Banda de Música, de ontem e de sempre (3 LPs) [Acervo PQPBach] [link atualizado 2017]

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Fonogramas espetaculosamente enviados pelo professor musicólogo Paulo Castagna.

Minha infância está repleta de momentos felizes nos quais havia a presença de uma banda dessas de coreto. E talvez por isso eu deseje tão intensamente dividir com vocês esta beleza de LP triplo enviado pelo professor Paulo Castagna.

Nascido em Limeira que sou, cidade do interior de São Paulo que ainda se dá ao gosto de manter duas bandas marciais que se revezam todo domingo na praça Toledo de Barros, a principal da cidade, eu cresci tendo o imenso prazer de ouvir as retretas musicais naquele lugar, numa infância que poderia usar como citação o trecho da música de Braguinha: “todo domingo havia banda no coreto do jardim” (de o gato na tuba). E como eram verdadeiras delícias essas matinas dominicais! E ainda são: quando volto para minha terra natal, (cada vez com menor frequência), gosto muito de ainda vê-las, pois as duas corporações musicais da cidade ainda continuam firmes, uma octogenária, outra sesquicentenária. O mais bonito é a cena típica de uma cidade do interior que, apesar de seus 300 mil habitantes, insiste em manter nesse ambiente aprazível e aconchegante. Ainda que a praça esteja hoje cercada de edifícios de muitos andares, ela vive! E vive mais quando tem banda: as crianças brincam, correm atrás das pombas, casais de namorados se encontram, há por vezes casais de idosos que arriscam uns passos quando a banda toca uma valsa, tem pipoqueiro e algodão-doce, tem música, tem aplausos, tem alegria e confraternização entre pessoas que às vezes nem se conhecem. E tem muita, muita música. A praça, aos domingos de manhã ainda é a sala de visitas, talvez o salão de festas, da cidade!

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Espero que este meu depoimento pessoal tenha atiçado a vontade de vocês de ouvirem um pouco mais das músicas de bandas marciais. Este álbum é especialíssimo, pois traz 34 obras de 24 autores, que vão dos mais eruditos, compositores de música de concerto, até populares.

O primeiro LP dedica-se a peças eruditas compostas ou arranjadas para banda de medalhões da nossa música, como Carlos Gomes e Francisco Braga, ao mesmo tempo em que apresenta a influência de compositores populares da virada do século, autores de lundus e choros, caso de Anacleto de Medeiros e Henrique Alves de Mesquita, evidenciando as mudanças que estavam ocorrendo na música brasileira de então.

O segundo disco apresenta composições com elementos populares bem estabelecidos, como valsas, sambas, marchas-ranchos, schottiches, de caras como o próprio Anacleto de Medeiros, que faz a ponte com o ambiente do primeiro LP, e Pixinguinha, Donga, Sinhô, Ernesto Nazareth, Bento Mossurunga, Radamés Gnattali, terminando com o clássico dos clássicos “A Banda“, de Chico Buarque (que é um dos autores que debutam hoje aqui no PQPBach).

O último volume arremata com composições feitas especificamente para bandas de coreto, num belo trabalho de recuperação da obra de muitos autores de grande qualidade, mas que ficaram desconhecidos do grande público, em grande parte dos casos por terem dedicado suas vidas a reger e compor para as corporações musicais que comandavam. Temos aí Bernardino Joaquim de Nazareth, Augusto Nunes Coelho, José Agostinho da Fonseca, José Selaysim de Souza, Cândido Lira, Eudóxio de Oliveira Coutinho, Benedicto Silva, Antônio de Freitas Toledo, e o Mestre Vavá (Osvaldo Pinto Barbosa), responsável pelos arranjos desta pequena coleção.

É lindo! Ouça, ouça! Deleite-se!

