Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Piano Concertos – Anna Vinnitskaya, Kremerata Baltica

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Novo link para postagem de 2015… hoje acordei com vontade de ouvir Shostakovich !!!

Se ainda fosse vivo Shostakovich estaria completando 109 anos de idade neste dia 25 de setembro. Esta postagem é uma modesta homenagem a este incrivel compositor, que viveu intensamente século XX.

Esse CD que ora vos trago é bem recente, foi lançado agora no final de agosto e traz excelentes interpretações dos Concertos para Piano de Shostakovich. A jovem pianista russa Anna Vinnitskaya dá um show, acompanhada pela extraordinária Kremerata Baltica. Em outras palavras, trata-se de um baita CD.

Sem mais,

01 Piano Concerto No. 1 in C Minor, Op. 35 I. Allegretto
02 Piano Concerto No. 1 in C Minor, Op. 35 II. Lento
03 Piano Concerto No. 1 in C Minor, Op. 35 III. Moderato
04 Piano Concerto No. 1 in C Minor, Op. 35 IV. Allegro con brio
05 Piano Concerto No. 2 in F Major, Op. 102 I. Allegro
06 Piano Concerto No. 2 in F Major, Op. 102 II. Andante
07 Piano Concerto No. 2 in F Major, Op. 102 III. Allegro
08 Concertino for Two Pianos in A Minor, Op. 94
09 Tarantella for Two Pianos

Anna Vinnitskaya
Kremerata Baltica

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Dmitri Shostakovich (1905-1975) – Violin Concertos nº 1 & 2 – Zimmermann, Gilbert, NDR Elbphilharmonie Orchester

51SZoT+jv9L._SS500Neste CD que ora vos trago temos um compositor russo interpretado por um violinista alemão, acompanhado por uma orquestra alemã regida por um descendente por parte de pai de indígenas norte americanos e mãe japonesa. Como diria o ingênuo Robin do saudoso seriado dos anos 60 do Batman, santa salada de frutas, Batman … !!! Mas em verdade, em verdade, eu apenas vos dou um adjetivo para este CD: IM-PER-DÍ-VEL !!! E por que ainda não baixastes, cara pálida? Com certeza esta é uma das melhores gravações que já ouvi destes concertos. David Oistrakh e o próprio Shostakovich iriam se sentir bem satisfeitos quando ouvissem este CD.
Conheço Frank Peter Zimmermann há muito tempo, desde os anos 90, quando tive a oportunidade de ouvir seu Tchaikovsky, ao lado de Lorin Maazel ou Kurt Masur, não tenho certeza. Trata-se de um músico completo, experiente, apesar de jovem, e que já encarou todo o principal repertório do violino, desde o barroco até música contemporânea do século XX. Alan Gilbert também me é bem conhecido, tenho já há alguns anos acompanhado sua carreira frente a New York Philharmonic Orchestra, onde realiza um estupendo trabalho.
Então, senhores, baixem este CD, sentem-se em suas melhores poltronas e ouçam este petardo. Não vai sobrar pedra sobre pedra. Zimmermann é um violinista muito intenso, extrai do seu violino um som vibrante, com muita energia.

P.S. Uma curiosidade: Zimmermann nasceu quase junto comigo, ele é do dia 27 de fevereiro de 1965 e eu nasci no dia anterior, do mesmo ano. Coincidências …

01. I. Nocturne Adagio
02. Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77 II. Scherzo Allegro non troppo
03. Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77 III. Passacaglia Andante
04. IV. Burlesca Allegro con brio
05. Violin Concerto No. 2 in C-Sharp Minor, Op. 129 I. Moderato
06. violin Concerto No. 2 in C-Sharp Minor, Op. 129 II. Adagio
07. Violin Concerto No. 2 in C-Sharp Minor, Op. 129 III. Adagio – Allegro

Frank Peter Zimmermann – Violin
NDR Elbphilharmonie Orchester
Alan Gilbert – Conductor

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PICEDITOR-SMH

Frank Peter Zimmermann literalmente comendo seu Stradivarius …

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Complete Symphonies – Kirill Kondrashin

front
Há exatamente 100 anos atrás, no dia 7 de novembro de 1917 do calendário gregoriano, e 25 de outubro do calendário juliano, soldados armados, sob ordens do Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado, tomavam pontos chaves da cidade que, até Fevereiro daquele ano, fora símbolo de opulência da autocracia czarista. Era um golpe que se realizava? Um banho de sangue? Um complô?

UM BREVE RESUMO DA REVOLUÇÃO: DE 1905 A 1917*

Do ponto de vista econômico, em 1905, a Rússia era um país majoritariamente agrário, mas portador de um importante setor industrial financiado pelo capital estrangeiro e de grandes pólos urbanos industriais como São Petersburgo e Moscou. Cerca de 80% da população vivia no campo e praticava uma agricultura rudimentar sob um regime de semi-servidão e em situação de miséria. Nas cidades, os operários tinham jornadas de trabalho de até 15 horas e baixos salários. No campo político, todo o poder se concentrava nas mãos do czar, apoiado na nobreza feudal.

Em janeiro de 1905, uma multidão liderada pelo padre Gueórgui Gapon se dirigiu ao Palácio de Inverno de São Petersburgo, residência do czar, reivindicando melhores condições de vida e trabalho. As massas foram recebidas a tiros. O massacre entrou para a história como o “Domingo Sangrento” e desencadeou a Revolução Russa de 1905. Este episódio é bem retratado por um dos filmes mais importantes da história do cinema, O encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein, que traz uma imagem do período, mostrando a rebelião dos marinheiros do navio de guerra Potemkin e o apoio da população.

Foi nesses levantes que surgiram os sovietes (conselhos de trabalhadores), instrumentos de auto-organização compostos por representantes eleitos nos locais de trabalho. Sua finalidade era organizar as greves e a resistência, mas, quando as atividades econômicas foram interrompidas pelas paralisações, os sovietes tiveram de assumir também funções de governo, cuidando da segurança pública e providenciando os serviços essenciais.

O czarismo conseguiu controlar as revoltas, dissolver os sovietes e se manter no poder. No entanto, esses eventos prepararam as Revoluções de 1917: a experiência dos sovietes ensinou às massas um modo de se organizar e as lutas obrigaram os grupos políticos, que atuavam nesses conselhos, a definirem suas estratégias.

Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário Juliano da época), trabalhadoras de fábricas de São Petersburgo saíram em greve, denunciando suas condições de trabalho, a fome e a guerra. As paralisações e os atos se propagaram, culminando, após uma semana, na derrubada do czarismo.

O poder político passou para as mãos do Governo Provisório, um governo liberal formado por uma coalizão de partidos socialistas e burgueses. Os bolcheviques se mantiveram de fora. Os sovietes de operários e soldados, os sovietes de camponeses, os comitês de fábricas, os comitês de soldados no front, todos os organismos e ferramentas organizativas que permitiram o combate à velha ordem passaram a exigir do novo governo o atendimento a suas reivindicações, entre as quais a saída da Primeira Guerra Mundial e a solução do problema agrário.

O livro-reportagem Dez dias que abalaram o mundo, do jornalista norte-americano John Reed, descreve esse momento: “A revolução já completava oito meses e tinha pouca coisa a mostrar… Enquanto isso, os soldados começaram a resolver a questão da paz por conta própria, simplesmente desertando; os camponeses incendiavam propriedades rurais e ocupavam latifúndios; os operários sabotavam e faziam greves”.

Os bolcheviques passaram a defender não apenas a transferência do poder para os proletários e camponeses pobres, mas também um programa socialista para a Rússia. Em 7 de novembro (25 de outubro), tendo obtido a maioria nos sovietes das principais cidades, os líderes bolcheviques decidiram que havia chegado a hora da tomada do poder. O Palácio de Inverno de São Petersburgo, sede do Governo, foi ocupado pelos insurgentes. Concretizava-se a Revolução de Outubro.

ALGUMAS QUESTÕES POLÊMICAS SOBRE OUTUBRO

Quem assistiu o Fantástico no domingo do dia 29 de outubro viu uma pequena reportagem sobre a Revolução Russa. Lá, o apresentador diz que a Revolução de Fevereiro foi “apartidária”. Tirando o fato de que este termo é anacrônico para designar o acontecimento, há nesta afirmação uma imprecisão: a revolução de fevereiro foi inesperada, isto é, não foi planejada, portanto, foi uma insurreição sem planejamento prévio de um partido. Mas de forma alguma ela foi feita sem nenhuma consciência política das massas de trabalhadores operários, soldados e camponeses. Ela se deu graças ao trabalho, de anos a fio, realizado pelos partidos socialistas desde a fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) em 1898. Em 1903, em seu Segundo Congresso, uma divergência sobre a forma de organização dos militantes dividiu o POSDR entre a maioria dos delegados do congresso (bolcheviques) e a minoria (mencheviques). Apenas nesse momento os bolcheviques foram maioria. Essa cisão, na prática, formaria dois partidos diferentes, que atuaram ambos em prol de uma revolução, mas com táticas diferentes. Os mencheviques se tornariam muito mais numerosos, devido a própria concepção de partido, que era mais aberto a dissidências internas e menos disciplinado, focado mais na adesão de novos membros do que na formação de líderes disciplinados.

Lênin, líder dos bolcheviques, tinha uma concepção de organização que basicamente visava a formação de militantes como quadros (líderes) políticos, tanto entre intelectuais quanto entre operários, sendo estes centralizados em torno daquilo que o Partido deliberasse em conjunto. Tal concepção se devia, em parte, do próprio contexto em que a Rússia vivia, o de uma autocracia que perseguia, prendia e censurava os dissidentes políticos. Para lidar com essa situação, era preciso formar militantes extremamente organizados, disciplinados e bem formados na teoria e na prática revolucionária. Numa semelhança e, ao mesmo tempo, numa oposição à concepção de políticos profissionais do sociólogo burguês burguês Max Weber em sua conferência “A Política Como Vocação”, Lênin idealizava a formação de revolucionários profissionais, isto é, revolucionários por vocação. Foi essa concepção organizativa que permitiu com que os bolcheviques formassem diversos líderes políticos entre os próprios trabalhadores industriais de São Petersburgo e Moscou.

