J.S.Bach (1685-1750): Cantatas 78 e 106 (Actus Mysticus, ou Tragicus) com Felix Prohaska

J.S.Bach (1685-1750): Cantatas 78 e 106 (Actus Mysticus, ou Tragicus) com Felix Prohaska

Publicado originalmente em 10.06.2010

Sim, claro que o nome atribuído tradicionalmente à Cantata 106 é Actus Tragicus, não Mysticus. Acontece que, não importa quem botou esse apelido, é uma baita traição às intenções de Bach.

Além disso, em junho de 2010 nosso blog já tem 4 outras versões da 106, então pra que postar mais esta? Ainda mais que o único arquivo que encontramos não é em mp3 de alta qualidade? Bem, acontece que um dia meu amigo Nahum – o mesmo da minha primeira postagem de órgão de Pachelbel – me escreveu dizendo que tem um amor especial por esta versão por ser a menos ‘operística’ que conhece; a menos com intenções de concerto e mais de ato propriamente religioso. Coincidiu que esta foi também a primeira 106 que ouvi, décadas atrás, e tendo a concordar.

Prohaska não é Harnoncourt mas foi um passo importante na direção. Já nos anos 50 começou a usar grupos menores e instrumentos mais autênticos do que, digamos, um Richter – embora tantas vezes tenha continuado exagerando nas lentidões e legatos. Mas como negar, por outro lado, que o gênio da musicologia que é Harnoncourt, na hora da realização às vezes exagera irritantemente no sentido oposto, o da saltitância? Enfim: eu acho que Prohaska merece respeito, vamos ver o que vocês vão achar.

No disco a Cantata 78 vinha primeiro, mas inverti. Dela prefiro mesmo outras gravações, esta me soa pesada e convencional… a não ser pelo segundo movimento, um dueto soprano-contralto que deve estar entre as páginas mais risonhas do pai do PQP, quase bandinha de festa popular… e pelo que andei vendo na net há quase uma seita de curtidores dessa peça justo nesta versão do Prohaska!

Mas a 106 é realmente muito especial
entre as cantatas de Bach, a começar por muito da sua grandeza se dever à – digamos – inexperiência: Bach tinha só 22-23 anos quando a compôs, e os jovens costumam ousar mais na invenção de formas pessoais para dizer o que querem. Mais tarde… sabem como é, a exigência de produzir rápido e muito, o leite das crianças… o jeito é recorrer a modelos de estrutura que já deram certo, ainda que preenchendo com conteúdos novos e genais.

E aqui nosso jovem ousou nada menos que… uma representação do momento da morte em primeira pessoa, inserida num rápido porém incisivo ensaio teológico.

Daí ser tão ridículo o apelido ‘tragicus’, pois toda a intenção a obra é afirmar que a morte não é tragédia e sim um encontro amoroso. Logo à frente está o texto completo com tradução interlinear pra vocês mesmo acompanharem e verem se não – mas ‘entrego’ antes alguns detalhes não tão óbvios.

Um, que a música é cheia de figurações do texto, p.ex: a sílaba alongada em ’so laaaaaaaange’ (’por taaaanto tempo’), ou os instrumentos que se calam para deixar soar a palavra stille (silêncio, quietude) – enquanto a instrumentação e tonalidade dita pastoral – fá maior, só flautas doces, violas da gamba e contínuo, sem violinos – visa ambientar esse pequeno estudo da morte num clima de (juro!) música de ninar.

Dois coros de escritura livre emolduram a ‘representação’: o inicial antecedido por uma ’sonatina’ instrumental, o final seguido por uma única cadência dos instrumentos que não é só um eco do amém, mas também uma espécie de conclusão da sonatina inicial, com um tom de brincadeira e ao mesmo tempo afirmação séria da unidade do conjunto.

De entremeio, dois ‘atos’ de solos e coros encadeados que correspondem de certa forma ao Velho e ao Novo Testamento: no primeiro afirma-se a morte como lei inescapável – mas ainda no meio dessa afirmação a alma humana (em forma de voz de soprano) começa a chamar pelo vencedor da morte: ‘vem, Senhor Jesus, vem!’ Tudo vai se calando, ficando só a voz e o pulsar do seu coração. O pulsar para… e a voz conclui a palavra ‘Je-su’ depois, ‘apoiada em nada’: nada menos que a afirmação da sua continuidade independente do corpo, que é precisamente o que a fé espera dessa invocação.

Mas parece que todas as tradições falam de um trajeto entre o momento da morte e o mundo definitivo do além (ver p.ex. no balé ‘300 anos de Zumbi’, de Gilberto Gil, que também já postei aqui): o ‘Novo Testamento’ se abre com a alma (que virou contralto) dizendo ‘estou enviando às tuas mãos o meu espírito, ao que Cristo – agora presente, não só invocado – responde ‘ainda hoje estarás comigo no paraíso’ – e de repente já é todo um grupo de contraltos que vai em frente cantando com uma… serenidade segura: ‘é com paz e alegria que eu viajo para lá’. E aí o coro final é louvor e afirmação de fé – mas sem se aventurar a oferecer nenhuma representação do estado final: afinal, na teologia aceita por Bach, ‘nem um olho viu, nem um ouvido ouviu o que Deus tem preparado para os seus’.