Coreto da Praça Carlos Gomes, em Campinas (SP)

Banda de Música
de ontem e de sempre

LP01
Antônio Carlos Gomes (Campinas, SP, 1836 – Belém, PA, 1896)
01. Hino Triunfal a Camões
Anacleto de Medeiros (Rio de Janeiro, RJ 1866 – 1907)
02. Pavilhão Brasileiro
João Elias da Cunha (Niterói, RJ, 18?? – 1918)
03. Hino do Estado do Rio de Janeiro
Francisco Braga (Rio de Janeiro, 15 de abril de 1868 – 1945)
04. Episódio Sinfônico
05. Hino à Bandeira
Cincinato Ferreira de Souza (São Luís, MA, 1868 – Belém, PA, 1959)
06. Artística Paraense (abertura)
Henrique Alves de Mesquita (Rio de Janeiro, RJ, 1830 – 1906)
07. Os Beijos-de-Frade (lundu)
Isidoro Castro Assumpção (Vigia, PA, 1858 – Belém, PA, 1925)
08. Saudades de minha Terra (dobrado)
Anacleto de Medeiros (Rio de Janeiro, RJ 1866 – 1907)
09. Marcha Fúnebre N.2
Anônimo
10. Coração Santo (marcha de procissão)

LP02
Joaquim Antonio Naegele (Cantagalo, RJ, 1899 – Rio de Janeiro, RJ, 1986)
01. Ouro Negro (dobrado)
Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos – Rio de Janeiro, RJ 1890 – 1974), David Nasser (Jaú, SP, 1917 – Rio de Janeiro, RJ, 1980)
02. Quando uma estrela sorri
Francisco Braga (Rio de Janeiro, 15 de abril de 1868 – 1945)
03, Saudades (valsa)
Ernesto Nazareth (Rio de Janeiro, RJ 1863 – 1934)
04. Saudades e saudades (marcha)
Anacleto de Medeiros (Rio de Janeiro, RJ 1866 – 1907)
05. Louco amor (schottisch)
Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Jr. – Rio de Janeiro, RJ, 1897 – 1973)
06. Saudade (marcha-rancho)
Anacleto de Medeiros (Rio de Janeiro, RJ 1866 – 1907)
07. Araribóia (dobrado)
Bento Mossurunga (Castro, PR, 1879 – Curitiba, PR, 1970)
08. Bela Morena (valsa)
Sinhô (José Barbosa da Silva – Rio de Janeiro, RJ,1888 – 1930)
09. Resposta à inveja (marcha-rancho)
Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Jr. – Rio de Janeiro, RJ, 1897 – 1973)
10. Esquecida (polca-marcha)
Radamés Gnattali (Porto Alegre, RS, 1906 – Rio de Janeiro, RJ, 1988)
11. Abolição (dobrado)
Chico Buarque (Rio de Janeiro, RJ, 1944)
12. A Banda (marcha-rancho)

LP03
Anônimo
01. Silvino Rodrigues (dobrado)
02. Havaneira (polca)
Bernardino Joaquim de Nazareth (Guarani, MG, 1860-1937)
03. Biza (valsa)
Augusto Nunes Coelho (Guanhães, MG, c1890 – 19??)
04. Saudades do Cauê (dobrado)
José Selaysim de Souza
05. Saudade de Abadia (valsa)
José Agostinho da Fonseca (Manaus, AM, 1886 – Santarém, PA, 1945)
06. Almofadinha (maxixe)
Anônimo
07. Cateretê
Cândido Lira (Pernambuco, 18?? – 19??)
08. Os domingos no poço (quadrilha)
Eudóxio de Oliveira Coutinho
09. Antônio (valsa)
Benedicto Silva
10. José e Ritinha brincando (polca)
Osvaldo Pinto Barbosa, Vavá (Guarabira, PB, 1933)
11. Riso no frevo (frevo)
Antônio de Freitas Toledo
12. Depois da valsa (dobrado)

A banda:
Alexandre Areal, Clarinete
Daniel Wellington de Araújo, Trompa
Dimas José Ribeiro, Tuba
Fernando Henrique Machado, Saxofone Barítono
Gedeão Lopes de Oliveira, Trompete
Gedeão Silva, Saxofone Alto
Gerino Zuza de Oliveira, Trompete
Isabela Sekeff Coutinho, Clarinete
Johnson Joanesburg Anchieta Machado, Saxofone Tenor
José Antônio da Silva Nascimento, Bombardino
José da Silveira Vilar “Pedrinho”, Caixa
José de Oliveira Monte Amado, Pratos
Marco Salvador Salustiano Donato, Bumbo
Nivaldo Francisco de Souza, Flautim
Paulo Roberto da Silva, Trombone
Raimundo Martins, Trompa
Ricardo José Dourado Freire, Clarinete
Roberto Crispim da Silva, Trompa
Luiz Gonzaga Carneiro, Regência

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FLAC
LP01 (255Mb), LP02 (252Mb) , LP03 e encartes (283Mb)
MP3
LP01 (138Mb), LP02 (141Mb) , LP03 e encartes (173Mb)

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Alma Brasileira: Francisco Mignone (1897-1986), Glauco Velásquez (1884-1914), Oscar Lorenzo Fernandez (1897-1948), Luciano Gallet (1893-19031) e Francisco Braga (1868-1945) [Acervo PQPBach] [link atualizado 2017]

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Fonogramas espetaculosamente enviados por Robson Leitão, autor do completo texto que apresenta as obras, via Strava.

