Komitas (1869-1935): Patarag (Liturgia) for male choir

Na fronteira da Armênia com o Irã está o Monte Ararat, honorável porto da Arca de Noé. Ponto a partir do qual, conforme este dado bíblico, a humanidade teria voltado a florescer após o Dilúvio. Não seria este o único dilúvio que aqueles píncaros testemunhariam. Milênios após aquele cataclismo deflagrado pelo Criador, outro dilúvio inundaria o sopé do Ararat; não um dilúvio de água, mas de sangue. O Genocídio (ou Holocausto) Armênio, também chamado no idioma armênio de Medz Yeghern – “Grande Crime”, foi o extermínio sistemático deflagrado pelo Império Otomano contra a sua minoria armênia, com uma estimativa de vítimas entre 800.000 a 1,5 milhões. A data de 24 de abril de 1915 demarca o início desse massacre que preludiou, de certa forma, o Holocausto seguinte que se desdobraria na Segunda Guerra Mundial. Na data mencionada, as autoridades otomanas prenderam e deportaram de Constantinopla para Ankara 250 intelectuais e líderes comunitários armênios, a maioria dos quais sendo assassinados. Entre eles estava Soghomon Gevorki Soghomonian, mais conhecido como Komitas. Sacerdote armênio, compositor, musicólogo, cantor e maestro; fundador da Escola Nacional Armênia de Composição e um dos pioneiros da etnomusicologia.

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Komitas (também chamado Gomidas) nasceu em 26 de setembro de 1869 em Koutina – Anatólia, em território de Império Otomano (no oeste da Turquia de hoje). Órfão muito cedo, foi criado por parentes. Conta-se que seus pais eram amantes da música. Seu pai era sapateiro e sua mãe tecelã, ambos compunham e cantavam canções folclóricas que se tornaram populares em seu contexto. A perda da mãe e posteriormente do pai por alcoolismo debilitaram e afetaram profundamente a sua infância, na qual foi descrito como um “gentil e frágil menino que costumava ser visto dormindo nas pedras frias da lavanderia”. Em 1881 foi enviado para continuar sua educação em Etchmiadzin, ao Seminário Gervogian, centro da Igreja Armênia, em território do Império Russo, onde ele se destacou por sua bela voz. Tendo o seu talento musical desenvolvido e colocado em uso enquanto trabalhava com o coro, ao longo de sua educação religiosa, sendo então elevado à categoria de Vardapet (ou Vartabed, muitas vezes traduzido como “Arquimandrita” – um padre celibatário). Em virtude de sua ordenação foi renomeado de Komitas, homenagem a um notável poeta e compositor de hinos do século VII, Chatolicos Komitas.

Com o apoio do Catholicos Khrimian e do magnata arménio Mantáshev, Komitas Vardapet recebeu educação musical superior na Alemanha, introduzindo os europeus pela primeira vez na tradição musical armênia. Mais do que meramente a realização e partilha de cultura através das fronteiras, o talento musical profundo de Komitas serviu para realizar uma profunda investigação sobre a música armênia tradicional (e curda); música religiosa armênia, bem como o sistema de notação musical armênio, conhecido como “Khaz”. Foi durante esse tempo que a liturgia (missa, culto de domingo) da Igreja Armênia foi modificada através de métodos musicais ocidentais e notação; o arranjo de Komitas permanece muito popular hoje (juntamente com a de seu contemporâneo, Makar Yekmalian). Em 1896 chegou Berlim, onde estudou teoria e composição, piano e órgão, e aperfeiçoou a sua técnica de canto. Também, na Friedrich-Wilhelms-Universität, estudou Filosofia, Estética, História Geral e História da Música. Utilizou seus conhecimentos da tradição ocidental para construir uma tradição nacional, recolhendo e transcrevendo 3.000 peças da música folclórica armênia (mais da metade perdida, sobrevivendo cerca de 1200 peças). Publicou, em 1904, a primeira coleção de canções folclóricas curdas. Juntamente com seu coro chamado “Gousan” e uma orquestra de instrumentos tradicionais armênios, se apresentou em inúmeras cidades e em eventos na Europa, ganhando a admiração de Claude Debussy: “Brilhante Pai Komitas, eu me curvo perante o seu gênio musical!”; como também teve a admiração de Fauré, Vincent d’Andy e Saint-Säens. Sua fascinante personalidade, beleza e habilidade vocal, mais sua destreza ao piano e na flauta embeveciam as plateias.  Em 1910 Komitas se estabeleceu em Constantinopla, fugindo da inveja e hostilidade dos clérigos ultraconservadores de Etchmiadzin (assim como em seu tempo Guido d’Arezzo teve de fazer o mesmo, indo para Roma apresentar ao Papa suas novas ideias de codificação da música); também com a finalidade de apresentar o seu trabalho a um público cada vez mais vasto. Sendo assim amplamente admirado e aceito pelas comunidades armênias e chamado de “salvador da música armênia”. Infelizmente seu sonho de estabelecer um Conservatório Nacional em Constantinopla foi frustrado pelo descaso das autoridades que poderiam patrocinar tal feito. Isto não o impediu, contudo, de dar curso à sua obra vocal e instrumental, na qual mesclava elementos da tradição europeia ocidental e elementos da música sacra tradicional armênia e folclórica. Seu Patarag – Liturgia, para vozes masculinas, é considerado o ápice de suas criações. Música monumental, de impressionante força, como um oceano profundo e tempestuoso; no qual, lembrando um trecho de Ésquilo em seu Prometeu Acorrentado, ‘as ondas que se elevam e inundam o caminho dos astros’.

