunda beleza e intensidade, tipicamente piazzólica; a segunda faixa ‘Muerte’ é uma daqueles momentos em que Astor nos desafia – convite aos fortes; seguida do luminoso tema ‘El Amor’ ou ‘Lumière’.

ehayieA Suíte Troileana, que se inicia na quinta faixa, foi uma dedicatória ao amigo, mentor e mestre do bandoneón Anibal Troilo (1914-1975), apelidado Pichuco, ou também Gordo Triste numa outra dedicatória de Astor. Aos 10 anos, o pequeno Anibal apaixonado pelo som dos bandoneóns que ressoavam nos bares do seu bairro em Buenos Aires, pediu a sua mãe Dona Felisa, que lhe desse uma daquelas caixas mágicas. Com este mesmo instrumento atravessaria toda a vida e Piazzolla em entrevista diz o quanto era inacreditável que conseguisse tocar daquela maneira naquele bandoneón velho e cheio de buracos no fole. Estreou aos 11 anos, mais tarde tocou num grupo de senhoritas e aos 14 anos tinha seu próprio quinteto, primeiro grupo dentre outros, dentre os quais contaria com Astor ao seu lado em sua orquestra e com quem gravou duas faixas em duo de bandoneóns, numa verdadeira conversa de cavalheiros. Dom Nonino, ao saber que o jovem filho andava em companhia de Troilo, dirigiu-se a ele e pediu que cuidasse bem do seu rebento. Troilo disse somente “deixe comigo”. ‘El Gato’, como o apelidou Troilo, aos 19 anos já era macaco velho nas noitadas e assim, ambos, de tango em tango e de um bife de chouriço a outro (maravilha das maravilhas portenhas); e claro, de garrafa em garrafa, viam o sol retornar invariavelmente ao fim de cada odisseia musical e boêmia, noite após noite – que inveja. Troilo se casou com uma grega, Dona Ida Dudui Kalacci, a ‘Zita’, homenageada na segunda peça da suíte de Astor. Comenta-se que Anibal, além de beber exemplarmente, também seria adepto das trilhas de pó cândido – e dai? Como diria o fantasma do velho Platão naquele poema do Yeats. Com a palavra Mr. Wilde: ‘não lamentemos que o poeta seja bêbado, mas que nem todo bêbado seja poeta’. Ora, este texto acaba se afigurando uma homenagem a Anibal, mas por que não, se a música presente já o é? Dando uma de Xenofonte para com Sócrates, vão aqui uns ‘ditos e feitos memoráveis’ de Pichuco. Quase à maneira de um teórico musical barroco discorrendo sobre a ‘teoria dos afetos’, Troilo nos diz: “El tono de la gente triste es el re menor. Re, fa, la es el acorde de los pobres, porque tiene color gris. La gente que sufre está toda en re menor.” Ainda em tom filosófico: “El sacrificio no está nunca en renunciar a lo que uno es. El verdadero sacrificio está en seguir siendo lo que uno es.” Palavras de Dona Zita: “Hoy va a tocar como Dios. Siempre toca como Dios cuando anda cerca del Diablo”. A um passo do fim Anibal deu todas suas camisas para um amigo, alegando que lá em cima não faria frio. O disco foi gravado em Milão, em 1975, ano da morte de Troilo e obviamente da composição da suíte a ele dedicada. Na gravação temos a participação do violinista Antonio Agri e de Daniel Piazzolla (filho do homem) aos sintetizadores.

xp22igAmbas as suítes têm algo em comum: beleza, densidade, intensidade, tanguedia, tragédia, tragicomédia, todas as dores e delícias do abismo de maravilhas que é a música de Astor. Talvez seja uma heresia, mas acresci ao disco as duas faixas de Astor em companhia de Troilo, descidas do youtube, que me parecem bem raras e fenomenais: ‘Volver’ e ‘El Motivo’. Se for pecado, o fogo eterno não me assusta depois dos verões bahianos. Estas suítes são o que certo escritor chamaria de uma longa jornada noite adentro. Coragem! Vale a pena, pois que de pequena a alma nada tem quando se trata de Piazzolla. Para que esse texto tenha sabor de filmes de James Bond, com alguma emoção a mais antes do final verdadeiro, só gostaria de mencionar que existe um Dia do Bandoneón, instituído pelo congresso Argentino em 2005, na data de 11 de julho, aniversário de Aníbal Troilo, um dos maiores em seu instrumento e no gênero musical, o imorredouro Tango.

Suíte Troileana / Lumière – Astor Piazzolla
Suite Troileana:
1) Bandoneón
2) Zita
3) Whiski
4) Escolaso

Lumiere (banda de sonido del film de J. Moreau):
5) Soledad
6) Muerte
7) El Amor
8) Evasión

9 El Motivo – Astor e Troilo duo
10 Volver – Astor e Troilo duo

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El Gato, Dona Zita e Pichuco. Felicidade e música.

El Gato, Dona Zita e Pichuco. Felicidade e música.

Wellbach

 

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.:interlúdio:. Libertango – Astor Piazzolla

Libertango foi gravado na Itália em 1974 com excelentes arranjos e intérpretes em torno do mestre. É uma suíte – assim como foi no princípio, para todo o sempre, desde o Pai João Sebastião de Eisenach, que também gostava de suítes. Libertango, Tristango, Undertango… Um trem bala de emoções, ou talvez um Expresso do Oriente – para ser mais clássico, com rosas e navalhas; pois que a música do mestre argentino talvez pudesse ser representada numa flor com pétalas de gillettes. Acho que furei o vinil desta gravação há umas três décadas atrás e por falar em vinil, falemos a boca pequena como as remasterizações costumam ser mal vindas, pois que os técnicos dos artefatos sonoros não são artistas, apenas cientistas e não fazem ideia que existem faces e interfaces em uma gravação. Existem solistas e acompanhadores e no seu ‘nobre’ esforço por ressaltar todos os matizes dos antigos registros, acabam por impor a cozinha à frente da sala. Dissecam as gravações e os mergulham em alguma mistura daquelas que o Heródoto em sua História nos aponta como a receita ideal para ser fazer múmias. Depois penduram os sons em algum varal no terraço de algum laboratório por uns dias e recolhem para colar tudo, nivelando com precisão geométrica as alturas. O resultado é que se ouvem mais os acompanhadores que os solistas e é uma bosta. Mas fazer o que… Sempre pagamos algum preço nesta vida.

25s283mMas a qualidade soberba do material não se discute. Sobre o tema que intitula o disco, é um dos mais reciclados do mestre, por ele mesmo e por uma infinidade de artistas. Já se comentou que se referiria á liberdade composicional do seu Tango Nuevo e quando estive em Buenos Aires numa formidável casa de espetáculos na qual até os cavalos dançavam tango – é sério! Serviram o tema com uma coreografia de caráter sexual, o que não me parece ter nada a ver, embora certamente Astor nada tivesse contra isso. Mas me parece que Libertango se referiria à sua sensação de liberdade ao se instalar nos EUA e lá dar curso às suas inovações sem o enchimento de saco dos conservadores da Argentina. Sabe-se que ele e sua família chegaram a sofrer ameaças e que ele mesmo foi atacado durante um ensaio, porém, homem precavido, armara-se de um sifão de metal e o estrago foi apreciável. Em uma entrevista ele ressalta a importância do músico fazer karatê e estar preparado a literalmente lutar por sua música – concordo inteiramente.

Sobre Astor comentamos à farta nas postagens anteriores, assim, pedindo socorro à poesia, trago aqui um dos meus poemas preferidos do formidável Ferreira Gullar. Me parece que neste arranjo de palavras estaria inscrito algo do sentido e intensidade e beleza deste disco, mas não pontifico sobre nada:

Pela rua

Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

Toda Poesia 1950 – 1980 – Ferreira Gullar
Editora Civilização Brasileira – 2ª edição 1981

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(…) Uma das faixas é o seu maior sucesso de público, Adios Nonino, tema pelo qual homenageou seu pai Dom Nonino. A quem devemos muito, como foi contado em postagens anteriores. Boa sorte a todos que aqui entrais – o que poderia estar escrito nos portais da música de Piazzolla, se acaso fosse alguma espécie de Inferno de dantescas maravilhas.

