Peças para piano por Radamés Gnattali (1906-1988)

Peças para piano por Radamés Gnattali (1906-1988)

Radames 1985Nosso Amigo Radamés

“Pra começar, o nome Radamés não existe. Foi inventado por Verdi numa ópera. Eu era pra ser Ernani, então apareceu outra parenta que usou o nome Ernani e minha mãe botou Radamés mesmo. Eu vejo o mundo como quando tinha dezoito anos, não tem diferença se estou mais velho ou mais moço, nada. Sou um sujeito feliz. Me casei duas vezes, muito bem casado, gosto da minha casa, da minha cama, de dormir, do meu piano – estudo muito – sempre tive bons amigos e o resto e o resto não tem importância nenhuma. Tenho meu pouquinho de dinheiro pra tomar o chope, quando não tenho, o Tom Jobim paga… sou feliz e pronto. Minha vida é rica de notas. Notas musicais.”

Falar de Radamés Gnattali dá um livro, como a formidável edição de 1996 do biógrafo Carlos Didier, parte de um projeto literário e cinematográfico. Radamés é um dos ápices da música brasileira, sem a menor sombra de dúvida; e a sua obra, embora ainda longe de ser devidamente apreciada, valorizada e interpretada (a família cobra pela xerox de obras aos pobres músicos que buscam interpretar peças mais raras), é um dos maiores tesouros da música. Sim, da música! e por que dizer nossa, se a beleza musical é para quem a ouve e a sente, a preza e ama? Seja daqui ou de Marte? Assim, vou deixando que Radamés fale por si ao longo desse texto, que redijo com especial carinho.

RG 2“Fico com inveja quando ouço Zimmerman, Pollini, Miguel Angelo Benedetti, principalmente quando tocam com orquestra. Eu estudei, ouvi e gosto mesmo é de concerto para piano e orquestra. É sempre o mesmo repertório: Chopin, Schumann, Rachmaninoff, mas gosto de ouvir porque sinto que tocar piano é que era o meu negócio, o que eu queria mesmo. É, e aí? Não pôde ser e acabou.” Diz Radamés, com uma ponta de amargura, ele de quem estima-se pelo menos 400 títulos de composições (fora as inéditas nos baús); mais os arranjos, que ao longo de 30 anos de trabalho nos discos e no rádio (Rádio Nacional), chegariam à faixa dos 10 mil. Primando não somente pela quantidade mas sobretudo pela qualidade musical e inovadora – a exemplo do arranjo de 1937 para ‘Lábios que Beijei’, na voz do grande Orlando Silva, onde pela primeira vez na produção fonográfica brasileira ouvem-se cordas numa canção romântica. Gnattali foi um dos maiores arranjadores da história. Oriundo da clave de Dó – violista de quarteto de cordas e diversos grupos de salão, incorporou ao cancioneiro brasileiro, com extrema habilidade e bom gosto, os elementos enriquecedores da música chamada erudita e do Jazz, chegando a ser acusado de americanizado pelo chato doidivanas e empolado Mário de Andrade (para mim uma espécie de Caetano Belle Époque sem o mérito de criar a beleza da qual o tropicalista é capaz). Ora, que dizer de Debussy, Stravinsky, Ravel… Seriam também pejorativamente chamados de ‘americanizados’? Bull Shit! Sempre fiz um paralelo entre Radamés e Gershwin. Ambos palmilharam com brilhantismo uma linha entre dois mundos musicais e nessa linha consolidaram suas identidades artísticas e seus estilos. A música de ambos foi escrita no rigor da pauta erudita, porém trazendo elementos ‘popularescos’. No caso de Gershwin, os elementos do Jazz; em Radamés, os estilos afro-brasileiros como o samba e seus derivados; o choro, mais a valsa e a música de concerto, com elementos ‘popularescos’. Quando ouvimos Gershwin ouvimos Gershwin, não propriamente Jazz nem música chamada erudita no rigor que se convencionou definir. O mesmo se dá com Radamés: Ele é ele e o resto da conversa é letra morta.

