Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra

Só de ver o título A Canção da Terra ou Das Lied von der Erde eu já fico feliz, mas alguma coisa não deu certo neste CD. A primeira surpresa é que o notável tenor Jonas Kaufmann canta todas as seis partes. Ora, esta obra é considerada uma espécie Sinfonia para tenor e contralto (ou mezzo ou barítono) e tradicionalmente duas vozes cantam os seis movimentos. As performances com um barítono ao invés de um mezzo ou contralto como segundo solista parecem ter se tornado mais comuns na última década, seguindo o exemplo criado há meio século por Dietrich Fischer-Dieskau (com James King, tenor), Thomas Hampson (com Peter Seiffert, tenor) e Christian Gerhaher (com Klaus Florian Vogt, tenor). As gravações citadas demonstraram quão eficaz uma segunda voz masculina pode ser nesta peça. Mas, embora a voz de Kaufmann seja regularmente descrita como tendo qualidades de barítono, ele não é um barítono, e há momentos em que parece estar lutando para reunir o suficiente peso para suportar a linha vocal. Foi uma experiência… que talvez não devesse ser registrada em disco, considerando-se que Kaufmann costuma ser espetacular.

Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra

1 Mahler: Das Lied von der Erde: Mahler: Das Lied von der Erde: I. Das Trinklied vom Jammer der Erde 8:06
2 Mahler: Das Lied von der Erde: Mahler: Das Lied von der Erde: II. Der Einsame im Herbst 9:57
3 Mahler: Das Lied von der Erde: Mahler: Das Lied von der Erde: III. Von der Jugend 3:08
4 Mahler: Das Lied von der Erde: Mahler: Das Lied von der Erde: IV. Von der Schönheit 6:56
5 Mahler: Das Lied von der Erde: Mahler: Das Lied von der Erde: V. Der Trunkene im Frühling 4:25
6 Mahler: Das Lied von der Erde: Mahler: Das Lied von der Erde: VI. Der Abschied 28:33

Jonas Kaufmann, tenor
Wiener Philharmoniker
Jonathan Nott

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Jonas, veja bem...

Jonas, veja bem…

PQP

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Vários compositores: Piano Rarities · Vol. 1 Transcriptions

Um disco gentil e agradável. Nada demais, mas também nada indigno. Chama a atenção, é claro, as transcrições para piano do lied An Sylvia, de Schubert, e do Adagietto da Quinta Sinfonia de Mahler. Cyprien Katsaris é um virtuose daqueles que fazem uma brilhatura e sorriem. Ele ama transcrições, tanto que já gravou a integral das Sinfonias de Beethoven transcritas por Liszt. Mas sua maior aventura foi ter gravado uma rara versão para piano de A Canção da Terra, de Gustav Mahler com Brigitte Fassbaender e Thomas Moser. Em registros mais sérios, está gravando todos os Concertos para Piano de Mozart. Olha, com o espírito que ambos têm, Mozart e Katsaris, acho que deve ser uma boa ouvir. É um sujeito peculiar esse pianista.

Vários compositores: Piano Rarities · Vol. 1 Transcriptions

1 Fritz Kreisler (1875-1962) · Praeludium and Allegro in the style of Pugnani
2 Robert Schumann (1810-1856) · MondNacht, op. 39 no. 5
3 Franz Schubert (1797-1828) · Gesang (An Sylvia), op. 106 no. 4, D. 891
4 Richard Wagner (1813-1883) · Der Engel (no. 1 from Wesendonck-Lieder)
5 Richard Strauss (1864-1949) · Zueignung, op. 10 no. 1
6 Gustav Mahler (1860-1911) · Adagietto (from Symphony no. 5)
7 Federico Mompou (1893-1987) · Damunt de tu només les flors
8 Francisco Táregga (1852-1909) · Recuerdos de la Alhambra
9 Agustín Barrios Mangoré (1885-1944) · Chôro Da Saudade
10 Georges Bizet (1838-1875) · Adieux de l’Hôtesse arabe
11 Gabriel Fauré (1845-1924) · Nell, op. 18 no. 1
12 Léo Delibes (1836-1891) · Valse (from Coppélia ou la Fille aux yeux d’émail)
13 Stanislaw Moniuszko (1819-1872) · Gwiazdka
14 Sergei Rachmaninov (1873-1943) · Vocalise
15 Reinhold Glière (1875-1956) · Valse (from The Bronze Horseman)

Cyprien Katsaris, piano

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Cyprien Katsaris: a cara deste CD

Cyprien Katsaris: a cara deste CD

PQP

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 5

Tenho a impressão de que Mahler adoraria esta versão super contrastante de Evgeny Svetlanov (1928-2002). O primeiro movimento é perigosamente lento (às vezes arrastado), porém as explosões são espetaculares. O segundo movimento é tão tempestuoso como pode ser. O terceiro movimento é não é lento, mas é mais delicado do que o habitual e tocado de forma muito bela. O Adagietto é um tiro no coração — há leitura mais profunda do que a de Svetlanov? Declaro Svetlanov o Campeão do Adagietto! É pra chorar mesmo. E o último movimento é maravilhosamente detalhado e muito poderoso. Ainda fico com os registros de Tilson Thomas e Bernstein, mas que este Svetlanov convence, ah, convence sim!

Gustav Mahler (1860-1911): Symphony No. 5

1 Trauermarsch, In Gemessenem Schritt. Streng. Wie Ein Kondukt 14:40
2 Stürmisch Bewegt. Mit Grösster Vehmenz 14:42
3 Scherzo. Kräftg, Nicht Zu Schnell 19:26
4 Adagietto. Sehr Langsam 9:55
5 Rondo-Finale. Allegro 14:17

Russian State Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov

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Svetlanov

Svetlanov

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 2 “Ressurreição”

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um Mahler russo e monumental este de Svetlanov. Gostei muito. Creio que possa me ufanar de conhecer muitíssimas gravações desta obra-prima e digo-lhes que há várias excelentes. Se Rattle permanece no topo da Ressurreição, Tilson Thomas, Bernstein e este Svetlanov pressionam o campeão. Esta sinfonia pergunta: “Por que se vive?”. Simbolicamente, ela narra a derrota da morte e a redenção final do ser humano, após este ter passado por uma período de incertezas e agruras. São suas dúvidas, sua fé e a ressurreição no Dia do Juízo Final. O primeiro movimento é sobre a morte, no segundo a vida é relembrada, e o terceiro apresenta as dúvidas quanto à existência e ao destino. No quarto movimento o herói readquire a sua fé e a esperança. No quinto e último movimento ocorre a Ressurreição, na forma imaginada por Mahler.

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 2 “Ressurreição”

1. Allegro maestoso. Mit durchaus ernstem und feierlichem Ausdruck (With complete gravity and solemnity of expression)
2. Andante moderato. Sehr gemächlich. Nie eilen. (Very leisurely. Never rush.)
3. In ruhig fließender Bewegung (With quietly flowing movement)
4. Urlicht (Primeval Light). Sehr feierlich, aber schlicht (Very solemn, but simple)
5. Im Tempo des Scherzos (In the tempo of the scherzo

Olga Aleksandrova, contralto
L. Ermakova, Choir Master
Natalia Gerasimova, soprano
Russian State Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov

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Svetlanov, pegando Mahler com a mão

Svetlanov, pegando Mahler com a mão

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 3

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Dentre o mar de regentes, uso poucos como tábuas certas de salvação: Fricsay, Kleiber, Wand, Celibidache, Abbado, Bernstein, Temirkanov, Gardiner, Rattle. Neste século, Dudamel e Nelsons. Mas, de todos eles, o cara no qual confio mesmo é Bernard Haitink. Chegando aos 88 anos, o ex-violinista tem tantas gravações de grande qualidade como regente que dá para preencher paredes de CDs. Seus anos de Concertgebouw, Londres e Boston foram brilhantes. Vi-o recentemente em ação, à frente da Chamber Orchestra of Europe, com Alina Ibragimova. Está com tudo em cima, regendo como nunca. Aqui temos um registro recente de um concerto realizado em Munique em junho de 2016. Haitink, ao vivo, faz uma 3ª de Mahler bem diferente de suas gravações do século XX. A sinfonia está mais delicada e próxima do texto-programa do compositor. Ou seja, Haitink não estava confortável no cânone de grandiosidade normalmente utilizado. Mesmo no Olimpo, ainda se incomoda. E é notável como tudo ganhou uma vida diferente. As bandas militares da infância de Mahler ficaram mais lúdicas. A poesia é poesia — Haitink respeitou minuciosamente o modo rarefeito com que a orquestra é tratada e sublinha este fato com clareza. Enfim, não dá para deixar passar. Trata-se de algo que deve ser ouvido.