Libertango – Astor Piazzolla

  1. Libertango
  2. Meditango
  3. Undertango
  4. Adiós Nonino
  5. Violentango
  6. Novitango
  7. Amelitango
  8. Tristango

Bandoneon – Astor Piazzolla
Bass Guitar [E-BassGui] – Giuseppe Prestipino
Cello [1.Cello] – Paolo Salvi (tracks: 1)
Drums [Schlagzeug], Percussion [Perkussion] – Tullio De Piscopo
Flute [Baßflöte] – Gianni Bedori, Marlene Kessik
Flute [Flöten] – Gianni Baiocco, Hugo Heredia
Guitar [Gitarre] – Filippo Daccò
Marimba – Gianni Zilioli
Organ [Hammond C3] – Felice Da Vià, Gianni Zilioli
Piano – Felice Da Vià
Timpani, Percussion [Perkussion] – Andrea Poggi
Viola [1.Bratsche] – Elsa Parravicini
Violin [1.Geige] – Umberto Benedetti Michelangeli

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Wellbach

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.: interlúdio :. The New Tango – Astor Piazzolla & Gary Burton

Uma rosa numa mão e uma navalha na outra – esta impressão me veio quando de uma aula na qual fizemos a audição de diversos gêneros musicais e uma das faixas era Piazzolla. O que poderia escrever sobre sua música não cabe aqui, talvez nem em palavras. Posso dizer que é uma música que não costumo partilhar quando a ouço, porque há muito que compreendi o quanto a música pode incomodar os espíritos menos permeáveis, à beleza e a certas intensidades; talvez também pelo quanto a música pode dizer de nós mesmos; talvez porque certos whiskys só podem ser partilhados com muito poucos. Piazzolla, abrindo a cancela das impressões e da emoção, é abismo de maravilhas, é caminho sem fim e fim de caminho, também caminho perdido; é partida, volta e revolta. Tanguédia, tragédia, tragicomédia, melodinâmica – na impressão do amigo flautista Marco Moreno Pio (em memória); “pulsacion” e síncope, por vezes cardíaca. Densidade, intensidade e ansiedade. Lirismo e facada. A lona do ringue e o enfrentamento. A música de Piazzolla pode ser chamada de erudita, caindo no balaio das terminologias muitas vezes mal vindas ou falhas. É toda escrita com o rigor das peças chamadas eruditas, com espaços naturalmente para reinterpretações e improvisações – sempre muito benvindas. Astor, assim como outros tantos compositores do século passado, peregrinou ao templo da maga musical do século XX, Nadia Boulanger (1887-1997). E dela ouviu o mesmo que ouviu George Gershwin: “você já sabe escrever como Ravel, agora vá ser você mesmo”. Com este batismo de fogo na testa, Astor podia então dar curso à revolução do Tango; revolução essa que para muitos conservadores, até hoje, seria herética. Em uma viagem a Buenos Aires, perambulando por uma rua de antiquários no Bairro San Telmo, um respeitável senhor, me vendo passar com meu chapéu de aba larga, me indagou: “Buscas a Gardel?” Respondi: “Não, busco a Piazzolla!” Ele me olhou com estranheza e reprovação (risos). O pequeno Astor, que foi amigo e escudeiro de Gardel (que era de Marselha, conforme revelado recentemente), que lhe comprava jornais e cigarros. Gardel, vendo-o tocar tão bem o Bandoneon, queria que o acompanhasse numa viagem – aquela que lhe seria derradeira e fatal. O pai de Astor não o permitiu, alegando que ele somente teria esta liberdade quando concluísse os estudos. Salvou assim o filho para si e para a nós salvou o gênio – Viva Dom Nonino!

Este estupendo registro musical, conheci em vinil há décadas e diria que poderíamos considerar uma das melhores sínteses da música do mestre de Mar del Plata – o que em absoluto vem a excluir tudo o mais, ao contrário. O honradíssimo convidado é o vibrafonista Gary Burton, jazzman, da tradição de Lionel Hampton e Milt Jackson, entre outros. Nascido em Indiana, Burton foi autodidata em vibrafone e marimba desde os seis anos de idade; mais tarde encontraria sua grande inspiração no pianista Bill Evans. A assimilação do estilo de Astor por Gary é perfeita. O digo porque para outros não foi fácil, a exemplo do Kronos Quartet. Este formidável grupo de cordas, apesar de exímio, não satisfez ao mestre, que em meio a uma madrugada telefonou para o seu compadre violinista Fernando Suarez Paz, rogando que fosse imediatamente para os Estados Unidos, pois o quarteto não conseguia assimilar o que a sua música exigia nem reproduzir os efeitos necessários. Só assim foi possível o disco ‘Five Tango Sensations’. Burton se destaca e o faz, para além de sua habilidade e feeling, também através dos excelentes arranjos: Piazzolla estende o tapete vermelho para o vibrafone e Burton o honra devidamente, brilhantemente. A única ressalva que faria ao disco, só pra ser chato, é que o bandoneon e violino ficam em segundo plano em volume na gravação. Houve um excesso de cuidados na captação do vibrafone.

i592c5A atuação do mestre dispensa qualquer comentário. Ao seu lado, o fidelíssimo escudeiro Fernando Suarez Paz, para mim um dos maiores violinistas de todos os tempos. Assim como Duke não seria Ellington sem a paleta de cores de sua orquestra, nas figuras de Johnny Hodges, Cootie Williams, Harry Carney, Barney Bigard… Assim como Sherlock seria menos Holmes sem Watson e Dom Quixote menos poético sem Sancho Pança, Astor seria menos Piazzolla sem o seu grande comparsa de belezas musicais indizíveis. Um daqueles encontros através dos quais a arte conspira para nos legar espetáculos; ainda como Billie Holiday e Lester Young, enfim… Também o magnífico pianista Pablo Ziegler, outro fidelíssimo companheiro de intensidades sonoras, mais Hector Console no baixo. Convido-os então para o abismo de beleza que é a música de Astor Piazzolla.

“Suite for Vibraphone and New Tango Quintet”

  • Milonga Is Coming
  • Vibraphonissimo
  • Little Italy 1930
  • Nuevo tango
  • Laura’s Dream
  • Operation Tango
  • La Muerte del Angel

Astor Piazzolla – Bandoneon
Gary Burton – Vibraphone
Fernando Suarez Paz – Violino
Pablo Ziegler – Piano
Horácio Malvicino – Guitar
Hector Console – Bass
Recorded in the Montreux Festival, 1986.

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Retrato do menino Astor Piazzolla aos 12 anos, por Diego Rivera. New York, 1933.

Retrato do menino Astor Piazzolla aos 12 anos, por Diego Rivera. New York, 1933.

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.: interlúdio :. Chet Baker – Silent Nights – 1986

Ho Ho Ho! Você ouve esta familiar risada, olha para a lareira (ou para a janela) e vê um sujeito magérrimo e enrugado, com um trompete na mão; na cabeça um boné vermelho escrito Jazz. Chegou o Papai-Baker com seu disco de Natal. Poucos intérpretes deixaram de gravar pelo menos um tema de Natal, lembrando o delicioso tema White Christmas de Irving Berlin na voz de Bing Crosby – também gravado por Louis Armstrong. Duke Ellington, Fats Waller, Clark Terry, entre muitos outros, gravaram Jingle Bells e discos inteiros natalinos. Temos aqui a contribuição de Chet para a discografia jazzística natalina. Um disco simpático, no qual seria impossível, dado o intérprete, não conter certa melancolia; um feeling típico do soberbo trompetista cantor. Boas festas a todos nós e que o nosso novo ano seja repleto de boa sorte, em todos os sentidos.

Chet Baker – Silent Nights – 1986

1 Silent Night
2 The First Noel
3 We Three Kings
4 Hark, the Angels Sing
5 Nobody knows the trouble I’ve seen
6 Amazing Grace
7 Come All Ye Faithful
8 Joy to the World
9 Amen
10 It Came Upon A Midnight Clear
11 Swing Low, Sweet Chariot
12 Silent Night

Trumpet – Chet Baker
Alto Sax – Christopher Mason
Bass – Jim Singleton
Drums – Johnny Vidacovich
Piano – Mike Peller

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Chet Baker numa noite dessas de Natal

Chet Baker numa noite dessas de Natal

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Antônio Vivaldi (1678-1741): 8 Concerti Solenni – First Recording

Vivaldi, Vivaldi, Vivaldi… escrevo este nome envolto em coraçõezinhos. Sim. Paixão assumidíssima de séculos. O barroco musical não tem fim e dentro deste infinito outro infinito se desdobra: a música do Padre Ruivo. Uma das maiores asneiras já proferidas no mundo da música veio do velho gafanhoto Stravinsky, quando pontificou que Vivaldi escrevera dezenas de vezes o mesmo concerto. Já vi maestros reafirmando isso, e com isso asseverando a própria ausência de conhecimento e o que é pior, falta de gosto, pois que a beleza e a variedade na música de Vivaldi afloram constantes e em assustadora profusão. É inesgotável. Qualquer audição minimamente atenta de As Estações e dos Concertos do Opus 10 para flauta evidenciará a variedade das criações de Vivaldi – guardadas, naturalmente, as similaridades estilísticas próprias; afinal, é o mesmo compositor! Mas podemos encontrar uma desculpa para a asneira do velho gafanhoto, afinal, quando ele ouviu Vivaldi, este ainda estava em fase de descoberta pelo mundo da música europeia; ouviu dois ou três concertos, decerto com evidente má vontade. Ademais, é preciso considerar que Stravinsky, ainda jovem, devia estar de tal forma envolvido no afã de suas novas ambições estéticas que jamais iria parar para saber melhor sobre um obscuro padreco veneziano com fama de libertino, regente de uma orquestra de garotas talentosas. Tenho centenas de discos de Vivaldi e vez por outra ainda me aparecem novidades. Este que vos trago é um disco soberbo. Interpretação serena, porém intensa. Não tem o ímpeto do grupo Giardino Armonico, nem a grandiloquência do I Musici, mas também está longe das interpretações asmáticas de Fabio Biondi. Um disco honestíssimo, e que escolha de repertório! Concertos de absoluta beleza e engenho, alguns me surpreenderam, afinal, eram novidades, mas também pela riqueza da escrita. Movimentos lentos arrasadores, lembrando um detalhe importante na história da música, pelo qual Vivaldi foi o primeiro compositor a conferir importância e intensidade melódica aos movimentos lentos. Antes tínhamos algo tipicamente corelliano e linear, um xaropinho de alface. Em lugar disso Vivaldi nos traz o mais encorpado e capitoso dos vinhos. O disco é de 2010 e promete obras inéditas: “Otto Concerti Solenni, first recordings”. Um deles, porém traz um tema conhecido, da série Il Pastor Fido (faixa 11); aqui reaparece desenvolvido e com uma relevante particularidade: é um concerto cíclico, o motivo melódico reaparece em todos os movimentos. Não é somente isso que encontramos nas obras de Vivaldi e que mais tarde seria atribuído aos períodos clássico e posteriores. Muito do arsenal composicional do período clássico, por exemplo, já se encontrava em Vivaldi e não sou eu que digo, mas autores como Roland de Candé e Michael Talbot. A gravação é excelente, nos permite perceber cada detalhe das criações do Reverendíssimo – para mim, Sua Santidade. A orquestra se denomina La Magnifica Comunità, regida por Enrico Casazza, também violino solista. Que mais dizer para exaltar a beleza desses concertos? Ouçamo-los, pois!