Radamés & Pixinguinha
Radamés & Pixinguinha

“Dizem que para ser boa a música tem de ser elaborada, mas eu não elaboro coisa nenhuma; aquilo vai saindo, vai saindo e pronto. Quando acabo eu digo: puxa, acabou essa merda e aí procuro fazer outra. Pra mim, tanto pode ser muito bom um choro, como uma sinfonia ser uma porcaria, ou uma sinfonia ser boa e o choro uma droga. Nesse ponto é tudo a mesma coisa.” Paradoxalmente… “Inspiração é coisa de cinema, o Chopin está lá assim, de repente dá aquela coisa e ele começa a escrever. Não sou assim não. Pra mim, é como no tempo de Haydn. Ele não tem cem, duzentas sinfonias? Isso dá trabalho, rapaz! Música pra mim é trabalho, não é divertimento. Alíás, pode ser também um divertimento.” “Sabe, eu só quero mesmo é fazer música que preste pra depois ir tomar meu chope.”

Figuras como Radamés não podem ser contempladas por fora dos anedotários – para a zanga dos ‘musicólogos sérios’, para os quais todas as informações devem trazer um selo de garantia acadêmica. Conta-se que o fabuloso Jacob do Bandolim conservava no teto da sala de sua casa uma mancha de cerveja como uma relíquia sagrada. Em certa ocasião na qual estavam reunidos ali alguns brilhantes músicos, o incomparável violonista Garoto executou uma das suas joias; ao fim do que, Radamés num transe apoteótico, lançou para o alto o conteúdo do seu copo de cerveja com um grito de exaltação.

É antigo princípio alquímico o de que nada vem do nada. Radamés, nascido em Porto Alegre, era filho de um imigrante de Verona vindo para tentar a vida como fabricante de rodas de carroça. Alessando Gnattali tocava bandolim e enamorou-se por Adélia Fossati, gaúcha, de uma família intensamente musical. Alessandro comprou um piano por 80 mil réis. Trabalhava de dia e estudava à noite, amanhecendo sobre as teclas. O marceneiro de carroças virou pianista, maestro, arranjador e professor, e trazia para o pequeno Radamés as novidades em matéria de partituras, especialmente do grande Ernesto Nazareth. Mas segundo Radamés, foi com Dona Adélia que aprendeu piano. Bibliófila, Dona Adélia também dirigiu ao pequeno o melhor que pode da literatura, o que incluía Dostoievski e Thomas Mann. “Até uns dezoito anos, meu pai comprava tudo de Villa-Lobos e me dava. Comecei a tocar Nazareth porque existiam partituras impressas. Não ouvia, tocava, pois naquele tempo não havia ainda vitrola, rádio, nada. Estudei nove anos de piano, querendo assimilar Bach, Beethoven, Schumann, Chopin…”.

O presente disco é um verdadeiro tesouro musical. A exuberância da música do mestre brotando diretamente de suas mãos, em temas consagradíssimos, colhidos do que há de melhor no repertório brasileiro. Matizados e revisitados numa poderosa e caleidoscópica gama de recriação e beleza. Minha ligação com este álbum é afetiva, pois que no ano em que saiu me foi presenteado pelo meu pai Uéliton Mendes (autor da mais completa discografia do Rei do Baião); na capa se lia a paráfrase do que Tom Jobim escrevera para Radamés, com ligeira modificação: “Alô Wellington, te ligo / Aqui fala o Radamés / Vamos tomar um chope / Te apanho na mesma esquina / Já comprei o amendoim…” Na sucessão de curvas que nos decorrem perdemos algo aqui e ali. Não sei onde foi parar aquele meu vinil, que ouvi pela primeira vez junto a outro grande amigo também já ido, o grande violonista e intérprete Ivan Andrade, de Itabaiana – Se; a quem devo muito conhecimento do melhor da canção brasileira, entre outras coisas, num tempo em que eu, mesmerizado pelos descobrimentos da música chamada erudita e o Jazz, nem queria saber de mais nada. Mea culpa!

RG 1

Neste disco, o Radamés pianista exalta temas de outros cancioneiros. Eu diria, considerando o nível das faixas, que ele quase que faz deles seus – não tenho dúvidas de que os próprios autores, no decurso de uma audição atenta destas faixas, ficariam honrados por tal exaltação. Lamento somente que ele não tenha incorporado ao rol duas peças suas, para mim de primeiríssima beleza: Alma Brasileira e seu Noturno. Mas seria querer demais. A escolha de Radamés é magistral, uma verdadeira sucessão de ícones sonoros: Carinhoso, Ponteio, Eu preciso aprender a ser só, Corcovado, Chovendo na roseira, Manhã de carnaval, Cochichando, Do lago à cachoeira e Nova ilusão. Agradeço imensamente ao companheiro de Távola Musical Wilson Ammiratore e demais colegas do PQP Bach, por nos conseguirem esta joia, entre outras mais. Deixo a Coda do texto a cargo da voz do mestre:

“Faço meu trabalho honestamente como um bom operário sem esperar reconhecimento algum. Quero apenas uma recompensa melhor em dinheiro, não tem nada a ver com arte, compreende? Antigamente, pagavam sessenta, oitenta mil réis por arranjo e pra mim era bom, porque um par de sapatos a gente comprava por quarenta. Aliás, como posso cobrar por uma coisa que Deus me deu sem pedir nada em troca?”

