Osvaldo Golijov (1960) – Paixão segundo São Marcos [link atualizado 2017]

INSTIGANTE!!!

Ah, nada como a Páscoa para se disponibilizar uma das tantas peças que a humanidade produziu sobre a Paixão de Cristo…

E essa postagem é uma prova de como os comentários que  fazem vocês, usuários/ouvintes, são importantes para nós. Eu nunca tinha ouvido sequer menção ao nome do arrojado Osvaldo Golijov, até vê-lo citado aqui no P.Q.P.Bach, em um pedido para que postássemos esta instigante Pasión según San Marcos. Como me interesso especialmente por música coral e sacra, procurei, achei, ouvi e… Gostei, gostei muito!
Aos mais puristas (nem direi sobre aos mais puritanos) já aviso que talvez essa obra não os agrade: Golijov utiliza-se de vários ritmos latinos e alguns judeus para criar ambientações musicais para as situações que cercam os acontecimentos que vão desde a Última Ceia até o caminho para o Gólgota. Podem se assustar com o narrador cantando um ritmo caribenho para contar a traição de Judas por 30 moedas ou, mais ainda, se estarrecerem com o povo pedindo a Pilatos a crucifixão de Jesus sob uma percussão de samba. Inusitado é o mínimo que se pode achar!
Interessante é perceber que a peça toda se desenrola especialmente com narração ou com a fala do povo e que os principais personagens – Jesus, Judas, Pedro, Caifás – tem falas bem pequenas. Mais para o fim, no caminho do Calvário e na crucifixão, Jesus, personagem principal, emite apenas uma frase: o povo, que quer sua morte, sufoca qualquer outra expressão. Por fim, depois de tantos trechos tensos, quando Cristo entrega seu espírito, soa o Kaddish. De melodia triste, mas leve, o Kaddish eleva o espírito do Salvador aos céus e transmite paz e serenidade, quase enunciando a meditação e o resguardo para os dias antes da ressurreição.
Para esclarecer mais sobre o autor e o contexto em que a obra foi concebida, transcrevo o texto do encarte:

Osvaldo Golijov é um jovem compositor argentino que nasceu em 1960. Estudou música em seu país e na Europa, com mestres como George Crumb e Oliver Knussen. Vive atualmente nos EUA e é compositor da Orquestra Sinfônica de Chicago. Entre suas obras está uma ópera baseada em poema de Federico Garcia Lorca, intitulada Aindamar.
O trabalho apresentado hoje é fruto de uma requisição da Bachakademie Internationale Stuttgart (Academia Bachiana Internacional de Stuttgart), em 2000, a quatro compositores para homenagear Johann Sebastian Bach em seu aniversário de 250 anos de falecimento. A soviética Sofia Gubaidulina (1931) escreveu uma Paixão segundo São João, Wolfgang Rihm (1952) baseou-se no Evangelho de Lucas para o seu trabalho, Tan Dun (1957), de origem vietnamita, apresentou em sua Paixão uma combinação de visões ocidentais e orientais da mítica história, enquanto o argentino Osvaldo Golijov escreveu A Paixão Segundo São Marcos que ora oferecemos.
A Paixão Segundo São Marcos de Golijov me chamou a atenção porque é um trabalho cantado em espanhol (a paixão que eu conheço em nossa língua), mas não exclui textos em outras línguas, porque incluem evangelho, Kadish, um poema Rosalia de Castro e extratos da Bíblia, especialmente o Evangelho de Marcos.
Além disso, o compositor mistura ritmos latinos, africanos, judeus e sul-americanos para tratar um assunto bastante solene. Trata-se de um arranjo de instrumentos folclóricos e vocais que lembram as celebrações da Sexta Feira Santa nas pueblos argentinos. A narrativa da obra não se faz de forma literal, mas o compositor prefere, em algumas passagens, inserir, ao texto bíblico, poemas e orações de diferentes culturas e colocar a voz de narradores diversos, que podem ser vozes masculinas ou femininas. O resultado é um trabalho muito interessante, que marca a entrada triunfal de música sacra contemporânea latino-americana no cenário mundial.
A peça estreou em 2000 na Beethovenhalle de Stuttgart, na Alemanha, com um sucesso impressionante. Tem duas gravações, e esta que nós oferecemos é dirigida por Maria Guinand, com a participação da Schola Cantorum de Caracas.

La pasión según san Marcos
Osvaldo Golijov (1960)

01. Visión: Bautismo en la Cruz
02. Danza del Pescador Pescado
03. Primer Anuncio
04. Segundo Anuncio
05. Tercer Anuncio En Fiesta No
06. Dos Días
07. Unción con Betania
08. ¿Por Qué?
09. Oración Lucumí (Aria con Grillos)
10. El Primer Dia
11. Judas XII. El Cordero Pascual
12. Quisiera Yo Renegar
13. Eucaristía
14. Demos Gracias
15. En el Monte de los Olivos
16. Cara a Cara
17. En Getsemaní
18. Agonía
19. Arresto
20. Danza de la Sábana Blanca
21. Ante Caifás
22. Soy Yo (Confesión)
23. Escarnio y Negación
24. Desgarro de la Túnica
25. Lúa Descolorida
26. Amanecer: Ante Pilato
27. Silencio
28. Sentencía
29. Comparsa
30. Danza de la Sábana Porpura-Manto Sagrado
31. Crucifixión
32. Muerte
33. Kaddish

Luciana Souza, voz
Reynaldo González-Fernández, balé e voz
Schola Cantorum de Caracas
Orquesta La Pasión
Cantoría Alberto Grau
Maria Guinand, regente

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (197Mb)
Ouça! Deleite-se!
… Mas antes, deixe um comentário para este postante.

Bisnaga

Clint Mansell – Requiem for a Dream (LINK REVALIDADO)

Postado inicialmente em 12/04/2010.