Vivaldi — Otto Concerti Solenni
Concerto For Strings And Basso Continuo In C Minor, RV 197
1 I. Allegro 3:31
2 II. Largo 2:39
3 III. Allegro 1:44
Sinfonia For Strings And Basso Continuo In A, RVAnh. 85
4 I. Allegro 2:07
5 II. Andante 2:47
6 III. Allegro 3:50
Concerto For Two Violins, Strings And Basso Continuo In G Minor, RV 155
7 I. Adagio 2:19
8 II. Allegro 3:49
9 III. Largo 3:38
10 IV. Allegro 4:19
Concerto For Strings And Basso Continuo In G Minor, RV 316
11 I. Allegro 2:31
12 II. Adagio 1:12
13 III. Fuga Da Capella: Allegro Alla Breve 1:53
Concerto For Strings And Basso Continuo In C, RV 185
14 I. Andante Molto E Spiccato 1:05
15 II. Allegro 2:28
16 III. Largo 1:27
17 IV. Allegro Non Molto 2:20
Concerto For Two Violins, Strings And Basso Continuo In D Minor, RV 247
18 I. Allegro 2:46
19 II. Grave 3:12
20 III. Allegro 3:01
Concerto For Strings And Basso Continuo In F, RV 292
21 I. Largo 2:28
22 II. Allegro 2:13
23 III. Adagio 0:49
24 IV. Allegro 4:13
Concerto For Strings And Basso Continuo In E Minor, RV 134
25 I. Allegro 2:46
26 II. Largo 1:30
27 III. Allegro 2:34

La Magnifica Comunità
Enrico Casazza – violin and diretor

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Caricatura do Padre ruivo, por Pier Leone Ghezzi. Nem só de beleza vivia o homem.

Caricatura do Padre ruivo, por Pier Leone Ghezzi. Nem só de beleza vivia o homem.

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.: interlúdio :. Johnny Hartman – Songs from the heart

Existe o maior cantor de Jazz de todos os tempos? claro que existe! só que pode mudar a cada encontro regado a whisky, vinho, cerveja ou cachaça; em torno de um toca discos, em boas e divertidas companhias ou a sós. Até mesmo de um disco para outro, tal eleição pode mudar, conforme o grau de emoção e de substância etílica. Mas, no presente momento, erguendo um décimo brinde, proclamo: Johnny Hartman! Magnífico Johnny Hartman, artista soberbo, de longa carreira e profundíssima voz. Quem se encantou com o maravilhoso filme As Pontes de Madison se lembrará que parte do feeling deste filme se deve indubitavelmente ao incrível repertório no qual se inclui Hartman; lembrando que nem só de Magnum 45 vive Mister Eastwood, mas também adora Jazz; lembrando também de que o ótimo filme Bird, sobre o grande Charlie Parker, é produto de sua afeição a este gênero musical – entre outras produções. Johnny Hartman (1923-1983) era um esplêndido barítono. Pena que não gravou um Schubert pra nós, mas por que deveria? Possuía a voz de Midas, tudo o que cantava virava ouro; até mesmo ‘Feelings’ do nosso Morris Albert – o paulista Maurício Alberto Kaisermann (1951). Johnny nasceu em Louisiana mas foi criado em Chicago. Começou a tocar piano e a cantar aos oito anos. Cantou em orquestras do exército durante a Segunda Guerra Mundial e despontou na carreira em 1946, através do pianista Earl Hines e de Dizzy Gillespie, atuando junto a diversas orquestras. Este presente disco foi a sua estreia no mundo fonográfico, em 1955. Aqui Hartman se encontra acompanhado por um trompetista pouco comentado, porém brilhante, que inspirou muitos em seu tempo, a exemplo de Miles Davis: Howard McGhee. Miles, em sua autobiografia, relembra como McGhee ministrou-lhe um carão. Miles lhe disse que recusara grana de uma namorada – o que segundo McGhee seria um sacrilégio.

35d7zg1Na foto acima, podemos ver Miles extasiado, aprendendo alguns truques com o amigo mais velho. Howard McGhee (1918-1987) foi um dos primeiros trompetistas do estilo jazzístico Bebop, junto ao ponta de lança Dizzy Gillespie e Fats Navarro. Atuou em diversas orquestras da época, especialmente com o grande Count Basie. Na década de 70 Howard também atuava como professor de música: trompete, improvisação e teoria, em sala de aula e também em seu apartamento no centro de Manhattan. Seu estilo expressivo e sinuoso, todavia, incomparavelmente mais contido que o de Dizzy, se ressalta nas inserções que desfere entre as frases de Hartman. Este é um feliz encontro que seria em 1963 ensombrecido por outro mais famoso, com o saxofonista John Coltrane – disco que em breve também teremos por aqui. Mais tarde, em 1995, Hartman gravaria outro soberbo álbum em homenagem ao saxofonista (For Trane). Além das 12 faixas oficiais do presente disco temos ainda mais seis faixas de takes alternativos, sempre gratificantes. Não farei comentários sobre faixas específicas, pois que o disco é todo extraordinário; o que me inspira, no momento, a apontar Hartman como o maior cantor do Jazz – até que venham uma próxima dose e outro disco na vitrola. Dedico esta postagem ao nosso patriarca Mister Avicenna.

Johnny Hartman – Songs from the heart

  • What is there to say
  • Ain’t Misbehavin
  • I fall in love too easily
  • We’ll be together again
  • Down in the depths
  • They didn’t believe me
  • Im glad there is you
  • When your love has gone
  • I’ll remember April
  • I see your face before me
  • September song
  • Moonlight in Vermont
  • Down in the depths (alt.)
  • They didn’t believe me (alt.)
  • Im glad there is you (alt.)
  • I’ll remember April (alt.)
  • I see your face before me (alt.)
  • September song (alt.)

Johnny Hartman – Vocals
Howard McGhee – trumpet
Ralph Sharon – Piano
Jay Cave – Bass
Christy Febbo – drums

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Johnny Hartman - voz de Midas, tudo o que cantava virava ouro.

Johnny Hartman – voz de Midas, tudo o que cantava virava ouro.

Wellbach

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.: interlúdio :. Chet Baker & Paul Bley: Diane

Tudo o que se poderia dizer de Chet Baker já foi dito. De bom e de ruim. De ruim o seu ‘biófago’ James Gavin no livro “No Fundo de um Sonho – a Longa Noite de Chet Baker”, tratou de consumar. Um bom livro, contudo, especialmente para os fãs do genialíssimo cantor trompetistas – ou vice-versa. Gavin, apesar de ter passado com vontade o pente fino na vida do artista – expondo tudo por baixo dos tapetes –  não logrou primar no melhor: nas considerações musicais, o que o aponta como um escritor oportunista, montado na fama do biografado e nos seus revezes para lucrar o máximo possível. Deixemo-lo aos abutres e falemos de música. Não é invencionice que Charlie Parker escolheu a Baker para acompanha-lo nas suas apresentações quando de sua passagem pelo Oklahoma – terra natal de Chet. A primeira gravação de Chesney Henry (nome real de Baker, nascido em 1929) foi ao lado do grande Bird, ao vivo. Bird devasta, Chet faz o que pode, verde, porém promissor. Ao chegar a NY Bird diria a Gillespie e Miles que um carinha branco do Oklahoma iria devora-los. Bem, não era da natureza de Chet, aparentemente, devorar ninguém neste sentido, embora Bird tivesse uma visão clara das coisas no tocante à música. Baker sempre guardou a mais profunda admiração e reverência pelos reais donos daquele idioma musical, o Jazz. As vezes nas quais procurou dialogar com Miles foi rechaçado com insultos. Davis guardava muita mágoa, pois quando despontou na carreira, também acolhido por Bird, sofreu muitas críticas. Já Baker, como é usual especialmente na música Norte Americana, foi exaltado como a grande ‘estrela branca’; nesse caso, do Jazz. Os empresários da música Norte Americana e também muitos artistas brancos sempre tentaram usurpar as coroas dos artistas negros; foi essa uma das origens dos Beatles, importados da Inglaterra porque em território americano não havia quem peitasse o sucesso do Rythm and Blues negro. Inventaram Elvis – que aprendeu a dançar com Forrest Gump, se bem lembram. Mas falando de Baker, recentemente foi filmada uma película biográfica, “Born to the blues”, com Ethan Hawk no papel de Baker. Claro, não convence, como poderia? O filme beira uma pegada Rock Balboa; concentra-se no episódio no qual Baker perde mais alguns dentes numa briga. Baker sempre fora banguela mas tocava como o diabo, só que dessa vez a coisa ficou crítica. Ainda tentando falar de sua música, Baker é um dos mais originais artistas da história, especialmente dentro do Jazz, com uma concepção sonora e melódica que são pessoalíssimas e… irresistíveis.