Haitink em 1984

Haitink em 1984

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 3

01. Symphony No. 3 in D Minor_ I. Kräftig. Entschieden
02. Symphony No. 3 in D Minor_ II. Tempo di menuetto. Sehr mäßig
03. Symphony No. 3 in D Minor_ III. Comodo. Scherzando
04. Symphony No. 3 in D Minor_ IV. Sehr langsam. Misterioso
05. Symphony No. 3 in D Minor_ V. Lustig im Tempo und keck im Ausdruck
06. Symphony No. 3 in D Minor_ VI. Langsam. Ruhevoll. Empfunden

BERNARD HAITINK
Conductor
GERHILD ROMBERGER
Mezzosoprano
AUGSBURGER DOMSINGKNABEN
Director: Reinhard Kammler
FRAUENCHOR DES BAYERISCHEN RUNDFUNKS
Director: Yuval Weinberg
SYMPHONIEORCHESTER DES BAYERISCHEN RUNDFUNKS

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Haitink em janeiro de 2017 | Foto: PQP Bach

Haitink em janeiro de 2017 | Foto: PQP Bach

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In Memory Of… Classics for Funerals (Sugestões de Repertório para seu Velório)

IM-PER-DÍ-V…

Este álbum duplo que me caiu nas mãos é algo bastante original. In Memory Of… Classics for Funerals é uma série de highlights lentos, tristes e pouco barulhentos. A respeitada gravadora Chandos resolver perder o pudor e chamou a coletânea de Clássicos para Funerais, ou seja, se algum familiar seu morrer e você quiser colocar uma música culta e digna em honra a seu morto, aí está! Lembrem do PQP quando ouvirem a trilha no velório, por favor. É o mínimo.

A primeira faixa do disco, a Marcha Fúnebre de Chopin é tocada com orquestra e isso me incomodou. Depois, o nível da coisa sobe muito e o morto pode seguir de forma decorosa para o vazio. Há belas lembranças de obras que não relaciono com a morte — como se fizéssemos alguma coisa neste mundo que não tivesse relação com a morte! –, mas que agora, sei lá, talvez passe a relacionar. Apesar de ser uma incrível colcha de retalhos, misturando, épocas e gêneros, gostei de ouvir o disco de mais de 150 minutos.

Boa morte a todos! Coloquem música no lugar do padre! Basta de recaídas religiosas na hora da morte! É de péssimo gosto!

In Memory Of… Classics for Funerals (Sugestões de Repertório para seu Velório)

1.Frédéric Chopin Piano Sonata No. 2 in B flat minor, Op. 35, CT. 202 : Funeral March 7:05
2.Giuseppe Verdi Requiem Mass, for soloists, chorus & orchestra (Manzoni Requiem) : Agnus Dei 5:23
3.Johann Sebastian Bach Komm, süsser Tod, for voice & continuo (Schemelli Gesangbuch No. 868), BWV 478 (BC F227) 5:07
4.Gabriel Fauré Requiem, for 2 solo voices, chorus, organ & orchestra, Op. 48 : Pie Jesu 3:24
5.Edward Elgar Enigma Variations, for orchestra, Op. 36 : Nimrod 3:31
6.George Frederick Handel Messiah, oratorio, HWV 56 : I know that my redeemer liveth 6:01
7.Johann Sebastian Bach Concerto for 2 violins, strings & continuo in D minor (“Double”), BWV 1043 : Largo 6:56
8.Gabriel Fauré Pavane, for orchestra & chorus ad lib in F sharp minor, Op. 50 6:24
9.Sergey Rachmaninov Vocalise, transcription for orchestra, Op. 34/14 4:29
10.Henry Purcell Dido and Aeneas, opera, Z. 626 : When I am laid in earth 3:26
11.Jules Massenet Thaïs, opera in 3 acts : Méditation 4:51
12.Maurice Ravel Pavane pour une infante défunte, for piano (or orchestra) 6:25
13.Percy Grainger Irish Tune from County Derry (Londonderry Air), folk song for string orchestra with 2 horns ad lib. (BFMS 15) 4:22
14.Samuel Barber Adagio for strings (or string quartet; arr. from 2nd mvt. of String Quartet), Op. 11 8:25
15.Wolfgang Amadeus Mozart Requiem for soloists, chorus, and orchestra, K. 626 : Introitus 5:20
16.Jules Massenet La Vierge, sacred legend in 4 acts : Le dernier sommeil de la Vierge 3:31
17.César Franck Panis angelicus for tenor, organ, harp, cello & bass 3:47
18.Gustav Mahler Adagietto, for orchestra (from the Symphony No. 5) 10:51
19.George Frederick Handel Saul, oratorio, HWV 53 : Dead March 5:20
20.Johann Sebastian Bach St. John Passion (Johannespassion), BWV 245 (BC D2) : Ruht wohl, ihr heiligen Gebeine 6:56
21.Arvo Pärt Cantus in Memory of Benjamin Britten, for string orchestra & bell 6:18
22.Gabriel Fauré Requiem, for 2 solo voices, chorus, organ & orchestra, Op. 48 : Agnus Dei 5:49
23.William Walton Henry V, film score : Touch her soft lips and part 1:37
24.Edvard Grieg Peer Gynt Suite for orchestra (or piano or piano, 4 hands) No. 1, Op. 46 : Death of Åse 4:11
25.Johann Sebastian Bach Cantata No. 147, “Herz und Mund und Tat und Leben,” BWV 147 (BC A174) : Jesu, Joy of Man’s Desiring 3:02
26.Edward Elgar Sursum Corda, elévation for brass, organ, strings & 2 timpani in B flat major, Op. 11 7:11
27.Ludwig van Beethoven Symphony No. 3 in E flat major (“Eroica”), Op. 55 : Marcia funebre 15:05

A relação com os artistas envolvidos:

Disc: 1

1. Funeral March From Op.35 – BBC Philharmonic
2. Agnus Dei – Richard Hickox
3. Komm Susse Tod – BBC Philharmonic
4. Pie Jesu – Libby Crabtree
5. ‘Nimrod’ – Alexander Gibson
6. ‘I Know That My Redeemer Liveth’ – Joan Rodgers
7. Largo – Simon Standage
8. Pavane – BBC Philharmonic
9. Vocalise – Detroit Symphony Orchestra
10. ‘When I Am Laid In Earth’ – Emma Kirby
11. ‘Meditation’ – Yuri Torchinsky
12. Pavane Pour Une Infante Defunte – Louis Lortie
13. Irish Tune – BBC Philharmonic
14. Adagio For Strings, Op.11 – Neeme Jarvi

Disc: 2

1. Introitus – Choir Of Saint John’s College
2. ‘Le Dernier Sommeil De La Vierge – BBC Philharmonic
3. Panis Angelicus – BBC Philharmonic
4. Adagietto – Neeme Jarvi
5. ‘Dead March’ – BBC Philharmonic
6. ‘Ruht Wohl, Ihr Heiligen Gebeine’ – Harry Christophers
7. Cantus-In Memory Of Benjamin Britten – Neeme Jarvi
8. Agnus Dei – City Of Birmingham Symphony Chorus
9. ‘Touch Her Soft Lips And Part’ – Richard Hickox
10. ‘Death Of Ase’ – Vernon Handley
11. ‘Jesu, Joy Of Man’s Desiring’ – Michael Austin
12. Sursum Corda, Op.11 – Bournemouth Sinfonietta
13. Marcia Funebre – Walter Weller

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O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman: joguinho de xadrez com a morte

O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman: joguinho de xadrez com a morte

PQP

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia nº 4

Svetlanov tem a mão mais pesada do que Mehta, Haitink e Bernstein. Sua versão não chega a ser um grande modelo de referência, mas convence. OK.

A Quarta Sinfonia em sol maior de 1899-1900 pode ser considerada um epílogo para as três primeiras sinfonias. É a sinfonia mais intimista e delicada de Mahler, com orquestra reduzida e sem grandiosidades. É também a mais curta da série. E das mais belas. Não se pode falar em ingenuidade em relação a uma composição tão sutil, mas a atmosfera é certamente infantil, de modo sumamente apropriado. Não admira que seja a mais popular e acessível sinfonia de Mahler, e é a primeira em que ele se conservou fiel aos quatro movimentos do modelo clássico. Pensou em chamá-la de Humoresque. Os movimentos estão tematicamente interligados à maneira usual de Mahler. “Eu queria realmente escrever um humoresque sinfônico que acabou se convertendo numa sinfonia completa, enquanto que antes, quando quis escrever a Segunda e Terceira sinfonias, acabei escrevendo cada uma delas com o tamanho de três.”

Sua composição demorou muito tempo para os padrões de Mahler: o quarto movimento Das Leben Himmlische (Vida Celestial) foi tomado do Des Knaben Wunderhorn, ciclo de lieder escrito em 1892. Este movimento deveria ser parte, inicialmente, da Terceira Sinfonia. Como esta já estava imensa, Mahler então decidiu colocá-lo no final da sua Quarta Sinfonia e escreveu seus três primeiros movimentos…

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia nº 4

1. Bedächtig. Nicht eilen – Recht gemächlich
2. In gemächlicher Bewegung. Ohne Hast
3. Ruhevoll (Poco adagio)
4. Sehr behaglich: “Wir genießen die himmlischen Freuden”

Natalia Gerassimova
Russian Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov

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Svetlanov em ação sem batuta

Svetlanov em ação sem batuta

PQP

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Berio (1925-2003): Sinfonia – Berio & Mahler (1860-1911): Frühe Lieder

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Olha, nem sei bem do que se trata essas 10 canções (lieder) de Mahler arranjadas pelo grande compositor italiano Luciano Berio. Conhecia algumas, outras não.