Nas últimas duas semanas, o número de postagens com música contemporânea tem sido considerável aqui no PQP Bach. Para não quebrar essa lógica, resolvi postar este Cd, pois ele é uma desafio para mim. É importante deveras ser surpreendido por desafios aparentemente inexpugnáveis. Parafraseando Nietzsche posso afirmar que há músicas que são admitidas com o tempo. Ouvi há quase um ano este cd e a impressão primeira não foi boa. Voltei a ouvi-lo ontem e eis que fui acometido por sensações misteriosas. Confesso que desde ontem estou aturdido com as músicas deste CD. É música profunda, cheia de desafios assustadores, quase que fantasmágoricos. O CD é a compilação da trilha sonora do filme Réquiem para um sonho, que ainda não assisti. Todavia, li algumas informações sobre a produção e tive a curiosidade despertada.  Interessante é que tenho o filme. A trilha foi composta por Clint Mansell e pelo fantástico, prolífico, Kronos Quartet. Esteticamente, sinto-me grávido de impressões confusas, distantes, quando ouço esta música. Há música eletrônica, desvarios sonoros, paisagens cheias de efeitos e um cello que me transmite a ideia de um deserto desolado, afastado, silencioso, de sol amarelecido. É ouvir para conferir.

Clint Mansell & Kronos – Requiem for a Dream

1. Summer Overture 2:35
2. Party 0:28
3. Coney Island Dreaming 1:04
4. Party 0:36
5. Chocolate Charms 0:25
6. Ghosts of Things to Come 1:33
7. Dreams 0:44
8. Tense 0:37
9. Dr. Pill 0:42
10. High on Life 0:11
11. Ghosts 1:21
12. Crimin’ & Dealin’ 1:44
13. Hope Overture 2:31
14. Tense 0:28
15. Bialy & Lox Conga 0:45
16. Cleaning Apartment 1:26
17. Ghosts-Falling 1:11
18. Dreams 1:02
19. Arnold 2:35
20. Marion Barfs 2:22
21. Supermarket Sweep 2:14
22. Dreams 0:32
23. Sara Goldfarb Has Left the Building 1:17
24. Bugs Got a Devilish Grin Conga 0:57
25. Winter Overture 0:19
26. Southern Hospitality 1:23
27. Fear 2:26
28. Full Tense 1:04
29. The Beginning of the End 4:28
30. Ghosts of a Future Lost 1:51
31. Meltdown 3:56
32. Lux Aeterna 3:56
33. Coney Island Low 2:13

BAIXAR AQUI

Carlinus

Mateus Alves (1982) – Música de Câmara e Orquestral [link atualizado 2017]

MAS É MUITO BOM!

Vem de Pernambuco o autor que vos apresentamos hoje, fazendo sua avant-première aqui no P.Q.P. Bach: Mateus Alves, jovem contrabaixista e promissor compositor da terra que nos deu Gilberto Freire e que encantou e acolheu nomes como Clóvis Pereira, Cussy de Almeida e Guerra Peixe. Bom, não é de se espantar: já faz um bom tempo que os estados vizinhos de Pernambuco e Paraíba são dois pólos de vanguarda da música erudita brasileira…
E Mateus Alves faz uma música leve, interessante, de sons longos, mas límpidos. Não tem medo de flertar com atonalismos e de, vez por outra, deixar-se tomar por rastros do Armorial, ainda muito presente na música de seu Estado e dos grandes compositores que estuda e com quem convive (que dádiva!). Não é música simples, e é possível que vocês nem gostem na primeira audição. Há que se esperar o ouvido se acostumar, ouvir novamente: Alves nos brinda com inesperadas continuidades; nos brinda, em suma, com o novo, com juventude!

Nem vou tomar mais o tempo de vocês, pois tem gente muito mais gabaritada que se debruça sobre as obras desse jovem que aqui apresentamos:
Não dis­por das lin­has de um pen­ta­grama para con­ce­ber algo lin­ear. Essa foi a mola-mestra de Mateus Alves ao com­por as três primeiras obras do pre­sente álbum, um inco­mum CD de Música de Con­certo Con­tem­porânea lançado em Per­nam­buco, que veio para estim­u­lar out­ros com­pos­i­tores eru­di­tos do estado, jovens e vet­er­a­nos, a divul­garem fono­grafi­ca­mente sua pro­dução, e cuja capa mate­ri­al­iza a metá­fora que guiou seu processo criativo.
Nas três primeiras peças citadas — exe­cu­tadas por músi­cos da Orques­tra Sin­fônica Jovem do Con­ser­vatório Per­nam­bu­cano de Música -, em que são tra­bal­ha­dos tec­ni­ca­mente e em sep­a­rado os naipes da orques­tra sin­fônica (exceto a per­cussão), Mateus frag­menta o dis­curso musi­cal e o dire­ciona de forma não pre­visível, criando uma espé­cie de cama de gato com os sons dos instru­men­tos e des­fazendo os desen­hos da corda tão logo lhe con­venha (cama de gato é aquela brin­cadeira infan­til con­hecida tam­bém como jogo do bar­bante). Às vezes, o entre­laça­mento dá lugar ao impro­viso, influên­cia declar­ada do jazz, como no quin­teto de madeiras e no quar­teto de cor­das. O Quin­teto de Madeiras No 1, que teve seu primeiro movi­mento exe­cu­tado pelo Quin­teto Villa-Lobos num work­shop no Recife, con­cede um breve momento, em espe­cial, para o uso de téc­ni­cas expandi­das em sua seção impro­visatória, no segundo movimento.
Já o “lado B” do CD, ocu­pado por “As Duas Estações Nordes­ti­nas”, toma rumo diverso da lin­guagem bus­cada pelo com­pos­i­tor no “lado A” a fim de prestar trib­uto a Clóvis Pereira, expoente vivo da música per­nam­bu­cana. Esta suíte orques­tral, objeto da mono­grafia de Mateus Alves na Uni­ver­si­dade Fed­eral de Per­nam­buco e super­vi­sion­ada por dois desta­ca­dos com­pos­i­tores nordes­ti­nos (Dier­son Tor­res e Eli-Eri Moura), segue influên­cia direta, mas não total, do Movi­mento Armo­r­ial. A peça foi escrita para a Orques­tra Sin­fônica Jovem do Con­ser­vatório Per­nam­bu­cano de Música, respon­sável pela primeira exe­cução da obra (reg­istrada no álbum), e que reúne músi­cos de todas as regiões do estado, inclu­sive o próprio com­pos­i­tor — agora ex-contrabaixista da orquestra.(Car­los Eduardo Ama­ral, jor­nal­ista e crítico musical)

Mateus Alves
Música de Câmara e Orquestral

Quinteto de Madeiras N° 1 (Granola)
1.  I – Lento melanconico (Leite [Milk])
2. II – Allegro giocoso, Lentissimo misterioso, Improvvisato (Azedo [Sour])
3. III – Andante dolce (Acucar [Sugar])
Quarteto de Metais
4. I – Adagio
Quarteto de Cordas N° 1
5. I – Andante espressivo, Adagio doloroso
6. II – Allegro agitato, Improvvisato, Andante espressivo
As Duas Estações Nordestinas
7. I. Chuva
8. II. Sol

Confira o trabalho do compositor em seu site oficial: www.mateusalves.net 
(Todas as peças estão disponíveis para download lá)
Mas, se quiser tudo de uma vez, BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (34Mb)
https://1drv.ms/u/s!Aj7AlViriTxyhQEw77l8D-OkR14R

Partituras e outros que tais? Clique aqui

Ouça! Deleite-se!
Mas antes, dê o ar da graça e escreva umas letrinhas aqui: comente!