Em fevereiro de 1917, antes da revolução, Lênin, Zinoviev, Kameniev e outros líderes dos bolcheviques estavam todos exilados ou presos. Trótski, que ainda não aderira aos bolcheviques, mas que fora líder da Revolução de 1905, estava exilado nos EUA. Os membros do Comitê Central do Partido Bolchevique, que estavam na Rússia no momento da Revolução, não souberam lidar com o momento, que fora totalmente inesperado; foi a base operária, extremamente “trabalhada na propaganda bolchevique” (segundo um relatório policial da época), que dirigiu a Revolução de Fevereiro. O programa político, ou seja, as direções que a Revolução deveria tomar dali para frente, seria objeto de disputa dentro e fora do Partido até outubro, tendo seu ponto de virada nas Teses de Abril que Lênin elabora em seu retorno à Rússia.

A diferença entre Fevereiro e Outubro são, então, basicamente duas: a tomada do poder e o planejamento da revolução; em fevereiro a revolução se realiza sem um programa político definido e nem um planejamento prévio, e, por isso, não toma o poder, mas apenas derruba o antigo; ao contrário, outubro toma o poder político com um programa político definido (todo poder aos sovietes, paz imediata, terra para os camponeses, controle das fábricas pelos operários, etc.), mas é deliberadamente planejada, não é espontânea.

A Revolução de Outubro é realizada sob a direção dos bolcheviques. Após meses pressionando os mencheviques e social revolucionários do Governo Provisório a abandonar a aliança com a burguesia e tomar o poder sozinhos (assim poderiam conseguir coisas a que a burguesia se opunha, como a paz imediata), as massas se voltam para os bolcheviques. Estes, ao contrário do que acusam os detratores, não tomam o poder apenas pelo Partido, mas pelos sovietes. Se fosse para tomar o poder com uma minoria, poderiam tê-lo feito em julho, quando ainda não tinham a maioria de delegados nos sovietes, mas tinham uma imensa massa e operários e soldados que os empurravam para tomar o poder. Somente após o fracasso do golpe que Kerensky trama com o general Kornilov em agosto, as massas passam a desacreditar totalmente no Governo Provisório e se voltam aos bolcheviques. A partir daí eles se tornam maioria nos conselhos. A partir desse momento, Lênin, avaliando as condições favoráveis, pressiona o Partido com toda a força para que tome o poder. É criado o Comitê Militar Revolucionário por iniciativa dos próprios mencheviques. Trótski se torna presidente do Soviete de Petrogrado e já tendo aderido aos bolcheviques, vai elaborar no Comitê Militar Revolucionário, junto dos operários e soldados, além de outros bolcheviques, os planos para a insurreição armada em Petrogrado.

Em todos os Congressos de Sovietes pela Rússia, ocorridos em Outubro, antes da revolução, a resolução pelo poder dos sovietes é aprovada. Ou seja, em toda a Rússia a questão da tomada do poder por um órgão revolucionário das massas é colocado publicamente e é aprovada por todos. Mesmo com todos os jornais burgueses acusando diariamente e incessantemente os bolcheviques de espiões alemães e outras calúnias do tipo. Mesmo sendo um partido relativamente pequeno se comparado aos outros. É interessante notar, assim como notaram Marx e Engels no Manifesto Comunista, que a classe trabalhadora, por ser a única classe revolucionária, é a única que pode declarar abertamente seus objetivos: a tomada do poder pela maioria, a socialização dos meios de produção, trabalho obrigatório a todos, etc. A burguesia, desde que subiu ao poder, se viu obrigada a esconder seus interesses sob declarações e palavras de ordem vagas, como, por exemplo, hoje ela tenta enfiar uma reforma da previdência goela abaixo sob o mote de “ser melhor para o trabalhador”, mal tem coragem de mascarar direito a mentira. Na Revolução Russa não foi diferente, sob o signo de “guerra pela pátria e pela Revolução”, os burgueses e os “socialistas” do Governo Provisório mantiveram a guerra a serviço da Entente sob negociações secretas, até que uma declaração de um deles foi vazada, o que deu novo impulso às massas em direção do que viria a ocorrer em outubro.

As massas aderem à revolução pois os sovietes assim deliberam. A maior parte daqueles que seguiram os bolcheviques na Revolução de Outubro o fizeram em conformação com o que fora deliberado pela maioria, muitas vezes quase unânime, dos delegados nos sovietes. Embora fossem em grande número os operários industriais da cidade que seguiriam os bolcheviques independentemente dos sovietes, a grande maioria da população da Rússia, que são os camponeses, soldados ou não, se guiam politicamente não pelo Partido, mas, pelos sovietes, onde, a partir de setembro de 1917, os bolcheviques serão maioria, e portanto, deliberarão conforme a vontade desta.

É curioso notar que no dia da insurreição as ruas estavam calmas e vazias; diz um jornalista francês em Petrogrado que jamais se sentira tão bem protegido (TROTSKY, 1967, P. 897). Isso não significa que as massas não estavam presentes. Pelo contrário, três dias antes, dia 22 de outubro, os bolcheviques marcaram encontros públicos em Petrogrado que inundaram a cidade de gente. Esses meetings tinham o objetivo de medir o ânimo das massas pela Revolução, e tiveram imenso sucesso, levando milhares de pessoas para discutir política abertamente em espaços públicos cheios de jovens, mulheres com crianças de colo, idosos, soldados, marinheiros, entre todo tipo de gente. No dia da insurreição não havia necessidade de jogar milhares de pessoas às ruas, podendo isso causar tumultos e confrontos. Seguindo a resolução do Comitê Militar Revolucionário, apenas trabalhadores armados, os soldados e os marinheiros são mobilizados. Os pontos chave da cidade são ocupados quase sem nenhuma resistência, e na madrugada do dia 26, o Palácio de Inverno é tomado. Kerensky, o líder do Governo Provisório, foge. O novo poder soviético e seu programa revolucionário é declarado no Congresso dos Sovietes de toda a Rússia que acontecia no mesmo dia. Desapropriação das terras dos nobres e divisão igualitária entre os camponeses, controle das fábricas pelos operários, divulgação dos tratados secretos até aquela data e abolição da diplomacia secreta, etc.

Pela primeira vez na história, as massas tomavam em suas mãos o poder de decidir sobre o rumo de seu próprio destino, não mais deixado ao capricho das classes dominantes.

A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO NO SÉCULO XX

Talvez nenhum período da história tenha sido mais decisivo para os rumos da humanidade do que a primeira parte do século XX. Muito se fala das grandes guerras imperialistas (não dessa forma, obviamente), mas pouco falam das revoluções. Nos meses seguintes a Revolução de Outubro, três outras revoluções se seguiriam na Europa: A Revolução Húngara de 1918-1919, o Biênio Vermelho na Itália e a trágica Revolução Alemã, que, certamente, foi decisiva para os rumos da própria revolução na Rússia.

Assim como o capitalismo só pôde crescer e se desenvolver ao envolver o mundo todo numa rede que definiu a divisão internacional do trabalho e os papéis de cada país no estabelecimento da democracia liberal e a ditadura do capital, o socialismo só poderia sobreviver, segundo compreendiam Lênin e Trótski, se se expandisse ao resto do mundo, promovendo a democratização dos meios de produção e a radicalização da democracia política. Não de cima para baixo, por imposição, mas pela própria continuação do efeito em cadeia de uma revolução, e a organização, a nível internacional, dos trabalhadores. A Revolução Russa, apesar dos fracassos das outras revoluções, conseguiu sobreviver isolada, mas ao custo de sofrer uma transfiguração que arruinaria não só seu futuro, mas o futuro de outras revoluções pelo mundo nas décadas seguintes.

SHOSTAKOVICH E A UNIÃO SOVIÉTICA

Neste contexto contraditório é que se desenvolveu um dos maiores compositores do século XX, e certamente o maior compositor soviético, Dmitri Shostakovich.

Sua trajetória pessoal e artística exprime direta ou indiretamente os conflitos de uma revolução transfigurada. Sabemos que Shostakovich foi limitado pelos interesses da burocracia stalinista, mas a arte não necessariamente precisa ser livre para florescer. Ora, se assim fosse, como que a arte teria florescido com tanto vigor como a música no século XVIII floresceu na Europa, numa sociedade de corte extremamente regrada, onde os músicos eram serventes lacaios dos caprichos da nobreza em seu auge histórico? A liberdade é necessária para a arte burguesa, e Mozart, vivendo na transição dessas duas sociedades, a aristocrática para a burguesa, sentiu na pele a contradição entre uma e outra. Desejava compor e viver como um burguês, mas as condições políticas e sociais ainda não eram tais para que pudesse usufruir da liberdade burguesa, quem ainda ditava as regras eram os nobres. Beethoven, que vivendo alguns anos após Mozart, conseguiu usufruir dessa liberdade de criação como poucos.

Muito depois da morte de Mozart, a liberdade burguesa acabou por se tornar cada vez mais decadente, atingindo o auge do decadentismo na virada do século XIX para o XX. O músico, a partir dali, tinha liberdade de criar o que era demandado pelo mercado, e somente com muito esforço arranjaria algum tempo para criar algo que não fosse imposto pelo mercado musical da época. Hoje essa “liberdade” é mais sufocante do que nunca. Mas por que digo tudo isso?

O socialismo não visa acabar com a liberdade de criar, na verdade, ele visa expandi-la. A partir do momento em que o músico, o escritor, o poeta, o cineasta, etc. não precise mais se preocupar com suas necessidades básicas (comer, dormir, morar, etc.) pois o mínimo de trabalho já lhe proporcionará tudo isso, ele terá todo tempo livre do mundo para criar obras das mais variadas espécies. Não de forma desligada de sua realidade, mas, pelo contrário, em maior sintonia com a sociedade de que depende a para a qual contribui.

Infelizmente na União Soviética tal liberdade socialista não foi possível, tanto pelo ditames do regime, quanto pelas próprias dificuldades econômicas pelas quais passou em seu desenvolvimento isolado. Mas isso não impediu que Shostakovich criasse obras que marcaram compositores e plateias pelo mundo todo, apesar das dificuldades econômicas que encontrou nos momentos em que foi cerceado. Só a história de sua Sétima Sinfonia, “Leningrado”, já rende bons calafrios. Esse é um belo exemplo de como a música erudita conseguiu desempenhar um papel social e romper em alguma medida a barreira entre música erudita e popular. Se pensarmos também na Sinfonia No. 11, “O ano de 1905”, ouviremos várias referências a canções revolucionárias populares, como, por exemplo, a referência a “Tu caíste, como vítima, na luta!” no terceiro movimento, o Adagio.