Claro, pois o que interessa neste CD é mais um raro registro da célebre Sinfonia de Berio. A Sinfonia foi uma encomenda da Filarmônica de Nova York para seu 125º aniversário. Composta em 1968-69 para orquestra e oito vozes amplificadas, é um inovador trabalho pós-serial, com vários vocalistas comentando sobre tópicos musicais, literários e políticos numa viagem aparentemente alucinada de citações e passagens dissonantes. As oito vozes não são usadas de maneira habitual. Frequentemente não cantam, mas falam, sussurram e gritam palavras de Claude Lévi-Strauss, cujo O Cru e o Cozido fornece boa parte do texto. Há também trechos do romance de Samuel Beckett O Inominável, instruções da partitura de Gustav Mahler para o 3º movimento da Sinfonia Nº 2, A Ressurreição — utilizada loucamente no terceiro movimento de Berio — , e grafites parisienses de maio de 1968. A estreia foi regida por Leonard Bernstein que escreveu que a Sinfonia era representante da nova direção que a música clássica estava tomando após a década pessimista dos anos sessenta. Foi, efetivemente, uma quebra naquela pasmaceira derivada da Segunda Escola de Viena.

Berio disse mais ou menos isso: “Tentar definir a música é quase como tentar definir a poesia, ou seja: trata-se de uma operação felizmente impossível, considerando a futilidade de querer estabelecer uma fronteira entre o que é música e o que não é, entre poesia e não-poesia. Talvez a música seja justamente isto: a procura de uma fronteira constantemente deslocada.”

A famosa Sinfonia de Berio está por toda a rede. São centenas de artigos que analisam uma das principais obras musicais do vanguardismo musical do século XX. Ela foi dedicada à Leonard Bernstein, que a estreou, mas na verdade homenageia toda a história da música, principalmente em seu terceiro movimento em que ouve-se claramente Mahler, Mahler, Mahler mas também Debussy, Bach e Schoenberg.

Ao ouvinte com pouca vivência em música moderna, sugiro começar a audição pelo terceiro movimento. Ali está o cerne da Sinfonia. Na segunda parte da Sinfonia há um tributo à memória de Martin Luther King. As oito vozes remetem-nos aos sons que constituem o nome do mártir negro até a enunciação completa e inteligível do seu nome.

Berio (1925-2003): Sinfonia – Berio & Mahler (1860-1911): Frühe Lieder

1 Lieder und Gesänge, Book 3: XI. Ablösung im Sommer 1:37
2 Lieder und Gesänge, Book 3: X. Zu Straβburg auf der Schanz 3:49
3 Lieder Und Gesänge, Book 3: XIII. Nicht Wiedersehen! 4:32
4 Lieder und Gesänge, Book 2: VI. Um schlimme Kinder artig zu machen 1:49
5 Lieder und Gesänge, Book 1: II. Erinnerung 2:47
6 Lieder und Gesänge, Book 1: III. Hans und Grete 2:03
7 Lieder und Gesänge, Book 2: VII. Ich ging mit Lust 4:26
8 Lieder und Gesänge, Book 1: I. Frühlingsmorgen 1:59
9 Lieder und Gesänge, Book 1: V. Phantasie aus “Don Juan” 2:24
10 Lieder und Gesänge, Book 3: XII. Scheiden und Meiden 2:38

Matthias Goerne
BBC Symphony Orchestra
Josep Pons

11 Sinfonia: I. 5:56
12 Sinfonia: II. O King 4:34
13 Sinfonia: III. In ruhig fliessender Bewegung 12:23
14 Sinfonia: IV. 3:14
15 Sinfonia: V. 7:11

The Synergy Vocals
BBC Symphony Orchestra
Josep Pons

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Luciano Berio ensina um violista a como segurar seu instrumento.

Luciano Berio ensina um violista a como segurar seu instrumento.

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Gustav Mahler (1860-1911): Symphony No. 9 (Tilson Thomas)

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Eu não sou a pessoa mais adequada para escrever a respeito de uma sinfonia que só pode ser boa mas pela qual não sou apaixonado. OK, é uma limitação pessoal de ama Mahler de 1 a 7 e a 10… Fazer o quê? Esta coleção é tão boa que não posso deixar incompleta, né? Aos que discordam e concordam comigo, pedras e bombons nos comentários e só lá, está bem?

Gustav Mahler: Symphony No. 9

Disc 1:
1. Symphony No. 9 in D Major: I. Andante comodo 30:31
2. Symphony No. 9 in D Major: II. Im Tempo eines gemächlichen Ländlers 17:04

Disc 2:
1. Symphony No. 9 in D Major: III. Rondo burleske 13:58
2. Symphony No. 9 in D Major: IV. Adagio 27:49

San Francisco Symphony
Michael Tilson Thomas

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Mahler: tentando se achar no meio da 9ª

Mahler: tentando se achar no meio da 9ª

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Gustav Mahler (1860-1911): Symphony No. 10 / Symphony No. 8 (Tilson Thomas)

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Já disse isso: quando olho minha discoteca e decido por Mahler, jamais pego a oitava ou a nova para ouvir. Não são as minhas preferidas. Mas aqui neste CD tem a primeiro movimento da décima, que ficou infelizmente incompleta em razão da morte do compositor. Então, ao invés de irritar os admiradores da oitava sinfonia, direi que acho que esta série de gravações de Michael Tilson Thomas vai ocupar lugar de destaque na discografia mahleriana. E tenho dito!

Gustav Mahler (1860-1911)
Symphony No. 10
Symphony No. 8

Disc 1:

1. Symphony No. 10: I. Adagio 27:56

2. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part I – I. Veni Creator Spiritus 7:28
3. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part I – II. Accende lumen sensibus 4:29
4. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part I – III. Infunde amorem cordibus 8:55
5. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part I – IV. Gloria Patri Domino 2:40

Disc 2:

1. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – I. Poco Adagio 11:12 Album Only
2. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – II. Waldung sie schwankt heran 4:57
3. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – III. Ewiger Wonnebrand Quinn Kelsey 1:15
4. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – IV. Wie Felsenabgrund mir zu Füßen 4:36
5. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – V. Gerettet ist das edle Glied 5:40
6. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – VI. Hier ist die Aussicht frei 4:19
7. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – VII. Dir der Unberührbaren 5:02
8. Symphony No. 8 In E-Flat Major: Part II – VIII. Du Schwebst Zu Höhen 1:19
9. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – IX. Bei dem Bronn zu dem schon weiland 7:59
10. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – X. Komm! Hebe dich zu höhern Sphären! 1:16
11. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – XI. Blicket auf 6:32
12. Symphony No. 8 in E-Flat Major: Part II – XII. Alles Vergängliche 6:15

Erin Wall, soprano
Enza van den Heever, soprano
Laura Claycomb, soprano
Katarina Karnéus, mezzo-soprano
Yvonne Naef, mezzo-soprano
Anthony Dean Griffey, tenor
Quinn Kelsey, baritone
James Morris, bass-baritone

San Francisco Symphony Chorus. Ragnar Bohlin, director
Pacific Boychoir. Kevin Fox, director
San Francisco Girls Chorus. Susan McMane, director

San Francisco Symphony
Michael Tilson Thomas

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Mahler e seu anjo, se entendem a referência a Berg

Mahler e seu anjo, se entendem a referência ao concerto de Berg

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 7 (Tilson Thomas)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

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Podem me jogar pedras, mas vou escrever mesmo assim. Amo as sinfonias de números 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 10 de Mahler. Mas não tenho o mesmo amor pela 8ª e 9ª. Esta Sétima de Tilson Thomas é a própria perfeição. Gosto desta sinfonia por ser melodiosíssima e lindíssima, só isso. Passei quatro dias ouvindo-a com exclusividade. A estrutura é simétrica, são cinco movimentos: uma paulada no começo, outra no final; duas músicas da noite no segundo e quarto movimentos, com direito a bandolim no quarto; e uma fantástica valsa bem no coração da sinfonia. E agora digo mais: nesta sinfonia, Tilson Thomas venceu o maior regente mahleriano, Leonard Bernstein. Venceu, sim, basta ouvir.

Mahler: Symphony No. 7

1. Symphony No. 7 in E minor: I. Langsam?Allegro risoluto ma non troppo 20:43
2. Symphony No. 7 in E minor: II. Nachtmusik I: Allegro moderato – Molto moderato (Andante) 15:35
3. Symphony No. 7 in E minor: III. Scherzo: Schattenhaft 10:11
4. Symphony No. 7 in E minor: IV. Nachtmusik II: Andante amoroso 13:33
5. Symphony No. 7 in E minor: V. Rondo – Finale: Allegro ordinario?Allegro moderato ma energico 18:05

San Francisco Symphony
Michael Tilson Thomas

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Mahler em foto rara, né?

Mahler em 1909: fazendo cara de curioso.

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonias Nº 4, 5 e 6 (Tilson Thomas)

Tilson Thomas

Tilson Thomas

IM-PER-DÍVEL !!!

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É espantoso o trabalho que faz Michael Tilson Thomas e a orquestra de São Francisco nesta integral das Sinfonias de Gustav Mahler. Esta deve ser a terceira integral que vou postando e ainda tenho mais duas… Estou indo na minha ordem… Postei a 2ª e a 3ª e agora vou para a 4ª, 5ª e 6ª. Depois virá a 7ª e voltarei à 1ª, tá? A melhor integral ainda é, na minha opinião, a de Lenny, mas eu acho muito legal que outros tentem batê-lo. Assim a gente ouve bastante Mahler.