“Ôxe! O rapaz aí tem futuro…”

Bisnaga

Stefan Niculescu – Dois álbuns

Há pouco mais de quatro anos morreu Stefan Niculescu, compositor romeno pouco conhecido, pouco gravado, sobretudo fora da Romênia, a quem tento, dentro das minhas parcas possibilidade, divulgar um pouquinho mais. Não sei bem por quê, mas a Radio România Muzical e um blog estavam por estes dias homenageando o compositor. Fizeram uma semana de programação na rádio, postaram algumas coisas no Youtube, publicaram uma entrevista inédita (em romeno, tristemente). Por que depois de quatro anos, não sei muito bem. Fico a imaginar aqui que talvez a ficha tenha caída e tenham resolvido prestar as devidas homenagens (que não aconteceram, pelo que pude notar, logo após sua morte), mas a gente sempre duvida do milagre. De qualquer forma, aproveitando que, com as “festividades”, andei escutando Niculescu demais (e sempre me surpreendendo, pois mesmo uma nova gravação de uma peça conhecida sempre carrega, pela forma como é escrita e pela liberdade de inflexão que permite ao intérprete, um sabor de coisa nova), resolvi postar aqui material de dois vinis que tentei com o maior carinho transferir para mp3 (embora o resultado sempre deixe a desejar). Espero que estejam a contento. Converti só um lado de cada LP, pois o outro de cada foi lançado em cd pela Olympia. Já postei esses cds (com as sinfonias 2 e 3), mas só para ficar o álbum completo, posto novamente aqui.

São — as peças aqui apresentadas — músicas pelas quais tenho um carinho sem fim. Niculescu sabe como nenhum outro compositor trafegar no escuro e no claro. Com doçura e violência. E a doçura é de uma intensidade tão impressionante quanto a violência. Acho que já disse isso aqui, mas me repito porque o argumento é importante para mim. Ao contrário de tantos compositores que escuto por aí, vários inclusive muito bons, alguns dos quais ainda pretendo postar aqui, a doçura, a comunicabilidade de uma peça como a Sincronia II não se apresenta em nenhum momento como um passo para trás. Ao contrário, é desbragada e ousada, uma coisa de quem não tem medo nem de abandonar os clichês da vanguarda (aproveitando-se de sua bagagem) nem resolve retroceder para o lugar protegido de um teórico público resistente a novidades.

Não comento as sinfonias 2 e 3, sobre as quais já falei anteriormente. As outras peças caminham mais claramente para a escuridão, conforme retrocedem no tempo (a Sincronia é de 1980; Unisonos II, de 1972; Tastenspiel, de 1968; e Heteromorfia, de 1967). As obras me interessam menos conforme retrocedem, o que não deixa de ser uma deliciosa prova de avanço e amadurecimento. Ainda assim, é bem verdade, tanto Unisonos II quanto Heteromorfia são peças fabulosas, cheias de sabor. Unisonos II parece brincar com a violência e a aspereza, guarda assim um fundinho delicioso do não levar a sério o clima que constrói, jogando com a ambiguidade (neste sentido, me lembra aquelas peças melancólicas do Villa, nas quais o que mais sobressai é o prazer, um prazer de melancolia que nos faz desconfiar de ser realmente melancolia, ainda que se derrame candente). Heteromorfia é, em vários apectos, um estudo de heterofonia, técnica que foi cara a Niculescu, com incursões numa aleatoriedade controlada (num esquema um pouco diferente do de Lutoslawski, já que, de fato, as peças mudam muito conforme a interpretação); é uma peça de materialização, de moldar o som. Ainda mais violenta que Unisonos II, não há aqui qualquer nesga de ambiguidade, só um afundar-se no mundo denso da música.

Boa diversão!

Stefan Niculescu (1927-2008)

ST-ECE 02036
01 Sinfonia nº2 “Opus Dacicum” (1979-80), para orquestra
02 Eteromorfie (Heteromorfia) (1967), para orquestra
03 Tastenspiel (O jogo das teclas) (1968), para piano

Alexandrina Zarleanu, piano (faixa 3)
Orquestra Filarmônica “Banatul”de Timisoara (faixa 1)
Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional Romena (faixa 2)
Remus Georgescu (faixa 1)
Iosif Conta, regente (faixa 2)

ST-CS 0197
01 Sinfonia nº3 “Cantos” (1984), para sax e orquestra
02 Sincronia II “Homenagem a Enesco e Bartók” (1980), para orquestra
03 Unisonos II (1972), para orquestra

Daniel Kientzy, saxofones (faixa 1)
Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional Romena
Iosif Conta, regente (faixa 1)
Cristian Brâncusi, regente (faixas 2 e 3)

BAIXE AQUI

itadakimasu

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Romanian Women Composers Vol.1

Para ser bem honesto, toda vez que vejo esses cds carregado de “gênero”, me bate uma desconfiança daquelas. Primeiro porque costumam ser ruins e parecem servir antes para mostrar que as mulheres são más compositoras, quando a função era para ser justamente inversa. Segundo porque são ainda mais carregados daquele ar chapa-branca que a média (motivo frequente para os cds serem ruins). E olha que a música clássica tem, pela maneira como evoluiu e pelos seus interesses, um enorme potencial chapa-branca (o que torna mais assustador me incomodar esse aspecto na confecção de um cd): o famoso “não há nada que possa me constranger aqui” que todos aqueles músicos bem alinhados tocando, no mais das vezes, com uma expressão impassível são capazes de criar. Apesar disso e tanto mais que é melhor calar, aqui estou eu a apresentar um desses cds e tecer tantos elogios quanto a seda me permite. Como sempre digo que os romenos têm alguma coisa de diferente na música contemporânea, as romenas também. Sem menoscabo de algumas compositoras pelas quais tenho carinho, como Ustvolskaya, Graciane Finzi, Marisa Rezende, Tatyana Mikheyeva, não tive a oportunidade de encontrar compositoras boas o suficiente para fazer um cd desses em nenhum outro lugar.