Este CD foi o escolhido para lançar oficialmente o Acervo P.Q.P.Bach de Música Clássica Brasileira porque sua qualidade é muito, mas muito alta, com obras e compositores da mais alta importância para nossa história musical.

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Seguindo-se a Aurora Luminosa [postada aqui no PQPBach], Alma Brasileira traz obras dos principais compositores da nossa primeira e segunda geração nacionalista, atendo-se ao período que vai de 1913 ao fim da década de 20. O título do CD reporta-se ao discurso proferido por Graça Aranha na abertura da Semana de 22, onde o escritor prognostica que “da libertação do nosso espírito sairá a arte vitoriosa”, arte cujo apanágio consistirá em plasmar a “progressão infinita da alma brasileira”. Francisco Braga representa o elo entre os compositores impregnados da estética romântica européia e a geração que busca uma linguagem nova, representativa da individualidade artística nacional. Dele aqui incluímos A Paz – Cortejo, obra composta em 1919 para comemorar o fim da Primeira Grande Guerra, e que aliás serviu, em 1939, de protesto contra a eclosão da Segunda Grande Guerra. De Glauco Velásquez, que forte fascínio exerceu sobre os jovens compositores de sua época, apresentamos a canção Alma minha gentil, composta sobre um dos mais célebres sonetos de Camões. Vivamente influenciado por Velásquez foi Luciano Gallet, de quem interpretamos o Tango-Batuque.
Oscar Lorenzo Fernândez e Francisco Mignone tornaram-se os mais notáveis representantes da nossa segunda geração nacionalista. Do primeiro optamos por gravar a Suíte Reisado do Pastoreio, que compreende sua peça instrumental mais famosa: o Batuque. Trata-se, dentro do período em pauta, da obra que melhor representa o compositor. Quanto a Francisco Mignone, pudemos dar vida a uma de suas composições de juventude, que sem dúvida não merece o silêncio que a mantinha afastada do público: o poema sinfônico Caramuru, inspirado na obra homônima de Santa Rita Durão.
Apresentação: Ligia Amadio

COMPOSITORES E OBRAS

Francisco Braga (1868 — 1945) é mais lembrado nacionalmente como autor da música do Hino à Bandeira que por sua trajetória de glórias. Depois da infância humilde no Asilo dos Meninos Desvalidos, no Rio de Janeiro, e da adolescência como aluno brilhante do Imperial Conservatório de Música (atual Escola de Música da UFRJ), Braga se destacou como regente, compositor e professor de composição, contraponto, fuga e instrumentação, tendo entre seus alunos mais ilustres Glauco Velásquez, Luciano Gallet e Lorenzo Fernândez. Era tão famoso no início do século XX que em 1909, na inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi o maestro convidado para o concerto de abertura, quando regeu, entre outras peças, seu poema sinfônico Insônia. Além do consagrado hino ao pavilhão nacional, composto para os versos de Olavo Bilac, Braga foi autor de ópera, concertos, poemas sinfônicos, música de câmara e canções que o projetaram internacionalmente. No final de sua vida, criou o Sindicato dos Músicos Profissionais, do qual foi o primeiro presidente.

A obra — A Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918 e causou a morte de 10 milhões de pessoas na Europa, abalou as estruturas do mundo todo. Temendo a continuidade dos conflitos, artistas, intelectuais e políticos se uniam em prol da paz. Em 1919, o então presidente da República Epitácio Pessoa participou da Conferência de Paris, em que diversos governantes mundiais discutiram o processo de paz entre as nações. Quando regressou ao Brasil, foi realizado um concerto em sua homenagem, para o qual três compositores foram convidados a criar, cada um, uma sinfonia sobre o fim da guerra. Segundo o pesquisador e antropólogo Paulo Renato Guérios, a Heitor Villa-Lobos coube A guerra; A vitória foi composta por J. Otaviano Gonçalves e A paz por Francisco Braga. Braga se inspirou diretamente no poema escrito por Escragnolle Dória e compôs um poema sinfônico para coro e orquestra, inserindo na composição o clamor pela paz dos versos de Dona.