Gustav Mahler (1860-1911) – Sinfonia No. 4

01. I. Bedächtig. Nicht eilen
02. II. In gemächlicher Bewegung. Ohne Hast
03. III. Ruhevoll
04. IV. Das himmlische Leben. Sehr behaglich

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Gustav Mahler (1860-1911) – Sinfonia No. 5

01. 1. Trauermarsch
02. 2. Stürmisch bewegt. Mit grösster Vehemenz
03. 3. Scherzo – Kraftig, nicht zu schnell
04. 4. Adagietto – Sehr langsam
05. 5. Rondo – Finale – Allegro

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Gustav Mahler (1860-1911) – Sinfonia Nº 6

01. I. Allegro energico, ma non troppo. Heftig, aber markig
02. II. Scherzo. Wuchtig
03. III. Andante moderato
04. Finale Allegro moderato – Allegro energico

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San Francisco Symphony
Michael Tilson Thomas

PQP

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 3 e Kindertotenlieder (Tilson Thomas)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

É a mais extensa das sinfonias de Mahler e, em minha opinião, uma das três melhores. Sou totalmente apaixonado. Tilson Thomas poderia ter sido mais enfático no primeiro movimento, mas mata a pau em todos os outros. Curiosamente, mesmo os que elogiaram veementemente o ciclo mahleriano de Tilson, receberam com restrições esta terceira. Faltaria-lhe caráter e originalidade interpretativa. Haveria cuidado exagerado com a perfeição técnica. Porém, eu apenas noto isso, repito, no primeiro movimento. Aliás, é o primeiro e único (pequeno) escorregão deste maravilhoso registro da orquestra de São Francisco.

Symphony No. 3 in D minor

1 Part I. Introduction. 1. Kräftig, entschieden 36:16
2 Part II. 2. Tempo di menuetto. Sehr mässig 10:10
3 Part II. 3. Comodo. Scherzando. Ohne Hast 18:58
4 Part II. 4. Sehr langsam. Misterioso 10:25
5 Part II. 5. Lustig im Tempo und keck im Ausdruck 4:24
6 Part II. 6. Langsam. Ruhevoll. Empfunden 26:31

Kindertotenlieder, song cycle for voice & piano (or orchestra)
7 1. Nun will die Sonn’ so hell aufgeh’n 6:13
8 2. Nun seh’ ich wohl 5:02
9 3. Wenn dein Mütterlain tritt zur Tür herein 4:54
10 4. Oft denk’ ich, sie sind nur ausgegangen 3:19
11 5. In diesem Wetter, in diesem Braus

Michelle DeYoung
San Francisco Symphony
Michael Tilson Thomas

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Gustav Mahler: sintam a elegância do bofe

Gustav Mahler: sintam a elegância do bofe

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia No. 2 “Ressurreição” (Tilson Thomas)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Há mais um mistério no ar. Os regentes americanos e Mahler, Mahler e os regentes americanos. O melhor mahleriano morto talvez seja Leonard Bernstein, mas Tilson Thomas vem logo atrás, junto com outros pouquíssimos e compreensivos maestros. E ele tem uma vantagem, está vivinho da silva. Esta Ressurreição, por exemplo é espetacular e dá sequencia a esta postagem, que comprova que o cara-de-fuínha Tilson Thomas é um dos melhores mahlerianos que andam sobre duas pernas em nosso planeta.

fuinhaGustav Mahler (1860-1911): Sinfonia No. 2 “Ressurreição”

1. Symphony No. 2 in C minor: II. Andante moderato 11:49
2. Symphony No. 2 in C minor: III. In ruhig fliessender Bewegung 10:46
3. Symphony No. 2 in C minor: IV. “Urlicht”: Sehr feierlich, aber schlicht 5:43
4. Symphony No. 2 in C minor: V. Finale?Im Tempo des Scherzos 21:30
5. Symphony No. 2 in C minor: V. …Chorus: “Aufersteh’n” 15:25

Isabel Bayrakdarian
Lorraine Hunt Lieberson
San Francisco Symphony
Michael Tilson Thomas

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Criador e criatura

Criador e criatura

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Gustav Mahler (1860-1911): Symphony No. 1 (Tilson Thomas)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Ah, quer os outros posts desta série? Fácil, clica aqui, meu! 

Enfim, mais uma coleção fica finalizada! E esta é das boas! Como somos um bando de revoltados de meia-idade, terminamos pelo primeiro CD da série, uma sensacional versão da Titã (1884-1888).  A primeira sinfonia de Mahler já trazia todo um mundo. O próprio Mahler, numa carta de 26 de Março de 1896: Gostaria que ficasse enfatizado ser a sinfonia maior do que o caso de amor em que se baseia, ou melhor, que a precedeu, no que se refere à vida emocional do criador. O caso amoroso tornou-se a razão para a existência da obra, mas não em absoluto, o significado real da mesma. (…) Assim como considero uma vulgaridade inventar música para se ajustar a um programa, também acho estéril dar um programa para uma obra completa. O fato de a inspiração ou base de uma composição ser uma experiência de seu autor não altera as coisas.

Um bom final de domingo!

Gustav Mahler (1860-1911): Symphony No. 1 (Tilson Thomas)

1. Symphony No. 1 in D major (‘Titan’): 1. Langsam. Schleppend [Slow. Dragging]
2. Symphony No. 1 in D major (‘Titan’): 2. Kräftig bewegt, doch nicht zu schnell [With powerful movement, but not too fast]
3. Symphony No. 1 in D major (‘Titan’): 3. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen [Solemn and measured, without dragging]
4. Symphony No. 1 in D major (‘Titan’): 4. Stürmisch bewegt [With violent movement]

San Francisco Symphony
Michael Tilson Thomas

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A Primeira: o início da viagem

A Primeira: o início da viagem

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Ludwig van Beethoven (1770-1827): Abertura Coriolano / Piotr Illich Tchaikovsky (1840-1893): Concerto para Violino, op. 35 / Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia nº1, Titã – Tetzlaff, Gardner CBSO

coverO Concerto para violino de Tchaikovsky tem um efeito meio que hipnótico sobre mim. Paro de fazer o que estou fazendo só para ouvi-lo, mesmo depois de quase quarenta anos que o conheço. É o mais belo de todos os concertos para o instrumento, não tenho dúvidas com relação a isso. Brahms que me perdoe, ou então Beethoven, se for listar os meus três favoritos. A melodia principal sobre a qual se desenvolve o tema é belíssima, e é impossível não ficarmos assobiando ela por um bom tempo depois de ouvir o concerto. Reza a lenda que quando apresentou a obra para alguns violinistas de sua época Tchaikovsky ouviu que sua execução era impossível. Lenda ou não, é inegável a dificuldade de sua execução. Para maiores informações sugiro a Wikipedia.

A interpretação do Concerto neste CD que ora vos trago está a cargo de Christian Tetzlaff, excelente violinista alemão, que nos mostra uma leitura vigorosa, evitando cair nas armadilhas da obra, e talvez por este motivo essa sua leitura perde um pouco da emotividade e sensibilidade tão necessária para sua execução. Claro que esta é uma opinião pessoal e ninguém precisa concordar comigo.

O Orquestra Sinfônica da Cidade de Birmingham foi dirigida durante muitos anos por Sir Simon Rattle, que a moldou e a transformou em uma das melhores orquestras européias do final do século XX. Aqui ela é dirigida por Edward Gardner, que depois do Beethoven e do Tchaikovsky encara ‘apenas’ a Sinfonia Titã de Mahler. Cabra macho esse.
A gravação deste Cd foi realizada ao vivo, por isso ouvimos as tradicionais palmas, e o bis com Bach depois do Concerto de Tchaikovsky.

CD 1

01 Overture Coriolan, Op.62
02 Concerto pour violon en ré majeur, op. 351. Allegro moderato
03 Concerto pour violon en ré majeur, op. 352. Canzonetta (Andante)
04 Concerto pour violon en ré majeur, op. 353. Finale (Allegro vivacissimo)
05 Partita for Violin Solo No.3 in E, BWV 10063. Gavotte en Rondeau

Christian Tetzlaff – Violin
City of Birmingham Symphony Orchestra
Edward Gardner – Conductor

CD 2

01 Symphonie n° 1 en ré majeur Titan1. Langsam. Schleppend
02 Symphonie n° 1 en ré majeur Titan2. Kräftig bewegt
03 Symphonie n° 1 en ré majeur Titan3. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen
04 Symphonie n° 1 en ré majeur Titan4. Stürmisch bewegt

City of Birmingham Symphony Orchestra
Edward Gardner – Conductor

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FDP Bach

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 1 e Canções de um Viandante (CD 1 de 16)

Como meu coração é mesmo grande, nele cabem muitos compositores que adoro com igual paixão. Mahler é um deles e já estava na hora de voltar a ele. FDP Bach já postou anteriormente a integral de suas sinfonias, mas vou refazê-la por um simples motivo: tenho a integral das sinfonias em 320 Kbps e sabemos: Mahler tem de ser ouvido em detalhes, com os pianissimi quase inaudíveis e os fortissimi de fazer as janelas gemerem, senão perde a graça. Mais: seus principais ciclos de canções — including A Canção da Terra — estão nesta coleção de 16 CDs da DG. O regente escolhido é o mesmo que FDP escolheu. Por que mudaria se concordo com ele?

A Sinfonia Nº 1 era originalmente um poema sinfônico baseado na péssima novela “Titan”, de Jean Paul. Depois, tornou-se Sinfonia Titan. O primeiro movimento é pura expectativa e energia. Bernstein o trata de modo estranho, cheio de maneirismos pouco comuns em outros regentes. Após este início, a coisa entra nos eixos. E como! O terceiro movimento é curiosamente uma variação em tom menor da canção Frère Jacques e descreve o enterro de um caçador, promovido pelos animais que ele costumava matar. Abaixo, deixo para vocês o texto da Wikipedia a respeito:

Histórico

A estréia da sinfonia ocorreu no dia 20 de Novembro de 1889, em Budapeste, sob a regência do próprio Mahler. Na ocasião, a sinfonia não foi bem recebida pelo público.

