Romanian Women Composers Vol.1

Para ser bem honesto, toda vez que vejo esses cds carregado de “gênero”, me bate uma desconfiança daquelas. Primeiro porque costumam ser ruins e parecem servir antes para mostrar que as mulheres são más compositoras, quando a função era para ser justamente inversa. Segundo porque são ainda mais carregados daquele ar chapa-branca que a média (motivo frequente para os cds serem ruins). E olha que a música clássica tem, pela maneira como evoluiu e pelos seus interesses, um enorme potencial chapa-branca (o que torna mais assustador me incomodar esse aspecto na confecção de um cd): o famoso “não há nada que possa me constranger aqui” que todos aqueles músicos bem alinhados tocando, no mais das vezes, com uma expressão impassível são capazes de criar. Apesar disso e tanto mais que é melhor calar, aqui estou eu a apresentar um desses cds e tecer tantos elogios quanto a seda me permite. Como sempre digo que os romenos têm alguma coisa de diferente na música contemporânea, as romenas também. Sem menoscabo de algumas compositoras pelas quais tenho carinho, como Ustvolskaya, Graciane Finzi, Marisa Rezende, Tatyana Mikheyeva, não tive a oportunidade de encontrar compositoras boas o suficiente para fazer um cd desses em nenhum outro lugar.

Irinel Anghel, compositora de Fascination II, nasceu em 1969 e é muito interessada em meios alternativos e sonoridades um tanto incomuns. Abundam em suas peças instrumentos exóticos e sons eletrônicos. Em Fascination II, tudo isso está m,uito presente e contribui para uma música muito delicada (apesar de umas sonoridades às vezes ásperas) e introspectiva, beirando o estático (no que me recorda seu professor, Octavian Nemescu, de quem já postei uma peça chamada rouaUruauor, linda, linda, hehe).

O contraste é enorme com a entrada de Umbre II, de Doina Rotaru (compositora nascida em 1951 e de quem já apresentei algumas peças aqui também). Ainda que continuemos numa atmosfera introspectiva, aqui a violência e a agitação predominam, e a placidez a que nos levava a peça de Anghel torna ainda mais violenta a ruptura a que somos trazidos. O emprego de sonoridades inusuais nos três instrumentos (piano, cello e violino) é soberbo: me cativa a construção da atmosfera densa, coesa e dinâmica, ou seja, tanta maturidade e virtuosismo arquitetônicos, dentro de uma linguagem tão atípica. Em minha modesta opinião, esta peça é a cereja do bolo delicioso que é este cd.

Maia Ciobanu (nascida em 1952) é, comparativamente, mais romântica, mais melódica. O uso de fitas magnéticas com instrumentos solos me parece ser uma constante em seu trabalho, e o resultado costuma me agradar muito. Em It shall come!, a fita magnética tem um quê um tanto cinematográfico, o que confere uma dramaticidade interessante para o clarinete solista.

Myriam Marbé, compositora que já apresentei no PQP Bach (nasceu em 1931 e morreu em 1997), é de uma geração mais antiga, da linha de frente da vanguarda romena surgida em meados dos anos 1950. Entre tantas coisas que me agradam, compôs um concerto para viola da gamba e orquestra que é de uma simplicidade e uma beleza candentes. Ainda que a música aqui apresentada seja bastante interessante (mereceria entrar no repertório dos flautistas por aí), Haykus começa num tom pouco ligeiro (ligeiro dentro dos padrões tipicamente espirituais que essas peças para flauta e piano costumam ter, sabe-se lá por quê), mas vai ganhando interesse e riqueza conforme avança.

Finalmente Mihaela Stanculescu-Vosganian, nascida em 1961, deixa-nos aqui a única peça cantada do cd, Armenian Interferences. A compositora escreveu diversas interferências, mas cada uma tem um formato um pouco diferenciado (embora eu creia que todas são para grupos de câmara). Como o título já deixa claro, é uma música de forte influência popular armênia, o que fica, dentro do possível de cantores líricos, óbvio mesmo na maneira de posicionar a voz no conjunto. Embora de maneira diferente, a peça de Vosganian se coaduna com a Ciobanu numa linguagem mais macia, menos agressiva (muito embora Ciobanu procure muita dramaticidade, enquanto Armenian Interferences seja uma peça mais relaxada, apaixonada).

Boa degustação!