E vamos à música! Viva Radamés!

Texto: Wellbach
Texto das Faixas: Aviccena
Mouse Conductor: Ammiratore

01. Pixinguinha e João de Barro – Carinhoso
02. Edú Lobo e Capinam – Ponteio
03. Marcos e Paulo Sergio Valle – Preciso aprender a ser só
04. Tom Jobim – Corcovado
05. Tom Jobim – Chovendo na roseira
06. Luiz Bonfá e Antonio Maria – Manhã de carnaval
07. Pixinguinha – Cochichando (listada como “Cochicho”)
08. Sergio Ricardo – Do lago à cachoeira
09. José Menezes e Luiz Bittencourt – Nova ilusão

Piano – Radamés Gnattali (LP 1985)

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Radamés ao Piano - Gigante !
Radamés ao Piano – Gigante !

Ammiratore + WellBach

Cláudio Santoro (1919-1989): Sinfonia n.º 6 (1958). Radamés Gnattali (1906-1988): Sinfonia Popular n.º 1 (1956)

Cláudio Santoro (1919-1989): Sinfonia n.º 6 (1958). Radamés Gnattali (1906-1988): Sinfonia Popular n.º 1 (1956)

sinfonias gnattali santoro6 http://www.tropis.org/imagext/santoro-gnattali-capa-peq2.jpg Faz poucos dias (27/07) postei uma digitalização feita em casa do Concerto para dois violões, oboé e cordas de Radamés Gnattali, e aí resolvi aproveitar o embalo e digitalizar a obra de mais peso que tenho desse compositor: a Sinfonia Popular, de 1956.

Por umas conversas com o CVL fiquei com a impressão de que ele compôs toda uma série de peças sob esse nome, mas no disco esta aparece sem número, então suspeito que seja a primeira. [Depois da postagem, o leitor Vinícius confirmou e deu a data de composição das demais: 1969 (2ª e 3ª – me parece interessante que bem no ano de lançamento deste disco!), 1974-75 (4ª) e 1983 (5ª). Valeu, Vinícius!]

A edição é do antológico selo Festa, que se empenhou em documentar a produção brasileira de concerto dos anos 50 e 60. Foi lançado em 1969, infelizmente ainda em mono – o que reduz drasticamente a percepção das vozes internas da massa sonora. A execução é da Sinfônica Brasileira (OSB) sobre regência do Cláudio Santoro, autor da sinfonia do outro lado.

Nascido em Porto Alegre, Radamés Gnattali (‘nhátali’) viveu principalmente no Rio, onde suscedeu Pixinguinha como arranjador da orquestra da gravadora Victor. Vocês vão reparar: o espírito do rádio brasileiro em meados do século 20 deve demais à sonoridade da orquestração de Gnattali.

Não vou me aprofundar em análises, só quero dizer que gosto muito dos seus trechos em contraponto (fugatos), que mostram que sabia mais que manejar massas espetaculosas para levantar cantores. E que me parece notável o seu movimento lento (Estensivo con fantasia), inteiramente baseado no pregão baiano “Olhe a flor da noite”. Até estranho que não tenha virado um standard.

Se o gaúcho Gnattali foi o mais popular e midiático dos nossos sinfonistas, talvez o amazonense Cláudio Santoro tenha sido o mais erudito e tecnicamente refinado dos nossos compositores. Sei que o CVL lhe tem fortes ressalvas, mas ainda não tive chance de aprofundar a conversa.

Talvez tenha a ver com o fato de Santoro ser vários compositores em um: nos anos 40 adotou a técnica dodecafônica, cujos resultados na maior parte – confesso – ainda hoje me parecem duros de ouvir e não sei se um dia serão menos. Mas, comunista militante, a partir de 1948 opta pelos caminhos do “realismo socialista”, voltando porém aos caminhos experimentais nos anos 60 e 70. Foi nosso compositor de sinfonias mais prolífico, sendo a primeira de 1940 e a décima-quarta de 1989, seu último ano de vida.

