Marlui Miranda (1949) – IHU: Todos os Sons (1995) [a descoberta musical do Brasil no século XX]

Em agosto de 2009 o colega Marcelo Stravinsky postou aqui o CD “IHU 2”, ou “Kewere”, a missa com coro e orquestra, baseado em cantos e em textos indígenas, que Marlui Miranda lançou em 1997.

Há algumas semanas o Monge Ranulfus teve a oportunidade de apreciar ao vivo uma realização dessa missa com a própria Marlui e o coro e orquestra da Camerata Antiqua de Curitiba. Isso trouxe novamente à tona seu entusiasmo, jamais arrefecido, pelo trabalho de pesquisa e de criação dessa cearense. Quer lhe parecer que tal trabalho é o primeiro que se defronta com o material musical ameríndio não como matéria prima para uma criação musical ocidental, mas, ao contrário, coloca as técnicas ocidentais de épocas e estilos os mais diversos a serviço da própria expressão ameríndia – como quem apenas lhe realçasse os traços e evidenciasse possibilidades, sem jamais afastá-lo de sua natureza-de-alma mais própria.

Tratar-se-ia, portanto, de um ato de imensa significação histórica, pois nunca antes, em 500 anos, o olhar, ouvido e alma europeus teriam alcançado um nível de respeito e abertura tão elevados diante da expressão indígena – resultando não em mais um produto ocidental feito com matéria-prima expropriada, e sim, pelo contrário, em um sutilíssimo ato de penitência pelos imensos crimes de lesa-humanidade com que a expansão europeia se efetivou.

Enfim: brotou desse momento a vontade de compartilhar aqui o primeiro disco da série Ihu, dois anos anterior à missa, o qual não recorre ao coro e orquestra “eruditos” mas também alcança um nível extraordinário de realização musical (veja-se pelas entusiásticas resenhas deixadas no site da Amazon que foram incluídas na postagem em arquivo de texto).

E, para lhe fazer companhia, por que não repostar também a missa? Tenho tanta certeza de que o Strava não se oporá que deixei para pedir licença aqui, em pleno ar…

Uma última coisa: Marlui Miranda disse uma vez que pretendia realizar uma série de seis discos com material indígena, cada um explorando um diferente campo de linguagem. Não sei que dificuldades terá encontrado, pois parece parou nestes dois. Ainda assim que ninguém se atreveria a dizer que a realização foi pouca, não é mesmo?
 
 
Marlui Miranda (1949)
Ihu : Todos os Sons (1995)

1. Tchori Tchori (Índios Jaboti de Rondônia)
2. Pamé Daworo (Índios Jaboti de Rondônia)
3. Tche Nane (Índios Jaboti de Rondônia)
4. Ñaumu (Índios Yanomami de Roraima)
5. Awina – Ijain Je E’ (Índios Pakaa Nova de Rondônia)
6. Araruna (Índios Parakanã do Pará)
7. Mena Barsáa (Índios Tukano do Amazonas)
8. Bep (Índios Kayapó do Pará)
9. Festa Da Flauta (Índios Nambikwara do Guaporé – MT)
10. Yny Maj Hyrynh (Índios Karitiana de Rondônia / José Pereira Karitiana)
11. Hirigo (Índios Tupari de Rondônia)
12. Wine Merewá (Índios Suruí de Rondônia)
13. Mekô Merewá (Índios Suruí de Rondônia)
14. Ju Parana (Índios Juruna do Mato Grosso do Norte)
15. Kworo Kango (Índios Kayapó do Pará)
16. Mito (narração) – Mitumji Iarén (Índios Suyá do Mato Grosso do Norte)
17. Quinze Variações de Hai Nai Hai (Índios Nambikwara do Guaporé – MT)

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Ranulfus

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Marlui Miranda (1949): Missa Indígena – 2 IHU Kewere: Rezar [repostagem]

Inspirado pela postagem da Misa Criolla pelo amigo Avicenna, apresento-lhes a Missa Indígena Kewere da pesquisadora, compositora e cantora indigenista Marlui Miranda.

Tive a oportunidade de apreciar a Missa Kewere em julho de 1997, numa transmissão ao vivo da TV Cultura , direto da Catedral da Sé de São Paulo, em comemoração ao IV Centenário de Morte de José de Anchieta. A Catedral estava completamente tomada pelo povo, com a presença de representantes das nações indígenas, do Governador do Estado, do Presidente da República e do Cardeal Arns. Fiquei apaixonado logo de cara pelas melodias e pela linguagem indígena.

Para falar sobre  a obra, nada melhor que as palavras da própria compositora cearense, em texto extraído do encarte do cd.