A Sinfonia 1 em Ré Maior é escrita para uma orquestra composta pelos seguintes instrumentos: 4 flautas (2 piccolos), 4 oboés (um corne inglês), 4 clarinetes, 3 fagotes (um contrafagote), 7 trompas, 4 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, 4 tímpanos, pratos, triângulo, tam-tam, bombo, 1 harpa, 1 quinteto de cordas formado por: violinos, violas, cellos e baixos.

Um caso de amor do compositor durante sua juventude provavelmente serviu de inspiração para a criação da sinfonia. Contudo, ela é mais do que isso conforme explica o próprio Mahler numa carta para Max Marschalk, em 26 de Março de 1896: Gostaria que ficasse enfatizado ser a sinfonia maior do que o caso de amor que se baseia, ou melhor, que a precedeu, no que se refere à vida emocional do criador. O caso real tornou-se razão para a obra, mas não em absoluto, o significado real da mesma. (…) Assim como considero uma vulgaridade inventar música para se ajustar a um programa, também acho estéril dar um program para uma obra completa. O fato de a inspiração ou base de uma composição ser uma experiência de seu autor não altera as coisas.

Originalmente ela foi concebida para ser um grande poema sinfônico.

Mahler escreveu um programa para a sinfonia, após as primeiras apresentações, embora dissesse em várias ocasiões que acreditava que a música deveria falar por si mesma, sem a necessidade do apoio de um texto explicativo.

Características

Como costumava fazer com outras obras suas, Mahler revisou a Sinfonia 1, entre os anos de 1893 e 1896. A mudança mais significativa foi retirada de um movimento andante chamado “Blumine”, sobra de uma música incidental que Mahler tinha escrito para Der Trompeter von Säkkingen (1884). Em 1894, depois de três apresentações, Mahler descartou o movimento e só permaneceram as referências a ele no segundo motivo do finale.

O movimento “Blumine” só foi redescoberto em 1966, por Donald Mitchell. Benjamin Britten conduziu a primeira apresentação da Sinfonia 1 com o movimento “Blumine”, desde que ele tinha sido executado pela última vez por Mahler em Aldeburgh. As maiorias das apresentações modernas da sinfonia não incluem o “Blumine”, ainda que seja possível não raramente se deparar com execuções do movimento em separado. De forma análoga, poucas gravações da sinfonia 1 incluem o movimento.

A obra inclui vários temas de um ciclo de canções composto por Mahler entre 1883 e final de 1884 chamado: Lieder Eines fahrenden Gesellen (Canções de um Viajante). Existem influências também de Das klagend Lied (A Canção da Lamentação), completada por Mahler em 1 de Novembro de 1880 para participar de um concurso de 1881 conhecido como Prêmio Beethoven.

A Sinfonia 1 de Mahler é uma sinfonia primaveril, semelhante em alguns aspectos com a Sinfonia 1 de Robert Schumman. Ela não é contudo uma simples descrição visual da natureza. Ela reflete uma natureza sob os inocentes olhos de uma criança, que ao mesmo tempo toma consciência da fragilidade e da morbidez inerentes à condição humana.

Os movimentos

Na sua forma final a sinfonia, cuja duração aproximada é de 55 minutos, é formada por quatro movimentos distribuídos da seguinte forma:

1. Langsam, schleppend – Devagar, arrastando (~ 16 minutos)
2. Scherzo, Kraeftig bewegt – Poderosamente agitado (~ 8 minutos)
3. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen – Solene e moderado, sem se arrastar (~ 11 minutos)
4. Stuermisch bewegt – Agitado (~ 20 minutos)

A sinfonia inicia de forma misteriosa no primeiro movimento. Sons do cuco e de outros pássaros, representados musicalmente, anunciam o despertar da natureza e dão fim à tensão e às dúvidas. Um tema lírico segue.

O segundo movimento é um Landler-scherzo, parecido com os landlers de Anton Bruckner e de Haydn.

O terceiro movimento causou uma certa polêmica na época devido a sua aparente bizarrice. Adaptada como marcha fúnebre, é usada de forma paródica uma melodia infantil bastante conhecida, chamada em alguns países de Frère Jacques e em outros de Bruder Martin. A seu respeito Mahler escreveu no programa para os concertos em 1893 e 1894:

A idéia dessa peça veio ao autor por intermédio de uma gravura paródica conhecida por qualquer criança da Alemanha do Sul e intitulada “Os funerais do caçador”. Os animais da floresta acompanham o caixão do caçador morto; lebres empunham uma bandeira; à frente uma trupe de músicos boêmios acompanhados por instrumentistas gatos, corujas e corvos… Cervos, corças e outros habitantes da floresta, de pêlo ou pena, seguem o cortejo com fisionomias afetadas. A peça, com uma atmosfera ora ironicamente alegre, ora inquientante, é seguida de imediato pelo último movimento “d’all Inferno al Paradiso”, expressão súbita de um coração ferido no mais profundo de si…

O silêncio do terceiro movimento é abruptamente interrompido, de forma histérica, pela orquestra no quarto movimento. Conta-se que durante uma das primeiras apresentações da Sinfonia 1, uma senhora espantou-se e derrubou todos os objetos que carregava na mão.

Após alguns minutos a fúria inicial do último movimento é contida e cede lugar a uma melodia lírica. Os temas dos movimentos anteriores são lembrados. Perto do final, ocorre uma nova tempestade sonora, porém, ao contrário do início, que lembrava uma “luta”, agora o sentimento é de “triunfo”. Nesta parte Mahler pede para que os trompetistas da orquestra toquem de pé.

Na primeira postagem que fizemos da Sinfonia Nº 1, FDP Bach escreveu:

As opções de gravações das sinfonias de Mahler são inúmeras. Regentes como Bernstein chegaram a gravá-la duas vezes, enquanto outros não encaravam a totalidade, preferiam se concentrar em apenas algumas das sinfonias. Portanto, sei que muitos irão dizer que a “Titan” do Bernstein é superior à do Chailly, ou que a versão do Haitink é insuperável, ou que o atual menino de ouro da Filarmónica de Berlim, Simon Rattle é o cara, , ou que até mesmo a 9ª do Karajan, postada aqui há apenas alguns dias atrás é imbatível. Acatarei todas as opiniões, mas a versão que prevalecerá até o final é a do Bernstein, da DG. Os motivos que me levaram a escolhê-la são pessoais, mas baseados em diversas críticas altamente favoráveis, lidas nas mais variadas fontes. Até me dei ao trabalho de procurar uma biografia de Mahler entre as publicações brasileiras, mas infelizmente está tudo esgotado, até mesmo a autobiografia da Alma Mahler, publicada pela editora Martins Fontes nos anos 80, ou até mesmo a do Michael Kennedy, publicada pela Jorge Zahar Editor, também na mesma época. Em inglês as opções são múltiplas, basta fazer uma pesquisa no site da Livraria Cultura.

Esta introdução é necessária para alertá-los do tamanho da brincadeira a que estou me dedicando. Terei de conciliá-la com os estudos para um Concurso Público, para o qual estou me dedicando com total empenho. Portanto, se forem demorados os intervalos entre as postagens, peço para que considerem a situação a que os deixei cientes aí acima.

As gravadoras são pão-duras. Nas chamadas integrais destas sinfonias, as mesmas são divididas entre os cds. Exemplo: na versão do Chailly lançada pela DECCA, no final do cd em que se tem a primeira sinfonia, o espaço restante do cd é aproveitado para se colocar o primeiro movimento da 2ª, e assim por diante. Imagine como são os casos das sinfonias mais longas, como a 3ª, 6, 7, ou a 8ª… É uma confusão tremenda. E isso também acontece na gravação do Bernstein que irei postar.. Mas estou me dando ao trabalho de dividi-las devidamente (e viva o Sony Sound Forge). ´Seria sacanagem deixá-los esperando pela continuação num próximo cd. mas vamos ao que interessa.

CD1

Gustav Mahler – Sinfonia Nº 1 e Canções de um Viandante

Symphonie no. 1
01. Symphonie no. 1 – Langsam. Schleppend. Wie ein Naturlaut – Im Anfang sehr gemächlich
02. Kräftig bewegt, doch nicht zu schnell – Trio. Recht gemächlich
03. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen
04. Stürmisch bewegt

Concertgebouw Orchestra
Leonard Bernstein

Lieder eines fahrenden Gesellen (Canções de um Viandante)
05. Wenn mein Schatz Hochzeit macht
06. Ging heut morgen übers Feld
07. Ich hab ein glühend Messer
08. Die zwei blauen Augen

Thomas Hampson: baritone
Wiener Philarmoniker
Leonard Bernstein

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Viram como eu sou bom pra caraglio?

Viram como eu sou bom pra caraglio?