chet baker

Dizia o saudoso Paulo Francis, que ouvia Baker por horas a fio. Acredito. Baker é hipnótico, nos captura com uma só nota e nos ‘injeta’ (acho o termo apropriado) algo que nos rouba a alma. Chet Baker é altamente ‘viciante’, seus discos deveriam vir com uma tarja informativa sobre isso. Sua abordagem ao trompete vai totalmente de encontro à natureza tradicional do instrumento: heráldica, brio, marcialidade. Também contrariando a maior influência trompetística do Jazz, Louis Armstrong, divindade suprema do gênero, cuja influência marcou e continua a marcar todos os trompetistas. O trompete de Baker em seu intimismo poderia ser remetido ao estilo do ancestral Bix Beiderbecke. Este, poderíamos dizer, um profeta do Cool Jazz, com seus melódicos e delicados solos entre as massas dançantes da orquestra de Paul Whitman. Também poderíamos tecer um paralelo entre o estilo de Baker e a abordagem suave e melódica do grande Lester Young, embora saxofonista. Que Baker era apaixonado declaradamente por Miles Davis é sabido e inquestionável, mesmo sendo por ele cumulado de diatribes. Miles é outro cujo estilo é altamente contagioso. Baker é um supremo criador de melodias. Sendo eu trompetistas e tendo transcrito inúmeros solos seus, posso asseverar sua supremacia nesta área. Seus últimos anos, mesmo limitado tecnicamente pela prótese que colava às vezes com um chiclete ou porque estava ‘descompensado quimicamente’ – se me entendem – não lhe tirou os efeitos do gênio. Ainda assim, em certas gravações, ele prima em virtuosismo, a exemplo de sua grande apresentação em Tokyo, um ano antes de morrer em Amsterdam (um dos episódios mais misteriosos e comentados da história do Jazz). Mesmo em 1988, meses antes de aparentemente ter caído pela janela do hotel na citada localidade, ele brilha em seu último concerto com a Radio Orchestra Hannover; NDR Big Band, dois CDs magníficos. O disco Diane é de 1985, gravado na Dinamarca. A faixa que intitula o presente disco se remete à namorada de Chet na época, Diane Vavra. Alguns consideram este o melhor disco de Baker, talvez seja, é muito difícil dizer isso de um artista que produziu tanto e com tal qualidade. A formação em dueto neste disco, com o pianista Paul Bley, acentua mais ainda o intimismo. Chet que em seus últimos anos gravou muito em trio, sem bateria. Lembrando seus brilhantes registros junto a Gerry Mulligan, no quarteto sem piano, apenas com o contrabaixo e uma percussão suave. Segundo o pianista Bley, Diane seria um álbum perfeito para se ouvir no carro, à noite, percorrendo as ruas de alguma cidade desconhecida. Chet nos captura em seu elemento, uma intraduzível atmosfera de melancolia e beleza; uma hipnótica aura sonora que nos inebria e emociona e que nos aponta – sabendo o que sabemos sobre Chet – para o grande enigma da arte. Sempre haverá algo a se dizer sobre Chet Baker, enfim.

Chet Baker & Paul Bley – Diane

  1. “If I Should Lose You” (Ralph Rainger, Leo Robin) – 7:16
  2. “You Go to My Head” ( Fred Coots, Haven Gillespie) – 7:03
  3. “How Deep Is the Ocean?” (Irving Berlin) – 5:17
  4. “Pent-Up House” (Sonny Rollins) – 3:55
  5. “Ev’ry Time We Say Goodbye” (Cole Porter) – 7:52
  6. “Diane” (Lew Pollack, Ernö Rapée) – 5:31
  7. “Skidadidlin'” (Chet Baker) – 4:16
  8. “Little Girl Blue” (Lorenz Hart, Richard Rodgers) – 5:27

Chet Baker – Trompete e vocal na faixa 2
Paul Bley – Piano

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O hipnótico Chet Baker.

O hipnótico Chet Baker.

Wellbach

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.: intermezzo :. Besame Mucho: Dominick Farinacci

Nos ecos do trompete de Al Hirt, trazido, para meu enaltecimento e honraria pelo compadre mestre Avicena, trago um maravilhoso trompetista menos conhecido em nossas paragens. O formidável Dominick Farinacci, americano de Cleveland – Ohio; nascido em 3 de março de 1983, ou seja, na ponta do ramo de uma nova e brilhante geração de trompetistas. Também compositor e band-leader, Dominick foi um dentre apenas 18 classificados em todo mundo pela Julliard School num programa especial de bolsas para quatro anos de formação. Teve sua carreira impulsionada por Wynton Marsalis, seguindo-se então uma sucessão de êxitos e prêmios. Segundo nos conta Dominick, sua preferência de menino teria sido tornar-se baterista. Para nossa sorte ele não demonstrou talento nesse instrumento e o maestro de sua escola declarou que precisavam na verdade de trompetistas. Os êxitos de Dominick não turvaram sua modéstia. Digo isso por razões que explicarei a seguir. Particularmente falando, posso me orgulhar, como trompetista, de partilhar com ele duas coisas em comum: o trompete e o fato de termos sido inspirados por Louis Armstrong – como aconteceu com inúmeros outros músicos ligados ao Jazz no decurso do século XX. Explico o meu caso. Quem se lembra das velhas TVs Telefunken, aquelas em preto e branco, valvuladas, que passávamos os parcos canais naqueles botões para direita e para esquerda, trock-trock… pois é. Foi numa delas, na casa da minha avó em Caruaru – Pe, que em 1971 vi notícias sobre o falecimento de Satchmo, ou Pops, ou ainda Papa Louis. Aqueles sons e aquela figura incrível, com sua voz indescritível, me tomaram para sempre. Somente anos depois, devido a certa carência de informações no meu contexto, pude conhecer mais sobre ele, todavia, o gosto pelo instrumento permaneceu e acabei virando trompetista. Com Dominick, segundo ele mesmo, se deu algo similar. Suas inspirações foram Louis Armstrong e Harry James. Sei que em 1983, quando a cegonha o trouxe ao mundo, eu estava mergulhado no disco Hello Dolly e nos fascículos da ótima e misericordiosa série Gigantes do Jazz da Editora Abril. Especialmente no primeiro disco, de Louis, que ouvi até o vinil ficar branco. Não vem ao caso mas… vou contar que é divertido: Fascinado pelo jazz de New Orleans, em minha fantasia de moleque de 13, 14 anos, a cidade em que eu então vivia – no interior de Sergipe – era a própria New Orleans. Reuni uns colegas, clarineta, trombone, percussão, tuba; mostrava as gravações pra eles e tentávamos macaquear o que ouvíamos com resultados desastrosos mas empolgantes. Assim foi fundada a “Jass Band Itabaiana City” (SSs propositais, conforme as primeiras bandas do gênero). Todos tinham nomes de guerra: Lord Cotonete (eu), Kid Sacabuxa (o trombonista Roberto Millet), Zero (o clarinetista Aroldo Santos), Touro Sentado à bateria (meu pai Uéliton Mendes RIP) e por fim Salário Mínimo (meu irmão mais novo Saulo Mendes ao cavaquinho). Então fazíamos funerais de New Orleans pelas ruas, com uma grande caixa de papelão como um caixão de defuntos, que a molecada ajudava a carregar. Era um espanto. As pessoas não tinham ideia do que diabo era aquilo, espantávamos os cavalos na feira, choviam batatas sobre nós… é isso, contei. Adiante.