Irinel Anghel, compositora de Fascination II, nasceu em 1969 e é muito interessada em meios alternativos e sonoridades um tanto incomuns. Abundam em suas peças instrumentos exóticos e sons eletrônicos. Em Fascination II, tudo isso está m,uito presente e contribui para uma música muito delicada (apesar de umas sonoridades às vezes ásperas) e introspectiva, beirando o estático (no que me recorda seu professor, Octavian Nemescu, de quem já postei uma peça chamada rouaUruauor, linda, linda, hehe).

O contraste é enorme com a entrada de Umbre II, de Doina Rotaru (compositora nascida em 1951 e de quem já apresentei algumas peças aqui também). Ainda que continuemos numa atmosfera introspectiva, aqui a violência e a agitação predominam, e a placidez a que nos levava a peça de Anghel torna ainda mais violenta a ruptura a que somos trazidos. O emprego de sonoridades inusuais nos três instrumentos (piano, cello e violino) é soberbo: me cativa a construção da atmosfera densa, coesa e dinâmica, ou seja, tanta maturidade e virtuosismo arquitetônicos, dentro de uma linguagem tão atípica. Em minha modesta opinião, esta peça é a cereja do bolo delicioso que é este cd.

Maia Ciobanu (nascida em 1952) é, comparativamente, mais romântica, mais melódica. O uso de fitas magnéticas com instrumentos solos me parece ser uma constante em seu trabalho, e o resultado costuma me agradar muito. Em It shall come!, a fita magnética tem um quê um tanto cinematográfico, o que confere uma dramaticidade interessante para o clarinete solista.

Myriam Marbé, compositora que já apresentei no PQP Bach (nasceu em 1931 e morreu em 1997), é de uma geração mais antiga, da linha de frente da vanguarda romena surgida em meados dos anos 1950. Entre tantas coisas que me agradam, compôs um concerto para viola da gamba e orquestra que é de uma simplicidade e uma beleza candentes. Ainda que a música aqui apresentada seja bastante interessante (mereceria entrar no repertório dos flautistas por aí), Haykus começa num tom pouco ligeiro (ligeiro dentro dos padrões tipicamente espirituais que essas peças para flauta e piano costumam ter, sabe-se lá por quê), mas vai ganhando interesse e riqueza conforme avança.

Finalmente Mihaela Stanculescu-Vosganian, nascida em 1961, deixa-nos aqui a única peça cantada do cd, Armenian Interferences. A compositora escreveu diversas interferências, mas cada uma tem um formato um pouco diferenciado (embora eu creia que todas são para grupos de câmara). Como o título já deixa claro, é uma música de forte influência popular armênia, o que fica, dentro do possível de cantores líricos, óbvio mesmo na maneira de posicionar a voz no conjunto. Embora de maneira diferente, a peça de Vosganian se coaduna com a Ciobanu numa linguagem mais macia, menos agressiva (muito embora Ciobanu procure muita dramaticidade, enquanto Armenian Interferences seja uma peça mais relaxada, apaixonada).

Boa degustação!


Irinel Anghel

01 Fascination II, para cello, gu zheng, flauta baixa, khaen, udu, water gongs (se alguém souber a tradução, agradeço) e fita magnética

Doina Rotaru
02 Umbre II, para violino, cello e piano

Maia Ciobanu
03 It shall come!, para clarinete e fita magnética

Myriam Marbé
04 Haykus, para flauta e piano

Mihaela Stanculescu-Vosganian

05 Armenian Interfaces, para mezzosoprano, clarineta/clarone e quarteto de cordas

BAIXE AQUI

itadakimasu

Kientzy interpreta Doina Rotaru (LINK REVALIDADO)

O presente cd é uma contribuição do Sensemaya, que encarecidamente nos enviou os arquivos e pediu que postássemos alguns comentários dele sobre a obra. Mas, antes de passar a eles, gostaria de fazer também eu alguns comentários.

É particularmente impressionante a quantidade de excelentes compositoras na Romênia. Não sei bem o motivo (e sei que o comentário tende a ser bastante subjetivo e embasado de maneira um tanto torta), mas elas me parecem ser em maior número e de uma qualidade difícil de ver por aí. Enquanto eu costumo achar uma ou duas interessantes por país, na Romênia me cativam vários nomes, entre as quais eu destacaria a aqui presente, Doina Rotaru, o primeiro nome da música contemporânea romena que conheci, Mihaela Stanculescu-Vosganian, Maia Ciobanu, Violeta Dinescu, Irinel Anghel, Myriam Marbé. Aos poucos pretendo postá-las aqui para ver se concordam comigo.

Rotaru trabalha de uma maneira impressionante com diferentes sonoridades, dando sentido e  concatenações lógicas e expressivas inesperadas para sons que costumam aparecer aqui e ali na música de vanguarda com um ar de alheamento. É uma música que carrega um forte peso onírico, mítico, que vai nos envolvendo numa ambiência cheia de referências folclóricas e orientais.

Seguindo agora com a apresentação do Sensemaya:

Doina Rotaru está entre os compositores romenos vivos mais significativos. Nasceu em Bucareste, em 1951, e estudou com Tiberiu Olah [nome central da vanguarda romena dos anos 50/60, junto com Niculescu, Vieru e Stroe] em sua cidade natal e com Theo Loevendie em Amsterdã.

Sua ampla produção é sobretudo de sinfonias, concertos e peças solo com especial preferência pela flauta e pelo saxofone. É considerada representativa de música arquetipalista, isto é, música baseada em símbolos, números e fórmulas musicais folclóricas. Este disco contem obras escritas e interpretadas por Daniel Kientzy.

Masques et Miroires- Concerto nº2 para saxofone e orquestra (2006) é vagamente inspirado pelo conto filosófico de Borges “O espelho e a máscara”. Há variações musicais e emocionais do mesmo material, refletindo conceitos de beleza, sacrifício e pecado.

Colinda (2005) é uma peça curta e simples, baseada em canções de natal romenas.

Matanga (2005) é inspirado por um elefante (matanga em sânscrito). A obra foi escrita para saxofone contrabaixo e seis percussionistas.

Obsessivo (2008), para saxofones e sons eletrônicos, é também baseado em conceitos de variação emocional de um motivo musical circular, repetido durante a obra.