A música de Shostakovich seria um bom exemplo daquilo que o italiano Antonio Gramsci chamou de “nacional popular”, isto é, uma música que estabelece uma identidade nacional e de classe. Infelizmente Shostakovich era um pouco nacionalista demais, mais do que era socialista, consequência das contradições a que estava submetido na União Soviética, mas tinha uma concepção de mundo em favor dos oprimidos, e, não à toa, por exemplo, faz várias referências ao sofrimento dos judeus, sendo o ápice dessa homenagem a Sinfonia Nº14, “Babi Yar”.

Em Shostakovich a melodia é central e age quase como uma fala, nela encontramos a paródia, o hino e o fúnebre. (ANDRADE, 2013) A paródia de seus inimigos, o hino à nação e à Revolução e o fúnebre em memória dos oprimidos. Encontramos a inventividade criativa de um vanguardista e o compositor popular das massas, sendo, nas duas ocasiões, extremamente apolíneo.

Trago a vocês as sinfonias completas deste grande compositor, regidas por Kirill Kondrashin. Embora Shostakovich não seja o maior modelo de compositor revolucionário engajado e revolucionário, é o resultado vivo das contradições e dos desafios da construção de um sonho. Sonho este que, apesar de passado cem anos de calúnias, mentiras e esquecimento proposital, não morreu, e hoje, mais do que nunca, se mostra como uma necessidade frente aos problemas de nosso tempo. Esta história, tanto do artista como da Revolução, deve ser lembrada e discutida, para que aprendamos com ela, superemos seus erros, e façamos que o impossível seja inevitável mais uma vez.

Referências:
* Retirado de http://www.usp.br/cinusp/
COUTINHO, Carlos Nelson (org.). O leitor de Gramsci. São Paulo: Civilização Brasileira, 2011.
ANDRADE, Mario. FRAGELLI, Pedro. Engajamento e sacrifício: o pensamento estético de Mário de Andrade. Rev. Inst. Estud. Bras. [online]. 2013, n.57, pp.83-110. http://www.scielo.br/pdf/rieb/n57/04.pdf
MARX, Karl. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998.
REED, John. Dez Dias Que Abalaram o Mundo. São Paulo: PENGUIN COMPANHIA, 2010.
TROTSKY, Leon. A História da Revolução Russa. Rio de Janeiro: Editora Saga, 1967.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Symphonies 1-15, Symphonic Poems, Cantata and violin concerto. Conducted by Kirill Kondrashin

CD1

Symphony No. 1 In F Minor, Op. 10
01 Allegretto. Allegro Non Troppo
02 Allegro
03 Lento
04 Allegro Molto

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

05 Symphony No. 2 In B Major, Op. 14 “To October” (Text By A. Bezymensky)

06 Symphony No. 3 For Orchestra And Choir In E Flat Major, Op. 20 “The First Of May’ (text by S. Kirsanov)

Russian State Choral Chapel
Alexander Yurlov, chorus master
Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD2

Symphony No. 4 In C Minor, Op. 43
01 Allegretto Poco Moderato
02 Moderato Con Moto
03 Largo

04 October, Symphonic Poem, Op. 131

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD3

Symphony No. 5 In D Minor, Op. 47
01 Moderato
02 Allegretto
03 Largo
04 Allegro Non Troppo

Symphony No. 6 In B Minor, Op. 54
05 Largo
06 Allegro
07 Presto

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD4

Symphony No. 7 In C Major, Op. 60 (“Leningrad”)
01 Allegretto
02 Moderato (Poco Allegretto)
03 Adagio
04 Allegro Non Troppo

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD5

Symphony No. 8 In C Minor, Op. 65
01 Adagio
02 Allegretto
03 Allegro Non Troppo
04 Largo
05 Allegretto

Moscow Philharmonics Symphony Orchestra

06 The Sun Shines On Our Motherland Cantata, Op. 90 (text by Ye. Dolmatovski)

Boys’ Choir Of The Moscow Choral College
Russian State Choral Chapel
Alexander Yurlov, chorus master
Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD6

Symphony No. 9 In E Flat Major, Op. 70
01 Allegro
02 Moderato
03 Presto
04 Largo
05 Allegretto

Yuri Nekludov, basoon
Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

Symphony No. 10 In E Minor, Op. 93
06 Moderato
07 Allegro
08 Allegretto
09 Andante. Allegro

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD7

Symphony No. 11 In G Minor “1905”, Op. 103
01 Дворцовоая площадь (Palace Square). Adagio
02 Девятое Января (January The Ninth). Adagio
03 Вечная память (Eternal Memory). Adagio
04 Набат (Tocsin). Allegro Non Troppo – Allegro – Adagio – Allegro

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD8

Symphony No. 12 In D Minor “1917”, Op. 112 (In Memory of V.I. Lenin)
01 Революционный Петроград. Revolutionary Petrograd. Moderato. Allegro
02 Разлив. Razliv (The Flood). Allegro. Adagio
03 “Аврора”. “Aurora”. L’istesso Tempo. Allegro
04 Заря человечества. The Dawn Of Humanity. L’istesso Tempo. Allegretto

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

05 The Execution Of Stepan Razin, Op. 119 (Yevgeni Yevtushenko)

Vitaly Gromadski, bass
Russian State Choral Chapel
Alexander Yurlov, chorus master
Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD9

Symphony No. 13 For Bass Soloist, Choir Of Basses, And Symphony Orchestra In B Flat Minor, Op. 113 (“Babi Yar”) (text by Yevgeni Yevtushenko)
01 Бабий Яр (Babiy Yar). Adagio
02 Юмор (Humour). Allegretto
03 В магазине (At The Store). Adagio
04 Страхи (Fears). Largo
05 Карьера (Progress). Allegretto

Artur Eizen, bass
Russian State Choral Chapel
Alexander Yurlov, chorus master
Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

CD 10

Symphony No. 14 For Soprano, Bass And Chamber Orchestra, Op. 135
01 De Profundis. Adagio
02 Malagueña. Allegretto
03 La Loreley. Allegro Molto. Adagio
04 Le Suicidé. Adagio
05 Les Attentives (On Watch). Allegretto
06 Les Attentives II (Madam, Look). Adagio
07 Ala Santé (In Prison). Adagio
08 Réponse Des Cosaques Zaporogues Au Sultan De Constantinople. Allegro
09 O Delvig, Delvig! Andante
10 Des Tod Des Dichters (The Death Of The Poet). Largo
11 Scheußtück (Conclusion). Moderato

Yevgeni Nesterenko, bass
Yevgenia Tselovalnik, soprano
Ensemble Of Soloists Of Moscow Philharmonic Academic Symphony Orchestra
text in 1 and 2 by Federico Garcia Lorca
text from 3 to 8 by Guillaume Apollinaire
text in 9 by Wilhelm Küchelbecker
text in 10 and 11 by Rainer Maria Rilke

CD11

Symphony No. 15 In A Major, Op. 141
01 Allegretto
02 Adagio
03 Allegretto
04 Adagio. Allegretto

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra

Concerto For Violin And Orchestra No. 2 In C Sharp Minor, Op. 129
05 Moderato
06 Adagio
07 Adagio. Allegro

Moscow Philharmonic Symphony Orchestra
David Oistrakh, violin

CDs 1-4
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CDs 5-8
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CDs 9-11
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"A historia de uma revolução é para nós, antes de tudo, a história da entrada violenta das massas no domínio de decisão de seu próprio destino" - L. Trótski

“A historia de uma revolução é para nós, antes de tudo, a história da entrada violenta das massas no domínio de decisão de seu próprio destino”
– L. Trótski

Luke

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Symphony No. 9 / Piano Concerto No. 1 / 2 Choruses After A. Davidenko

ABSOLUTAMENTE IM-PER-DÍ-VEL !!!

Hoje, 25 de setembro de 2017, 111 anos de nascimento de Shostakovich!

Este CD é inteiramente focado na face mais leve de Shostakovich. A neoclássica e sarcástica Sinfonia Nº 9 — tão odiada por Stalin, que sentiu-se traído por ela — e o alegre e jovem Concerto para piano e trompete estão ao lado da música escrita para a comédia cinematográfica As Aventuras de Korzinkina e de dois corais. A breve suite de 9 minutos de música do filme de 1940 deixa um gosto de quero mais e nos dois corais Op. 124, contribuição de Shostakovich para uma cantata escrita com outros compositores celebrando o 10º aniversário da Revolução, há ecos claros da Sinfonia Nº 13 e de A Execução de Stepan Razin. Claro que este grande CD tem seus pontos altos na Sinfonia e no Concerto.

Divirtam-se!

Shostakovich: Symphony No. 9 / Piano Concerto No. 1 / 2 Choruses After A. Davidenko

Symphony No. 9, Op. 70 in E flat major – in Es-Dur – en mi bémol majeur
1 I Allegro 5:17
2 II Moderato 7:57
3 III Presto – 2:54
4 IV Largo – 3:56
5 V Allegretto 6:26
Valeri Popov bassoon

Two Choruses after A. Davidenko, Op. 124* for chorus and orchestra
6 At ten versts from the capital 4:20
7 The street is in turmoil 4:07

Concerto No. 1, Op. 35 for Piano, Trumpet and String Orchestra in C minor – in c-Moll – en ut mineur
8 I Allegro moderato 5:54
9 II Lento 7:28
10 III Moderato – 1:25
11 IV Allegro brio 7:12
Tatiana Polyanskaya piano
Vladimir Goncharov trumpet

The Adventures of Korzinkina, Op. 59 — Suite from music to the film
12 1 Overture 0:33
13 2 March 2:01
14 3 The Chase 2:43
15 4 Music at the restaurant 2:13
16 5 Finale (Yanya)* 1:37
Tatiana Polyanskaya piano
Elena Adamovich piano

Total: 66:28

Russian State Symphonic Cappella
Russian State Symphony Orchestra
Valeri Polyansky

Recorded in: Grand Hall of Moscow Conservatory – June 2003

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Valeri Polyansky não tem nenhuma calma, que bom!

Valeri Polyansky não tem nenhuma calma, que bom!

PQP

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Shostakovich (1906-1975): Concerto para piano e trompete, Concertino para 2 pianos, Quinteto para piano e cordas

IM-PER-DÌ-VEL !!!

Hoje, 25 de setembro de 2017, 111 anos de nascimento de Shostakovich!