Falando então do que pontuei acima, a modéstia do artista. É encantador quando a um grande talento se soma a virtude da humildade. A música é muito reveladora, em diversos aspectos. Particularmente falando, abomino virtuosismo gratuito. Ou a habilidade serve à música, como no caso de Liszt, ou que o sujeito vá tocar suas mil notas por segundo numa corda bamba, com uma melancia na cabeça e um macaco hidrófobo dentro das calças. Francamente. Um trompetista renomado que me causa certa aversão é o magnífico cubano Arturo Sandoval, especialmente quando não está em seu habitat musical natural: os estilos de sua ilha natal. Ao jazz Arturo se empenha obsessivamente em demonstrar que é o pisto mais rápido do Oeste e que toca para além das estratosferas agudas como nenhum outro – sempre perderá para Jon Faddis e Maynard Ferguson. É algo deveras irritante. Faço essa extrema comparação para pontuar a sobriedade do estilo de Dominick. Fraseador formidável, mais afeito ao gênio de Chet Baker a ao comedimento cool de Miles Davis, sem ser glacial. Um maravilhoso melodista, que busca em suas improvisações o discurso eloquente, porém expressivo. Já realizou bom número de álbuns e continua a todo vapor em sua carreira, todavia não precisa expor nos seus encartes os dotes físicos, como andou fazendo o Chris Botti – possivelmente imitando as antológicas fotos de Chet Baker por William Claxton; mas também um bom trompetista.

Outro dom fundamental de Dominick é o bom gosto na escolha do seu repertório. Neste disco, a faixa título é um tema icônico das antigas, todos conhecem ‘Besame Mucho’, da pianista e compositora mexicana Consuelo Velásquez (1916-2005), peça de 1940; que já tive o prazer de tocar em mil e uma noites nas serestas de meus anos passados pelos interiores, sempre com prazer. De música bonita a gente não cansa. Consuelo disse que se inspirou em uma ária de ópera de Henrique Granados (fica o desafio pra quem quiser nos dizer qual é). Poucos sabem que até os Beatles gravaram Besame Mucho, numa fracassada sessão de gravações em 1961, porém, a faixa viria à tona em uma antologia futura. João Gilberto também gravou o tema, muito depois do suicídio do seu gato. O disco abre com ‘Ghost of A Chance’, baladíssima usual no repertório de inúmeros jazzistas, embora a suprema gravação seja de Clifford Brown em um dos zênites do jazz. A segunda faixa foi um ‘desconcerto’ quando ouvi pela primeira vez. Em que esquina de NY Dominick teria se batido com Herivelto Martins?! A antológica canção brasileira ‘Caminhemos’. Belíssimo tema aqui tratado com belo arranjo e maravilhosa interpretação. A quinta faixa também é do fundo do baú e também do repertório do Al Hirt no filme Candelabro Italiano – ‘Al Di La’. Em seguida, Piazzolla, o intenso ‘Libertango’. Na faixa 8 um clássico do repertório Bebop, o melódico tema Nostalgia, do soberbo trompetista Fats Navarro. Na décima faixa outra baladíssima, a sinatriana ‘You go to my head’.

Não sei se Dominick reclamaria disso, mas o disco tinha apenas 11 faixas e acrescentei mais três. O fiz, a princípio, porque são temas que ele interpreta maravilhosamente; também porque havia pensado em somente duas faixas e isso daria um número azarento, assim acrescentei mais uma e ficaram 14 faixas. Não são quaisquer temas. Na faixa 12, eu diria que Dominick dá um ‘ciao’ – seu sobrenome Farinacci (que se ele não fosse um cara modesto poderia ter mudado), evidencia sua origem italiana. O tema de Nino Rota ‘Speak Softly Love’ do poderoso Chefão, que todos conhecem… Olha lá, não quero dizer que o Dominick seja afilhado de nenhum Dom Corleone (mas também nada contra, quem me dera!); seja como for, olhando para ele podemos considerar que ficaria ótimo como um talentoso e simpático ragazzo trompetista na trilogia de Coppola. A outra faixa acrescentada é o bonito tema Estate, de Bruno Martino e por fim um lindo tema imortalizado no jazz por John Coltrane: Say It.

Após estas considerações nas quais figuraram apreciações, confidências e diatribes, vamos à música, com o talentoso Dominick Farinacci.

Besame Mucho: Dominick Farinacci

1 Ghost of A Chance
2 Caminhemos
3 It’s all right with me
4 Besame Mucho
5 Al Di La
6 Libertango
7 Shmoove
8 Nostalgia
9 Jimmy two times
10 You go to my head
11 Down to the wire
12 Speak Softly Love
13 Estate
14 Say It

Dominick Farinacci, (trumpet)
Adam Birnbaum (piano)
Peter Washington (bass)
Carmen Intorre,jr. (drums)
Recorded: NYC, April 17-18,2004

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trompetista

Wellbach

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Mighty Aphrodite – music from the motion picture

Não vou contar o filme. Se o fizesse seria um infame, um vilão. Poderosa Afrodite é uma das obras mais deliciosas do cinema e uma das melhores e imaginativas criações de Woody Allen. Como poderia estragar o prazer de quem ainda não o viu? Além disso, é um filme fácil de se encontrar, felizmente está ao alcance de todos. Sua trilha é mais uma galeria de delícias de diversos autores. O disco, assim como o filme, abre ao som do Bouzouki – tradicional cordofone grego. Duas faixas bonitas, com a intensidade e a expressividade da música das plagas de Alexis Zorba. A segunda peça traz a assinatura de um mestre no gênero, George Zambetas. Sendo um filme de Woody Allen é natural que logo surja um jazz das antigas, na faixa 3, com o trombonista Wilbur de Paris – que não era parisiense, era sobrenome mesmo, tocando ‘I’ve found a new baby’. Benny Goodman, sem dúvida um dos ídolos do também clarinetista Woody Allen, aparece na faixa 4, com a famosa Whispering. Goodman que foi aclamado o Rei do Swing, mais tarde sabiamente penduraria as chuteiras com a derrocada do estilo big-band, indo tocar música erudita, a exemplo do concerto de Mozart, mais Bartok, Copland, Bernstein, Stravinsky… Na faixa 5, a joia de Rodgers & Hart: Manhattan, numa daquelas raras gravações que Allen costuma exumar para os seus filmes, uma versão de Carmen Cavallaro – embora de nome feminino, foi um famoso pianista em sua época. A faixa 7 é um dos ápices do disco. Li’l Darlin’, tema de Neal Hefti, com Count Basie e Orquestra. Apesar de Duke Ellington, como sabemos, ser o rei da elegância no jazz, nesse momento o duque tira a sua coroa para o conde. Uma das gravações mais bonitas e perfeitas do jazz. Ouvimos o lacônico piano de Basie, característica desenvolvida, segundo ele, devido ao fato de ter que revezar sua mão direita entre o teclado, o charuto, o copo de whisky e a mão direita dos que vinham cumprimentá-lo enquanto ele tocava nas noites de Kansas City e NY. Um absoluto primor. A faixa seguinte, de número 8, Errol Garner interpreta Penthouse Serenade, tema ‘utilizado’ pelo Djavan, que, até onde eu saiba, não foi devidamente creditado a Jackson & Burton – ilustres menos conhecidos. Garner também aparece na faixa seguinte de número 9 e na 10 o Ramsey Lewis Trio sacode os esqueletos com uma peça gravada nos anos 60, com um jazz já metamorfoseado em soul music – The ‘in’ crowd. As faixas 11 e 12 são verdadeiras delícias: o Dick Hyman Chorus com dois clássicos, primeiro o standard de Cole Porter, ‘You do something to me’ (que está num dos mais belos momentos do filme de Allen); e ‘When you’re smiling’, tema imortalizado por Billie Holiday e Louis Armstrong. A última faixa de número 13, é uma peça que apesar de constar no encarte do disco não consta no mesmo, talvez devido a algum problema com os direitos autorais, mas dei um jeito de constar e aqui temos o famosíssimo Take Five de Paul Desmond, naturalmente na sua versão consagrada, com o Dave Brubeck Quartet; destaque para o antológico solo de bateria do grande Joe Morello, eu diria, só ombreado pelo percussionista à caixa clara da Banda de Pífanos de Caruaru na faixa A Briga do Cachorro com a Onça – raridade que em breve estará também no PQP. Deliciem-se com esta maravilhosa trilha sonora. Dedico esta postagem tão saborosa ao nosso patriarca Mr. Avicena, com o abraço de todos nós.

Mighty Aphrodite – music from the motion picture

1 Neo Minore – Vassilis Tsitsanis in bouzouky solo
2 Horos Tou Sakena – George Zambetas in bouzouky solo
3 I’ve found a new baby – Wilbur de Paris
4 Whispering – Benny Goodman
5 Manhattan – Carmen Cavallaro
6 When your love has gone – Bert Ambrose Orchestra
7 Li’l Darlin’ – Count Basie Orchestra
8 Penthouse Serenade – Errol Garner
9 I handnt anyone till you – Errol Garner
10 The ‘in’ crowd – Ramsey Lewis Trio
11 You do something to me – Dick Hyman Chorus
12 When you’re smiling – Dick Hyman Chorus
13 Take Five – The Dave Brubeck Quartet

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Trilha sonora deliciosa de um filme impagável.

Trilha sonora deliciosa de um filme impagável.