Reina (1995), para saxofone soprano e sons eletrônicos, é baseado em em conceito de doina romena – um canto de saudade. O trabalho é dedicado a Reina Portuondo e seu marido, Daniel Kientzy.

En revant …au saxophone (2003), para voz, saxofone e sons eletrônicos, é baseado em um texto de Malraux. A obra trabalha com a capacidade emocional da música, tornando “calorosa” uma ideia musical fria e plácida.

Seven levels to the sky (1993), Concerto nº1 para saxofone e orquestra
Duas ideias residem na base deste concerto: a ascensão da alma, passando por sete níveis de céu superpostos para que se alcance paz, e a ideia de um único som que ouvimos no início.

Boa audição!


Doina Rotaru (1951- )

01 Masques et miroires (2006), Concerto n° 2 para saxofone(s) e orquestra
Daniel Kientzy, saxofones (sopranino, alto, barítono)
Horia Andreescu, regente
Orchestra Camera Radio

02 Colinda (2005) para saxofone, harpa, celesta, percussão e trio de cordas
Daniel Kientzy, saxofone (barítono)
Ensemble Pentruloc
Bogdan Voda, regente

03 Matanga (2005), para saxofone contrabaixo e 6 percussionistas
Daniel Kientzy, saxofone (contrabaixo)
Ensemble Game
Alexandru Matei, regente

04 Obsessivo (2008), para saxofones e sons eletrônicos
Trio PROmoZICA:
Reina Portuondo, sons eletrônicos
Daniel Kientzy, saxophone (soprano, tenor)
Cornelia Petroiu, viola

05 Reina (1995), para saxofone soprano e sons eletrônicos
Meta Duo:
Reina Portuondo, sons eletrônicos
Daniel Kientzy, saxophone (soprano)

06 En revant …au saxophone (2003), para voz, saxofone e sons eletrônicos – Texto de André Malraux
Meta Trio:
Reina Portuondo, sons eletrônicos
Daniel Kientzy, saxophone (soprano, tenor)
Yumi Nara, voz

07 Seven levels to the sky (1993), Concerto nº1 para saxofone e orquestra
Daniel Kientzy, saxofones (barítono, soprano, alto)
Orchestra Filarmonica de Stat “Transilvania”
Emil Simon, regente

BAIXE AQUI

itadakimasu/Sensemaya

Bogusław Schaeffer – Concerto para piano nº3 LINK REVALIDADO

Bogusław Schaeffer é uma figura curiosa nas artes polonesas. Além de compositor e instrumentista, é também teatrólogo e, eu diria, um obcecado pela experimentação. Construiu toda sua obra dentro de um conceito de que cada peça tem sua própria lógica, que mesmo em seu desenvolvimento é cambiante, não aplicando padrões à sua produção. Ainda assim, justamente essa falta de padrões acaba trazendo uma característica e um clima que aproximam todas as suas obras (e, sim, criam um padrão): elas não têm linearidade, não têm unicidade clara, sempre têm um certo ar de vagar que particularmente me cativa. Apesar de toda a experimentação, uma coisa é clara: o compositor não abre mão da expressão. Por todas as vias tortas chegamos ao lirismo, ao êxtase, ao lúdico. O única questão é que tudo isso logo se transforma, muda de clima, ganha constantemente outra expressão.

De um certo ponto de vista, Schaeffer é um <em>enfant terrible</em> da música polonesa. Sua obra ainda é pouco tocada mesmo na Polônia, ganhou poucos prêmios, as gravações são dificílimas de achar. Mas do alto de seus 80 anos, continua a produzir sem cessar e, aparentemente, sem se importar.

Aqui vai a primeira obra que conheci dele, o Concerto nº3 para piano, orquestra e computador, de 1990. Do que sei (e não é muito, já que ele produziu muito, mas é muito pouco tocado mesmo na Polônia), é uma das raras obras com divisão em movimentos, o que torna o passeio não-linear bem mais fácil. O uso do computador é muito interessante e de certa forma discreto, harmonizando bem com a trama orquestral. Um trechinho dessa peça foi usado em um filme do David Lynch, Império dos Sonhos (2006) e, por isso é uma peça mais fácil de ver por aí (ainda que no cd da trilha sonora esteja só marcado como “Piano Concerto”).

Boa diversão.

Bogusław Schaeffer
(1929- )

Concerto para piano, orquestra e computador (1990)

I. Entrata
II. Tumultuoso
III. Drammatico
IV. Nostalgia
V. Gaio
VI. Fuga
VII. Notturno
VIII. Amoroso
IX. Blues
X. Estasi
XI. Finale

Bogusław Schaeffer, piano
Marek Choloniewski, computer
Orquestra da Rádio de Katowice
Bogdan Oledzki, regência

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Sorin Lerescu (1953) – Sinfonias

Como comentei em um post anterior de música romena, às vezes a sonoridade, a ambiência da música de Lerescu me lembram muito o Stefan Niculescu dos anos 70 e 80. Verdade que tenho a sensação de que falta um quê inominável, aquele que separa a obra-prima de uma obra “apenas” muito interessante e que não se restringe simplesmente a uma falta de novidade, ou de originalidade extrema. O que posso dizer é que parece faltar o peso, a força extrema com Niculescu bizarramente nos conduz pela leveza. E mais ainda, como ele consegue abandoná-la sempre que quer, sem se tornar refém da criação. Ainda assim, as sinfonias de Lerescu são obras de enorme beleza, e tenho certeza de que devem agradar mesmo os exigentes. Há nelas um transbordar de cor e dramaticidade que me recordam também um pouco daquele grandeur do Rautavaara dos primeiros concertos para piano, da época em que este ainda não tinha diluído de vez sua música (mas as sinfonias do Lerescu, ainda assim, são melhores que o melhor Rautavaara). As três primeiras sinfonias, respectivamente de 1984, 1987 e 1994, é que realmente são o caso. A quarta, para orquestra com órgão, não me impressiona tanto. E dentre as três primeiras, tenho um carinho todo especial pela segunda, que desde os primeiros segundos já nos envolve com uma entrada brilhante e sua delicadeza um pouco infantil.

Boa diversão!