A Sexta Sinfonia, regida aqui pelo autor, é de 1958 e usa material temático caracteristicamente brasileiro – porém de modo muito menos óbvio e infinitamente mais complexo que o de Gnattali (não estou dizendo que melhor… nem pior!). Além disso, em vários momentos me recorda Shostakóvitch – não sei se vocês vão concordar.

Como já respondi a um leitor no outro post, fora esta sinfonia tenho pouquíssima coisa de Santoro, sobretudo peças curtas, em discos que já planejava digitalizar e postar ao longo dos próximos um ou dois semestres – mas para quem quiser ver outras coisas, e logo, há um volume considerável de obras suas no blog Música Brasileira de Concerto (agora linkado também na coluna ao lado) .

Radamés Gnattali: Sinfonia Popular [n.º 1] (1956)
01 Allegro moderato 6:07
02 Estensivo con fantasia 6:44
03 Con spirito 5:11
04 Allegro 6:03

Cláudio Santoro: Sinfonia n.º 6 (1958)
05 Allegro grazioso e vivo 4:27
06 Andante molto 5:29
07 Allegro vivo 2:40
08 Allegro deciso – final 6:10

Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Cláudio Santoro

Gravação em vinil (mono): Festa, 1969
Digitalizado por Ranulfus em jul.2010

. . . . . BAIXE AQUI – download here

Maestro Radamés
Maestro Radamés

Ranulfus

In memoriam Cussy de Almeida: Orquestra Armorial acompanha Duo Assad (1977)

Duo Assad e Orquestra Armorial http://i27.tinypic.com/b3wmjk.jpgBom, eis o disco sugerido pelo leitor Fausto Silva – que eu nem sabia que havia se tornado raridade. Só espero que não pensem que milagres assim são possíveis sempre: foi uma enorme “gata” que eu tivesse esse disco!

Como nosso maior interesse no momento é o trabalho de Cussy de Almeida à frente da Orquestra Armorial, coloquei no início o concerto do Radamés Gnattali (pronúncia Nhátali, para os mais novos), que no vinil ocupa o Lado B. As demais cinco faixas são apenas a dois violões.

Se me permitem… tenho a sensação de que está aí um disco que tinha tudo para acontecer e não aconteceu. A orquestra está perfeita, limpa… Os irmãos Assad são sempre grandes… e Radamés Gnattali escreve muito bem. Mas parece que faltou um clic para esses três elementos entrarem em sinergia e de fato levantarem o concerto.

Mesmo assim, concordo que não se pode deixar esse disco naufragar no olvido. No mínimo é um documento importante de certas vertentes da produção musical brasileira dos 2.º e 3.º terços do século XX.

Além disso, a gravadora Continental realmente boiou na maionese na hora de nomear: “Latino América para duas guitarras”… Por que guitarras, se o nome brasileiro consagrado dessa variante do instrumento é “violão”? E por que “Latino América”, quando quase 90% do repertório é brasileiro? Por causa das 4 Micro-Peças do cubano Leo Brouwer, que inclusive não puxam nada para o lado nacionalista ou “típico”? E onde fica o italiano Castelnuovo-Tedesco, que ocupa tanto espaço no disco quanto Brouwer?

Bom, hoje eu estou ranzinza mesmo, como vocês devem ter notado… mas de modo nenhum estou sugerindo que não valha a pena baixar e ouvir esse disco! Eu mesmo vejo mais razões para baixar que para não baixar. Ou então não o teria carregado nas 15 mudanças que já fiz desde que o tenho… (se é que não esqueci nenhuma!)
 
 
Sérgio e Odair Assad (violões) – com Moacir Freitas, da OSB (oboé)
e as cordas da Orquestra Armorial, regida por Cussi de Almeida

Edição em vinil: Continental, 1977
Digitalizado por Ranulfus, jul. 2010

Radamés Gnattali (Porto Alegre, 1909 – Rio, 1988):
Concerto para 2 violões, oboé e cordas (dedicado ao Duo Assad)
Gravado ao vivo no Conservatório Pernambucano de Música
01 Allegro moderato
02 Adagio
03 Con spirito

Heitor Villa-Lobos (1887-1959)
04 Alnilan (de “As Três Marias” – transcrição)

Francisco Mignone (1897-1986)
05 Lenda sertaneja (peça dedicada ao Duo Assad)
06 Lundu

Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968)
07 Siciliana (da Sonatina Canônica para dois violões)

Leo Brouwer (*1939)
08 Cuatro Micro-Piezas

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Ranulfus