Wellbach

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Mark Isham & Charlélie Couture: The Moderns – original soundtrack

Pense no seu prato favorito, aquele com o qual você sonha, dormindo e desperto. Esta trilha é tão deliciosa quanto um prato favorito. Temos aqui uma Nouvelle Cuisine, à qual se aplicaria perfeitamente a velha sentença dos pequenos frascos com os melhores perfumes, pois que é uma trilha breve, porém rica e deliciosa; de um filme hoje infelizmente raro: The Moderns, de Alan Rudolph, 1988. Existiu em VHS, que eu saiba jamais saiu em DVD e se alguém souber, por caridade, me avise. O filme se passa na Paris de 1926, após a primeira catástrofe mundial, numa pausa entre as duas tempestades. Artistas plásticos, literatos e poetas, desocupados – flâneurs; damas do dia e da noite, modelos, provocadores dadaísta, nouveau riches, nobres arruinados e embusteiros; punguistas, pianistas e pianeiros, amontoados nos cafés toldados pela fumaça dos cigarros, cachimbos e charutos. As estéticas em metamorfose, à maneira de um magnífico piano Art Nouveau arremessado abaixo numa escadaria cubista.

2jbp0s4Um filme raro com raros artistas. Keith Carradine (irmão de David – Kung Fu e Bill de Tarantino – ambos filhos do prístino vampirão John Carradine). Talvez alguns lembrem dele em Os amores de Maria, o violeiro que seduz a bela Natassja Kinski. Keith interpreta Nick Hart, um pintor e desenhista norte americano de seus quarante ans, flanando pelos cafés parisienses e compondo o quadro que tentei pintar acima. A bela do filme – e põe bela nisso – é Linda (linda) Fiorentino, antiga namorada de Hart, que sumira e agora aparece ao lado de um misterioso oriental de passado sombrio, milionário no comércio dos então modernos preservativos de borracha; aluno de Houdini em ‘artes de fuga’. Este oriental é vivido pelo também raro e ótimo ator John Lone – sim, Pu Yi, O Último Imperador; que ignora totalmente o passado de sua ‘propriedade’, digo, de sua amante. Sobre isso nem preciso dizer mais nada. Emoldurando estes protagonistas temos figuras fictícias, históricas e semi-históricas. No papel de fiel parceiro de Nick Hart temos o próprio Hemingway! Vivido por Kevin J. O’Connor. Hem, acorrentado ao balcão do bar e em constante banho maria etílico, mistura realidade com ficção, nomes reais com os de seus personagens. Em meio a esta glamourosa fauna transita a insuportável Gertrude Stein e sua escudeira, a não menos insuportável Alice B. Toklas. Em certo momento, numa festa de intelectuais, Miss Stein diz pra Hem: “Hemingway, lembre-se: o sol também se põe!”; ao que Hem responde: “Sim, bem sobre o seu grande traseiro”. Geraldine Chaplin interpreta uma ricaça espertinha, abandonada pelo marido que fugira com uma dançarina apache. Tenta passar a perna em Hart lhe encomendando três obras falsas – no que Hart é especialista – porém sem a menor intenção de pagar por elas. São elas um Matisse, um Modigliani e um Cezanne. Obras que emblematizariam a chamada modernidade. Em certo momento de fúria o truculento oriental irá destruir os originais pensando que são falsos. As cópias de Hart irão para os museus do mundo e serão aclamadas como obras únicas, inefáveis, irreproduzíveis! Mas estou falando demais do filme, que espero, todos possam algum dia conhecer. Falemos da música.

Apesar da trilha se configurar uma galeria de estilos, autores e intérpretes, quem a assina é o trompetista americano Mark Isham, que a divide com o cantor francês Charlélie Couture. E apesar de Isham ser trompetista, é o violino quem praticamente lidera a trilha, na participação do violinista americano Sid Page. Numa galeria de atmosferas, encontramos o grande Sidney Bechet na faixa 4 – Really the Blues, irresistível, com seu intenso vibrato e generosidade melódica. Quem viu a abertura do também delicioso ‘Meia noite em Paris’ de Woody Allen sabe do que estou falando. Esta presença de Bechet não somente é oportuna por enriquecer a trilha, como também está de acordo com a acolhida que a França deu ao jazz e aos jazzistas americanos no início do século XX. A faixa 7 traz a versão original da famosíssima canção francesa Parlez moi d’amour, com Lucienne Boyer, 1930; canção que, por incrível que pareça e por alguma razão, faltou no repertório da mais famosa das divas do canto francesas, Edith Piaf. A faixa de abertura com o tema chefe do filme, será, acredito, inesquecível. Quem não conheceu o filme ainda, poderia ouvi-la assistindo a antigas filmagens da Paris de princípios do século XX ou contemplando antigas fotografias daquele contexto. Quem o fizer se concederá, garanto, um grande prazer. A sexta faixa, cantada por Charlélie Couture que aparece no filme como pianista dos cafés e cabarés, é uma curiosa peça que sabe a dadaísmo, um toque de caricatura musical típica do grande Erik Satie – Dada Je suis

25jv51xSeparei este parágrafo para destacar a faixa 8, La Valse Moderne. É que da primeira vez que estive no MASP (que os céus protejam este lugar da barbárie que impera), estava precisamente a ouvir em um aparelhinho de mp3 essa faixa quando fiquei de frente com um dos mais encantadores modiglianis: Renée. A música naquele instante deu vida ao quadro e os olhos daquela musa de Modi brilharam de verdade. Fiquei longo tempo verdadeiramente apaixonado por Renée, que travou comigo o mais profundo e romântico diálogo tácito e estético. Quem baixar esta trilha e estiver em São Paulo tente o mesmo. Não terei ciúmes, juro.

A derradeira faixa e das mais deliciosas é uma versão ‘moderna’ do Parlez moi d’amour. Algo inebriante, muito bonito e de grande elegância. O trompetista introduz reflexos de Miles Davis em seu fraseado. Esta música acompanha os créditos do filme, nos quais se vêm cortinas de seda que esvoaçam suavemente. Uma imagem que deixo para os que ouvirem esta trilha, que casa elementos impressionistas e modernos com perfeição; num indubitável exemplo de finíssimo gosto musical.

Mark Isham & Charlélie Couture: The Moderns – original soundtrack

1 Les Modernes
2 Café Selavy
3 Paris La Nuit /Selavy
4 Really the Blues
5 Madame Valentin
6 Dada Je Suis
7 Parlez moi d’amour (Retro)
8 La Valse Moderne
9 Les Peintres
10 Death of Irving Fagelman
11 Je ne veux pas des tes chocolats
12 Parlez moi d’amour (Moderne)

L’Orchestre Moderne
Sid Page – violin
Peter Maunu – violin, mandolin, electric guitar
Ed Mann – vibraphone, marimba, snare drum
Dave Stone – acoustic bass
Charlélie Couture – piano, vocals
Rich Ruttenberg – piano
Patrick O’Hearn – electrid and acoustic bass
Michael Barsimanto – drum machine
Suzy Katayama – cello
Mark Isham – trumpet

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'Charlélie' Je Suis...

‘Charlélie’ Je Suis…

Wellbach

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Antonio Vivaldi (1678-1741): Concerti da Camera

“Sentado numa rocha, na ilha de Ogígia, com a barba enterrada entre as mãos, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza, o mar muito azul que, mansa e harmoniosamente, rolava sobre a areia muito branca. Uma túnica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas correias das sandálias, que lhe calçavam os pés amaciados e perfumados de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu bastão era um maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os que usam os Deuses marinhos.” Este suntuoso parágrafo abre o conto “A Perfeição”, de Eça de Queiroz, no qual o genial escritor português narra o tédio, a inquietação e descontentamento de Odisseu, por sete anos preso à ilha (e ao leito) da ninfa Calípso. Paraíso no qual tudo é perfeição, onde os mortais e as flores jamais fenecem: “A divina ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e tuias odoríferas, as messes eternas dourando os vales, a frescura das roseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza da sesta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um sopro dos Zéfiros curiosos, que brincam e correm por sobre o Arquipélago, desmanchava a serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. No silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais embaladora os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos ciprestes aos plátanos e o lento rolar e quebrar da onda mansa sobre a areia macia.” Odisseu, farto de tanta perfeição, anseia por atirar-se ao confronto das ondas e perigos, em busca de sua perdida Ítaca, onde lhe aguardam Penélope com seu já gasto tear e o seu filho Telêmaco.