Sorin Lerescu (1953)

Sinfonias

CD 1
01 Sinfonia nº1, para orquestra (1984)
02 Sinfonia nº2, para orquestra (1987)

CD 2
01 Sinfonia nº3, para orquestra (1987)
02 Sinfonia nº4, para orquestra com órgão

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Alexandre Tharaud interpreta Mauricio Kagel (1931-2008)

Como prometido, aí está o cd do Alexandre Tharaud interpretando obras do compositor e cineasta argentino Mauricio Kagel (radicado na Alemanha desde que tinha vinte e poucos anos). Não que eu seja um connaisseur do compositor, mas já dei uma boa garimpada na discografia dele, e nada me agrada tanto quanto este álbum. Toda possível jovialidade e e todo bom humor que se esperam de Kagel estão aqui e, creiam, não é só encenação (o que, tristemente, me parece acontecer com alguma frequência), mas resultam em uma música atraente e instigante. O período das obras aqui apresentadas pega bem uma época de transição, saindo da fase serial do início de carreira (que pega os anos 1950 e início da década de 1960) para uma fase abertamente pós-moderna (seja lá o que isso signifique), que se sedimentou no chamado teatro musical, no qual o compositor volta a lançar mão da tonalidade, numa obra de sonoridade mais adocicada, mas colorida com elementos aleatórios, recursos eletrônicos e uma encenação cômica, num resultado que nem de longe parece indicar um retrocesso da vanguarda, bem ao contrário.

Além de postar o cd aqui, coloquei um vídeo do Youtube com seu filme mais famoso, Ludwig van (1969), para quem quiser dar uma olhadela, muito embora eu não me anime muito com ele. A obra apresentada no cd com o mesmo nome, em compensação, é bem mais interessante.

E sobre o cd em si, por preguiça, traduzo (grosseiramente) um texto da BBC Music Magazine:

Que compositor vivo nomearia uma peça segundo o termo médico para unha encravada (Unguis incarnatus est), lembrando-nos maliciosamente que a expressão ‘incarnatus est’ também ocorre na missa em latim; e então, na mesma peça, cita fragmentos distorcidos de Nuages gris de Liszt enquanto pede ao pianista para fazer  um calculado e indiscreto barulho com seu metafórico ‘Unguis incarnatus’, explicitamente com o pedal? Somente um: Mauricio Kagel, o bufão na corte solene da vanguarda. Seria inadequado chamar de perspicazes essas divertidas subversões da Grande Tradição Ocidental, elas são demasiadamente sinistras e violentas para isso. Alexandre Tharaud se lança nessa brincadeira com gosto, e ele também traz uma incrível variedade de toques para a própria música. Nem toda a música é escura: há momentos de beleza tranquila e iluminada em Rrrrrrr… (baseado em mecanismos musicais iniciados pela letra R, caso isso  interesse). E nos fragmentos semi-lembrados de Beethoven em Ludwig van parece até que o compositor baixou, o que é bem captado pelo excelente conjunto, que inclui o maravilhoso barítono francês François Le Roux. E a gravação é fabulosamente detalhada sem ser clínica. O CD é uma introdução atraente, senão de arrepiar, para um compositor extremamente influente.

Ivan Hewett


Mauricio Kagel (1931-2008)


Mauricio Kagel – Alexandre Tharaud

1. Pieces for Organ (from ‘Rrrrrrr…’): Ragtime – Waltz
2. Pieces for Organ (from ‘Rrrrrrr…’): Rondeña (piano à quatre mains)
3. Pieces for Organ (from ‘Rrrrrrr…’): Rosalie
4. Pieces for Organ (from ‘Rrrrrrr…’): Rossignols enrhumés (piano préparé)
5. Pieces for Organ (from ‘Rrrrrrr…’): Râga
6. Ludwig van, film score: I
7. Ludwig van, film score: II
8. Ludwig van, film score: III
9. Ludwig van, film score: IV
10. Ludwig van, film score: V
11. Ludwig van, film score: VI
12. Ludwig van, film score: VII
13. Ludwig van, film score: VIII
14. Ludwig van, film score: IX
15. Der Eid des Hippokrates (‘Hippocrates’ oath’), for piano, 3 hands
16. Unguis Incarnatus Est, for piano & any bass sustaining instrument
17. Mm51, for piano

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14th International New Music Week 2004 – Bucareste

Aí vai mais um cd de música romena. Embora seja sempre agradável ouvir um Niculescu, a peça gravada aqui, Sequentia (1994) para flauta, clarinete, violino, violoncelo e percussão, não é do que mais me surpreende nele. É de sua última fase, abertamente sacra, com peças em geral um pouco mais escuras e muito densas. Prefiro o momento anterior, doce sem deixar de ser denso, expressivo sem deixar de ser arrojado (ao contrário de compositores como Rautavaara, que realmente deram para trás para encontrarem comunicação). Ainda assim, como já dizia, a peça é interessante, guarda um sabor meio jocoso, apesar da sacralidade óbvia. Outras peças do período, como as sinfonias 4 e 5 também são muito fortes, com momentos de beleza soberba. O que me incomoda, talvez, é a sensação de reinserção na ambientação mais típica da música de vanguarda, ainda que com estilo. Sinto muita semelhança com o Lutoslawski de Mi-Parti e Livre para Orquestra (duas das minhas prediletas deles, por sinal) pelo ar grandioso, um tanto difuso, belo mas um tanto quanto assustador (sem falar na heterofonia). O Niculescu outsider me instigava mais.

O quer realmente pega aqui é a introspectiva rouaUruauor, para as 9 da manhã, de Octavian Nemescu (1940). O compositor usa durante quase toda a peça uma base eletrônica relativamente estática e vai ornamentando sem uma preocupação coesiva. Os lampejos sonoros que vão se sucedendo, pouco preocupados com conexões e desenvolvimento, são eivados de uma força religiosa, um transe, ainda que no final das contas a música não trate disso. A peça em questão faz parte de um ciclo que o compositor compôs para as 24 horas do dia.

Ainda que eu tenha enfatizado as peças do Nemescu (por ser a mais fantástica do cd, na minha opinião) e a do Niculescu (dada minha adoração pela música dele), as outras duas peças chamam igualmente a atenção. Para cello e fita magnética, a peça Shadow III, de Doina Rotaru, tem um início deslumbrante, e a fusão entre o cello e a fita magnética resulta em uma sonoridade muito cativante. Finalmente, o Concerto para sax de Sorin Lerescu é de uma doçura ímpar, às vezes até me recordando o Niculescu dos anos 80 (o que, aliás, não me parece fortuito, já que várias de suas peças me passam essa sensação). Vou ver se posto logo suas sinfonias (aproveitando que já tenho o link pronto) para ter opiniões sobre a semelhança, por exemplo, entre o clima das sinfonias 2 e 3 do Niculescu com as do Lerescu.