Glauco Velásquez (1884 — 1914) nasceu em Nápoles, Itália, filho da brasileira Adelina Alambary e do barítono português Eduardo Medina Ribas, mas foi criado por família italiana, vindo para o Brasil ao completar 13 anos de idade. Em Nápoles descobriu a música, cantando em coros de igrejas. Aos 18 anos, o maestro Francisco Braga aprova suas partituras e o faz ingressar no Instituto Nacional de Música. Ali, Frederico Nascimento contribuiu decisivamente para seu aprimoramento, sem falar no próprio Braga, seu professor de contraponto, fuga e composição. Sua evolução é rápida e suas composições dessa época têm traços de um modernismo, ou pré-modernismo, que logo seria alcançado no Brasil, principalmente a partir de Villa-Lobos. Curiosamente, sua estréia pública só aconteceu aos 27 anos, em concerto no salão do Jornal do Commercio. Apresentou composições suas e foi muito elogiado pelos críticos. Mas o sucesso tardio o encontrou com tuberculose, e ele definhava rapidamente. Ao falecer, Velásquez deixou inacabada a partitura da ópera Soeur Béatrice, terminada por Francisco Braga, e o Quarto trio, concluído pelo francês Darius Milhaud.

A obra – A canção Alma minha gentil foi ouvida pela primeira vez em 19 de julho de 1913, no Rio de Janeiro, com solo da cantora Stella Parodi. Velásquez compôs a música sobre os versos do Soneto 48, escrito pelo português Luís de Camões no século XVI. Segundo historiadores, este soneto aproxima-se do soneto XXXVII de Petrarca, sendo o de Camões “de mais pura espiritualidade e mais penetrante melodia”. De acordo com o manuscrito da VIII Década de Couto, de posse da Biblioteca Municipal do Porto, em Portugal, ele foi inspirado por sua amada Dinamene, que naufragou com o poeta na foz do rio Mécon e morreu afogada. O poema, escolhido por Velásquez, revela sua própria angústia diante da iminente aproximação da morte, em decorrência da tuberculose, que ocorreria onze meses depois da estréia desta canção. O compositor tinha apenas 30 anos.

Luciano Gallet (1893 — 1931), descendente de franceses, nasceu no Rio e freqüentou o Colégio Salesiano, em Niterói (RN onde integrou o coral e estudou harmônio e piano como autodidata. Estudou arquitetura, mas a música seria seu caminho. Junto com Villa-Lobos, tocou em orquestras de baile. Em 1913, orientado pelos amigos Henrique Oswald e Glauco Velásquez, passou a se dedicar à música com seriedade. Matriculou-se no Instituto Nacional de Música para estudar piano e conquistou Medalha de Ouro. Empenhou-se em divulgar a obra de Velásquez, falecido em 1914, ajudando a fundar a Sociedade Glauco Velásquez. Além deste, Gallet sofreu influências do francês Milhaud, seu professor de harmonia. Suas primeiras obras tinham características dos dois, sempre com sonoridade afrancesada. Mas voltou-se para o folclore. Sua primeira suíte, Turuna (1926), para orquestra de câmara, traz resultados desse trabalho. Três anos depois compõe a Suíte sobre temas negro-brasileiros. Além de compositor e intérprete, foi professor, e no INM implantou a linha de ensino que vigora hoje, além de criar a cadeira de Folclore.

A obra — Assim como o Batuque da Suíte brasileira (1897), de Alberto Nepomuceno, e o Batuque do Reisado do pastoreio (1929), de Lorenzo Fernândez, o Tango-Batuque de Gallet, situado cronologicamente entre aquelas peças, apresenta elementos rítmicos afro-brasileiros. Entretanto, sua composição tem também elementos da música urbana carioca, no caso o “tango brasileiro”, que, distante das harmonias típicas argentinas, estava bem mais próximo do maxixe, cujos maiores representantes foram Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga. Gallet considerava seu Tango-Batuque o primeiro passo de sua obra na exibição de uma brasilidade profunda, preocupação sua desde 1918, quando deu inicio às pesquisas folclóricas. Ainda assim, os aspectos urbanos e populares encontrados na composição do Tango-Batuque são mesclados à musicalidade erudita, principalmente da escola francesa, tão em voga na época.