Este é dos discos que considero obrigatórios. Grande música, grandes intérpretes. Inicia com o belo e jocoso primeiro concerto para piano; segue com o raro e simpático concertino para dois pianos e termina com o espetacular e lírico quinteto para piano. Ou seja, duas peças muito famosas de Shosta entremeadas por outra nem tanto. O quinteto é uma obra da minha mais absoluta preferência, com seus movimentos muito contrastantes, oscilando entre o lirismo, a tristeza e a alegria. (Jamais esquecerei a primeira vez que vi este quinteto ao vivo. Quando terminou o Intermezzo, a primeira violinista estava inteiramente lavada em lágrimas).

Concerto For Piano, Trumpet And Strings In C Minor Op. 35
1. I. Allegro Moderato 5:56
2. II. Lento 7:25
3. III. Moderato 1:28
4. IV. Allegro Con Brio 6:56
Martha Argerich, piano
Sergei Nakariakov, trompete
Orchestra della Svizzera Italiana
Alexander Verdernikov, regência

Concertino For 2 Pianos In A Minor Op.94
5. Adagio – Allegretto – Adagio – Allegro – Adagio – Allegretto 10:05
Martha Argerich, piano
Lilya Zilberstein, piano

Quintet For Piano And Strings In G Minor Op. 57
6. Prelude: Lento 4:25
7. Fugue: Adagio 11:29
8. Scherzo: Allegretto 3:20
9. Intermezzo: Lento 7:34
10. Finale: Allegretto 7:45
Martha Argerich, piano
Renaud Capuçon, violino
Alissa Margulis, violino
Lyda Chen, viola
Mischa Maisky, violoncelo

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Shostakovich e sua turma na estreia do fantástico Quintetão

Shostakovich e sua turma na estreia do fantástico Quintetão

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nos. 2 & 11

A maioria de minhas sinfonias são monumentos funerários. Gente demais, entre nós, morreu não se sabe onde. E ninguém sabe onde foram enterrados. Aconteceu a uma porção de amigos meus. Onde se pode erguer um monumento a eles? Somente a música pode fazê-lo. Estou disposto a dedicar uma obra a cada uma das vítimas. Infelizmente, é impossível. Dedico-lhes, então, toda a minha música.

DMITRI SHOSTAKOVICH

Dentre as sinfonias de Shostakovich, creio que três são as menos populares e raramente são interpretadas. São elas a 2ª, 3ª e 12ª. A 11ª também é pouco tocada, mas…

(A gravação de Gergiev não está entre as campeãs, mas é boa).

Sinfonia Nº 11, Op. 103 – O Ano de 1905 (1957)

Esta sinfonia talvez seja a maior obra programática já composta. Há grandes exemplos de músicas descritivas tais como As Quatro Estações de Vivaldi, a Sinfonia Pastoral de Beethoven, a Abertura 1812 de Tchaikovski, Quadros de uma Exposição de Mussorgski e tantas outras, mas nenhuma delas liga-se tão completa e perfeitamente ao fato descrito como a décima primeira sinfonia de Shostakovich. É minha opinião.

Alguns compositores que assumiram o papel de criadores de “coisas belas”, veem sua tarefa como a produção de obras tão agradáveis quanto o possível. Camille Saint-Saëns dizia que o artista “que não se sente feliz com a elegância, com um perfeito equilíbrio de cores ou com uma bela sucessão de harmonias não entende a arte”. Outra atitude é a tomada por Shostakovich, que encara vida e arte como se fosse uma coisa só, que vê a criação artística como um ato muito mais amplo e que inclui a possibilidade do artista expressar — ou procurar expressar — a verdade tal como ele a vê. Esta abordagem foi adotada por muitos escritores, pintores e músicos russos do século XIX e, para Shostakovich, a postura realista de seu ídolo Mussorgsky foi decisiva. A décima primeira sinfonia de Shostakovich tem feições inteiramente mussorgkianas e foi estreada em 1957, ano de muitas glórias além do quadragésimo aniversário da Revolução de Outubro. Foi o ano em que nasci, para vocês terem uma ideia de sua importância. Contudo, ela se refere a eventos ocorridos antes, no dia 9 de janeiro de 1905, um domingo, quando tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo. O protesto, feito após a missa e com a presença de muitas crianças, tinha a intenção de entregar uma petição — sim, um papel — ao czar, solicitando coisas como redução do horário de trabalho para oito horas diárias, assistência médica, melhor tratamento, liberdade de religião, etc. A resposta foi dada pela artilharia, que matou mais de cem trabalhadores e feriu outros trezentos.

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O primeiro movimento descreve a caminhada dos trabalhadores até o Palácio de Inverno e a atmosfera soturna da praça em frente, coberta de neve. O tema dos trabalhadores aparecerá nos movimentos seguintes, porém, aqui, a música sugere uma calma opressiva.

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O segundo movimento mostra a multidão abordar o Palácio para entregar a petição ao czar, mas este encontra-se ausente e as tropas começam a atirar. Shostakovich tira o que pode da orquestra num dos mais barulhentos movimentos sinfônicos que conheço.

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O terceiro movimento, de caráter fúnebre, é baseado na belíssima marcha de origem polonesa Vocês caíram como mártires (Vy zhertvoyu pali) que foi cantada por Lênin e seus companheiros no exílio, quando souberam do acontecido em 9 de janeiro.

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O final – utilizando um bordão da época – é a promessa da vitória final do socialismo e um aviso de que aquilo não ficaria sem punição.

Symphony No. 2:
1 I. Largo – Crochet – Poco Meno Mosso – Allegro Molto 7:18
2 II. Crotchet – Meno Mosso – Moderato 5:26
3 III. Chorus – “To October” 6:40

Symphony No. 11:
4 I. The Palace Square – Adagio 15:10
5 II. The 9th Of January – Allegro 17:17
6 III. In Memoriam – Adagio 10:29
7 IV. Tocsin – Allegro Non Troppo 13:42

Mariinsky Orchestra
Valery Gergiev

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Shostakovich: uma sinfonia estarrecedora

Shostakovich: uma sinfonia estarrecedora

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 4 em Dó menor, Op. 43

A Sinfonia n.º 4 de Dmitri Shostakovich (Op. 43) foi composta entre setembro de 1935 e maio de 1936. É uma sinfonia decididamente mahleriana. Shostakovich estudara Mahler por vários anos e aqui estão ecos monumentais destes estudos. Sim, monumentais. Uma orquestra imensa, uma música com grandes contrastes e um tratamento de câmara em muitos episódios rarefeitos: Mahler. O maior mérito desta sinfonia é seu poderoso primeiro movimento, que é transformação constante de dois temas principais em que o compositor austríaco é trazido para as marchas de outubro, porém, minha preferência vai para o também mahleriano scherzo central. Ali, Shostakovich realiza uma curiosa mistura entre o tema introdutório da quinta sinfonia de Beethoven e o desenvolve como se fosse a sinfonia “Ressurreição”, Nº 2, de Mahler. Uma alegria para quem gosta de apontar estes diálogos. O final é um “sanduíche”. O bizarro tema ritmado central é envolvido por dois scherzi algo agressivos e ainda por uma música de réquiem. As explicações são muitas e aqui o referencial político parece ser mesmo o mais correto para quem, como Shostakovich, considerava que a URSS viera das mortes da revolução de outubro e estava se dirigindo para as mortes da próxima guerra.

Dmtri Shostakovich (1906-1975) – Sinfonia No.4 em Dó menor, Op.43
01. Allegro poco moderato
02. Presto
03. Moderato con moto
04. Largo
05. Allegro

Philadelphia Orchestra
Myung-Whun Chung, regente

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Shostakovich lendo o Pravda

Shostakovich lendo o Pravda

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Martha Argerich & Friends – Live from Lugano Festival – 2002-2004 – Chamber Music

Box FrontSe existe uma unanimidade aqui entre nós do PQPBach é a adoração ao mito Martha Argerich. Somos apaixonados por ela. Qualquer gravação sua é adquirida sem qualquer tipo de dúvida, pois sabemos que se trata de coisa boa.
Martha dirige este Festival de Lugano já há bastante tempo. E quase que como um relógio suíço, durante vários anos são lançados CDs gravados durante as apresentações, com a divina Martha desfilando seu talento junto com dezenas de outros músicos, muitos deles tendo a primeira oportunidade de tocar ao seu lado. Neste primeiro pacote teremos apresentações realizadas durante os anos de 2002 a 2004. Temos Tchaikovsky, Dvorák, Shostakovich, Schumann, Prokofiev, entre outros.

CD 1

01. Prokofiev – Symphony No. 1 in D major (‘Classical’), Op. 25 I. Allegro
02. Symphony No. 1 in D major (‘Classical’), Op. 25 II. Larghetto
03. Symphony No. 1 in D major (‘Classical’), Op. 25 III. Gavotte Non troppo all
04. Symphony No. 1 in D major (‘Classical’), Op. 25 IV. Finale Molto vivace

Martha Argerich & Yefim Bronfman – Pianos

05. Tchaikovsky – Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a I. Ouverture miniature
06. Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a II. Danses caractéristiques. Marc
07. Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a II. Danses caractéristiques. Dans
08. Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a II. Danses caractéristiques. Dans
09. Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a II. Danses caractéristiques. Dans
10. Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a II. Danses caractéristiques. Dans
11. Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a II. Danses caractéristiques. Dans
12. Nutcracker, suite from the ballet, Op. 71a III. Valse des fleurs

Martha Argerich & Mirabela Dina

13. Shostakovich – Piano Trio No. 2 in E minor, Op. 67 I. Andante – Moderato
14. Piano Trio No. 2 in E minor, Op. 67 II. Allegro non troppo
15. Piano Trio No. 2 in E minor, Op. 67 III. Largo
16. Piano Trio No. 2 in E minor, Op. 67 IV. Allegretto

Martha Argerich – Piano
Maxim Vengerov – Violin
Gautier Capuçon – Cello

CD 2

01. Brahms – Sonata for Violin & Piano No. 3 in D minor, Op. 108- I. Allegro
02. Sonata for Violin & Piano No. 3 in D minor, Op. 108- II. Adagio
03. Sonata for Violin & Piano No. 3 in D minor, Op. 108- III. Un poco presto e co
04. Sonata for Violin & Piano No. 3 in D minor, Op. 108- IV. Presto agitato