Mais informações sobre a Semana de 2004, clique aqui.

Boa audição!

14ª Semana Internacional de Música Nova de Bucareste (2004)

01 Stefan Niculescu – Sequentia (1994), para flauta, clarinete, violino, violoncelo e percussão
02 Doina Rotaru – Shadow III, para cello e fita magnética
03 Octavian Nemescu – rouaUruauor, para as 9 da manhã
04-05 Sorin Lerescu – Concerto para sax e orquestra

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Gerardo Dirié (1958) – Waiting for the Sound

Aqui está um compositor que me parece muito acessível, apesar da linguagem contemporânea, para estrear minha seção de autores latino-americanos. Dirié nasceu em Córdoba, na Argentina, e tem circulado pelo mundo desde então. Estudou e trabalhou na Universidade de Indiana e, mesmo vivendo atualmente na Austrália, parece manter vínculos com o Centro de Música Latina daquela instituição. Embora lance mão de recursos eletroacústicos e de técnicas típicas de música contemporânea, sua música é sempre muito delicada, muito envolvente e melodiosa. Talvez essa suavidade acabe por ser até um entrave para que sua música galgue a um patamar ainda mais significativo, mas, em seus melhores momentos, é uma delícia (e sempre que fica mais áspera, perco um pouco o interesse). Destaco neste cd as duas primeiras peças, Villancico al Nacimiento e Ti xiuhtototl, e o último movimento de La Espera, um daqueles momentos de delicadeza suprema.

Boa audição!

PS: um detalhe que sempre me intrigou é o fato de meus compositores argentinos prediletos (que julgo os mais significativos), Ginastera, Kagel e Dirié (sem falar de alguns raros mas interessantes momentos do Golijov) terem passado boa parte de suas vidas no exterior, abandonando a Argentina em geral para nunca mais voltar a morar. Se pensamos bem, é o contrário do que ocorreu no Brasil, onde mesmo um Villa-Lobos só passou pequenas temporadas no exterior, sempre tendo seu país como referência.

Gerardo Dirié (1958)

Waiting for the Sound

1. Villancico al Nacimiento (2000), acousmatic
2. Ti xiuhtototl (1997), for soprano, female chorus, harp, and electronics
3. Cinco canciones debajo del ladrillo (1988), for alto recorder, clarinet, violin, and 2 percussionists
4. Nocturno de la luna en tu frente (1996), for violin and harp
5. Swamp music (1994), for chorus and instrumental ensemble
6. Tu casa o este océano (1990), electronic

La Espera (1998), for chamber vocal and instrumental ensemble
07 I. Sinfonía
08 II. Recitativo del tiempo
09 IV. Canto nocturno
10 VII. The Rain in Woodstock
11 VIII. A Shroud for Laertes
12 IX. Bajo la luna
13 XI. Movimiento final

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Călin Ioachimescu (1949) – Around the sound

Voltando à música romena, apresento mais um compositor do qual sou fã de carteirinha: Călin Ioachimescu. Ele nasceu em 1949 em Bucareste e estudou com Ştefan Niculescu. É mais um nome importante da chamada música espectral romena (que rotula um balaio de gatos impressionante). Com muito esforço, consegui acumular umas quinze peças suas, a maioria para saxofone, já que, salvo pelo trabalho árduo do Kientzy de divulgação da música romena, não se encontra muito facilmente muita coisa. Na verdade mesmo as informações sobre sua vida e sua obra são para lá de exíguas. De qualquer forma, Ioachimescu tem uma obra bastante pequena, não ultrapassando 40 composições (de acordo com uma lista de obras de 2007, disponível aqui). Nessas, ele se dedica prioritariamente a pesquisas eletroacústicas, sem descuidar, no entanto, da música puramente acústica.

O compositor diz estar interessado na construção de uma nova consonância. De fato, suas obras são muito envolventes, de um colorido todo peculiar. Sinto que quase sempre há um quase-padrão (que não tem nada a ver com a questão da consonância), em que os inícios quase-doces, de uma delicadeza ao mesmo tempo um tanto quanto megalomaníacas, vão se direcionando cada vez mais a um quase-escuro, quase-áspero (desculpem o excesso dessas construções em quase, mas os adjetivos sem eles seriam não mais que belos simulacros). Das peças apresentadas neste cd, destaco as três primeiras. O Concerto para sax acaba num climax delicioso, com ar meio folclórico, que vai curiosamente se dissolvendo. Oratio II é um verdadeiro transe, cujo uso da fita magnética parece brincar com um clichê típico de música de meditação (obviamente, propiciando tudo menos relaxamento), e Les Éclat de l’Abîme impessiona na versatilidade que dá para o conjunto sax-fita magnética (sobretudo o fantástico início).

Boa audição

Călin Ioachimescu (1949)

Around the Sound (Radio Romania, 1995)

01 – Concerto for saxophone and orchestra (1994)
Daniel Kientzy, sax
Romanian National Radio Orchestra
Horia Andreescu, conductor

02 – Oratio II (1991), for winds, percussion, tape and live electronic system
Omnia Ensemble
Marin Soare, conductor

03 – Les éclats de l’Abîme (1995), for contrabass saxophone and tape
Daniel Kientzy, sax

04 – Palindrome 7 (1992), for clarinet, bassoon, violin, cello, guitar, piano-synt
Archaeus Ensemble
Liviu Danceanu, conductor

05 – Tempo 80 (1979), for orchestra
Romanian National Radio Orchestra
Ludovics Bàcs, conductor

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PS: uma parte boa de postar essas coisas é que a gente dá mais uma pesquisada e descobre que finalmente está mais fácil ter acesso a essa música. Recentemente foram postados alguns vídeos no Youtube, que seguem abaixo para quem se interessar:

Concerto para sax e orquestra (parte 1)

Concerto para sax e orquestra (parte 2)

Concerto para cello e orquestra (parte 1)

Concerto para cello e orquestra (parte 2)

Musique Spectrale

Celliphonia

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Claude Vivier (1948-83) – Anthology of Canadian Music 36

Faz algum tempo que queria postar obras do compositor canadense Claude Vivier, mas, quando decidi fazê-lo, notei que meus arquivos tinham baixa qualidade e estavam bem desorganizados. Foi quando achei esta caixa com quatro cds cobrindo o período criativo do autor (que não foi muito extenso, dada sua morte precoce). Algumas das minhas peças favoritas, como Orion, não estão aqui e vão ter que esperar por um novo post, mas dá para se ter uma boa noção da linguagem do autor, enquanto nos deliciamos com grandes peças, como Siddharta e Lonely Child. Para mim, é bem verdade, há uma certa dificuldade em apreciar grande parte da sua obra, que foi direcionada para o canto (coisa que não suporto bem), mas mesmo com a soprano, uma peça como Lonely Child dá arrepios na sua aparente simplicidade, em seu ar sacro e direto.