Irinel Anghel

01 Fascination II, para cello, gu zheng, flauta baixa, khaen, udu, water gongs (se alguém souber a tradução, agradeço) e fita magnética

Doina Rotaru
02 Umbre II, para violino, cello e piano

Maia Ciobanu
03 It shall come!, para clarinete e fita magnética

Myriam Marbé
04 Haykus, para flauta e piano

Mihaela Stanculescu-Vosganian

05 Armenian Interfaces, para mezzosoprano, clarineta/clarone e quarteto de cordas

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itadakimasu

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Kientzy interpreta Doina Rotaru (LINK REVALIDADO)

O presente cd é uma contribuição do Sensemaya, que encarecidamente nos enviou os arquivos e pediu que postássemos alguns comentários dele sobre a obra. Mas, antes de passar a eles, gostaria de fazer também eu alguns comentários.

É particularmente impressionante a quantidade de excelentes compositoras na Romênia. Não sei bem o motivo (e sei que o comentário tende a ser bastante subjetivo e embasado de maneira um tanto torta), mas elas me parecem ser em maior número e de uma qualidade difícil de ver por aí. Enquanto eu costumo achar uma ou duas interessantes por país, na Romênia me cativam vários nomes, entre as quais eu destacaria a aqui presente, Doina Rotaru, o primeiro nome da música contemporânea romena que conheci, Mihaela Stanculescu-Vosganian, Maia Ciobanu, Violeta Dinescu, Irinel Anghel, Myriam Marbé. Aos poucos pretendo postá-las aqui para ver se concordam comigo.

Rotaru trabalha de uma maneira impressionante com diferentes sonoridades, dando sentido e  concatenações lógicas e expressivas inesperadas para sons que costumam aparecer aqui e ali na música de vanguarda com um ar de alheamento. É uma música que carrega um forte peso onírico, mítico, que vai nos envolvendo numa ambiência cheia de referências folclóricas e orientais.

Seguindo agora com a apresentação do Sensemaya:

Doina Rotaru está entre os compositores romenos vivos mais significativos. Nasceu em Bucareste, em 1951, e estudou com Tiberiu Olah [nome central da vanguarda romena dos anos 50/60, junto com Niculescu, Vieru e Stroe] em sua cidade natal e com Theo Loevendie em Amsterdã.

Sua ampla produção é sobretudo de sinfonias, concertos e peças solo com especial preferência pela flauta e pelo saxofone. É considerada representativa de música arquetipalista, isto é, música baseada em símbolos, números e fórmulas musicais folclóricas. Este disco contem obras escritas e interpretadas por Daniel Kientzy.

Masques et Miroires- Concerto nº2 para saxofone e orquestra (2006) é vagamente inspirado pelo conto filosófico de Borges “O espelho e a máscara”. Há variações musicais e emocionais do mesmo material, refletindo conceitos de beleza, sacrifício e pecado.

Colinda (2005) é uma peça curta e simples, baseada em canções de natal romenas.

Matanga (2005) é inspirado por um elefante (matanga em sânscrito). A obra foi escrita para saxofone contrabaixo e seis percussionistas.

Obsessivo (2008), para saxofones e sons eletrônicos, é também baseado em conceitos de variação emocional de um motivo musical circular, repetido durante a obra.

Reina (1995), para saxofone soprano e sons eletrônicos, é baseado em em conceito de doina romena – um canto de saudade. O trabalho é dedicado a Reina Portuondo e seu marido, Daniel Kientzy.

En revant …au saxophone (2003), para voz, saxofone e sons eletrônicos, é baseado em um texto de Malraux. A obra trabalha com a capacidade emocional da música, tornando “calorosa” uma ideia musical fria e plácida.

Seven levels to the sky (1993), Concerto nº1 para saxofone e orquestra
Duas ideias residem na base deste concerto: a ascensão da alma, passando por sete níveis de céu superpostos para que se alcance paz, e a ideia de um único som que ouvimos no início.

Boa audição!