Lylia Zilberstein – Piano
Maxim Vengerov – Violin

05. Schubert – Piano Trio in B flat major, D. 898 (Op. 99)- I. Allegro moderato
06. Piano Trio in B flat major, D. 898 (Op. 99)- II. Andante un poco mosso
07. Piano Trio in B flat major, D. 898 (Op. 99)- III. Scherzo- Allegro
08. Piano Trio in B flat major, D. 898 (Op. 99)- IV. Rondo- Allegro vivace

Yefim Bronfman – Piano
Renaud Capuçon – Violin
Gautier Capuçon – Cello

CD 3

01. Schumann – Piano Quintet in E flat major, Op. 44 I. Allegro brillante
02. Piano Quintet in E flat major, Op. 44 II. In modo d’una marcia – Un poco lar
03. Piano Quintet in E flat major, Op. 44 III. Scherzo Molto vivace
04. Piano Quintet in E flat major, Op. 44 IV. Allegro ma non troppo

Martha Argerich, Dora Schwarzberg, Renaud Capuçon, Nora Romanoff-Schwarzberg, Mark Drobinsky

05. Schumann – Sonata for violin & piano No. 1 in A minor, Op. 105 I. Mit leidenschaftliche
06. Sonata for violin & piano No. 1 in A minor, Op. 105 II. Allegretto
07. Sonata for violin & piano No. 1 in A minor, Op. 105 III. Lebhaft

Martha Argerich, Géza Hosszu-Legocky

08. Dvorak – Piano Quartet No. 2 in E flat major, B. 162 (Op. 87) I. Allegro con fuoco
09. Piano Quartet No. 2 in E flat major, B. 162 (Op. 87) II. Lento
10. Piano Quartet No. 2 in E flat major, B. 162 (Op. 87) III. Allegro moderato
11. Piano Quartet No. 2 in E flat major, B. 162 (Op. 87) IV. Allegro ma non troppo

Walter Delahunt, Renaud Capuçon, Lida Chen, Gautier Capuçon

CD 1 – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
CD 2 – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
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Dmitri Shostakovich (1906-1975): 24 Prelúdios e Fugas, Op. 87

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Já tínhamos apresentado o excelente pianista Peter Donohoe nesta incrível gravação dos Concertos para Piano de Bartók, agora ele retorna ao PQP com novo e bom trabalho. Acho que Donohoe fica abaixo de Konstantin Scherbakov e Tatiana Nicolayeva, mas não muito. Diria que Donohoe dá uma perspectiva mais ocidental deste monumento de Shostakovich que, quando vai para um recital, exige dois dias. Aqui, Donohoe começa uma nova série de lançamentos de Shostakovich no Signum Classics com os 24 Prelúdios e Fugas de Shostakovich, op. 87. Todos os 24 dos prelúdios e fugas foram compostos dentro de vários meses, depois de Shostakovich foi inspirado pela performance de Tatiana Nicolayeva, que ele ouviu como jurista para o Concurso Bach de Leipzig Bach em 1951. Embora sem dúvida inspirado por Bach na forma e no contraponto, as composições de Shostakovich são todas profundamente originais e enraizadas em seu próprio estilo enigmático e ambíguo, passando de uma simplicidade encantadora a um virtuosismo deslumbrante.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): 24 Prelúdios e Fugas, Op. 87

DISCO 01
01. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 1 in C Major “Moderato”
02. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 1 in C Major “Moderato”
03. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 2 in A Minor “Allegro”
04. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 2 in A Minor “Allegretto”
05. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 3 in G Major “Moderato non troppo”
06. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 3 in G Major “Allegro molto”
07. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 4 in E Minor “Andante”
08. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 4 in E Minor “Adagio”
09. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 5 in D Major “Allegretto”
10. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 5 in D Major “Allegretto”
11. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 6 in B Minor “Allegretto”
12. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 6 in B Minor “Allegro poco moderato”
13. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 7 in A Major “Allegro poco moderato”
14. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 7 in A Major “Allegretto”
15. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 8 in F-Sharp Minor “Allegretto”
16. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 8 in F-Sharp Minor “Andante”
17. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 9 in E Major “Moderato non troppo”
18. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 9 in E Major “Allegro”
19. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 10 in C-Sharp Minor “Allegro”
20. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 10 in C-Sharp Minor “Moderato”
21. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 11 in B Major “Allegro”
22. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 11 in B Major “Allegro”
23. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 12 in G-Sharp Minor “Andante”
24. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 12 in G-Sharp Minor “Allegro”
25. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 13 in F-Sharp Major “Moderato con moto”
26. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 13 in F-Sharp Major “Adagio”

DISCO 02
01. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 14 in E-Flat Minor “Adagio”
02. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 14 in E-Flat Minor “Allegro non troppo”
03. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 15 in D-Flat Major “Moderato non troppo”
04. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 15 in D-Flat Major “Allegretto”
05. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 16 in B-Flat Minor “Allegro molto”
06. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 16 in B-Flat Major “Andante”
07. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 17 in A-Flat Major “Allegretto”
08. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 17 in A-Flat Major “Allegretto”
09. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 18 in F Minor “Moderato”
10. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 18 in F Minor “Moderato con moto”
11. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 19 in E-Flat Major “Allegretto”
12. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 19 in E-Flat Major “Moderato con moto”
13. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 20 in C Minor “Adagio”
14. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 20 in C Minor “Moderato”
15. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 21 in B-Flat Major “Allegro”
16. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 21 in B-Flat Major “Allegro non troppo”
17. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 22 in G Minor “Moderato non troppo”
18. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 22 in G Minor “Moderato”
19. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 23 in F Major “Adagio”
20. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 23 in F Major “Moderato con moto”
21. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Prelude No. 24 in D Minor “Andante”
22. 24 Preludes and Fugues, Op. 87: Fugue No. 24 in D Minor “Moderato”

Peter Donohoe, piano

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Shostakovich no início dos anos 50

Shostakovich no início dos anos 50

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Cello Concertos Nos. 1 & 2

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Os dois extraordinários concertos para violoncelo de Shostakovich foram compostos praticamente em parceria com Mstislav Rostropovich, de quem o compositor era grande amigo. Shosta escrevia um trecho e chamava Rostrô para dar uma experimentada. Não chega a ser surpresa o fato de Rostropovich ter realizado gravações sensacionais de ambos os concertos sob a regência de Seiji Ozawa. Mas outros violoncelistas também tentam e fazem bonito. Das que conheço, as mais belas tentativas foram as da argentina Sol Gabetta e as duas de Truls Mørk — a primeira gravação de 1996 com Jansons e a segunda agora com Petrenko. O resultado é muito bom. Parece que, desta vez, Mørk captou não apenas a música mas a altíssima potência e ELETRICIDADE de ambos, escritos na época mais difícil da vida do compositor.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Cello Concertos Nos. 1 & 2

Konzert F.Violoncello & Orch.Nr.1 Es-Dur Op.107
1. I. Allegretto
2. II. Moderato
3. III. Cadenza
4. IV. Finale: Allegro Con Moto

Konzert F.Violoncello & Orch.Nr.2 Es-Dur Op.126
5. I. Largo
6. II. Scherzo: Allegretto
7. III. Finale: Allegretto

Truls Mørk
Oslo Philharmonic Orchestra
Vasily Petrenko

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Truls Mørk

PQP

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The Dmitri Shostakovich Edition (CDs 10, 11 e 12 de 27)

SÉRIE IM-PER-DÍ-VEL!!!

Toda a série está aqui, ó.

CD 10

A Sinfonia Nº 14 – espécie de ciclo de canções – foi dedicada a Britten, que estreou-a em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte.

O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em A la Santé, An Delvig e A Morte do Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em Les Attentives, ao grotesco em Réponse des Cosaques Zaporogues e à evocação dramática de Loreley. Não há música mais direta e que trabalhe tanto para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para tornar-se mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema, mas sempre a ouvi em russo. Então, já que não entendo esta língua, tenho que ouvi-la ao mesmo tempo em que leio uma tradução dos poemas. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis.

Possui indiscutíveis seus méritos musicais mas o que importa é sua extrema sinceridade. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca e a estranha Conclusão (Schluss-Stück) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e – puxa vida – muito, mas muito final.

Symphony No. 14, for Soprano, Bass, Strings & Percussion, Op. 135
1. De profundis (Bass; Carcia Lorca) 4:23
2. Malaguena (Soprano; Carcia Lorca) 2:50
3. Lorelei (Soprano & bass; Apollinaire) 8:00
4. The Suicide (Soprano; Apollinaire) 6:13
5. On Watch (Soprano; Apollinaire) 2:59
6. Madam, look! (Sorprano & bass; Apollinaire) 1:32
7. In Prison, at the Sante Jail (Bass, Apollinaire) 8:20
8. The Zaporozhian Cossack’s answer to the Sultan of Constantinople (Bass; Apollinaire) 2:07
9. O Delvig, Delvig (Bass; Küchelbecker) 3:44
10. The Death of the Poet (Soprano: Rilke) 4:23
11. Conclusion (Soprano & bass; Rilke) 1:04

Alla Simoni, soprano
Vladimir Vaneev, bass
WDR Sinfonieorchester
Rudolf Barshai

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CD 11

A Sinfonia Nº 15 está entre as maiores do mestre russo e possui grande alegria e desespero sob sua aparente tranqüilidade. É uma obra consistente, com movimentos melodiosos apoiando-se harmonicamente um no outro. Não há nada sobrando nem faltando. O primeiro movimento é felicíssimo e aparentado com a Sinfonia Nº 9 e com o primeiro movimento do Concerto Nº 2 para piano e orquestra. Ele evoca os brinquedos infantis e possui em seu cerne um dos temas da Guilherme Tell, de Rossini.

O Adagio é belo e triste com longos solos de violoncelo e também do trombone e da tuba; há a inserção do Tema do Destino (ou da Morte) que Wagner escreveu para seu Nibelungo. O Alegretto, em tom de deboche, é levado pelo clarinete.

O movimento final é o mais longo de todos: há evocações ao compositor — o motivo DSCH reaparece acompanhado pelo Tema do Destino em clara alusão às doenças e à morte próxima de Shostakovich –, mas a sinfonia é finalizada serenamente após várias intervenções de cantabiles violinos. O final, quase todo a cargo da percussão, é delicado. Um verdadeiro achado. Um despedida sem desespero, um aceno algo irônico, de um grande mestre.