Enfim, só para deixar claros alguns pontos biográficos, Vivier nasceu em 1948 de pais desconhecidos. Foi adotado quando tinha três anos. Teve uma formação religiosa bastante intensa, mas se dirigiu cedo para a música. Suas primeiras peças importantes datam de 1968, Quarteto de cordas e Prolifération (esta terminada só no ano seguinte). Sua música vai se mudando de estilo com o passar do tempo, sobretudo com os anos de estudos com Stockhausen (1973-74) e após sua viagem para o Japão e para Bali (1976-77). E neste momento que sua obra alcança uma linguagem muito pessoal e melodiosa, ainda que próxima da música espectral francesa e cheia de referências orientais e ritualísticas. Tristemente, poucos anos depois, em 1983, ao 34 anos de idade, o compositor morreria assassinado, tendo escrito até aquele momento 48 peças.

Boa diversão!

CLAUDE VIVIER (1948-1983)

Anthology of Canadian Music, vol. 36

CD 1
01 Documentário sobre Claude Vivier preparado e lido por Maryse Reicher, jornalista (em francês)
02 Chants (1973) 21:55

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CD 2
01 Proliferation (1968-69) 14:40
02 Pianoforte (1975) 9:10
03 Hymnen an die Nacht (1975) 5:30
04 Piece pour flute et piano (1975) 5:15
05 Piece pour violoncelle et piano (1975) 8:30
06 Siddhartha (1976) 27:05

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CD 3
01 Lettura di Dante (1974) 25:55
02 Pulau Dewata (1977) 11:00
03 Zipangu (1980) 15:40
04 Lonely Child (1980) 19:05

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CD 4
01 Shiraz (1977) 12:55
02 Paramirabo (1978) 14:30
03 Cinq chansons pour percussions (1980) 19:40
04 Prologue pour un Marco Polo (1981) 24:20

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Michel Ducharne, barítono (CD 4, faixa 4)
Yves Saint-Armant, baixo (CD 4, faixa 4)
Claude Lamothe, violoncelo (CD 2, faixa 5; CD 4, faixa 2)
Lorraine Vaillancourt, regente (CD 1, faixa 2; CD 4, faixa 4)
Pierre Beluse, regnte (CD 3, faixa 2)
Serge Garant, regente (CD 3, faixas 1 e 4)
Walter Boudreau, regente (CD 2, faixa 6)
Yuli Turovsky, regente (CD 3, faixa 3)
Lise Daoust, flauta (CD 2, faixa 4; CD 4, faixa 2)
Marie Laferriere, mezzo-soprano (CD 4, faixa 4)
Jacques Lavallee, narrador (CD 4, faixa 4)
Jean Laurendeau, ondes martenot (CD 2, faixa 1)
Marie-Danielle Parent, soprano (CD 1, faixa 2; CD 3, faixa 4)
Gail Desmarais, voz (CD 1, faixa 2)
Jocelyne Fleury Coutu, voz (CD 1, faixa 2)
Christine Lemelin, voz (CD 1, faixa 2)
Diane Eberhard Bergstrom, voz (CD 1, faixa 2)
Helene Marchand (CD 1, faixa 2)
Madeleine Jalbert (CD 1, faixa 2)
David Kent, percussão (CD 4, faixa 3)
Serge Laflamme, percussão (CD 2, faixa 1)
Jean-Eudes Vaillancourt, piano (CD 2, faixa 3)
Louis-Philippe Pelletier, piano (CD 2, faixas 1, 2, 4 e 5; CD 4, faixas 1 e 2)
Lorraine Vaillancourt, soprano (CD 2, faixa 3; CD 3, faixa 1; CD 4, faixa 4)
David Doane, tenor (CD 4, faixa 4)
Denise Lupien, violino (CD 4, faixa 2)

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Daniel Kientzy interpreta Horia Şurianu

Pretendia postar algo diferente antes de voltar ao sax e aos romenos, mas o que realmente queria postar vai me demandar um pouco mais de tempo para organizar. Enquanto isso, vamos ao sax e aos romenos. Aqui está uma de minhas peças favoritas, o Concerto para saxofones e orquestra de Horia Şurianu, acompanhado por uma peça de câmara, Esquisse pour un Clair-Obscur (algo como Esboço para um Claro-Escuro).

Horia Şurianu nasceu em 1952, em Timișoara (Romênia), mas vive na França desde 1983 (naturalizou-se francês). É ligado à música espectral de uma maneira bem óbvia, como vocês poderão notar pelas duas obras aqui apresentadas. Sua obra, no entanto, é muito difícil de ser encontrada. Mesmo com enormes esforços, não tenho mais do que seis peças dele.

O Concerto para saxofones (sopranino e tenor) é uma obra muito enérgica, rítmica, pulsante, com dois movimentos rápidos entremeados por um central bem introspectivo. Apesar da linguagem moderna, é obra extremamente acessível pelo seu ânimo caloroso.

Esquisse pour un clair-obscur
foi composto para saxofone soprano e um conjunto instrumental formado por flauta, clarinete, violino, violoncelo e piano. Embora não seja uma obra hermética, já não tem aquela pulsação que torna o concerto tão acessível. É obra mais introspectiva no todo, um pouco mais áspera, mas possui, curiosamente, uma delicadeza estranha que me agrada muito.

Boa audição!

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Horia Şurianu (1952- )

01 Concerto para saxofones e orquestra

02 Esquisse pour un clair-obscur, para saxofone e conjunto de câmara

Daniel Kientzy, saxofones
Orchestre de Chambre de la Radio Nationale de Roumanie (faixa 1)
Neil Thomson, regente (faixa 1)
Ensemble Archaeus (faixa 2)
Liviu Danceanu, regente (faixa 2)

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PS: o cd pode ser encontrado na Amazon francesa.

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