Oscar Lorenzo Fernândez (1897 — 1948), filho de espanhóis e fundador, com Villa-Lobos, da Academia Brasileira de Música, nasceu no Rio no mesmo ano em que o cearense Alberto Nepomuceno, um dos precursores do nacionalismo, compôs a Suíte brasileira. Sinal premonitório para uma carreira de muito empenho pela consolidação do nacionalismo na música erudita no Brasil. Aprendeu piano de ouvido e recebeu da irmã as primeiras noções de teoria. Tocava em bailes e compunha. Aos 20 anos, ingressou no Instituto Nacional de Música, onde aprendeu com Henrique Oswald, Francisco Braga e Frederico Nascimento, seu mentor. Teve composições premiadas em concurso internacional de 1922, e estreou no nacionalismo em 1924, com o Trio brasileiro. A consagração chega com a suíte Reisado do pastoreio. Instigado pelos manifestos modernistas de Mário de Andrade, Fernândez se inspirava em temas afro-brasileiros, ameríndios e caboclos, e criou, entre outras, a Valsa suburbana e a ópera Malazarte, baseada no texto de Graça Aranha, principal mentor da Semana de Arte Moderna. Também regente e professor, fundou o Conservatório Brasileiro de Música, em atividade até hoje no Rio.

A obra — Após o enorme sucesso de seu poema sinfônico ameríndio lmbapara, a estréia do Reisado do pastoreio se dá em 29 de agosto de 1929, no Rio, com a Orquestra do Instituto Nacional de Música, regida por Francisco Braga. Suíte orquestral dividida em três partes, teve grande êxito devido principalmente à última parte, o Batuque, muitas vezes executada separadamente e que se tornou um clássico. O Batuque se destacou, como a Congada de Mignone, pela força rítmica e estética tirada da cultura negra. Ganhou público, fama internacional e atenção de regentes estrangeiros que o interpretaram em inúmeros concertos e gravações. Sua intensa brasilidade encantou, entre outros, o lendário italiano Toscanini, o americano Leonard Bernstein e o russo Koussevitsky. Esta é uma das raras oportunidades de se ouvir o Batuque inserido na obra original.

Francisco Mignone (1897 — 1986) dedicou-se a todos os gêneros musicais, colorindo grande parte de sua obra com os matizes culturais brasileiros. Filho de imigrantes, viveu até a juventude nos bairros italianos de São Paulo. Recebeu cedo do pai lições de flauta, trompa e piano, estudando este instrumento com professor particular, mas, aos 13 anos, para custear as aulas tocava em pequenos conjuntos e acompanhava sessões de cinema mudo. Assinava suas músicas como Chico Bororó, nome de um jogador de futebol, pois fazer música popular era transgressão social. No Conservatório Dramático e Musical São Paulo conheceu Mário de Andrade, que teria imensa influência em sua música nacionalista. Em 1918, sua Suíte campestre e o poema sinfônico Caramuru foram apresentados ao público, o que lhe rendeu bolsa do governo paulista para aperfeiçoamento na Europa. Mignone ficou por lá de 1920 a 1929 mas foi tocado pela Semana de Arte Moderna e suas conseqüências. Admirava muito Villa-Lobos e estudava suas obras com afinco. De volta ao Brasil, escreveu dezenas de peças com influência afro-brasileira, e foi considerado o maior compositor erudito de música negra no Brasil.

A obra — A primeira composição orquestral de Mignone foi o poema sinfônico Caramuru, inspirado no poema épico escrito em 1781 por Frei José de Santa Rita Durão que descreve a lenda do naufrágio de Diogo Álvares Correia (o “Caramuru”), ocorrido no século XVI no Recôncavo Baiano. A estréia da obra aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo, em 18 de setembro de 1918, sob a regência de seu pai, Alfério Mignone, mas com supervisão direta de Francisco, que tinha 21 anos. Caramuru já apresenta características que seriam comuns na sua obra e sonoridades brasileiras que tanto o atraiam. Para o musicólogo Mario Tavares, “a melhor música de Mignone é toda ela impregnada de um brilho orquestral impetuoso e singular, bem como do desejo incontido de expressar todo o seu comprometimento com a brasilidade”.

textos: Robson Leitão

Trata-se de um disco antológico, com compositores e obras que queriam dar uma cara mais brasileira à música que aqui se fazia, afastar-se dos estrangeirismos, fazer uma arte genuinamente nacional.