Mas o que queria mesmo dizer é que esta sinfonia exerce um efeito magnético (palavras de Lauro Machado Coelho) sobre os ouvintes. É impossível não ceder a ela, ouvindo e reouvindo. Tenho vários amigos que concordam: há algo nela que nos instiga, anima, estimula, incita, algo que espicaça nossa curiosidade. O que será?

Symphony No. 15 in A major Op. 141
1. Allegretto 8:19
2. Adagio-largo-adagio-allegretto 11:43
3. Allegretto 3:53
4. Adagio-allegretto-adagio-allegretto 13:58

WDR Sinfonieorchester
Rudolf Barshai

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CD 12

Achei fantástico que os russos tenham colocado nesta coleção dois CDs completos com as transcrições de 4 quartetos para orquestra sinfônica. Há anos me divirto com eles. São bons pra caraglio. Ouçam aí!

Chamber Symphony Op. 73a (Arrangement of String Quartet No.3)
1. Allegretto 2:20
2. Moderato con moto 5:26
3. Allegro non troppo 4:41
4. Adagio 5:14
5. Moderato 10:48

Chamber Symphony Op.83a (Arrangement of String Quartet Op.4)
6. Allegro 4:16
7. Andantino 7:04
8. Allegretto 5:09
9. Allegretto 9:54

Orchestra Sinfonica di Milano Giuseppe Verdi
Rudolf Barshai, conductor

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Shostakovich assistindo a um jogo de seu time de futebol, o Zenit, onde hoje joga o Hulk...

Shostakovich assistindo a um jogo de seu time de futebol, o Zenit, onde hoje joga o Hulk…

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Os Concertos para Violino Nº 1 e 2

Bem, há duas gravações dos Concertos para Violino de Shostakovich que parecem ser inalcançáveis por pobres e simples MORTAES. São as de Maxim Vengerov e a lendária de David Oistrakh. O jovem armênio Sergey Khachatryan faz uma boa tentativa de se ombrear aos citados gênios, mas fica ali pela cintura deles. Porém, de qualquer maneira, é uma boa introdução de a este concertos. A famosa e VISCERABILÍSSIMA Passacaglia do Concerto Nº 1 recebeu cuidadoso tratamento de Khachatryan, mas não transcende, entende? Pois é, é foda, mas faltou maturidade ao rapaz que certamente vai tentar novamente no futuro. Bonne chance!

D. Shostakovich (1906-1975): Os Concertos para Violino Nº 1 e 2

1. Violin Concerto No. 1 in A minor, Op. 77 (published as Op. 99): Nocturne. Moderato
2. Violin Concerto No. 1 in A minor, Op. 77 (published as Op. 99): Scherzo. Allegro
3. Violin Concerto No. 1 in A minor, Op. 77 (published as Op. 99): Passacaglia. Andante
4. Violin Concerto No. 1 in A minor, Op. 77 (published as Op. 99): Burlesque. Allegro con Brio

5. Violin Concerto No. 2 in C sharp minor, Op. 129: Burlesque. Allegro con Brio
6. Violin Concerto No. 2 in C sharp minor, Op. 129: Adagio
7. Violin Concerto No. 2 in C sharp minor, Op. 129: Adagio – Allegro

Sergey Khachatryan
Orchestre National de France
Kurt Masur

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Shostakovich assistindo a um jogo do seu time, o Zenit

Shostakovich assistindo a um jogo do seu time, o Zenit

PQP

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The Dmitri Shostakovich Edition – CDs 22, 23 e 24 de 27

SÉRIE IM-PER-DÍ-VEL!!!

Ah, há um erro perfeitamente suportável no Moderato da Sonata para Piano N° 2 e o Quarteto Nº 9 comento mais quando chegarmos ao 10º e ao 11º.

CD 22

Sonata para Violoncelo e Piano, Op. 40 (1934)

A Sonata em Ré Menor Op. 40 foi composta em 1934, no período em que Shostakovitch apaixonara-se por uma jovem estudante, o que ocasionou um efêmero divórcio de sua esposa Nina. O compositor dedicou esta sonata ao violoncelista Victor Lubatski e ambos a estrearam em Moscou, no dia 25 de dezembro de 1934.

O primeiro movimento (Allegro non troppo) é escrito em forma sonata. O primeiro tema, bastante extenso, é apresentado pelo violoncelo, acompanhado por arpeggios do piano e depois desenvolvido por este até seu clímax; o segundo tema, muito mais delicado, é, contrariamente, apresentado pelo piano e imitado pelo violoncelo. Durante o desenvolvimento o primeiro tema ganha motivos rítmicos, mas logo o afetuoso segundo tema reaparece. Tudo parece em ordem, encaminhando-se para o final do movimento, mas Shostakovitch nos surpreende ao inserir alguns acordes em staccato do piano, acompanhados por notas sustentadas pelo violoncelo, o que faz com que a música torne-se quase estática. É uma estranha preparação para o que se ouvirá no segundo movimento (Allegro) o qual é um scherzo típico de Shostakovitch. Trata-se de um frenético ostinato que é interrompido por um tema apresentado pelo piano que, apesar de mais tranqüilo, é também muito pouco contemplativo. O terceiro movimento (Largo) faz-lhe intenso contraste, pois é uma melodia tranquila e vocal, acompanhada pelo piano de forma introspectiva, dissonante e um tanto fúnebre. O Allegro final é um rondó bastante irônico no qual o tema principal é apresentado três vezes, ligados, a cada intervalo, por estranhas e vertiginosas cadenzas.

Cello Sonata in D minor Op. 40
1. Allegro non troppo  11:18
2. Allegro  3:14
3. Largo  7:00
4. Allegro  3:49

5. Piano Sonata No. 1 Op. 12  12:24

Piano Sonata No. 2 Op. 61
6. Allegretto  7:31
7. Largo  7:22
8. Moderato  11:55

Total:  64:23

Timora Rosler, cello
Klára Würtz, piano (1-4)
Colin Stone, piano (5-8)

CD 23

Quarteto de Cordas Nº 2, Op. 68 (1944)

Este trabalho em quatro movimentos foi escrito em menos de três semanas. A abertura é uma melodia de inspiração folclórica, tipicamente russa. O grande destaque é o originalíssimo segundo movimento, Recitativo e Romance: Adagio. O primeiro violino canta (ou fala) seu recitativo enquanto o trio restante o acompanha como se estivessem numa ópera ou música sacra barroca. O Romance parece música árabe, mas não suficientemente fundamentalista a ponto que a Al Qaeda comemore. Segue-se uma pequena valsa no mesmo estilo. O quarto movimento é um Tema com variações que fecha brilhantemente o quarteto.

É curioso que neste quarteto, talvez por ter sido composto rapidamente, há uma musicalidade simples, leve e nada forçada. Talvez nem seja uma grande obra como os Quartetos Nros. 8 e 12, mas é dos que mais ouço. Afinal, esta é uma lista pessoal e as excentricidades valem, por que não?

Quarteto de Cordas Nº 8, Op. 110 e Sinfonia de Câmara, Op. 110a – Arranjo de Rudolf Barshai (1960)

Na minha opinião, o melhor quarteto de cordas de Shostakovich. Não surpreende que tenha recebido versões orquestrais que até hoje são gravadas, como a que coloco à disposição abaixo. Trata-se de uma obra bastante longa para os padrões shostakovichianos de quarteto; tem cinco movimentos, com a duração total ficando entre os 20 minutos (na versão para quarteto de cordas) e 26 (na versão orquestral). O quarteto abre com um comovente Largo de intenso lirismo, o qual é seguido por um agitado Allegro molto, de inspiração folclórica e que fica muito mais seco na versão para quarteto. O terceiro movimento (Allegretto) é uma surpreendente valsinha sinistra a qual é respondida por outra valsa, muito mais lenta e com um acompanhamento curiosamente desmaiado. O quarteto é finalizado por dois belos ; o primeiro sendo pontuado por agressivamente por um motivo curto de três notas e o segundo formado por mais uma fuga a quatro vozes utilizando temas dos movimentos anteriores.

Quarteto Nº 13, Op. 138 (1970)

Um pouco menos funérea que a Sinfonia Nº 14, este quarteto foi escrito nos intervalos do tratamento ortopédico que conseguiu devolver-lhe do parte do movimento das mãos e antes do segundo ataque cardíaco. O décimo-terceiro quarteto é um longo e triste adagio de cerca de vinte minutos. O quarteto foi dedicado ao violista Vadim Borisovsky, do Quarteto Beethoven, e a viola não somente abre o quarteto como é seu instrumento principal. Trata-se de um belo quarteto em que a tranqüilidade só é quebrada por um pequeno scherzando estranhamente aparentado do bebop (sim, isso mesmo).

String Quartet No. 2 in A major Op. 68 (1944)
1. Overture (moderato con moto)  8:03
2. Recitative & Romance (adagio)  10:53
3. Waltz (allegro)  5:59
4. Theme & variations (adagio)  10:47

String Quartet No. 8 in C minor Op. 110 (1960)
5. Largo  4:40
6. Allegro molto  2:45
7. Allegretto  4:16
8. Largo  4:33
9. Largo  4:04

String Quartet No. 13 in B flat minor Op. 138 (1970)
10. Adagio  20:44

Total:  77:05

Rubio Quartet
Dirk van de Velde, violin I
Dirk van den Hauwe, violin II
Marc Sonnaert, viola
Peter Devos, cello

CD 24

Quarteto de Cordas Nº 7, Op. 108 (1960)

Mais um quarteto de Shostakovich com um lindíssimo movimento lento, desta vez baseado no monólogo de Boris Godunov (ópera de Mussorgski baseada em Puchkin), e mais um finale construído em forma de fuga, utilizando temas do primeiro movimento. Uma pequena e curiosa joia de onze minutos.

String Quartet No.3 in F major Op.73 (1946)
1. Allegretto  6:40
2. Moderato con moto  4:54
3. Allegro non troppo  4:01
4. Adagio  5:41
5. Moderato  10:40

String Quartet No.7 in F sharp monor Op.108 (1960)
6. Allegretto  3:33
7. Lento  3:36
8. Allegro  6:03

String Quartet No.9 in E flat major Op.117 (1964)
9. Moderato con moto  4:20
10. Adagio  4:34
11. Allegretto  3:47
12. Adagio  3:32
13. Allegro  9:54

Total:  71:38

Rubio Quartet
Dirk van de Velde, violin I
Dirk van de Hauwe, violin II
Marc Sonnaert, viola
Peter Devos, cello

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O compositor com um поросёнок nas mãos

O compositor com um поросёнок nas mãos

PQP

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 10 / Passacaglia de Lady Macbeth

Este monumento da arte contemporânea mistura música absoluta, intensidade trágica, humor, ódio mortal, tranquilidade bucólica e paródia. Tem, ademais, uma história bastante particular.