O antropólogo Gilbert Durand fala de três vertentes do imaginário humano; a do meio não importa agora, mas as duas extremas seriam a Heroica, de caráter diurno e derivada do esforço de conquista da posição vertical pela criança, e a Mística, de caráter noturno, derivada da busca da intimidade dos braços e do colo da mãe, anseio de descansar do esforço e riscos da existência separada reintegrando-se com o todo de onde se saiu. Quem sabe assim fique mais claro o porquê da minha traição ao título tradicional!

J.S. Bach: duas cantatas regidas por Felix Prohaska
01-04 Cantata 106, ‘Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit’
06-12 Cantata 78, ‘Jesu, der du, meine Seele’

Coro e orquestra “The Bach Guild” (projeto N.York-Viena da Vanguard Records)
Tereza Stich-Randall, soprano – Dagmar Hermann, contralto
Anton Dermota, tenor – Hans Braun, baixo – Anton Heiller, órgão

. . . . . BAIXE AQUI – download here

FAIXAS E TEXTO DA CANTATA 106

01 “SONATINA” INSTRUMENTAL

02 [MOVIMENTO ARTICULANDO 6 ELEMENTOS SUCESSIVOS OU SIMULTÂNEOS]

CORO
Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit.
A hora de Deus é a melhor de todas.
In Ihm leben, weben und sind wir, solange Er will,
N’Ele vivemos, “tecemos” e estamos, enquanto Ele quer,
In Ihm sterben wir zur rechten Zeit, wenn Er will.
N’Ele morremos na hora certa: quando Ele quer.

TENOR SOLO
Mein Herr! (Ach, Herr!)
Meu Senhor! (Oh Senhor!)
Herr, lehre uns bedenken, dass wir sterben müssen,
Senhor, ensina-nos a considerar que temos que morrer,
auf dass wir klug werden.
para ganharmos juízo.

BAIXO SOLO
Bestelle dein Haus!
Encomenda tua morada!
Denn du wirst sterben und nicht lebendig bleiben.
Pois tu irás morrer, e não permanecer em vida.

CORO (FUGATO)
Es ist der alte Bund: Mensch, du musst sterben.
Esse é o antigo pacto: ó humano, tu tens que morrer.

SOPRANO SOLO
Ja, komm, ja komm, Herr Jesu, komm!
Sim, vem, sim vem Senhor Jesus! Vem!

HINO: INSTRUMENTAL (texto implícito para os ouvintes)
Ich hab’ mein’ Sach’ Gott heimgestellt …
Entreguei minha causa a Deus …

IV. [MOVIMENTO ARTICULANDO 3 ELEMENTOS]

CONTRALTO SOLO
In deine Hände befehl ich meinen Geist;
A tuas mãos envio o meu espírito;
Du hast mich erlöset, Herr, Du getreuer Gott!
Tu me libertaste, ó Senhor, Deus fidedigno que és.

BAIXO SOLO
Heute, heute wirst du mit mir im Paradies sein.
Hoje, ainda hoje, comigo no paraíso hás de estar.

HINO: CONTRALTOS EM UNÍSSONO
Mit Fried’ und Freud’ ich fahr dahin
Com paz e alegria eu viajo para lá
in Gottes Willen.
na vontade de Deus.
Getrost ist mir mein Herz und Sinn,
Confortados estão para mim o coração e tino,
sanft und stille.
em brandura e quietude.
Wie Gott mir verheissen hat:
Como Deus me prometeu:
der Tod ist mein Schlaf worden.
a morte se tornou meu sono.

V. CORO
Glorie, Lob, Ehr und Herrlichkeit
Glória, louvor, honra e majestade
Sei dir, Gott Vater und Sohn bereit,
sejam preparados para Ti, ó Deus ‘Pai e Filho
Dem heil’gen Geist mit Namen!
e Espírito Santo’ nomeado.
Die göttlich Kraft
O poder divino
mach uns sieghaft
nos faça vitoriosos
durch Jesum Christum – amen.
através de Jesus Cristo – amém.

Felix Prohaska

Ranulfus

Joseph Haydn (1733-1809) – Applausus – Jubilaeum Virtutis Palatium

Um CD delicioso, tremendamente agradável de se ouvir, com árias maravilhosas. Já o tenho há algum tempo, e já tinha pensado em postá-lo ano passado, mas agora a ocasião é mais propícia, já que estou lhes proporcionando uma overdose de Haydn.
Trata-se de uma Cantata, composta por encomenda, em homenagem aos cinquenta anos de vida monástica do Abade da Abadia Cisterciense de Zwettl. Ou seja, sendo uma obra comemorativa temos uma música alegre e festiva. O booklet traz o libreto e um pequeno histórico da obra, além de biografias dos solistas e do regente. E por falar neles, temos ótimos solistas e uma excelente orquestra dirigida por um especialista no repertório barroco e do classicismo, Andreas Spering, que fazem deste CD uma excelente companhia para estes dias frios e chuvosos do feriadão.
Para quem gosta da obra coral e vocal de Haydn temos nesta cantata todos os ingredientes para satisfazê-los.