Ouça, ouça! Deleite-se sem a menor moderação!

Alma Brasileira
Nacionalismo e modernismo brasileiros

Francisco Mignone (1897-1986)
01. Caramuru – Poema Sinfônico
Glauco Velásquez (1884-1914)
02. Alma Minha Gentil, op. 107, para canto e orquestra de câmara
Oscar Lorenzo Fernandez (1897-1948)
Reisado do Pastoreio
03. Reisado
04. Toada
05. Batuque
Luciano Gallet (1893-19031)
06. Tango-Batuque
Francisco Braga (1868-1945)
07 e 08. A Paz – Cortejo para coro e orquestra

Orquestra Sinfônica Nacional – UFF
Ligia Amadio, regente

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A Voz de Alice Ribeiro na Canção do Brasil – 2 Volumes [link atualizado 2017]

Alice Ribeiro, Alice Ribeiro…

Ah, Alice Ribeiro! Ela era mesmo daquelas que podemos chamar de diva! Bela e dona de uma linda voz, com técnica e com carisma. E o que mais me agrada é que ela era muito versátil: consegue seguir músicas mais pesadas, mas sua voz se destaca em canções de câmara, mais singelas, pela limpidez do seu timbre e pela clareza da dicção, bem acima dos padrões de uma cantora lírica. As músicas aqui soam quase como se fossem MPB, sendo possível fazer comparações com cantoras de música de rádio de voz aguda como a de Alice: não é difícil aproximá-la a Dalva de Oliveira, por exemplo.

A soprano era dona de uma técnica e de uma pureza na voz impressionantes. Seu casamento com José Siqueira foi uma feliz união de duas pessoas competentíssimas na música e, se por um lado o fato de Siqueira escalá-la costumeiramente para executar suas músicas foi uma forma de proteção a Alice Ribeiro, a perfeição da moça nas interpretações das peças também muito ajudou a divulgar o trabalho do marido. Dupla pra lá de boa essa! Nem vou me alongar muito nos elogios porque eles vão acabar sendo redundantes depois das postagens já realizadas.

<< contracapa do disco autografada por Alice Ribeiro (está no arquivo para download)

No Primeiro Volume de A Voz de Alice Ribeiro na Canção do Brasil, a soprano coloca toda a sua delicadeza novamente em cena para interpretar canções de motivos populares do Brasil, contemplando compositores de várias partes do país, com destaques aqui para os dois autores mais contemplados: José Siqueira, paraibano arretado que vai buscar e defender a música com influência especialmente negra e nordestina, e Waldemar Henrique, este último, grande compositor paraense que se destacou especialmente pelas canções que criou, muitas ligadas ao folclore e à cultura do Amazonas. E as canções de ninar que ela canta, então (Papai Noel, Acalanto e Balança Eu)? Dá para embalar seus filhos ou netos para dormir até hoje.

O volume dois de A Voz de Alice Ribeiro na Canção do Brasil (e que voz!) é mais lento e tem uma característica mais de acalanto que o primeiro. É mais terno, mais intimista, mais maternal até. E segue com canções que estão exatamente no meio-fio entre o erudito (a música de concerto) e o popular: não são poucos os momentos em parece que estamos ouvindo uma daquelas músicas que apareciam nos antigos filmes dos estúdios da Atlântida. Isso se dá pela orquestração simples e pela leveza e clara dicção de Alice Ribeiro. Fica-se a questionar, novamente, se é que existe algo que divida o erudito do popular. As músicas aqui cantadas pela soprano, contemplando compositores cariocas (Lorenzo Fernandez, Roberto Duarte, Ricardo Tacuchian), paraibanos (os irmãos Siqueira) e paraenses (Waldemar Henrique, Jayme Ovalle), mostram exatamente isso, e são de um alto grau de pureza e de ligação com nossas canções.

Bom, chega de lenga-lena, vamos à música! Ouça! Ouça!

Ah, esse volume duplo leva o carimbo de IM-PER-DÍVEL!!!