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Gustav Mahler (1860-1911): Adagio da Sinfonia Nº 10 / Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 14

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Sim, a versão apresentada neste disco para o adágio da 10ª Sinfonia — Mahler completou apenas este movimento da 10ª que permaneceu incompleta, apesar das atuais “reconstruções” — é uma redução para cordas escrita por Hans Stadlmair. É inferior ao original mahleriano, mas é muito bonita. Porém, a Sinfonia Nº 14 de Shostakovich está com sua instrumentação completa. Não têm razão os críticos que atacam Kremer por ele ter gravado duas reduções. Fico pasmo com isso: pessoas que se apresentam como críticos de música ignoram que a Sinfonia Nº 14 SEJA uma sinfonia de câmara.

Este CD é uma iguaria. A redução do tristíssimo Adágio de Mahler combinou perfeitamente com a 14ª de Shosta. A KREMERara Baltica (fundada em 1997) comemorou seu décimo aniversário lançando este CD onde interpreta o adágio da inacabada décima de Mahler com grande sensibilidade, assim como 14ª Sinfonia de Shostakovich – ambos são trabalhos escritos tendo por horizonte a proximidade da morte. Shosta, aliás, fez sua sinfonia sobre poemas a respeito da morte. Estão presentes, por exemplo, García Lorca, Apollinaire e Rilke. Ambas são composições plenas de dor e desespero.

Sobre a 14ª de Shostakovich, eu já tinha escrito neste blog:

Sinfonia Nº 14, Op. 135 (1969)

A Sinfonia Nº 14 – espécie de ciclo de canções – foi dedicada a Britten, que a estreou em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte.

O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em A la Santé, An Delvig e A Morte do Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em Les Attentives, ao grotesco em Réponse des Cosaques Zaporogues e à evocação dramática de Loreley. Não há música mais direta e que trabalhe tanto para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para tornar-se mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema, mas sempre a ouvi em russo. Então, já que não entendo esta língua, tenho que ouvi-la ao mesmo tempo em que leio uma tradução dos poemas. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis.

Possui indiscutíveis seus méritos musicais mas o que importa é sua extrema sinceridade. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca e a estranha Conclusão (Schluss-Stück) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e — puxa vida — muito, mas muito final.

Gustav Mahler (1860-1911)

1 Symphony No. 10 – Adagio (1910) adapted for strings by Hans Stadlmair and Kremerata Baltica

Dmitri Shostakovich (1906-1975)

Symphony No. 14 op. 135 (1969) for soprano, bass and chamber orchestra
Dedicated to Benjamin Britten

2 De profundis
3 Malagueña
4 Loreley
5 The Suicide
6 On the Alert
7 Look, Madame
8 At the Santé Jail
9 The Zaporozhian Cossacks’ Reply to the Sultan of Constantinople
10 O Delvig, Delvig!
11 The Death of the Poet
12 Conclusion

Yulia Korpacheva soprano
Fedor Kuznetsov bass
The Kremerata Baltica
Gidon Kremer

Recorded 2001 and 2004
ECM New Series 2024

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Gidon Kremers e sua Kremerata Baltica

Gidon Kremer e sua Kremerata Baltica

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Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 3 e os 8 Lieder aus Der Knaben Wunderhorn (CD 2 e 3 de 14)


Fala a Sociedade dos Amantes de Mahler, patrocinadora desta série de posts:

Caríssimo,

aí vão dois textos sobre Mahler.
Um deles sobre a Terceira Sinfonia, outro sobre Das Knaben Wunderhorn.
A Sociedade dos Amantes de Mahler gosta de chamar a Terceira de a “Nietzscheana”, já que um texto de Zaratustra é transformado por Mahler em música sublime. Toda a sinfonia, enfim, parece consistir numa nietzscheana celebração da existência.

Abraços,
SAM.

Sobre a Terceira Sinfonia:

Um crítico vienense, após a estréia em Viena da Terceira Sinfonia em ré menor, escreveu que seu compositor merecia alguns anos de cadeia. Depois disso, tem sido descrita por penas menos hostis como um desastre formal. Discordo. Não só penso que revela um avanço em poder musical sobre a Segunda, mas que, além disso, possui um traçado artístico mais equilibrado, apesar de seus seis movimentos; e penso especialmente que as dificuldades do primeiro movimento foram muito exageradas (e sua duração também: “quase 45 minutos”, diz um escritor, que deve ter ouvido algumas interpretações deveras extravagantes. Trinta e cinco minutos bastam).

Mahler, como se afirmou antes, pensou em intitular a sinfonia Pã ou mesmo A gaia ciência, inspirado pelo livro de Nietzsche, Die fröhliche Wissenchaft. Planejou sete movimentos, sendo o último a musicalização de um poema Wunderhorn: Wir geniessen die himmlischen Freuden, que depois encontrou lugar apropriado como o finale da Quarta Sinfonia. Em sua versão final, a Terceira tem seis movimentos: 1. Chega o verão. 2. O que me dizem as flores do prado. 4. O que me diz a noite. 5. O que me dizem os sinos matinais. 6. O que me diz o amor. Esses títulos são meros indicadores e nada mais que isso: a sinfonia é uma exultante celebração da vida, física e espiritual, sensual e instintiva. Enquanto a estava terminando, descreveu-a para Ana von Mildenburg como sendo “de tal magnitude que espelha o mundo inteiro – o indivíduo é, por assim dizer, um instrumento tocado pelo universo. (…) Há passagens que parecem tão misteriosas, tão sobrenaturais, que dificilmente posso reconhecê-las como obra minha.” Schoenberg, como vimos, ouviu a sinfonia como uma batalha entre o bem e o mal.

O gigantesco primeiro movimento será melhor apreciado se o ouvinte evitar a análise e se concentrar na absorção de sua atmosfera, em sua espantosa criação de uma atmosfera de energias multiformes desencadeadas. O impressionante e portentoso tema inicial para oito trompas simboliza a força da natureza, mas dá lugar imediatamente a um longo e misterioso prelúdio, outro exemplo da poderosa encenação mahleriana, com fantasmagóricos glissandos dos metais, solos declamatórios de trompete, trombones exortativos – todas as impressões digitais que o cleptomaníaco Mahler deixa em sua partitura, forçando suas conotações emocionais a se colocarem a seu serviço e se tornarem mahlerianas. Por duas vezes, como alguns flashbacks auditivos para uma imagem vívida retida da infância ou juventude, ocorrem episódios extraordinários de vulgar música de charanga. Um grande regente dessa sinfonia como era Barbirolli, pôde transmitir a qualidade alucinatória dessas explorações e situa-las no contexto da música circundante, de modo que o movimento soa vasto mas também conciso, sua coda tempestuosa a conclusão inevitável de um imenso drama.

É um triunfo de Mahler nessa sinfonia que os sucessivos movimentos internos mais breves “ajustem-se” mais confortavelmente ao esquema do que na Ressurreição. O segundo movimento, mais um no molde Blumine, é uma vez mais altamente sofisticado, até mesmo embelezado, bem longe de ser elementar. Mas o efeito calidoscópico da orquestração é suficiente em si mesmo para a maioria dos ouvidos; dificilmente Mahler pode ser responsabilizado se seu fraseado veio a se converter em chavões para uma geração subsequente por causa dos usos que lhe foram dados pelos músicos emigrados que, conhecendo Mahler melhor que a maioria das pessoas na época, nele se apoiaram tão maciçamente para partituras de filmes de Holywood nas décadas de 30 e 40. O início rústico do terceiro movimento, embora derive da canção Ablösung im Sommer do Wunderhorn, tem uma inequívoca afinidade com a música de balé da Aída. O nível de inspiração declina, apesar de muita engenhosidade, até o trio, quando a magia do pintor de estados de espírito volta a predominar para um maravilhoso solo evocativo de trompa de postilhão, a lembrança de…de quê? Uma corneta na infância, uma trompa soando na Salzkammergut? A própria Trompa Mágica da Mocidade? Pouco importa. Sua qualidade espaçosa, distante, é tão obcecante quanto o solo de clarim numa similar passagem atávica da Sinfonia Pastoral de Vaughan Williams.

Embora uma e outra tumultuosa explosão popular ocorra na repetição do scherzo, é a trompa de postilhão que permanece na mente e nos prepara para a musicalização de Nietzsche no quarto movimento: “Oh Mensch! Gib acht” – “Ó homem! Presta atenção, o que disse a meia-noite?”, a mesma canção da meia-noite de Zaratustra que também inspirou a mais primorosa música de Delius em A Mass of Life. Mahler musicou-a para contralto como uma de suas mais profundas e “anelantes” melodias como contraponto. É um dos movimentos “perdidos para o mundo” de Mahler, as palavras “Gib acht” ajustadas a fá sustenido-mi descendente, que abre o primeiro tema do primeiro movimento da Nona Sinfonia, sendo ambas as passagens em ré maior e semelhantes à frase Ewig no Abschied de A canção da terra. Há um mundo de interesse musical e psicológico a derivar das remissões, intencionais ou subconscientes, entre obras de Mahler – um jogo que qualquer ouvinte pode fazer; nessa sinfonia existem muitas e importantes remissões entre movimentos, mormente o retorno do clímax da exposição do primeiro movimento como clímax do finale.

Da escuridão desse movimento sublime, Mahler atira-nos para a luz radiante de um outro círculo do paraíso Wunderhorn, onde o “coro de querubins de olhos inocentes” (ou, para ser musicalmente mais exato, do Otello ragazzi) é ouvido – “Bimm bamm” – e os sinos repicam para a alegria do meio-dia, não a melancolia da meia-noite. (Suspeito que Britten foi influenciado por esses sons quando escreveu Noye´s Fludde e partes de Um réquiem de guerra.) O coro feminino entoa “”Es sungen drei Engel” (Três anjos entoam uma doce canção, o som eleva-se ao céu). O contralto canta o refrão que retornará no finale da Quarta Sinfonia num outro contexto. Aqui é a melodia para São Pedro, “Eu violei Teus mandamentos”; ali, para os anjos que cozem o pão, mas, de modo mais significativo, para São Pedro no céu.