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No dia em que se deflagrou o genocídio armênio ele foi preso e embarcado num trem juntamente com mais 180 outros notáveis armênios. Sendo remetidos para o norte da Anatólia Central, a uma distância de cerca de 300 milhas. Seu amigo poeta e nacionalista turco Mehmet Emin Yurdakul e outros personagens influentes, como o embaixador americano Henry Morgenthau, prontamente se mobilizaram em seu favor e de outros, conseguido com que ele fosse remetido à capital juntamente com mais oito deportados. O período no qual Komitas permaneceu prisioneiro o afetou indelevelmente. Os horrores que testemunhou e a traumática experiência avariaram irreversivelmente sua mente. Um dos seus companheiros de degredo, Grigoris Balakian, escreveu em seu livro “O Gólgota Armênio” sobre o que testemunhou e detalhes de sua deportação junto a Komitas: “Quanto mais afastados da civilização, mais agitadas eram nossas almas e nossas mentes atordoadas pelo medo. Víamos bandidos por trás de cada pedra. As redes ou suportes de suspensão nas árvores nos pareciam cordas de forca. O especialista em canções armênias, o inigualável arquimandrita Padre Komitas, que estava em nosso vagão, parecia mentalmente instável. Ele pensou que as árvores fossem bandidos em ataque e continuamente escondeu sua cabeça sob a bainha do meu sobretudo, como uma perdiz com medo. Ele me pediu que lhe dissesse uma bênção – O Salvador – na esperança de que iria acalmá-lo”.

No outono de 1916 ele foi levado para um hospital em Constantinopla, em seguida mudou-se para Paris, onde morreu em 22 de outubro de 1935, numa clínica psiquiátrica em Villejuif na qual se encontrava por vinte anos. No ano seguinte as suas cinzas foram transferidas para Yerevan, na Armênia, e depositadas em um Panteão batizado com seu nome. Komitas, para mim é santo. Não sei para vocês. Que é um mártir do Genocídio Armênio, não o podemos negar. Acima de tudo foi um genialíssimo compositor e musicólogo. Ouçamos reverentes a esta impressionante obra, um dilúvio sonoro de forte beleza.

Patarag (Liturgia) – for male choir.

  • O Mystery deep
  • Throug the intercession of the Virgin Mother
  • Holy God
  • Again in peace
  • Glory to thee, O Lord
  • The body of the Lord
  • Who is like unto the Lord
  • Again in peace. Save O Lord
  • Christ in our midst
  • Let us stand in awe, Mercy and peace
  • Holy, holy
  • Heavenly Father
  • In all things blessed art thou, O Lord
  • Son of God
  • Spirit of God
  • Intercessions
  • Thanksgiving
  • And the Mercy of our great Lord
  • Our Father
  • The one holy
  • Holy is the Father
  • Lord, have mercy
  • Christ is sacrified
  • We have been filled with thy good things
  • We give thanks to thee
  • The Prayer Amid the church. Blessed be the Lord’s name

Male Chamber Choir of the Yerevan opera Theatre

Conductor Komitas Keshishyan

Chorus Master Tatevos Asmaryan

Soloist David Varzhapetyan

Recorded in 1989.

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Komitas, grande compositor, pioneiro musicólogo e etnomusicólogo.

Komitas, grande compositor, pioneiro musicólogo e etnomusicólogo.

Wellbach

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