Alice Ribeiro (1920-1988)
A Voz de Alice Ribeiro na Canção do Brasil – Vol.1

01. A Casinha Paquenina – arr. José Siqueira (1907-1985)
02. Coco Peneruê – Waldemar Henrique (1905-1995)
03. Papai Noel – Francisco Mignone (1897-1986)
04. Natiô – José Siqueira (1907-1985)
05. Engenho Novo – Leopoldo Hekel Tavares (1896-1969)
06. Acalanto – Ernani Braga (1888-1948) (letra Manoel Bandeira, 1886-1968)
07. Azulão – Jayme Ovalle (1884-1955)
08. Querer Bem não é Pecado – Osvaldo de Souza, Ricardo Tacuchian (1939)
09. Balança Eu – José Siqueira (1907-1985)
10. Nesta Rua – arr. José Siqueira (1907-1985)
11. Boi-bumbá – Waldemar Henrique (1905-1995)
12. Virgens Mortas – Francisco Braga (1868-1945)

Alice ribeiro, soprano
(sem informação da orquestra)
José Siqueira, regente
Rio de Janeiro, 1968

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Alice Ribeiro (1920-1988)
A Voz de Alice Ribeiro na Canção do Brasil – Vol.2

01. Toada Baré – Arnaldo Rebello (1905-1984), arr. Roberto Ricardo Duarte (1941)
02. Foi Numa Noite Calmosa – José Siqueira (1907-1985)
03. Maracatu – Waldemar Henrique (1905-1995), arr. Roberto Ricardo Duarte (1941)
04. Dorme Coração – Arnaldo Rebello (1905-1984), arr. Roberto Ricardo Duarte (1941)
05. Dentro da Noite – Oscar Lorenzo Fernandez (1897-1948), arr. Roberto Duarte (1941)
06. Você – José Siqueira (1907-1985)
07. Por Quê? – Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993), arr. Ricardo Tacuchian (1939)
08. Toada para Você – Oscar Lorenzo Fernandez (1897-1948), arr. Elza Lakschevitz
09. Modinha – Jayme Ovalle (1884-1955), arr. José Siqueira (1907-1985)
10. Banho de Cheiro – Osvaldo de Souza, arr. Odemar Brígido (1941)
11. Tamba Tajá – Waldemar Henrique (1905-1995), arr. Roberto Ricardo Duarte (1941)
12. Cantiga para Ninar – Haroldo Costa (1930), arr. Ricardo Tacuchian (1939)
13. Que Sorte, Que Sina – João Baptista Siqueira (1906-1992)

Alice ribeiro, soprano
(sem informação da orquestra)
José Siqueira, regente
Rio de Janeiro, 1968

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Eufonium Brasileiro – Fernando Deddos

A resenha abaixo foi retirada deste link aqui. Particularmente, achei muito boa a iniciativa de se abrir repertórios para o eufônio/bombardino e este álbum apresenta uma diversidade de linguagens muito salutar e rica. Vale a pena, no mínimo, baixar para apreciar as obras, o belo som do eufônio e a competência do intérprete.

***

Por Ricardo Prado

“Eufonium Brasileiro” é o primeiro CD do compositor e eufonista Fernando Deddos, um desses artistas poderosos cuja paixão por seu instrumento é capaz de nos iluminar de uma música inesperada e bela.

Eufônio vem de Euphonium, que significa “som bonito”. Ele é o bombardino das bandas militares e escolares – essas matriarcas da música no Brasil. Fernando chama o instrumento carinhosa, poeticamente, de “o querido bombardino”. O compositor Harry Crowl – que está presente com a obra “Diálogo sonoro sob as estrelas”, dedicada ao intérprete -, escreve: “Sempre me intrigou o fato de o bombardino, ou eufônio, não ser um instrumento mais valorizado como solista. Normalmente utilizado para fazer o contracanto nos dobrados e outras obras da tradição brasileira para banda militar, o eufônio também aparece em algumas obras orquestrais como um instrumento exótico. Mas, como podemos constatar, esse instrumento não fica nada a dever para uma trompa e tem mais possibilidades técnicas que um trombone”.

Além das obras de Fernando Deddos, marcadas pela inventividade e, frequentemente, por essa forma agudar de inteligência que é o humor, o CD conta composições de Carlos Gomes, Francisco Braga, Isidoro de Assumpção, Hermeto Paschoal, Carlos da Costa Coelho e Isaac Varzim: uma variedade de estilos que, além de demonstrar as imensas possibilidades do instrumento, forma um panorama da imensa riqueza da criação musical brasileira. Para tanto, Deddos reuniu um elenco de convidados que lhe permite ganhar deles e compartilhar conosco música tão singela quanto imensa.