Na Segunda Sinfonia o grandioso desígnio de Mahler era trabalhar um clímax no finale. Ora, um finale dessa escala teria sido ridiculamente despropositado na Terceira, mas se fazia necessário um substancial movimento de fecho. Mahler nos oferece seu primeiro adágio sinfônico em grande escala, o mais perto que ele chegaria de uma plenitude bruckeriana de harmonia e calma espiritual (talvez tivesse sido escrito como tributo a seu velho amigo e incentivador, quem sabe?). Ele confidenciou a Anna von Mildenburg:

O tema desse movimento é “Pai, vê essas minhas feridas! Não permita que se perca uma só de tuas criaturas”. Eu quase poderia chamar o movimento de “O que Deus me diz”. E verdadeiramente, no sentido de que Deus só pode ser entendido como amor. E assim a minha obra (…) começa com a natureza inanimada e ascende para o amor a Deus.

Os adágios de Beethoven e de Elgar acodem ao espírito quando se escuta esse movimento, no qual as duas melodias em que ele se baseia estão submetidas, como infinito recurso, à doutrina de Mahler de contínuo desenvolvimento e variação – verdadeira “melodia perpétua”. Entretanto, há uma crise – Mahler não pode deixar o mundo para trás, por mais arduamente que o tente; a dissonância na seção central é um poderoso lembrete para os ouvintes de hoje de que Mahler estava distante um pouco mais de uma década da Nona e da Décima Sinfonias. Na coda, o ré maior é atingido numa apoteose que talvez seja retoricamente bombástica demais, extensa demais, para ser convincente. Entretanto, depois que isso ficou dito, a impressão esmagadora que subsiste é a de uma obra-prima – a qual parece ficar cada vez mais curta e mais simples quanto mais é ouvida. Apesar de todo seu tamanho e escala, é uma obra intimista.

(KENNEDY, Michael. Mahler. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 106-109).

Sobre os Lieder de Das Knaben Wunderhorn:

A Segunda, a Terceira e a Quarta Sinfonias são usualmente classificadas como as Sinfonias Wunderhorn por causa de seus vínculos com a musicalização por Mahler de poemas de Das Knaben Wunderhorn. Isso poderia aplicar-se igualmente à Primeira Sinfonia, porquanto as letras de Das klagende Lied e do ciclo Gesellen são pastichos de Mahler dos poemas Wunderhorn, provando como estavam profundamente incrustados em sua mente o estilo e o espírito da antologia.

As primeiras musicalizações de Mahler de poemas Wunderhorn foram para voz e piano, embora obviamente concebidas para acompanhamento orquestral, e foram escritas no final da década de 1880. Doze mais, originalmente intituladas Humoresken, datam de 1892 a 1901. Alternam entre uma encantadora delicadeza de conto de fadas e uma soturna ironia, realização e interpretação opressivas, como que de pesadelo, da atmosfera de estridência militar e de mistério noturnal. São notáveis pela sensibilidade fremente da resposta do compositor ao texto de cada poema e, uma vez mais, pela beleza e adequação do som com que essa resposta se conjuga. As pedras angulares do estilo de Mahler são a referência remissiva, variação e desenvolvimento, e até em obras de tão pequena escala quanto as canções, a constante mudança efetuada confere-lhes uma amplitude além da ordinária. Mesmo numa canção tão manifestamente simples e “inocente” (embora sedutora) quanto Rheinlegendchen, é notável a gama de tonalidade além do familiar tom nominal de lá menor. Em Das irdische Leben, o desenvolvimento por meio de contrastes maior-menor confere à canção sua profundidade psicológica. A exploração de contrastes por Mahler, seu gênio para as justaposições selvátivas podem ser ouvidos em seu mais alto grau em canções Wunderhorn no formato de dueto, como Der Schildwache Nachtlied.

As mais primorosas e significativas das canções são as que podem ser chamadas “noturnos militares”, em que toques de trompete, ritmos de marcha e tambores são transformados em microcosmos sinfônicos, canções como as obras-primas Nicht Widersehen, Revelge, Der Tamboursg´sell e, a maior de todas, Wo die schönen Trompeten blasen. Essas canções estão, quanto ao estado de espírito, no outro extremo da não menos magistral expressão de frescor pastoral em Ich ging mit Lust durch einen grünen Wald. (…) Diga-se de passagem que as canções Wunderhorn são mais efetivas quando se executa uma seleção de quatro ou cinco. Elas não foram compostas como uma entidade e executá-las todas juntas expõe com demasiada clareza a superioridade de três ou quatro delas em relação às demais.

Em cada uma das três sinfonias seguintes, Mahler usou uma canção Wunderhorn como clímax emocional. E em cada uma delas deu uma enorme passo à frente: cresceu como homem e como artista de sinfonia para sinfonia, quase canção para canção. Embora, em alguns aspectos, a Primeira Sinfonia seja uma obra mais bem organizada do que a Segunda, contendo mais música “avançada” no final, a pura audácia da escala da Segunda mostra como os poderes de Mahler estavam crescendo. As Sinfonias Wunderhorn constituem um tríptico religioso, representando a busca de Mahler de uma crença firme e de uma resposta às suas indagações sobre o mistério da existência.

(KENNEDY, Michael. Mahler. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 100-101).

Mahler: Sinfonia Nº 3 e os 8 Lieder aus Der Knaben Wunderhorn

CD2:
Symphony Nº 3 in D minor
1. Kräftig entschieden (Strong and decisive) [D minor to F major]
2. Tempo di Menuetto (In the tempo of a minuet) [A major]
3. Comodo (Scherzando) (Comfortably, like a scherzo) [C minor to C major]
4. Sehr langsam—Misterioso (Very slowly, mysteriously)
5. Lustig im Tempo und keck im Ausdruck (Cheerful in tempo and bold in expression) [F major]

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CD3
6. Langsam—Ruhevoll—Empfunden (Slowly, tranquil, deeply felt) [D major]

Birgit Remmert, contralto
Ladies of the City Of Birmingham Symphony Chorus
City Of Birmingham Youth Chorus
City Of Birmingham Symphony Orchestra
Simon Rattle

8 Lieder aus Der Knaben Wunderhorn
7. Der Schildwache Nachtlied (Canção noturna do sentinela);
8. Verlorne Müh’ (Esforço perdido);
9. Wer hat dies Liedlein erdacht? (Quem inventou esta cançãozinha?);
10. Wo die schönen Trompeten blasen (Lá onde soam os belos trompetes);
11. Revelge (Toque de levantar);
12. Der Tamboursg’sell (O jovem do tambor);
13. Des Antonius von Paduas Fischpredigt (O sermão de St. Antônio de Pádua aos peixes);
14. Ablösung im Sommer

Simon Keenlyside, barítono
City Of Birmingham Symphony Orchestra
Simon Rattle

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Simon Rattle em seu primeiro ensaio na LSO em 1977

Simon Rattle em seu primeiro ensaio na LSO em 1977

PQP

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Gustav Mahler (1860-1911): Blumine e Sinfonia Nº 1 (CD 1 de 14)


Ah, meu deus, PQP Bach inventou um quinto movimento para a Sinfonia Nº 1 de Mahler! Não, meus amigos, não inventei nada. Nas primeiras três apresentações da Titã, Blumine ficava entre o primeiro e segundo movimentos. Depois Mahler retirou o movimento, hoje esquecido. Estranhamente, Sir Simon Rattle inicia sua coleção justamente pelo movimento recusado pelo autor.

Sinceramente, não vou apresentar a Primeira Sinfonia de Mahler para vocês. Daria muito trabalho e tenho a mais absoluta certeza que a Sociedade dos Amantes de Mahler tem textos maravilhosos a respeito. Estou aguardando a manifestação da mesma. O espaço a seguir é dela. O mesmo ocorrerá em toda a série, OK? Ah, já informo que os CDs 2 e 3 são da Sinfonia Nº 3 + os 8 Lieder aus Der Knaben Wunderhorn. Se a Sociedade não colaborar, paro a série aqui (ho, ho, ho). Falo sério. O texto pode ser enviado para o e-mail pqpbach.ops@gmail.com e depois será aqui publicado.

Cumpra-se !!!!

E a Sociedade dos Amantes de Mahler cumpriu, como podemos ler abaixo:

Caro PQP,
aqui vão três textos sobre Mahler.
Os dois primeiros são de Michael Kennedy, de uma biografia publicada pela Jorge Zahar.
O primeiro, uma espécie de “introdução” à música do mestre.
O segundo, um comentário sobre a primeira sinfonia.
O terceiro, um texto da coleção Publifolha sobre o último movimento da primeira sinfonia, que considero importante para que vai ouvi-la pela primeira vez. Confesso que apesar de amar Mahler, nunca consegui compreender direito esse último movimento, daí a razão do texto.

Um abraço,
SAM.