Doina Rotaru (1951- )

01 Masques et miroires (2006), Concerto n° 2 para saxofone(s) e orquestra
Daniel Kientzy, saxofones (sopranino, alto, barítono)
Horia Andreescu, regente
Orchestra Camera Radio

02 Colinda (2005) para saxofone, harpa, celesta, percussão e trio de cordas
Daniel Kientzy, saxofone (barítono)
Ensemble Pentruloc
Bogdan Voda, regente

03 Matanga (2005), para saxofone contrabaixo e 6 percussionistas
Daniel Kientzy, saxofone (contrabaixo)
Ensemble Game
Alexandru Matei, regente

04 Obsessivo (2008), para saxofones e sons eletrônicos
Trio PROmoZICA:
Reina Portuondo, sons eletrônicos
Daniel Kientzy, saxophone (soprano, tenor)
Cornelia Petroiu, viola

05 Reina (1995), para saxofone soprano e sons eletrônicos
Meta Duo:
Reina Portuondo, sons eletrônicos
Daniel Kientzy, saxophone (soprano)

06 En revant …au saxophone (2003), para voz, saxofone e sons eletrônicos – Texto de André Malraux
Meta Trio:
Reina Portuondo, sons eletrônicos
Daniel Kientzy, saxophone (soprano, tenor)
Yumi Nara, voz

07 Seven levels to the sky (1993), Concerto nº1 para saxofone e orquestra
Daniel Kientzy, saxofones (barítono, soprano, alto)
Orchestra Filarmonica de Stat “Transilvania”
Emil Simon, regente

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itadakimasu/Sensemaya

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14th International New Music Week 2004 – Bucareste

Aí vai mais um cd de música romena. Embora seja sempre agradável ouvir um Niculescu, a peça gravada aqui, Sequentia (1994) para flauta, clarinete, violino, violoncelo e percussão, não é do que mais me surpreende nele. É de sua última fase, abertamente sacra, com peças em geral um pouco mais escuras e muito densas. Prefiro o momento anterior, doce sem deixar de ser denso, expressivo sem deixar de ser arrojado (ao contrário de compositores como Rautavaara, que realmente deram para trás para encontrarem comunicação). Ainda assim, como já dizia, a peça é interessante, guarda um sabor meio jocoso, apesar da sacralidade óbvia. Outras peças do período, como as sinfonias 4 e 5 também são muito fortes, com momentos de beleza soberba. O que me incomoda, talvez, é a sensação de reinserção na ambientação mais típica da música de vanguarda, ainda que com estilo. Sinto muita semelhança com o Lutoslawski de Mi-Parti e Livre para Orquestra (duas das minhas prediletas deles, por sinal) pelo ar grandioso, um tanto difuso, belo mas um tanto quanto assustador (sem falar na heterofonia). O Niculescu outsider me instigava mais.

O quer realmente pega aqui é a introspectiva rouaUruauor, para as 9 da manhã, de Octavian Nemescu (1940). O compositor usa durante quase toda a peça uma base eletrônica relativamente estática e vai ornamentando sem uma preocupação coesiva. Os lampejos sonoros que vão se sucedendo, pouco preocupados com conexões e desenvolvimento, são eivados de uma força religiosa, um transe, ainda que no final das contas a música não trate disso. A peça em questão faz parte de um ciclo que o compositor compôs para as 24 horas do dia.

Ainda que eu tenha enfatizado as peças do Nemescu (por ser a mais fantástica do cd, na minha opinião) e a do Niculescu (dada minha adoração pela música dele), as outras duas peças chamam igualmente a atenção. Para cello e fita magnética, a peça Shadow III, de Doina Rotaru, tem um início deslumbrante, e a fusão entre o cello e a fita magnética resulta em uma sonoridade muito cativante. Finalmente, o Concerto para sax de Sorin Lerescu é de uma doçura ímpar, às vezes até me recordando o Niculescu dos anos 80 (o que, aliás, não me parece fortuito, já que várias de suas peças me passam essa sensação). Vou ver se posto logo suas sinfonias (aproveitando que já tenho o link pronto) para ter opiniões sobre a semelhança, por exemplo, entre o clima das sinfonias 2 e 3 do Niculescu com as do Lerescu.

Mais informações sobre a Semana de 2004, clique aqui.

Boa audição!

14ª Semana Internacional de Música Nova de Bucareste (2004)

01 Stefan Niculescu – Sequentia (1994), para flauta, clarinete, violino, violoncelo e percussão
02 Doina Rotaru – Shadow III, para cello e fita magnética
03 Octavian Nemescu – rouaUruauor, para as 9 da manhã
04-05 Sorin Lerescu – Concerto para sax e orquestra

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itadakimasu

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