dzcasMas existiria, fora dos domínios dos deuses, tal perfeição? Talvez a exuberância destes textos nos dê uma pista. Sim, na arte encontramos tal perfeição e para além de escritos dessa estirpe, a encontramos nos domínios da música. A arte por excelência das Musas, conforme a tradição mitológica grega. O que temos aqui, nesta postagem, é um exemplo de tal perfeição. Imaginemos que, hóspedes de Calípso, sonhamos com uma orquestra de deuses a interpretar as mais divinas peças: eis aqui a realização de um sonho assim. A flautista dinamarquesa Michala Petri – já em si uma divindade em talento e beleza, a maior flautista-block da história; ao seu lado, Felix Ayo – violinista veterano do I Musici; o exímio oboísta Heinz Holliger, capaz de inebriar com seu instrumento todas as cabeças da Hidra de Lerna; mais o incomparável fagotista Klaus Thunemann! Que dizer? Ao cravo, Christiane Jacottet, tecendo sobre as cifras do contínuo uma teia de ouro, digna das mais caprichosas criações de Hefestos. Completando a constelação, Pasquale Pellegrino, também ao violino; Thomas Demenga ao violoncelo e Jonathan Rubin, na Teorba. Estes fabulosos músicos, em total comprometimento com seu repertório e imersos em evidente paixão pelo mesmo, nos trazem a perfeição. Todas estas palavras escritas até agora também servem para dizer que Vivaldi é de lascar. Sim, o Padre Ruivo é estupendo, um artista que jamais sonegou beleza; dono de uma cornucópia de beleza musical inesgotável. Um dos ápices do que para alguns – eu, pelo menos – foi o mais extraordinário período da música (opinião pessoalíssima). O reverendo veneziano que ensinou ao mestre maior, J. S. Bach, os sensos de proporção, discurso instrumental e equilíbrio; o próprio mestre declarou isso em carta, após ter tido acesso a concertos da série do L’Estro Armonico de Vivaldi, os quais transcreveu para o cravo e o órgão. A gravação é de 1983. Há muitos anos tive este espetáculo fonográfico em vinil. Esperei séculos para que aparecesse em CDs. Eis que os bons e misericordiosos deuses vieram a me recompensar a longa espera. Agora tenho o sincero prazer e honra de partilhá-lo com vocês. Esta suprema beleza e perfeição, que se existisse na ilha de Calípso, eu sendo Ulisses, esqueceria Ítaca e por lá iria ficando. Na foto acima, noite em Veneza. Sob a Ponte dos Suspiros correm as fétidas águas que nos legaram tanta beleza.

14kfw3nNão poderia escrever o que quer que fosse sobre Vivaldi sem que caísse em certo arrebatamento, efeito de sua música sobre nós. Entre estes concertos temos uma de suas criações mais ricas e impressionantes: a Sonata em lá menor RV 86. Há muitos anos me correspondia com a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, com o setor de partituras. Era atendido por gentilíssimas senhoras, que me forneciam sob ínfimo preço partituras diversas. Entre elas, alguns desses concertos e a citada Sonata. Atualmente, infelizmente, o setor decaiu e aquelas senhoras, pelo que soube, já não lá se encontram – evidente reflexo da decadência cultural em curso nos últimos anos em nosso desventurado país. Não vivemos na ilha de Calípso, enfim, mas a música nos traz a perfeição que nos inspira a olhar para melhores horizontes.

Disco I

Concerto RV 94 in D-dur
1 Allegro
2 Largo
3 Allegro

Concerto RV 103 in g-moll
4 Allegro ma cantabile
5 Largo
6 Allegro non molto

Concerto RV 87 in C-dur
7 Adagio – Allegro
8 Largo
9 Allegro assai

Sonata RV 86 in a-moll
10 Largo
11 Allegro
12 Largo, cantabile
13 Allegro molto

Disco II

Concerto RV 101 in G-dur
1 Allegro
2 Largo
3 Allegro

Concerto RV 108 in a-moll
4 Allegro
5 Largo
6 Allegro

Concerto “La Pastorella” RV 95 in D-dur
7 Allegro
8 Largo
9 Allegro

Concerto RV 105 in g-moll
10 Allegro
11 Largo
12 Allegro molto

Concerto RV 92 in D-dur
13 Allegro
14 Larghetto
15 Allegro

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Michala Petri, em todo seu poder e glória

Michala Petri, em todo seu poder e glória

Wellbach

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Fumio Hayasaka (1918-1955): The Seven Samurai Original Film Soundtrack

Quando no ano de 1953 o célebre diretor Akira Kurosawa encomendou ao seu jovem amigo o compositor Fumio Hayasaka a trilha sonora para o seu filme Os Sete Samurais, o compositor, diante de tão honorável solicitação, correu para o piano e dedilhou um breve tema, anotando-o ligeiramente num fragmento de pentagrama. Insatisfeito, amassou o papel e o atirou à cesta de lixo. Cerrando os olhos por trás dos seus possantes óculos, respirou fundo e se pôs a conceber uma sucessão de temas, até formar uma considerável pilha de papéis de música. Satisfeito, convocou Kurosawa para exibir a sua criação. O compositor tocou para ele um tema após o outro. Kurosawa, cabisbaixo, abanava a cabeça recusando cada um deles. O compositor, vendo a pilha de temas se extinguir sem qualquer resultado positivo, desesperadamente acorreu à cesta de lixo, catou no fundo o fragmento que lá havia atirado e tocou o que lá anotara. O ‘Shogun do Cinema’ ergueu a fronte, arregalou os olhos nipônicos e apontando imperativamente, grunhiu: “É isto!”. Era o icônico tema dos Sete Samurais, que pode ser ouvido a princípio na faixa 2, ressurgindo com diferentes arranjos.

7 samuraisCertos filmes revisito quase que religiosamente. Filmes como Todas as Manhãs do Mundo e O Sétimo Selo; outro é Os Sete Samurais (1954). A saga dos heroicos ronins que se sacrificam na defesa de uma pobre aldeia de camponeses. Com marcantes atuações, especialmente de Toshiro Mifune, no papel do espalhafatoso, histriônico e destemido Kikuchiyo. O filme, repleto de grandes e antológicos momentos, como a soberba batalha final, mescla a teatralidade típica do cinema japonês (cujas raízes remontam ao teatro tradicional) com elementos do cinema ocidental, o que é bastante típico na obra de Kurosawa. Esta mescla de elementos também caracteriza a obra musical de Fumio Hayasaka.

13240134_758234320981563_587649711151027007_nHayasaka nasceu em Sendai, ilha de Honshu, em 1918. Em 1918 sua família mudou-se para Sapporo, ilha de Hokkaido. Em 1933, junto com o também compositor Akira Ifukube (autor das trilhas de Godzilla), organizou festivais de música. Hayasaka recebeu diversos prêmios por seus trabalhos de caráter erudito. Em 1939 mudou-se para Tokyo para se dedicar às trilhas sonoras. No início da década de 40 era conhecido como um grande compositor japonês de cinema. Em 1950 fundaria a Associação de Música de Cinema e seria também o mentor de famosos nomes como Masaru Sato e Toru Takemitsu. Dos filmes de Kurosawa para os quais trabalhou, Rashomon (1950) teve especial significado. Foi premiado com o Leão de ouro de Veneza e foi o primeiro filme japonês a ser amplamente visto no ocidente. Para esta película, Hayasaka compôs algo inspirado no Bolero de Ravel. Em seus últimos anos, em plena atividade, trabalhou também para premiados títulos de Kenji Mizoguchi. Os Sete Samurais foi a maior produção cinematográfica em seu tempo no Japão e, dos filmes para os quais Hayasaka compôs, foi o que mais o notabilizou para a posteridade. Sobre sua relação para com a música em seus filmes e sobre o trabalho de Hayasaka, disse Kurosawa: “Eu mudei meu pensamento sobre o acompanhamento musical a partir do momento que Fumio Hayasaka começou a trabalhar comigo como compositor nas trilhas sonoras dos meus filmes. A música de cinema na época não era nada mais do que um acompanhamento – para uma cena triste, havia sempre música triste. Esta é a maneira que maioria das pessoas usam a música, e é ineficaz. Mas a partir do filme Drunken Angel em diante, eu usei música leve para algumas cenas tristes, e minha maneira de usar a música diferiu da norma; eu não a ponho da maneira que a maioria das pessoas fazem. Trabalhando com Hayasaka, comecei a pensar em termos de o contraponto de som e imagem, em oposição à união de som e imagem”.

7 sam 2 Infelizmente sua amizade com Kurosawa não foi mais duradoura devido a sua morte prematura em 1955, aos 41 anos, vitimado pela tuberculose. Sua morte afetou profundamente o diretor, lançando-o em um dos seus períodos de depressão, que mais tarde o levariam a tentativas de suicídio.  Ainda Kurosawa: “Ele era um bom homem. Nós trabalhamos tão bem juntos porque a nossa própria fraqueza era a força do outro. Era como se ele, com seus óculos, fosse cego; e como se eu fosse surdo. Nós estivemos juntos dez anos e depois ele morreu. Não foi só a minha perda. Foi uma perda da música também. Você não encontra uma pessoa como essa duas vezes em sua vida.”

7 sam 3 A qualidade sonora poderá desagradar a muitos, talvez a própria trilha também, por diversas razões. Talvez algumas trilhas que nos agradam estejam indissociavelmente ligadas ao nosso afeto pelos filmes e não sobreviveriam ao nosso gosto se deles estivessem dissociadas. Particularmente falando gosto muito de toda a trilha, especialmente da primeira faixa, de abertura do filme. Uma rústica peça para percussões tradicionais japonesas. Impressionante e ao meu ver – e ouvir – perfeita para o espetáculo que irá se desenrolar. Outra faixa genial é a 27 (Tryst). Um minuto e três segundos de pura beleza, uma peça para Koto e flauta que sem dúvida deixaria Debussy encantado. Gostaria de dedicar esta postagem à Sra. Taeko Kawamura, amante da música e amiga de facebook que há meses se ausentou de nossas páginas sem quaisquer notícias.