Muitas missas étnicas foram compostas, tais como a “Missa Creolla”, a “Missa da Terra Sem Males”, “Missa Yoruba”. A Missa Kewere assume os ingredientes culturais dos índios amazônicos brasileiros, distantes de uma tradição musical erudita.

Em Kewere, a idéia central é a contraposição de crenças: de um lado, cantos de pajés; de outro, versos cristãos de José de Anchieta e textos da liturgia acomodados dentro da mesma trama composicional. Os cantos indígenas selecionados são de natureza solene, lírica, portanto dignificam e são adequados para serem interpretados por orquestra sinfônica e grande coro sinfônico. Assim, a escolha desta formação pareceu-me pertinente à ideia da catequese, da conversão dos índios a uma religião européia. A língua tupi ancestral unifica a composição como um todo.

Ao mesmo tempo que o “oratório” nos distancia das origens deles, nos aproxima misteriosamente, porque uma parte da interpretação vocal é feita de maneira étnica, evocando personagens indígenas, vozes esquecidas no passado da catequese. Assim, no Kyerie, a índia canta à sua maneira, misturando duas crenças: “Kyrie Eleyson… Tupã oré r-ausubar iepé… Tupã Eleyson…”, enquanto, paralelamente, acontece um canto “gregoriano” e um canto de “nominação”, este último explicado como uma espécie de “batismo”, inspirado na tradição indígena.

Kewere é uma composição de equilíbrio delicado, em que procurei adequar o sentido poético dos Aruá, dos Tupari, dos Urubu-Kaapor. Estes cantos são tão leves e frágeis quanto os espíritos que os trouxeram através do mundo dos sonhos. É nesta estrutura leve que pousam os versos de José de Anchieta.

Marlui Miranda

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01. Canto de Entrada
Música: Marlui Miranda
(adaptada dos cantos dos índios Aruá)
Texto: José de Anchieta
extraído de Dia da Assunção, quando levaram sua imagem a Reritiba, v.v. 45 séc.XVI
Arranjo: Nelson Ayres

2. Kyrie
Música: Marlui Miranda
Traduzido para o tupi por: Eduardo Navarro
Arranjo: Marlui Miranda
Percussão: Paolo Vinaccia
Teclado: Bugge Wesseltoft

3. Glória
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Tupari
Texto: José de Anchieta
extraído de Pitãngi Porãgeté, v.v. 18 e 36 séc. XVI
Arranjo: Marlui Miranda

4. Aleluia: Aclamação do Evangelho
Música: Marlui Miranda
Texto: José de Anchieta
extraído de Tupána Kuápa, v.v. 39 séc. XVI
Arranjo: Marlui Miranda

5. Credo
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Urubu-Kaapor
Texto: José de Anchieta
extraído de Em Deus, Meu Criador, v.v. 1, 8 e 29, séc. XVI
Piano e Teclado: Bugge Wesseltoft
Baixo Acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Paolo Vinaccia

6. Ofertório
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Aruá
Traduzido para o tupi por: Eduardo Navarro
Arranjo: Caíto Marcondes
Teclado: Bugge Wesseltoft

7. Pai Nosso
Música: Marlui Miranda
Texto extraído do Catecismo da Língua Brasílica séc. XVI
Arranjo: Mateus Hélio

8. Agnus Dei
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Aruá
Texto: José de Anchieta
extraído de Pitãngi Porãgeté, v.v. 92-95 e de Polo Moleiro, v.v. 122-125
Arranjo: Nelson Ayres

9. Comunhão
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Urubu-Kaapor
Texto: José de Anchieta
extraído de Santíssimo Sacramento, séc. XVI
Arranjo Coral: Marlui Miranda
Piano e Teclado: Bugge Wesseltoft
Baixo Acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Paolo Vinaccia

10. Ação de Graças
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Urubu-Kaapor
Traduzido para o tupi por: Eduardo Navarro
Arranjo: Marlui Miranda
Percussão: Paolo Vinaccia

11. Canto Final
Música: Marlui Miranda
adaptada dos cantos dos índios Aruá
Texto: José de Anchieta
extraído de Dia da Assunção, quando levaram sua imagem a Reritiba, v.v. 90-98 séc.XVI
Arranjo: Ruriá Duprat
Piano e Teclado: Bugge Wesseltoft

Baixe as Letras e Traduções

Concepção e Composição de Marlui Miranda, adaptada da música dos índios, Aruá, Tupari e Urubu-Kaapor
Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo
Coral Sinfônico do Estado de São Paulo
Coral IHU
Regência: Maestro Aylton Escobar

BAIXE AQUI / DOWNLOAD HERE

Strava

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