Talvez seja conhecida dos leitores a tendência do exame da música de Mahler a resvalar para os domínios da verbosidade filosófica e psicológica. Sua música presta-se facilmente à análise extramusical; na verdade, está entre a música mais autobiográfica até hoje escrita, e alegar que ela existe apenas em termos de procedimentos musicais é ignorar um elemento que Mahler recomendou explicitamente que fosse tomado em consideração. Cada uma de suas sinfonias é uma extensão de sua personalidade, uma exploração do seu próprio eu e, no seu caso, tal como nos de Elgar e Berlioz, não é possível – de fato, é errôneo – separar a música da vida do compositor, como se fosse uma atividade isolada. Ao mesmo tempo, deve-se evitar uma associação excessivamente literal de vida e música, e levar na devida conta a imaginação criativa.

Por causa do curso tragi-romântico da vida de Mahler, em especial a sombra que pairou sobre ela desde 1907 até o seu fim, tem-se atribuído excessiva ênfase à obsessão com a morte e à longa despedida. O retrato de Mahler como homem condenado pelo destino, neuroticamente introspectivo, temperamentalmente desequilibrado, embora não seja uma representação totalmente falsa, constitui uma distorção da realidade. É certo que sua música deriva sua grandeza dos conflitos e contradições da personalidade de Mahler: o homem de ação (que ele era) e o homem que precisava, como disse a Alma, estar “freqüente e intensamente sozinho”; o filósofo e quase cientista e, por outro lado, o filho da natureza de coração puro. A música não corrobora uma interpretação de Mahler como um taciturno negador da vida: ele era positivo, afirmativo. A maioria das sinfonias é alegre e generosa em sua vitalidade, quaisquer que sejam as lutas por elas registradas. Somente a Sexta termina no menor.

Também devemos estar prevenidos contra a moda de relacionar a música de Mahler a determinados conceitos muito vagos mas imponentes, como o de um “microcosmo da decadência da sociedade ocidental”. É tentador exibir uma sabedoria ex post facto e apontar indícios e presságios de dissolução e destruição nessa música, até mesmo uma aplicabilidade espúria a eventos de hoje. Mas não é Gustav Mahler quem está nessas sinfonias em microcosmo, não a sociedade ocidental e sua evolução e revolução política. As esquerdas estão naturalmente ansiosas por reivindicá-lo como um dos seus – um homem do povo, transportando a música do povo para a sua arte. É claro que ele fez isso, os grandes artistas criativos são humanitários. Em 1905, registra Alma, ele cruzou-se com um desfile de trabalhadores no primeiro de maio, no Ring de Viena, e passou a acompanhá-lo a certa distância. “Todos olharam-no de modo tão fraterno – eles eram seus irmãos – e eram o futuro!” Se alguns desses irmãos se apresentassem no dia seguinte no Coro da Ópera de Viena, não tardariam a descobrir até onde iam na prática os instintos fraternos de Mahler. Mas se pode afirmar, na verdade, que ele democratizou a sinfonia, ou melhor, que lhe devolveu sua democracia beethoveniana. ( Também é verdade que ele pertenceu a um grupo socialista-vegetariano em 1880).

O uso em suas sinfonias de valsas, Ländler, marchas e fragmentos de canções era o meio prático de realizar seu credo de que “a sinfonia é o mundo, deve englobar tudo”. Para um homem de sua inclinação filosófica, a sinfonia era o veículo óbvio. Limitado a alguns meses por ano para compor, Mahler não dispunha de tempo para concertos, sonatas ou outras formas; entretanto, mesmo que tivesse, duvido que teria feito outra opção. A sinfonia era o seu Wunderhorn de abundância, e o fertilizou com a grande tradição austro-alemã da canção. Era o seu meio escolhido de auto-expressão, como o drama musical era o de Wagner e a mazurca, o de Chopin.

(…)

Os admiradores da música de Mahler dão três razões principais para o seu entusiasmo: o talento melódico, o domínio da forma e a originalidade do som (em outras palavras, seu brilhantismo como orquestrador). A segunda razão apresentada, o domínio da forma, teve que ser defendida com veemência. As dimensões das sinfonias de Mahler fazem com que, para algumas pessoas, sejam sinônimos de prolixidade. Mas ele necessitava de uma vasta tela sobre a qual elaborar e desenvolver as intrincadas relações de seus temas, porquanto não se pode negar que suas sinfonias são complexas. Seu tamanho está em proporção com seu material. A alegação de que ele era um autor natural de canções que equivocadamente tentou escrever sinfonias mostra uma falta de compreensão comparável às restrições críticas de Bernard Shaw a Schubert por ausência de “trabalho mental”.

O inconfundível “som Mahler” deriva principalmente de seu soberbo domínio orquestral – digo principalmente porque existe um certo formato, um tom de voz, nos próprios contornos de uma melodia de Mahler que proclama sua constante origem no pianoforte. Também sob esse ângulo se descobre, quando se escuta Mahler atentamente, como é equivocada a antiga asserção de que sua música era um hiperbólico e decadente canto de cisne do romantismo wagneriano. As tessituras de Mahler são frequentemente simples e despojadas, apesar da enorme orquestra que usava. Em parte, sua necessidade de tão grandes forças era determinada pelos contrastes dinâmicos necessários nas dimensões gigantescas de seus movimentos sinfônicos. Também em parte, era ditada pela incessante busca de claridade, acima de qualquer outra coisa – o que era igualmente a principal característica de sua regência. A música de Mahler é a uma reação às tessituras plenas do som wagneriano. Suas partituras contêm relativamente poucos tutti – se bem que quando quer criar um fortíssimo pode criar um de tremendas proporções – e estão repletas de solos: para trompa, flauta, oboé, clarineta em mi bemol, trompete – todos os instrumentos com um som muito bem definido. Sua ampliação da seção de madeiras promoveu-a sinfonicamente ao status das cordas e dos metais. Sua escrita para cordas raramente possui a confortável e luxuriante riqueza de Wagner e Bruckner: uma vez mais, é a insistência na escrita exposta e clara das partes

(KENNEDY, , Michael. Mahler. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 83-86).

Só se pode entender por que a primeira sinfonia foi tão impopular durante a vida de Mahler quando se recorda até que ponto a orquestração deve ter soado insólita e bizarra. O público sentiu-se contrafeito com as pinceladas de grotesquerie no movimento lento e, sob outros aspectos, benignamente lírico, a marcha fúnebre à maneira de Callot do funeral do caçador, acompanhado à sua sepultura pelos animais da floresta que ele outrora perseguia, tudo isso para uma paródia da popular ronda Bruder Martin (ou Frère Jacques). Mas essa pinturesca obra romântica pertence ao mundo de Dvorák e Tchaikovsky. Sua bela abertura, descrevendo uma alvorada primaveril, com o chilrear de pássaros e o canto do cuco, é uma vívida e imaginativa peça de pintura da natureza; o Ländler-scherzo é uma versão mahleriana das formas de dança camponesa austríaca consagradas por Bruckner e Haydn – é o espírito do segundo que predomina. Talvez o clímax triunfante do finale (com a ordem dada aos trompistas para tocarem de pé) seja encenado de molde excessivamente espalhafatoso após a recapitulação da música da aurora do primeiro movimento. (…) Hoje, essa obra-prima revolucionária desfruta de popularidade; entretanto, sua estréia em Viena em 19 de novembro de 1900, terminou em pandemônio. O que mais magoou Mahler foi a Orquestra Filarmônica, “a qual está capacitada para compreender minha obra melhor do que ninguém, abandonar-me no final do concerto. Os músicos rejubilaram-se positivamente com o fiasco e desviaram os rostos para ocultar a malevolência que se espelhava em seus olhos. Assim, uma vez mais, Viena maltratou o gênio.

(KENNEDY, Michael. Mahler. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 97-99).

O último andamento estala como uma explosão quase infernal. Mas é verdade que o herói triunfou? Quando as exclamações, golpes dos tímpanos, do bombo e dos trompetes se calam, aparece uma “tema piano”, mais doloroso que melancólico, terrivelmente nostálgico, que vai ascendendo não só em volume como numa crescente inquietação, até chegar a um grau máximo de dramaticidade, que, diria eu, é o maior que aparece em toda a sinfonia. Voltam temas de andamentos anteriores, e com eles estala de novo a tempestade, dessa vez sem conseguir acalmar-se por muito que tente, com o surgimento de novos episódios torturantes: as melodias estendem-se, inacabáveis, sem encontrar forma de se resolver. É inútil que os metais repitam fanfarronices e marchas, no final votará sempre a calma que acompanha a verdadeira dor. Outro intervalo interrompe esse grito estridente para refletir temas de chamamentos doces, cantos de pássaros. É como se a natureza nos devolvesse a paz e a tranqüilidade. As cordas graves chama-nos, com um curto motivo, para avisar que nada acabou. Sobre elas levanta-se uma pequena marcha, que, à medida que chega ao final, traz novas tempestades. No final, depois desse estalo de vitória gloriosa, a única coisa que parece ficar é o ânimo – até que ponto indomável? – de não se deixar vencer.

(RINCÓN, Eduardo. Gustav Mahler. São Paulo: Publifolha, 2005).

Symphonie No. 1 – Titan
01 Blumine
02. 1º mvto – Langsam. Schleppend. Wie ein Naturlaut – Im Anfang sehr gemächlich
03. 2º mvto – Kräftig bewegt, doch nicht zu schnell – Trio. Recht gemächlich
04. 3º mvto – Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen
05. 4º mvto – Stürmisch bewegt

City of Birmingham Symphony Orchestra
Simon Rattle

Simon Rattle tentando acordar o timpanista

Simon Rattle tentando acordar o timpanista

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PQP

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