Em março de 1953, quando da morte de Stalin, Shostakovich estava proibido de estrear novas obras e a execução das já publicadas estava sob censura, necessitando de autorizações especiais para serem apresentadas. Tais autorizações eram, normalmente, negadas. Foi o período em que Shostakovich dedicou-se à música de câmara e a maior prova disto é a distância de oito anos que separa a nona sinfonia desta décima. Esta sinfonia, provavelmente escrita durante o período de censura, além de seus méritos musicais indiscutíveis, é considerada uma vingança contra Stalin. Primeiramente, ela parece inteiramente desligada de quaisquer dogmas estabelecidos pelo realismo socialista da época. Para afastar-se ainda mais, seu segundo movimento – um estranho no ninho, em completo contraste com o restante da obra – contém exatamente as ousadias sinfônicas que deixaram Shostakovich mal com o regime stalinista. Não são poucos os comentaristas consideram ser este movimento uma descrição musical de Stálin: breve, é absolutamente violento e brutal, enfurecido mesmo, e sua oposição ao restante da obra faz-nos pensar em alguma segunda intenção do compositor. Para completar o estranhamento, o movimento seguinte é pastora, contendo um enigma musical do mestre: a orquestra para, dando espaço para a trompa executar o famoso tema baseado nas notas DSCH (ré, mi bemol, dó e si, em notação alemã) que é assinatura musical de Dmitri SCHostakovich, em grafia alemã. Para identificá-la, ouça o tema executado trompa em solo. Ele é repetido quatro vezes. Ouvindo a sinfonia, chega-nos sempre a certeza de que Shostakovich está dizendo insistentemente: Stalin está morto, Shostakovich, não. O subtítulo deste disco — Under Stalin`s Shadow — é totalmente justificado. O mais notável da décima é o tratamento magistral em torno de temas que se transfiguram constantemente.

A gravação de Andris Nelsons é bastante boa, mas nada como um russo para colocar tudo no lugar certinho.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 10 / Passacaglia de Lady Macbeth

1. Passacaglia de Laydi Macbeth

Sinfonia Nº 10
2. 1. Moderato
3. 2. Allegro
4. 3. Allegretto
5. 4. Andante Allegro

Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons

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Obrigações da guerra: Shostakovich toca para pilotos de bombardeiros durante a Segunda Guerra sob a imagem de Stalin

Obrigações de guerra: Shostakovich toca para pilotos de bombardeiros durante a Segunda Guerra sob a imagem de Stalin

PQP

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): String Quartets Nos. 4, 11 & 14

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Tive a sorte de, há dois anos, ver o Hagen Quartett no Southbank Center de Londres. Foi um grande concerto dedicado a Brahms e Bartók. Eles são excelentes mesmo. Aqui, eles dão um show em três quartetos de Shostakovich. E mais não escrevo porque estou atrasado. Só garanto: baita CD!

Dmitri Shostakovich (1906-1975): String Quartets Nos. 4, 11 & 14

01. Quartett No.4 D-dur op. 83 – 1. Allegretto
02. Quartett No.4 D-dur op. 83 – 2 – Andantino
03. Quartett No.4 D-dur op. 83 – 3 – Allegretto – attacca
04. Quartett No.4 D-dur op. 83 – 4 – Allegretto

05. Quartett No.11 f-moll op. 122 – 1. Introduktion. Andantino – attacca
06. Quartett No.11 f-moll op. 122 – 2 – Scherzo. Allegretto – attacca
07. Quartett No.11 f-moll op. 122 – 3 – Rezitativ. Adagio – attacca
08. Quartett No.11 f-moll op. 122 – 4 – Etüde. Allegro – attacca
09. Quartett No.11 f-moll op. 122 – 5 – Humoreske. Allegro – attacca
10. Quartett No.11 f-moll op. 122 – 6 – Elegie. Adagio – attacca
11. Quartett No.11 f-moll op. 122 – 7 – Finale. Moderato

12. Quartett No.14 Fis-dur op. 142 – 1. Allegretto
13. Quartett No.14 Fis-dur op. 142 – 2 – Adagio – attacca
14. Quartett No.14 Fis-dur op. 142 – 3 – Allegretto

Hagen Quartett

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PQP tem saudades de vocês!

PQP tem saudades de vocês!

PQP

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 13 (Babi Yar), Op. 113 (1962)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Sinfonia Nº 13 (Babi Yar), Op. 113 (1962)

Após o equívoco da Sinfonia Nº 12 – lembrem que até Beethoven escreveu uma medonha Vitória de Wellington, curiosamente estreada na mesma noite da sublime 7ª Sinfonia, mas este é outro assunto… -, Shostakovich inauguraria sua última fase como compositor começando pela Sinfonia Nº 13, Babi Yar. Iniciava-se aqui a produção de uma sequência de obras-primas que só terminaria com sua morte, em 1975. Esta sinfonia tem seus pés firmemente apoiados na história da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. É uma sinfonia cantada, quase uma cantata em seu formato, que conta com a nada desprezível colaboração do grande poeta russo Evgeny Evtuchenko (conforme alguns, como a Ed. Brasilinense, porém pode-se encontrar a grafia Ievtuchenko, Yevtuchenko ou Yevtushenko, enfim!).

Shosta51

O que é, afinal, Babi Yar? Babi Yar é o nome de uma pequena localidade situada perto de Kiev, na atual Ucrânia, cuja tradução poderia ser Barranco das Vovós. Ali, em 29 e 30 de setembro de 1941, teve lugar o assassinato de 34 mil judeus pelos nazistas. Eles foram mortos com tiros na cabeça e a participação comprovada de colaboradores ucranianos no massacre permanece até hoje tema de doloroso debate público naquele país. Nos dois anos seguintes, o número de mortos em Babi Yar subiu para 200 mil, em sua maioria judeus. Perto do fim da guerra, os nazistas ordenaram que os corpos fossem desenterrados e queimados, mas não conseguiram destruir todos os indícios. Ievtuchenko criticou a maneira que o governo soviético tratara o local. O monumento em homenagem aos mortos referia-se às vítimas como ucranianas e russas, o que também eram, apesar de se saber que o fato determinante de suas mortes era o de serem judeus. O motivo? Ora, Babi Yar deveria parecer mais uma prova do heroísmo e sofrimento do povo soviético e não de uma fatia dele, logo dele, que seria uma sociedade sem classes nem religiões… O jovem poeta Ievtushenko considerou isso uma hipocrisia e escreveu o poema em homenagem aos judeus mortos. O que parece ser uma crítica de importância relativa para nós, era digna de censura, na época. O poema — o qual tem extraordinários méritos literários — foi publicado na revista Literatournaia Gazetta e causou problemas a seu autor e depois, também a Shostakovich, ao qual foram pedidas alterações que nunca foram feitas na sinfonia. No Ocidente, Babi Yar foi considerado prova da violência antissemita na União Soviética, mas o próprio Ievtuchenko declara candidamente em sua Autobiografia Precoce (Ed. Brasiliense, 1987) que a tentativa de censura ao poema não teve nada a ver com este gênero de discussão e que, das trinta mil cartas que recebeu falando em Babi Yar, menos de trinta provinham de antissemitas…

O massacre de Babi Yar é tão lembrado que não serviu apenas a Ievtuchenko e a Shostakovich, tornando-se também tema de filmes e documentários recentes, assim como do romance Babi Yar de Anatoly Kuznetsov. Não é assunto morto, ainda.

O tratamento que Shostakovich dá ao poema é fortemente catalisador. Como se fosse uma cantata em cinco movimentos, os versos de Ievtuchenko são levados por um baixo solista, acompanhado de coral masculino (formado apenas por baixos) e orquestra. É música de impressionante gravidade e luto; a belíssima linha melódica ora assemelha-se a um serviço religioso, ora aum dos grandes modelos de Shostakovich, Mussorgski; mesmo assim, fiel a seu estilo, Shostakovich encontra espaço para o sarcasmo.

Tranquila crueldade: soldados alemães examinam as roupas dos mortos em Babi Yar.

“Babi Yar” é como ficou conhecida a sinfonia para coro masculino, baixo e orquestra.  A partir do texto de dura indignação de Ievgueni Evtuchenko e apesar dos problemas que ele geraria na União Soviética pós-stalinista, Shostakovich construiu um painel de extraordinária força em torno de mazelas típicas de seu tempo: o medo e a opressão, o conformismo e o carreirismo, o massacre cotidiano num Estado policial e a possibilidade de superação através do humor e da intransigência.

Em linguagem quase descritiva, combinando a severidade da orquestra com a impostação épica das vozes, “Babi Yar” tem um poder de evocação cinematográfico: raramente se ouviu música tão plástica. O realismo e a imagens dos poemas são admiravelmente apoiados pelo estilo alternadamente sombrio e agressivo da música de Shostakovich. Não obstante o grande efetivo orquestral e a tensão dos clímaxes, as texturas são rarefeitas e o coro, declamando ou murmurando, canta quase sempre em uníssono ou em oitavas — mais um elemento dessa estrutura preparada para expressar a desolação e o nervosismo.

O primeiro movimento alterna estrofes que exploram o horror e a culpa de Babi Yar com relatos de dois outros episódios — o de Anne Frank e o de um menino massacrado em Bielostok. No segundo movimento, ritmado de forma tipicamente shostakovichiana, o tom enfático das vozes falam da resistência que o “Humor” jamais deixará de oferecer à tirania. “Na loja”, o Adagio que se segue, descreve quase fisicamente as filas das humilhadas donas-de-casa numa linha sinuosa à espera de um pouco de comida. Quando chegam ao balcão, o poema diz: “Elas nos honram e nos julgam”, enquanto percussão e castanholas simulam panelas e garrafas se entrechocando. É em clima que estupefação que o movimento se encerra: “Nada está fora de seu alcance”.