Fumio Hayasaka (1918-1955): The Seven Samurai Original Film Soundtrack

  • The seven samurai main title
  • To the little watermill
  • Samurai search
  • Kambei, Katsushiro, Kikuchiyo’s mambo
  • Rikichi’s tears white rice
  • Two search for samurai
  • Six samurai
  • Extraordinary man
  • Morning departure
  • Wild warrior’s coming
  • Seven man completed
  • Katsushiro & Shino
  • Katsushiro come back
  • In the forest of the water god
  • Wheat field
  • Interlude
  • Harvesting
  • Rikichi’s trouble
  • Heihachi & Rikichi
  • Farm village scenery
  • Weak insects into samurai ways
  • Foreboding of bandits
  • Flag from the seven samurai
  • Sudden confrontation
  • Magnificent samurai
  • Kikuchiyo’s rises to the occasion
  • Tryst
  • Manzo & Shino
  • Rice planting song
  • Seven samurai ending

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Legenda?

Los Harakiris, total sucesso nas paradas do Japão feudal

Wellbach

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Wojciech Kilar (1932-2013): Bram Stoker’s Dracula: Original Motion Picture Soundtrack

Gostaria de saber quem teria sugerido a Francis Ford Coppola o compositor para a sua bela versão da obra de Brahm Stoker, Drácula, de 1992. Quando vi o filme no cinema a trilha me marcou como toda boa trilha o faz conosco: como um personagem que é parte indissociável da película. Procurei saber do autor e encontrei o impronunciável prenome de ‘Wojciech’ Kilar. Curiosíssimo. Na época não havia internet e nunca ouvira qualquer comentário sobre este compositor, cuja figura singularíssima lembra ligeiramente o próprio Nosferatu de Murnau e cuja cabeleira diáfana e original talvez tenha inspirado a coisa mais esquisita do filme de Coppola: o penteado do protagonista em suas primeiras aparições em cena.

344qp03É tentador fazer comentários de natureza cinematográfica e mil piadas envolvendo Bela Lugosi, Christopher Lee, Ed Wood e até Chico Anísio com o seu impagável Bento Carneiro – ‘o vampiro brasileiro’, mas estamos aqui para falar da música. O Sr. Kilar foi um formidável compositor e ao que parece, desde a sua trilha para o filme de Coppola, veio sendo cada vez mais requisitado pelo cinema e correspondendo com seu ressaltado talento, como inspiradíssimo melodista e exímio orquestrador. Temos nesta trilha as provas disso. Seu domínio da paleta orquestral é soberano, digno herdeiro de Berlioz, Korsakov, Mussorgsky, Richard Strauss, Ravel… e após ouvi-lo em certas faixas como “Love Remembered” (número7) a sua catadura meio vampiresca se metamorfoseia aparecendo um afável compositor e maestro que gosta de gatos; além disso o Sr. Kilar possui enfim a pedra filosofal necessária a todo artista: uma imaginação maravilhosa.

Kilar 2Wojciech Kilar nasceu em 1932 em Lviv (também difícil de se pronunciar) – desde 1945 parte da Ucrânia. Seu pai era médico e sua mãe atriz. Passou a maior parte da vida em Katowice, Polônia; foi casado com uma pianista, Barbara Pomianowska. Kilar estudou nas melhores academias de música da Polônia, incluindo a escola do estado de Katowice, com a compositora e pianista Wladislawa Markiewiczówna (cruzes e alhos!), dentre outros grandes nomes da música erudita na Polônia em seu tempo; indo enfim aperfeiçoar a sua arte em Paris, sob a orientação da matriarca de inúmeros compositores do século XX, Nádia Boulanger. Kilar pertenceu, junto a nomes como Henryk Gorecki e Penderecki, ao movimento polonês de música avant-garde na década de 60. Exercendo por muitos anos a presidência da Associação de Compositores Poloneses. Sua associação com o cinema vem de muito antes do seu trabalho para Coppola, desde 1959, trabalhando para aclamados nomes como Andrzej Wajda e Krzystof Kieslowsky. Trabalhou para mais de uma centena de filmes em seu país, sendo o Drácula de Coppola seu primeiro trabalho para um filme de idioma inglês. Desde então, trabalhou para Roman Polansky em três filmes: Death and the Maiden (1994), The Night Gate (1999) e The Pianist (2002); mais Portrait of a Lady, de James Campion. A trilha do trailer de ‘Lista de Schindler’, é o seu Exodus. Paralelamente a essa produção, continuou a compor obras em diversos gêneros chamados eruditos, vocais, instrumentais e mistos; tendo por marcantes características em sua música um tocante melodismo, uma típica combinação dos timbres graves nos violoncelos e contrabaixos; mais elementos minimalistas associados às progressões harmônicas.

Kilar DraculaFazer música assustadora para as cenas de arrepiar não é tão difícil. Mesmo um amador, com certa atitude e um pouco de imaginação, percutindo um piano, por exemplo, pode conseguir certos resultados mais ou menos utilizáveis numa película de José Mojica Marins – nosso Zé do Caixão, Coffin Joe para os aficionados norte-americanos. O problema é ir além disso, trabalhar com sutilezas, pintar em sons certas atmosferas requeridas por um filme de qualidade. Isso o Sr. Kilar faz com perfeição – conhece os efeitos orquestrais como a palma da mão; nem é preciso entrar em detalhes sobre sua habilidade em desenvolver motivos rítmicos e melódicos – aprendeu bem com Beethoven e com Brahms. Uma das faixas mais belas e impressionantes é a de número 5, “Brides”, para a cena na qual – o avisado porém curioso – Jonathan Harker (Keanu Reeves) é seduzido e ‘mordiscado’ pelas três beldades vampiras noivas de Vlad. O portentoso, belo e inesquecível tema, a certa altura, ressurge em modulações inesperadas; desestabilizando o centro tonal, em verdadeiras ‘aparições’ sonoras. A faixa 4, “Lucy’s Party”, é composta com ‘ares amenos’ para uma cena menos terrificante e com toques cômicos. Contudo, logo o compositor descerra seus frasquinhos de sutis efeitos e os compassos aparentemente inocentes se veem invadidos por sombras que rondam, se insinuam, como um velho e exótico perfume que se imiscui por alguma janela. Instaurando uma atmosfera sombria, insana e ameaçadora. Na imagem acima, um autógrafo do compositor com a célula motívico-melódica principal da trilha sonora. Costumo pensar que a música chamada erudita do século XX encontrou generoso refúgio no cinema, basta pensar em nomes de gênios como Miklos Rozsa, Ennio Morricone, John Williams e tantos outros.

DraculaO compositor divide a trilha do Drácula de Coppola com a cancioneira e intérprete escocesa Annie Lennox (“Love Song for a Vampire”, faixa 16). Sendo um filme dos anos 90, mesmo com toda austeridade do personagem e romance ‘gótico’ do enredo, a produção não poderia deixar de exigir uma cantilena para tocar nas rádios e vender melhor o produto. Ora, não é das piores, não faria feio em nenhum comercial do Dia dos Namorados na Transilvânia. Na verdade, a canção ficou restrita aos créditos do filme e quem como eu tinha a mania de sair da sala de cinema por último, após a derradeira linha dos créditos, teve a oportunidade de ouvi-la na época (mania que adquiri após o filme O Enigma da Pirâmide, não vou revelar a razão mas deixo uma pista: Moriarty!). Sobre a dúvida com a qual abri o texto, possivelmente quem teria indicado Kilar para Coppola poderia ter sido seu tio maestro e compositor, Anton Coppola, que rege esta trilha sonora; à frente de uma orquestra que não está creditada neste disco.

dracula tom waitsNão poderia concluir sem falar do personagem que rouba a cena (ou todo filme) e que tem tudo a ver com música: Tom Waits no papel de Mr. Renfield – o servo do Conde, enclausurado no hospício do Dr. Seward, se deliciando com substancial dieta de insetos. Pena que não encarregaram Mr. Waits da canção romântica no lugar de Miss Lennox – mas assim talvez ficasse por demais ‘cult’ para os propósitos pecuniários da produção.

O Senhor Kilar se foi em 2013, porém faço votos que tenha sido mordido por uma das noivas de Vlad e que continue pelas noites a tecer a sua genial e bonita música, pelos séculos sem fim.

Wojciech Kilar (1932-2013): Bram Stoker’s Dracula: Original Motion Picture Soundtrack

1 Dracula – The Beginning
2 Vampire Hunters
3 Mina’s Photo
4 Lucy’s Party
5 The Brides
6 The Storm
7 Love Remembered
8 The Hunt Builds
9 The Hunters Prelude
10 The Green Mist
11 Mina & Dracula
12 The Ring of Fire
13 Love Eternal
14 Ascension
15 End Credits
16 Love Song for A vampire – Vocals, Written by Annie Lennox.

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Kilar só tem o nome de loja de eletrodomésticos

Kilar só tem o nome de loja de eletrodomésticos

Wellbach

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