O disco é, para mim, uma revelação comovente, uma lição de música que Fernando Deddos oferece e que precisa ser aceito e mantido por perto, ao alcance da mão, cotidiano.

***

Eufonium Brasileiro

1 – Saudação (Tradicional brasileira)
2 – Frevo do Besouro (Fernando Deddos)
3 – Diálogo sonoro sob as Estrelas (Harry Crowl)
4 – Fantasia Fandango (Fernando Deddos)
5 – Ratatá! (Fernando Deddos)
6 – Interferência
7 – Quem Sabe!? (Carlos Gomes)
8 – Diálogo Sonoro ao Luar (Francisco Braga)
9 – Saudades de Minha Terra (Isidoro C. de Assumpção)
10 – Rabecando (Fernando Deddos)
11 – Chorinho pra Ele (Hermeto Pascoal)
12 – Ferme les Yeux (Carlos Coelho)
13 – Impropus (Fernando Deddos)
14 – Eletrofônio (Isaac Varzim)

Fernando Deddos, eufônio e compositor
Participações musicais: Rodrigo Capistrano, saxofone alto. Adailton Pupia, viola caipira. Rafael Buratto, violoncelo. Thiago Teixeira, Davi Sartori e Carlos Assis, piano. Danilo Köch Jr., caixa clara. Vina Lacerda, pandeiro. Danilo Koch Jr, marimba.

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Dia da Independência: Osesp – Hinos Brasileiros

Independência ou Morte (1888) - Pedro Américo

 

Hino da Independência

O Hino da Independência é um dos símbolos oficiais da República Federativa do Brasil. Sua letra foi composta por Evaristo da Veiga e a música é de Dom Pedro I.

Segundo diz a tradição, a música foi composta pelo Imperador às quatro horas da tarde do mesmo dia do Grito do Ipiranga, 7 de setembro de 1822, quando já estava de volta a São Paulo vindo de Santos. Este hino de início foi adotado como Hino Nacional, mas quando D. Pedro começou a perder popularidade, processo que culminou em sua abdicação, o hino, fortemente associado à sua figura, igualmente passou a ser também desprestigiado, sendo substituído pela melodia do atual Hino Nacional, que já existia desde o mesmo ano de 1822.

Fonte: Wikipédia

Hino Nacional

Na aguda tonalidade de si bemol maior, a versão original celebra o Sete de Abril de 1831, quando D. Pedro I abdicou em favor de seu filho, D. Pedro II, monarca nascido no Brasil. Muito embora a música para o poema de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, intitulado Os Bronzes da Tirania, tenha sido reconhecida como Hino Nacional, não houve lei no Império que a oficializasse. Com a República, em 1890, ela foi formalmente adotada. Em 1922, quase um século após sua composição, com novos versos escritos por Joaquim Osório Duque Estrada e o acréscimo do refrão “Ó Pátria amada, idolatrada, salve! salve!”, o Ouviram do Ipiranga passou a ser o poema oficial do Hino Nacional. Somente em 1942, estabeleceu-se a orquestração de Antônio de Assis Republicano, na propícia tonalidade de fá maior (tanto sob o ponto de vista vocal como sinfônico). A partitura utilizada aqui é da Criadores do Brasil, a editora da Osesp, sob minha revisão musicológica.

Rubens Ricciardi, compositor e professor titular da USP.

A Osesp e a revista Nova Escola disponibilizam os hinos brasileiros gravados pela Osesp sob regência do maestro John Neschling. O download é gratuito e também é possível baixar o encarte para montar o CD.

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Osesp: Hinos Brasileiros

01. Hino Nacional Brasileiro – versão instrumental
Música: Francisco Manuel da Silva

02. Hino Nacional Brasileiro – versão com coro
Música: Francisco Manuel da Silva
Letra: Joaquim Osório Duque Estrada

03. Hino da Independência
Música: D. Pedro I
Letra: Evaristo da Veiga

04. Hino da Bandeira Nacional
Música: Francisco Braga
Letra: Olavo Bilac

05. Hino da Proclamação da República
Música: Leopoldo Miguez
Letra: Medeiros de Albuquerque

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Coro da Osesp
John Neschling

Link direto do podcast da Osesp
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