A linha sinuosa torna-se reta ao prosseguir sem interrupção para o episódio seguinte, um ameaçador ‘sostenuto’ das cordas graves sob solo da tuba: é o “Medo”, componente constante da vida soviética. Contrapondo-se às sombras que até aqui dominam a sinfonia, Shostakovich a conclui com uma satírica reflexão sobre o que é seguir uma “Carreira”. Em ritmo de valsa lenta, ficamos sabendo que a verdadeira carreira não é a dos que se submetem, mas a de Galileu, Shakespeare ou Pasteur, Newton ou Tolstói: “Seguirei minha carreira de tal forma que não a esteja seguindo”, conclui o baixo, com o eco do sino que abrira pesadamente a sinfonia, agora aliviado pela celesta.

Shostakovich (esquerda), com o poeta Evgeni Ievtuchenko (direita) e o regente Kiril Kondrashin na estreia da 13ª Sinfonia.

A história da primeira execução de Babi Yar foi terrível. Houve protestos e ameaças por parte das autoridades soviéticas. Se até 1962, Shostakovich dava preferência a estrear suas obras sinfônicas com Evgeny Mravinsky (1903-1988), Babi Yar causou um surdo rompimento na parceria entre ambos. O lendário regente da Sinfônica de Leningrado amedrontou-se (teve razões para tanto) e desistiu da obra pouco antes de começarem os ensaios. Porém, como na União Soviética e a Rússia os talentos brotam por todo lado, Mravinsky foi substituído por Kiril Kondrashin (1914-1981) que teve uma performance inacreditável e cujo registro em disco é das coisas mais espetaculares que se possa ouvir.

P.S.- Por uma dessas coisas inexplicáveis, encontrei o disco soviético com o registro da estreia num sebo de Porto Alegre em 1975. Comprei, claro.

Obs.: A descrição da música foi adaptada de um texto que Clovis Marques escreveu para um concerto no Municipal do Rio de Janeiro.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 13 (Babi Yar), Op. 113 (1962)

1 – Babi Yar. Adagio
2 – Humour. Allegretto
3 – At the Store. Adagio
4 – Fears. Largo
5 – Career. Allegretto

Alexander Vinogradov, baixo
Royal Liverpool Philharmonic Choir
Royal Liverpool Philharmonic Orchestra
Vasily Petrenko

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Esta é uma foto tirada em 1944 de uma parte Babi Yar. 14 mil judeus foram mortos.

Esta é uma foto tirada em 1944 de uma parte Babi Yar. 14 mil judeus foram mortos.

PQP

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Shostakovich (1906-1975): Symphony No. 10 / Wagner (1813-1883): Prelude & Liebestod from Tristan und Isolde

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IM-PER-DÍ-VEL !!!

Eu tinha 16 anos e simplesmente precisava ouvir a Sinfonia Nº 10 de Shostakovich. Era o inverno de 1973. Como o PQP Bach não existia, escrevi uma carta — sim, papel, correio, envelope — para a Rádio da Universidade, dirigida ao programa Atendendo o Ouvinte. Duas semanas depois, pude ouvir esta maravilha. E ouvi exatamente esta legendária gravação de Mravinsky com a espetacular orquestra de Leningrado. Mrava e Shosta foram grandes colaboradores até a 13ª Sinfonia, quando o primeiro teve medo de regê-la. Sim, vá pesquisar!

Eu não sabia que o Allegro da décima era “dedicado” a Stalin, que morrera um ano antes após torturar minuciosamente Shostakovich e nem da sequência de notas D-S-C-H, apresentadas pela primeira vez no Allegretto e que eram uma afirmação do compositor: eu ainda estou aqui. A décima é uma obra genial e pessoalíssima, que todos devem conhecer.

O Wagner é uma bela sobremesa com espresso.

Symphony No. 10 in E minor, Op. 93
1 Moderato 22:03
2 Allegro 3:59
3 Allegretto 10:56
4 Andante – Allegro 11:07

Tristan und Isolde, opera, WWV 90
5 Prelude & Liebestod

Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky

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Mravinsky: fera

Mravinsky: fera

PQP

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concerto para Violino Nº 1 / Alexander Glazunov (1865-1936): Concerto para Violino, Op.82

A escocesa Nicola Benedetti (sim, escocesa) faz parte daquele time de instrumentistas que aposta na beleza. Mas nem precisaria. Ela é muito boa violinista. Antes, ela tinha gravado o difícil Concerto de Szymanowski e agora demonstra novamente que não tem medo de desafios. Sua gravação do ultra-exigente Concerto para Violino Nº 1 de Shosta, aqui junto do Concerto para Violino de Glazunov, maravilhosamente outonal, é boa. Ela tem técnica soberba, mas faltou-lhe maturidade para encarar Shostakovich. Este Concerto alterna momentos de profunda melancolia com episódios rápidos que trazem a marca única da ironia do compositor. Ainda ficamos com clássica gravação dos deuses David Oistrakh, com regência de Dmitri Mitropoulos e a Filarmônica de Nova Iorque, ou com a dupla Mullova-Previn. Mas quem não conhece o Concerto de Shosta deve ouvir esta gravação. Benedetti não tem culpa por Oistrakh e Mullova. A menina de 29 anos é ótima!

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concerto para Violino Nº 1 / Alexander Glazunov (1865-1936): Concerto para Violino, Op.82

Shostakovich Violin Concerto No.1 In A Minor, Op.99 (Formerly Op.77)
01. 1. Nocturne (Moderato)
02. 2. Scherzo (Allegro)
03. 3. Passacaglia (Andante)
04. 3a Cadenza
05. 4. Burlesque (Allegro con brio – Presto)

Glazunov Violin Concerto In A Minor, Op.82
06. 1. Moderato
07. 2. Andante
08. 3. Allegro

Nicola Benedetti, violino
Bournemouth Symphony Orchestra
Kirill Karabits

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Nicola Benedetti

Nicola Benedetti

PQP

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Shostakovich / Prokofiev: Concertos para Violino

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um CD espetacular. O dilacerante Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra de Shosta e o belíssimo Concerto Nº 2 de Prokofiev com solos de Viktoria Mullova. Ou seja, é uma espécie de The best of the best gravada em 1989. Três russos da gema, por assim dizer. Shostakovich e Prokofiev viveram durante o auge da União Soviética, que era tão paranoica que controlava compositores e sua música. Shostakovich foi criticado na imprensa nacional e formalmente censurado várias vezes na União Soviética, o que significava que suas obras não poderiam ser tocadas em público, seus baixos rendimentos foram reduzidos, e ele foi forçado a pedir desculpas publicamente. Serge Prokofiev deixou a Rússia antes de se tornar URSS e viveu nos EUA e na Europa, mas voltou para o seu país natal justo quando a URSS estava reprimindo os artistas, exigindo obediência e fidelidade. Viktoria Mullova, por outro lado, nasceu perto de Moscou, e como um jovem violinista globetrotter, já teve outra vida. E quanto talento havia e há nesses três! Disco sensacional!

Shostakovich / Prokofiev: Concertos para Violino

Dmitri Shostakovich – Violin Concerto No. 1 In A Minor, Op. 99
1 Nocturne (Moderato) 10:50
2 Scherzo (Allegro) 6:25
3 Passacaglia (Andante) 11:47
4 Burlesque (Allegro Con Brio – Presto) 4:43

Serge Prokofiev – Violin Concerto No. 2 In G Minor, Op. 63
5 Allegro Moderato 10:39
6 Andante Assai 9:43
7 Allegro, Ben Marcato 6:18

Viktoria Mullova, violino
Royal Philharmonic Orchestra
André Previn

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Na boa, com Mullova, são diminutas as chances de Previn sair na foto.

Na boa, com Mullova, são diminutas as chances de Previn sair na foto.

PQP

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Piano Concertos Nos. 1 & 2, Cello Concerto No. 1

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um disco de gravações antigas e muito boas. Shostakovich escreveu o seu segundo concerto para piano para seu filho Maximilian em meio a uma enorme sensação de alívio com a morte de Stalin. O movimento lento é sem dúvida um dos mais belos já escritos para o piano — maravilhosamente romântico, nada sentimental. Os primeiro e terceiro movimentos são de pura alegria para o solista e a orquestra. Difícil ficar parado com eles. Bernstein sola e rege. Um espanto.

O concerto primeiro para piano é um Shosta absolutamente sarcástico. Já vimos tanta gente sofrendo com ele em Porto Alegre que é uma alegria ver Previn tirando um sarro. Para ser irônico e debochado na música há que saber ser deste modo na vida, creio. Os últimos fiascos deste concerto em Porto Alegre foram constrangedores. Não me refiro à boa versão de Catarina Domenici, mas àqueles meninos simples que o tocaram no Theatro São Pedro nos últimos anos. Um deles foi este ano. O outro suava horrivelmente e errava mais e mais. Eu, que amo Shosta e penso que a tortura seja crime hediondo, fiquei nervosíssimo. E o maestro ainda chamou um bis do movimento final!

O concerto para violoncelo é uma das grandes obras para esse instrumento. É a única gravação digital do CD. Yo-Yo Ma está soberbo. Sua cadenza são dez sessões psiquiátricas a menos para pagar, chega a ser uma perversão. É uma versão de absurda beleza e fidelidade ao espírito do russo. Destaque para o sensacional trompista.

Um disco deslumbrante.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Piano Concertos Nos. 1 & 2, Cello Concerto No. 1

Concerto No. 1 for Piano and Orchestra, Op. 35
1 I – Allegretto – Allegro Vivace 5:54
2 II – Lento 7:45
3 III – Moderato 1:57
4 IV – Allegro Con Brio 6:26

Conductor – Leonard Bernstein
Orchestra – The New York Philharmonic Orchestra
Piano – André Previn
Trumpet – William Vacchiano

Concerto No. 2 for Piano and Orchestra No. 2, Op. 102
5 I – Allegro 7:08
6 II – Andante 6:36
7 III – Allegro 5:24

Orchestra – The New York Philharmonic Orchestra
Piano, Conductor – Leonard Bernstein

Concerto No. 1 in E-flat Major for Cello and Orchestra, Op. 107
8 I Allegretto 6:17
9 II – Moderato 11:06
10 III – Cadenza 5:24
11 IV – Allegro Con Moto 4:40

Cello – Yo-Yo Ma
Conductor – Eugene Ormandy
Orchestra – The Philadelphia Orchestra

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Yo-Yo Ma: economia no psiquiatra

Yo-Yo Ma: economia no psiquiatra

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