CD 1
01 – 1a Recitativo_ ‘Quae Metamorphosis_’
02 – 1b Quartetto_ ‘Virtus inter ardua’
03 – 2a Recitativo_ ‘Supersedete admirationi’
04 – 2b Aria_ ‘Non chymaeras somniatis’
05 – 3a Recitativo_ ‘Ergone securae sunt’
06 – 3b Duetto_ ‘Dictamina mea’
07 – 4a Recitativo_ ‘Et ego, o Sorores!’
08 – 4b Aria_ ‘O pii Patres Patriae!’
09 – 5a Recitativo_ ‘Consolationis plea sum’
10 – 5b Aria_ ‘Si obtrudat ultimam’

CD 2

01 – 6a Recitativo_ ‘Prima fueram’
02 – 6b Aria_ ‘Rerum, quas perpendimus’03 –
7a Recitativo_ ‘Jubilae est’
04 – 7b Aria_ ‘O beatus incolatus’
05 – 8a Recitativo_ ‘ Ad vos convertirmur’
06 – 8b Coro_ ‘O Caelites, vos in vocamus’

Anna Palimina – Temperantia
Marina de Liso – Prudentia
Donát Havár – Justitia
Johannes Weisser – Fortitud0
Andreas Wolf – Theologia
Capella Augustina
Andreas Spering – Conductor

CD 1 – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
CD 2 – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FDPBach

George Fredric Handel (1685-1759) – Italian Cantatas – CD 7 de 7 – Apollo e Dafne (HWV 122), Agrippina condotta a morire (HWV 110), Cuopre talvolta il cielo (HWV 98)

Agora sim chegamos ao final das postagens das Cantatas Italianas do genial Haendel. E com a jóia da coroa, a maravilhosa Apollo & Dafne, talvez a mais conhecida e interpretada destas obras.
Handel foi um compositor prolífico, e, ao contrário de seu contemporâneo Bach, ingressou em praticamente todas as áreas, desde obras para instrumento solo, até os grandes oratórios, passando por trios, concertos, óperas, etc. Já cansei de dizer o quanto admiro esse compositor, e quanto mais o ouço mais ainda o admiro. A beleza de suas árias comove até o mais duro coração. Adicione à essa beleza a voz de Roberta Invernizzi, cuja textura deixa-nos muitas vezes sem fala. Nada é forçado, ela flui com tanta facilidade que muitas vezes dá-nos a impressão de estarmos ouvindo um anjo cantando, apesar de eu particularmente nunca ter visto ou ouvido um anjo, e creio que nenhum dos senhores. E o que mais me impressiona com relação à estas obras é a precocidade do autor quando ás compôs. Handel tinha pouco mais de 20 anos nessa época e sua produção já era espantosa.
Como sempre, sugiro a leitura do libreto que acompanha o arquivo. Ele dá o contexto em que as obras foram compostas e explica em detalhes como foi o processo de criação.
Uma boa audição.

P.S. A amazon americana só tem esse CD disponível em mp3, por isso o link. Não me perguntem por quê.

George Fredric Handel – Italian Cantatas – CD 7 de 7 – Apollo e Dafne (HWV 122), Agrippina condotta a morire (HWV 110), Cuopre talvolta il cielo (HWV 98)

01 – Apollo e Dafne (HWV 122) – La terra è liberata
02 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Pende il ben dell’universo
03 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Ch’il superbetto Amore
04 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Spezza l’arco e getta
05 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Felicissima quest’alma
06 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Che voce! Che beltà
07 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Ardi, adori e preghi
08 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Che crudel!
09 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Una guerra ho dentro il seno
10 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Placati al fin
11 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Come rosa in su la spina
12 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Ah, ch’un dio non dovrebbe
13 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Come in ciel benigna stella
14 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Odi la mia ragion
15 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Deh, lascia addolcire
16 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Sempre t’adorerò
17 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Mie piante correte
18 – Apollo e Dafne (HWV 122) – Cara pianta co’ miei pianti
19 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Dunque sarà pur vero
20 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Orrida, oscura
21 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Ma pria che d’empia morte
22 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Renda il cenere il tiranno
23 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Sì, sì, del gran tiranno
24 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Come, o Dio!
25 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Se infelice al mondo
26 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Prema l’ingrato figlio
27 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Su, lacerate il seno
28 – Agrippina condotta a morire (HWV 110) – Ecco a morte
29 – Cuopre talvolta il cielo (HWV 98) – Cuopre talvolta il cielo
30 – Cuopre talvolta il cielo (HWV 98) – Tuona, balena
31 – Cuopre talvolta il cielo (HWV 98) – Così fiera procella
32 – Cuopre talvolta il cielo (HWV 98) – Per pietà de’ miei martiri

Roberta Invernizzi – Soprano
Thomas E. Bauer – Bass
Furio Zanasi – Bass
La Risonanza
Fabio Bonizzoni – Harpsichord & Direction

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